Hölle

16 Rigor Samsa


Notas iniciais
Rigor Samsa. Exoesqueleto psicológico que protege você da dor e contém suas ansiedades, mas sempre acaba ruindo sob pressão e gasto com o tempo. Sugestão de música: Nicole Dollanganger - Dog Teeth

Dana balança sua perna cruzada, as mãos puxam o cabelo em sua nuca e ele só levanta a cabeça para roubar olhares rápidos do corredor. Nós esperamos a recepcionista chamar seu nome; Dana espera porque ele acha que eu estou em casa. Não sei porque ele está tão inquieto, mas me faz querer segurá —lo até que ele fique imóvel. Como se tivesse ouvido meus pensamentos, ele cruza os dedos sobre a perna agitada. Seus olhos se focam na figura vindo do corredor. Eleonora pisca para ele. Nenhum dos dois faz menção de falar e eu me pergunto quem deles decidiu manter o parentesco em segredo.

Eleonora está andando por nós rapidamente, uma resma de papel em suas mãos, quando uma mulher baixa, usando as mesmas roupas que ela, segura as costas de sua camisa.

— Nieng, aconteceu alguma coisa? — Eleonora pergunta, os olhos arregalados pulando da mulher para Dana que está a poucos centímetros delas.

— VOCÊ —VOCÊ — ISSO CAIU DA SUA PASTA? Isso é seu? — A mulher tenta sussurrar, mas ainda é perfeitamente audível para todos na sala.

Ela entrega a folha de papel a Eleonora e seu rosto fica pálido quando ela corre os olhos pela página.

— PARABÉNS, MAMÃE!

As mãos de Eleonora tremem quando ela dobra o papel ao meio, segura o braço da outra enfermeira e a arrasta de volta para o corredor de onde elas vieram; Dana fica paralisado, os dedos enrolados no cabelo e os lábios entreabertos. Percebo isso entre os milissegundos em que meu cérebro decide se desligar do meu corpo. Meus dedos se fecham ao redor do pulso de Dana; ele não protesta, nem tenta resistir. Paramos no estacionamento. Dana coloca sua mão sobre a minha, mas não encontro forças para soltá —la, então afrouxo o aperto e ele imediatamente desliza seus dedos entre os meus.

Cam.

— Não.

— Você nem sabe o que eu quero dizer.

— Você quer me pedir pra não ficar com raiva?

— Então você sabe o que eu quero dizer.

Os olhos de Dana suavizam, se erguem como se ele sorrisse mesmo quando seus lábios continuam pressionados em uma linha reta. Consigo ver as imagens em sua cabeça. Eleonora segurando um bebê de cabelos loiros e grandes olhos azuis, ou, cabelos pretos e olhos escuros. Não importa a combinação, Dana imagina e seu rosto inteiro acende.

— Você está feliz? — Pergunto, incapaz de ocultar a impaciência em minha voz. — A sua irmã está grávida de um cara morto e você está feliz?

— Morto? — Dana se solta de minha mão e eu quase me arrependo de ter falado quando uma sombra profunda se instala em seu rosto. — O que você quer dizer com isso?

— Que ele não está vivo. Eleonora vai ter que trabalhar e cuidar dessa… criança e onde você acha que vai estar? Depois que ela tiver seu próprio filho porque ela teria que te manter? Porque ela iria querer cuidar de você?

— Eu não, isso não — Dana fecha os olhos, tentando ordenar seus pensamentos — Isso não é verdade. O Amatore não está morto, ele só tem estado ocup-

— Eu sei que ele não está vivo, Dana. Eu matei ele.

É a sua vez de se desconectar. O rosto de Dana vira uma tela em branco.

— O quê?

Dana dá um passo pra trás, sua atenção dividida entre mim e a porta às minhas costas.

— Eu matei ele e eu lhe diria com quantas facadas, mas eu perdi a conta.

— Isso é mentira, a Eleonora me contaria —

— Ela não contou porque, não sei, provavelmente ficou com medo de você se matar ou alguma coisa assim.

As palavras fazem Dana se encolher visivelmente. Ele puxa sua mão, poderia muito bem ter puxado uma corrente, e eu não cedo nem um milímetro. Não quando ele soca meu braço com sua mão livre, nem quando ele range os dentes e força suas sobrancelhas, muito menos quando a voz de Eleonora o chama.

— Dana? Você está aí?

Ele engole em seco, se aproximando de mim até que ele não esteja sendo puxado pelo pulso, apenas preso no lugar.

— Sim. — Flexiono os dedos contra a pele macia de seu braço, um aperto avisando que seria prudente ele se afastar dela agora. — Eleonora, o Amatore não está vivo, está?

— Não. — O semblante pálido de Eleonora se contorce e as lágrimas descem sem reserva. — Me desculpa.

