Hölle

17 Énouement


Notas iniciais
Énouement. Substantivo. A sensação agridoce de ter chegado no futuro e finalmente saber como as coisas aconteceriam.

Eu quero segurar sua mão, quero segurar sua garganta

Eu quero você marcado com sangue e ossos quebrados

Eu quero que lhe consuma como me consome

Eu te quero tanto que não consigo respirar

Então me diga se doer, me diga quando doer

Você não vai mais amar

Porque eu só te machuco quando estou entediado

Então me diga se doer, me diga quando doer

Você não vai mais amar, mas você continua me amando quando eu me vou

Me diga se doer, me diga quando doer

O sorriso de Dana é lindo. Resplandecente. Cintilante.. A covinha que se forma em sua bochecha, o cintilar da luz em seus olhos, a delicadeza em suas bochechas erguidas e a petulância em seu queixo. É uma vista rara como um arco-íris. Me faz querer parar o que estou fazendo e desenhar, tirar uma foto ou simplesmente encarar para gravar todos os detalhes em minha memória.

No entanto, são as lágrimas de Dana que, de fato, me movem. A urgência que arregala seus olhos, o medo que drena a cor do seu rosto e coloca uma ruga entre suas sobrancelhas. Nos dias que passei refletindo, depois de quase estrangular Dana, percebi porque minha primeira reação foi correr. Era o frio na barriga quando ele acordava de um pesadelo; o arrepio quando ele fitava o chão desorientado; a inquietude ao ver o desespero em seu rosto quando ele percebeu que não conseguiria se defender caso eu realmente quisesse lhe machucar.

Agora, vendo todos esses detalhes em seu rosto e reconhecendo o que eles despertam em mim, posso afirmar com certeza: eu estou eufórico.

Carrego o corpo paralisado de Dana em meus braços. Consigo ouvir seu coração batendo, e sentir seus olhos procurando meu rosto no escuro. O fim está próximo e a expectativa aguça meus sentidos.

Não há nenhuma trilha para a vizinhança dele, mas deduzo que direção irá nos levar até lá.

— Sabe o que minha mãe disse, Dana? Que eu e você poderíamos ter sido amigos. Eu duvido. Pra mim, qualquer pessoa ligada a Amatore seria automaticamente um obstáculo. Você iria me odiar porque eu não sei falar com as pessoas como a Elisheva, o Seheiah. Essa é a única forma. — Digo e as palavras servem para nós dois, não tenho certeza de quem estou tentando convencer.

As luzes acesas da sala estão acesas para Dana. Se fechar os olhos vejo Eleonora sentada no sofá, os joelhos cruzados e o telefone na mão, esperando a ligação de Dana. O coloco no chão e seguro seus ombros. Ele não vai a lugar nenhum, de qualquer forma.

Dana, eu vou te soltar, mas você precisa prometer que não vai falar nada e que vai me obedecer.

Transmito as palavras para sua cabeça. A cada minuto fica mais fácil lidar com sua consciência, agora entendo o comentário de Astarte, "Se você conseguir a conexão com o Objeto já tem meio caminho andado".

Livre. Dana assente com a cabeça. Suas mãos fecham em punhos e ele as coloca no bolso.

Você pode ficar aqui fora um minuto, se recompor.

Ele não tenta sair de minhas mãos, não luta. Sua respiração se torna mais profunda, e entendo que ele está tentando se acalmar para ver Eleonora.

Escutamos os barulhos dela dentro da casa. Os passos, o arrastar da cadeira na cozinha, a geladeira abrindo e fechando. Por fim, um som que retorce meu estômago, reconheço da noite em que era Dana o fazendo: Eleonora vomitando na pia da cozinha.

Não espero Dana ficar pronto. Abro a porta e nós entramos.

Eleonora pula na cozinha ao ouvir o barulho da porta. A mulher segura uma mão contra o peito, a perfeita imagem da preocupação. Ela usa uma regata justa.

A protuberância em sua barriga é aparente, embora eu nunca tenha notado antes. As blusas largas e os casacos de Eleonora, intencionalmente ou não, ocultaram o volume.

— Dana? — Ela pergunta e quero revirar os olhos. Quem mais seria?

— Aqui na sala. — Sob minhas mãos, Dana responde em uma voz estável, precisamente ensaiada, reconheço de todos os outros dias de nossa convivência.

— Como você está?

— Não poderia estar melhor

Eleonora claramente não tem forças para uma reprimenda. Ela fecha seus olhos como se o tom de Dana lhe causasse dor física. Reviro os olhos quando ele baixa a cabeça, como Eleonora sabia que ele faria. Aposto que se eu não estivesse segurando seus ombros, ele já estaria puxando o cabelo em sua nuca.

— Porque você não me disse?

— Eu fiquei com medo. O Amatore não teve nem mesmo um funeral. A família dele levou o corpo para ser enterrado assim que terminaram a autópsia. Ele foi assassinado, Dana.