Dana não responde. Ele me encara, o olhar gélido e o queixo erguido.

— Dana, vamos pra casa. A gente pode conversar melhor lá.

— Eu não quero conversar.

— Dana — Eleonora pede no mesmo tom suplicante que ele usou em mim. O resultado é o mesmo.

— Não. Eu quero ficar sozinho, posso?

Eleonora se aproxima, os punhos cerrados, os ombros caídos. Ela estende os braços para abraçar Dana, mas é impedida pela mão livre que ele levanta entre eles.

— Dana, pelo menos olha pra mim.

O brilho em seus olhos, o qual eu, erroneamente, tomei por determinação, rola por sua bochecha. E seu rosto não se move um centímetro, tampouco sua expressão muda.

— Eleonora, por favor, me deixa sozinho. Eu prometo que vou pra casa.

Eleonora funga e limpa suas lágrimas com a costa da mão. Do bolso do uniforme, tira um celular pequeno e coloca na mão estendida de Dana.

— Eu vou pra casa. Você pode me ligar nesse telefone.

— Certo.

Sua mão se fecha ao redor do telefone. Eleonora volta para o hospital em passos apressados. Sua figura diminui até ela entrar e, quando ela está fora de vista, algo estala em minha cabeça. Arremesso Dana sobre meu ombro, ele não tem tempo de reclamar, e corro entre os carros no estacionamento. Meus pés não param na rua, na calçada, entre as árvores. Eu conheço o caminho de olhos fechados.

Um lugar remoto na trilha entre o hospital e a minha casa. Amatore costumava me buscar na escola, porém, um dia ele se atrasou eu acabei indo até o hospital. Quando cheguei lá, ele saía de braços dados com uma mulher ruiva e, apesar de ter menos de 8 anos fiquei tão irado que corri para as árvores. Caminhei até o céu ficar escuro. Eventualmente, cheguei em casa e me deparei com um Amatore pálido e uma viatura da polícia.

Em todos os seus atrasos frequentes eu ia para o hospital e depois para casa pela trilha. Eventualmente, mudei a rota e passei a ir direto pra casa.

Todas as memórias voltam quando corro, procurando o lugar que tinha árvores espaçadas o suficiente para sentar e desenhar sob a luz tênue.

Dana dá um soco em minhas costas. E outro, e outro. Ele bate com as duas mãos e, eu imagino, com toda a sua força. Os golpes continuam vindo depois que eu coloco ele no chão. Dana atinge meu rosto, meus ombros, meus braços, qualquer área que seus pulsos cerrados alcancem. Eu deixo ele descontar sua raiva.

Lentamente, seus ataques diminuem e suas mãos abertas mal me tocam.

— Cansou? Minha vez.

Dana não resiste. Na verdade, nem mesmo em seus sonhos, havia tanta urgência. Suas mãos continuam em meus ombros como se ele estivesse prestes a me empurrar a qualquer momento , mas o beijo é todo dentes e língua e lágrimas nos lábios dele. Porque? — Dana pergunta, as lágrimas caindo incessantemente. — Porque você fez isso? Foi alguma coisa que ele fez? Ele te machucou de alguma forma?

A hesitação invoca a imagem em minha mente — Dana, engolindo seus insultos, raiva obscurecendo todos os seus pensamentos.

Não é esse tipo de motivo, mas eu tenho um. E, fitando os olhos escuros e sinceros de Dana, não sei se consigo me forçar a dizê —lo em voz alta sem soar frívolo, como soa em minha cabeça quando ensaio mentalmente.

— Você quer que eu mate ele? A pessoa que te machucou? — Ele arregala os olhos, suas unhas se cravam em minha pele.

— Sim. Se ele desaparecesse da face da terra agora eu — Dana se interrompe e seu foco volta pra mim. — Não, eu não quero sangue nas suas mãos.

— Mais sangue, menos sangue. Eu já estou morto, Dana. Não faz nenhuma diferença.

— Pra mim faz diferença.

— Porque? Você tem medo dessas mãos?

— Cam.

Ele não está apenas com raiva. Dana procura algo em meu rosto, o seu próprio cheio de confusão e incerteza e medo, mas ele não me empurra para longe. Me enche de esperança que, afinal de contas ele —

Ele o que? Vai renunciar à sua vida, pós —vida, cometer um crime horrível e virar um demônio? Nós estamos prolongando o inevitável.

— Dana. Já está na hora.

— De que?

Toco suas têmporas com as pontas dos dedos. Não deve ser difícil, se consigo ter acesso a memórias de Dana, lhe mostrar algumas das minhas requer apenas concentração. Mesmo não precisando, respiro fundo. Os olhos arregalados de Dana reviram e suas pálpebras se fecham.