— E agora? — Eleonora estranha a indiferença com a qual Dana pergunta. Ela cruza os braços sobre o peito.

— Agora?

— Sim. Ele, a mulher e o filho morreram. Isso quer dizer que a herança é sua?

O choque atinge a mim e Eleonora ao mesmo tempo. A diferença é que minhas mãos não se movem dramaticamente para cobrir minha boca enquanto as lágrimas caem. Por algum motivo, Dana tenta aborrecer Eleonora, não eu.

— Como você pode dizer isso?

— Não é óbvio? Esse cara mais velho surge do nada. Ele te dá uma casa. Ele te dá presentes. Ele paga suas viagens. Se não foi o dinheiro, foi o que? Quem garante que você não plane —

O estalo ecoa pela casa. Eleonora e Dana encaram a mão que o atingiu. Ninguém se move pelo que parece uma eternidade. Eleonora, paralisada pela reação aparentemente involuntária. Dana, e eu sinto em sua mente, calmo e contemplativo. Ele nem mesmo pisca.

— Dana, me desculpa. Nós dois passamos do limite.

— Que limite, Eleonora? Não existe nenhum limite. Você deveria ter me deixado pra morrer naquela casa.

Eleonora tenta puxar Dana para si, mas ele não cede um centímetro e não tem nada a ver com minhas mãos.

Quanto tempo você quer pra se despedir?

— Dez minutos.

— O quê?

— Eu não estava falando com você.

— Eu sei que foi errado da minha parte mentir pra você e esconder coisas sobre o Amatore, mas você não pode me tratar —

— Eu disse que não estava falando com você. Eu estou falando com o demônio que me acompanha todos os dias. — Os olhos de Eleonora são dois pratos de porcelana. — quer saber de uma coisa engraçada? No dia que a gente chegou na cidade e o Amatore teve que parar na casa dele, eu me lembro de ter visto um garoto na janela. E aí, esse mesmo garoto aparece, literalmente, do meu lado na parada de ônibus. E eu acho que é só coincidência, e eu ignoro a semelhança e tudo que pudesse conectar esse garoto com uma pessoa viva. E, adivinha.

— O que? — sua voz é um suspiro.

— Ontem, eu dormi na casa do Amatore. No quarto do filho dele.

— Isso não é verda-

— Ele matou o Amatore. Ele se matou. Hoje ele está aqui pra matar você.

Muitas coisas acontecem simultaneamente. Ainda estou processando a revelação de Dana, buscando em minha mente a manhã cinzenta na qual Amatore voltou para casa após um turno incomumente longo. Estou absorvido na expressão derrotada de Eleonora, o espanto que arregala seus olhos e move suas pernas para longe de Dana.

Quando noto que os braços de Dana se moveram, é tarde demais.

Sangue borrifa o sofá, a mesa de centro, a cortina. Meus olhos seguem a trilha até o antebraço de Dana. O corte não é limpo, as bordas irregulares se estendem do seu pulso até o cotovelo. Músculos, gordura. Eleonora grita. Eleonora não deveria se desesperar, ela é uma enfermeira, afinal. Mas ela grita. Ela corre até Dana e parece não entender porque ele ainda está de pé.

Existit.

Não há mais espaço para choque em sua expressão. E minha aparição súbita chacoalha Eleonora de volta à vida. Com uma mão ela tira o celular do bolso, com a outra ela se despe da camisa e pressiona o tecido contra o corte.

— Dana — Eleonora chama.

Ela gesticula em minha direção, sem olhar pra mim, pedindo que eu deite Dana. Eu obedeço. É a sensação mais estranha. Dana está em meus braços, com a cabeça em meu colo e o rosto entre minhas mãos, mas não lembro de ter feito isso. Assisto através da névoa Eleonora chamar a ambulância.

— Dana.

Seus olhos ganham claridade. Ele me fita sob seus cílios claros, um sorriso taciturno em seus lábios pálidos.

— Vai pro inferno.

— Vamos.

É o que eu queria.

É tudo o que eu queria.

É que tenho trabalhado e fantasiado.

E, mesmo assim, o vermelho vibrante no tapete não me alivia. A cor deixando o rosto de Dana não me faz pensar no próximo Objeto. As pálpebras trêmulas se fechando não me satisfaz.

Eu não quero que seja Dana a pessoa sangrando no chão. Ele não fez nada de errado. Seu único pecado foi confiar em mim.

Dana — Aperto sua bochecha. Ele não abre os olhos.

— O que? — Dana resmunga.

— Mantenha ele acordado e falando. — Eleonora ordena, o celular equilibrado entre o ombro e a orelha.

Ela continua tentando conter o sangue, ainda que claramente, a quantidade derramada só aumente.

— Foi assim que você se sentiu?

— Como?

— Que as pontas do seus dedos ficam tão geladas que você nem consegue sentir nada.

— Não. Eu cortei meu pescoço e tudo doeu muito e quando eu abri os olhos, já estava morto.

— Eu deveria ter feito isso.