O garoto tropeçou em seus próprios pés. A visão à sua frente o impedia de notar qualquer coisa ao redor. Não deveria ser uma surpresa. Com o passar dos anos, suas suspeitas haviam sido muitas. A mulher ruiva com a qual ele tinha visto Amatore, a morena que Amatore dava carona eventualmente, a professora que tinha reuniões privadas muito frequentes com o pai de um aluno não —problemático. Para Cameron, nenhuma delas era tão explícita quanto essa. Amatore, seu progenitor, marido de sua mãe, beijando uma mulher contra o capô do carro da família. Ele escondia o rosto dela entre as mãos, mas o que estava acontecendo era muito claro.

Cameron assistiu, paralisado, o casal entrar no carro. Ele esperou, mas não houve nenhum sinal de vida do carro. O sangue correu frio em suas veias. Amatore é uma pessoa desprezível, Cam pensou. Seu ódio o forçou a se mover. As janelas do carro eram escuras, Cam achava, por uma questão de segurança. Batendo no vidro impenetrável, o garoto percebeu, com ânsia de vômito em sua garganta, que Amatore deveria ter outros motivos por trás disso.

Cam bateu no vidro insistentemente. Após, ele contou, 15 segundos Amatore abriu a porta e saiu do carro.

Cameron. Você ainda não foi pra casa a essa hora?

Não. Você vai pra casa?

Sim, mas não agora. Eu tenho algumas coisas pra resolver na cidade.

Então eu já vou.

Amatore abriu a porta do carro e, de relance, Cam viu as pernas cruzadas de uma mulher no banco do carona.

A caminhada de volta para casa passou rápido demais para Cam. Mil coisas se passavam por sua cabeça. Ele deveria contar pra sua mãe? Ela era praticamente uma inválida, não poderia fazer muito. Mas ela pelo menos tinha direito de saber, não? Bellona era uma figura mística em sua mente. Durante toda sua vida trocara poucas palavras com ela, contudo, com os dois confinados na casa silenciosa, sentia que devia a verdade a sua companheira de reclusão.

A enfermeira, cozinheira, empregada, babá (ao longo dos anos ela preenchia todos esses cargos) entraria de férias hoje e a substituta chegaria apenas na segunda —feira, pelo menos ninguém precisaria presenciar a situação patética. Cam percorreu o caminho até a porta do quarto em um flash. Levantou a mão para bater na porta, mas seus dedos não tocaram a madeira. Ele conseguia ver Bellona deitada em sua cama, um pano sobre seus olhos, as sobrancelhas retorcidas em dor; ou, no outro extremo, sentada encarando o nada. Em sua cabeça, era essa a existência de sua mãe, pois era a única que ele via antes de a enfermeira fechar a porta.

Eu não consigo, ele mordeu os dedos para conter as palavras. Cam correu para seu quarto e trancou a porta atrás de si. Ele precisava de um plano traçado antes do seu pai chegar em casa. Ele testou diferentes cenários. Alguns terminaram com Amatore deixando ele e Bellona para apodrecer na casa. Em outros, ele os expulsaria e moraria com a mulher.

Eu prefiro morrer do que deixar isso acontecer.

E, simples assim, Cam entendeu a opção sombria se apresentando diante dele, uma forma de assegurar que Bellona e ele não ficassem presos a Amatore e sua boa vontade.

Quando caiu em si, seus dedos envolviam o cabo de uma faca de cozinha. Cam girou a lâmina em sua mão. A segunda opção, caso Bellona não concordasse com o plano, ainda era incerta. Não havia tempo para considerar esse pormenor. O relógio na parede marcava 22:00 e Amatore poderia chegar a qualquer momento. Agora ou nunca, Cam mentalizou para forçar suas pernas paralisadas a se moverem, a subirem a escada; e suas mãos a empurrarem a maçaneta sem bater na porta.

Bellona dormia com o edredom lhe cobrindo dos pés até o pescoço, apenas seu rosto pálido amostra. Cam não acendeu a luz por medo de perturbá-la mais do que o necessário. A única iluminação vinha da cortina entreaberta, o suficiente para o garoto se aproximar da cama sem colidir com nenhum móvel.

Cam inclinou-se sobre a mulher. Em seu sono, seu rosto era sereno, livre de qualquer preocupação, dor ou qualquer coisa. Ele era acostumado a ouvir que era a cara de seu pai, mas observando Bellona, Cam pensou que as pessoas achavam isso por não ver a mulher.

Mesmo quando ele a chamou, seu coração se retraiu em seu peito. Bellona dormia em serenidade , lhe doía fisicamente interromper.

Mãe? — O som fez as sobrancelhas de Bellona se apertarem. Ela abriu os olhos, contudo eles não focavam em nada.

Cameron. — Ela respondeu, afastando o edredom com as mãos

Mãe, eu acho que o — Cam havia ensaiado o que iria dizer, porém, diante da estranheza da situação, elas lhe fugiam da cabeça. Cam não sabia nem mesmo como se referir ao homem que lhe havia posto no mundo — Meu pai, eu posso estar enganado, não sei, eu vi ele com uma mulher.

Cameron — Bellona repetiu. Nada em sua casa expressão ou tom indicava reconhecimento das palavras do garoto.

Mãe, eu sei que não tem muito que a gente possa fazer, mas eu pensei em uma coisa e —

Cameron.

Bellona? Você tá me escutando?

Cameron. — Ela respondeu, o tom monótono.

Cam apertou a faca em sua mão direita, a que ele manteve escondida de Bellona. Ressentimento agitou —se em suas entranhas. Era essa a mulher que ele estava disposto a matar para proteger? Uma casca vazia, incapaz de demonstrar emoções?

Mãe, eu estou lhe dizendo que seu marido está se relacionando extraconjugalmente.

Cam —

O nome foi interrompido por um swoosh. Vermelho se espalhou pela frente da camisola branca. Cam repetiu o movimento uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez vezes. O sangue ensopava a cama, o colchão, a própria Bellona.

O corpo sem vida de sua mãe caiu sobre o seu. Não havia grande diferença em sua expressão, Cam pensou, além dos pontos vermelhos salpicados em seu rosto. A mulher dava seus últimos suspiros quando Cam ouviu a porta da frente sendo aberta.

Ele deitou o corpo na cama e, tentando evitar as tábuas barulhentas, se posicionou ao lado da porta aberta.

Cam ouviu os passos passando pela sala, subindo as escadas. Ele ouviu Amatore parando em frente ao quarto, a súbita tomada de ar.

Bellona?

Os pés de Amatore cruzaram a soleira e a velha faca de cozinha atravessou seu peito. Com Bellona, Cam subestimou a força de sua estocada para que a lâmina perfurasse o corpo; Com Amatore, ele superestimou.

A primeira facada fez o homem cair. A segunda quebrou uma costela. A terceira perfurou seu coração. Cameron não contou, mas quando caiu em si estava em cima do corpo, erguendo e descendo os braços mecanicamente. A lâmina partida caiu sobre seu colo. Ele encarou o corpo dilacerado de Amatore.

Eu sou o próximo, pensou ao se desvencilhar de seu pai.

Dana cai de joelhos na terra escura. As cenas em minha cabeça se passam em desordem, porém, o essencial é compreensível. Eu esfaqueando Bellona e Amatore até a morte. A mulher, que agora reconheço como Eleonora. Dana coloca a cabeça entre os joelhos e os abraça, e isso não é suficiente para esconder os tremores que chacoalham seu corpo.

— Foi… isso? Você destruiu a vida de… três pessoas por causa disso? Cam, você já ouviu falar em divórcio? — A voz colérica ressoa da forma encolhida de Dana.

— Importa? O que está feito, está feito. Eu não posso fazer nada.

— São águas passadas? Ah, que bom. Agora eu posso esquecer e perdoar. Porque eu não pensei nisso antes? Porque eu não considerei todas as coisas horríveis que você poderia ter feito, nem como eu poderia te perdoar, nem-nem -

A voz de Dana morre sem concluir. Pondero minha próxima fala. Dana queria me perdoar e isso enevoa meus pensamentos. Eu não preciso dele, mas eu quero mesmo assim.

Me agacho em frente a Dana. Seu cabelo claro reflete os últimos raios de sol da tarde. Quero estender a mão e tocar, afundar até, meus dedos nos fios. Ele sente a mudança. Ele levanta a cabeça e seus olhos avermelhados me fitam.

— Você não precisa me perdoar. Não mudaria nada de qualquer forma.

— Você se arrepende? — Sua pálpebra direita treme. Ele quer ouvir que sim, quer acreditar que eu não sou a mesma pessoa. Eu sou. Mesmo quando o pânico consumia minhas entranhas, arrependimento nunca passou pela minha cabeça.

— Não, Dana. Eu não me arrependo de nada. E nem vou me arrepender. Você vem ou vai ficar?

— Vem? Eu não vou pra lugar nenhum com você.

— Sério? Achei que você quisesse ver a Eleonora pela última vez. — O sorriso em meu rosto é tão involuntário quanto torcer a mecha da franja de Dana entre meus dedos.

Notas finais
mil caps atrás eu estava morrendo pra terminar um artigo e passei dois dias virada mas consegui entregar. professora disse que meu nome não iria entrar pra autoria pq eu não contribuí o suficiente. nesse exato momento estou procrastinando outro artigo de outro projeto kkkkk ai pqp húbris né se parecer um pouco abrupto essa transição é pq os capítulos foram escritos em uma ordem diferente eu tive que rearranjar por motivos de ~~aesthetics~~