Eleonora coloca o celular no chão. Ela finalmente me olha, assustada porém resoluta.

— Eleonora, esse é meu demônio. O nome dele é Cameron, mas você pode chamar de Cam. — Dana segura minha mão sobre seu rosto.

— Cameron.

— Eleonora.

É o que posso fazer. Minha cabeça está cheia do Dana, mal consigo me importar ou lembrar porque estamos aqui.

— Você e meu irmão.

— Você e meu pai. — Eleonora cora até a raiz de seus cabelos loiros. Dana ri, quase um sussurro.

— Garotas, sejam civilizadas. — Ele zomba de olhos fechados. — Eu achei que você fosse ficar feliz por mim, Eleonora.

— Eu estou exultante. — Poderia ser apenas impressão, mas os dedos de Eleonora se fecham com força ao redor da camisa ensanguentada.

— Bom. Eu queria que vocês se encontrassem pelo menos uma vez, sabe, antes disso. — Dana abre os olhos lentamente, como se a pequena ação sugasse todas as suas forças. — Você deveria estar feliz. Agora você não vai precisar se preocupar comigo. Vai ser bom chegar em casa depois do trabalho e não ficar na expectativa de encontrar o corpo do seu irmão com os pulsos cortados dentro da banheira.

— Você é a única família que eu tenho. — O suspiro derrotado de Eleonora é abafado pela sirene da ambulância — Dana, eu… sinto muito. Eu nunca quis que você se sentisse como um fardo.

— Eleonora, obrigada. Você vai ter uma família linda e ninguém vai poder tirar isso de você.

Família. É por isso que estou aqui. Porquê existe um resquício de Amatore dentro de Eleonora. Minhas mãos enrijecem em seu corpo.

Cam, por favor, não é o suficiente? Eu não sou o suficiente? Dana diz em minha mente e, mesmo em minha cabeça, sua voz é fraca.

Traço os contornos de seu rosto com a ponta do dedo. Sua pálpebra treme, mas ele não abre os olhos. Sob o olhar pasmo de Eleonora, me inclino sobre o rosto de Dana. Beijo sua testa, suas pálpebras, a ponta de seu nariz, o queixo e a mandíbula, até chegar em sua orelha.

Não. Eu gosto de você, Dana, mas eu não consigo… deixar pra lá.

As sirenes soam cada vez mais próximas. Vou fazer enquanto Dana tem chances de ser salvo, mesmo que Eleonora não esteja contendo sua hemorragia.

Não era isso que você queria, Cam? Eu estou morrendo, deixa a Eleonora fora disso, ele pede com urgência.

— Você não precisa morrer, Dana. Eu posso ir pro INFERNO e receber minha punição se eu souber que eles estarão lá embaixo comigo. — Respondo.

Eleonora pisca

Uma

Duas

Três vezes. Depois, ela fecha os olhos com força. Eu seguro seu pescoço em minhas mãos e aperto, não com força o suficiente para quebra —lo, mas para sentir sua vida se esvaindo dentre meus dedos. Não sinto os arranhões, não ouço os gritos. Só consigo registrar o rosto de Eleonora. E logo mais não é Eleonora, é Amatore, Dana, Bellona, meu próprio rosto. Suas bochechas ficam vermelhas pelo esforço de tentar sobreviver. Seu rosto muda uma última vez e os olhar glacial de Seheiah se firma em mim.

— Cam — seus lábios formam meu nome sem emitir um som — eu confiei em você.

Um dedo frio toca minha testa. Impossível. As mãos de Eleonora tentam desesperadame afastar as minhas, como ela poderia estar me tocando? O gelo se espalha por meu rosto, pescoço, escorrendo até a nuca, se espalhando, paralisando todos os meus membros em um frio incapacitante. Todos os pensamentos me abandonam.

Eleonora ou Seheiah, não consigo distinguir o rosto do resto, me segura pela nuca e me arrasta pelo chão da sala, para longe de Dana. Ouço murmúrios mas não entendo as palavras, a sirene tolda meus ouvidos.

— E agora, Dana? Eu posso destruir o Cameron aqui e agora ou eu posso mandar ele pro inferno. É quase a mesma coisa.

— Não se preocupe, com ele aqui você não vai morrer.

— E se eu quiser? E se eu quiser morrer?

— Não seja estúpido.

— Então, por favor, eu não quero ver ninguém mais morrendo ou sendo destruído hoje.

— Sim, como for melhor pra você.

Meu corpo inteiro treme e arde envolto no gelo.

Isso é o inferno? Eu já morri de novo? Escuto minha pulsação frenética — a que eu não possuo de verdade, em meus ouvidos, acima das conversas e da ambulância. Dana, sangue por todo o seu corpo, os grandes olhos escuros cravados nos meus, sorri. É a última coisa que vejo antes de fechar da escuridão se juntar ao frio.

Finalmente. Eu morri.

Pós-vida, deus, que palavra horrível.

Notas finais
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