Hölle

1 Nodus Tollen


Notas iniciais
Nodus Tollen Substantivo. A percepção que o enredo da sua vida não faz mais sentido para você. Sugestão de música: AURORA - Half the World Away

Eu matei meus pais. Eu esfaqueei minha mãe e meu pai, nessa ordem, mas não consegui manter uma contagem coerente. Em meu pai, a lâmina se partiu quando meus braços já queimavam com a repetição. Eu os matei. Eu os matei e vou me matar. Não há ninguém que vá lamentar nossa partida, pelo menos, ninguém com quem eu me importe. Camila, assim que chegar em casa pela manhã, irá se assustar quando nos encontrar, talvez chore um pouco por não ter minha mãe para cuidar e nem meu pai para pagá-la por isso. Todavia, se ela não estivesse de folga, eu faria o favor de matá-la, assim ela não precisaria se preocupar com renda, já que seus patrões estariam mortos bem ao lado dela.

Azar, Camila.

Levanto o cutelo contra a Lua cheia, o brilho refletido no aço quase faz com que eu me arrependa de não ter pintado o céu um pouco mais..., mas talvez um cutelo não seja o instrumento mais adequado para os meus planos. O que mais eu posso fazer? Eu não estou morrendo de vontade de jogar o instrumento contra minha testa e morrer lentamente enquanto observo o sangue escorrer, obrigado, de nada. Chuto um pouco de terra em cima do corpo ensanguentado do meu pai. A adrenalina está passando. Entre esfaquear os dois e arrastar seus corpos até o quintal na madrugada fria de setembro , meus dedos rígidos e manchados de sangue seco protestam contra o vento uivante.

Merda.

Vou fazer enquanto ainda posso sentir meus dedos.

Mas se eu cortar um pulso com uma lâmina tão precisa, pode ser que não tenha forças para cortar o outro lado. É isso. Recordo vagamente uma aula de biologia, que sorte a minha ter prestado atenção em pelo menos uma aula sobre circulação, a palavra carótidas me vem à cabeça, e, simples assim, eu sei o que posso fazer. Minha saída é atingir um outro ponto vital da forma mais patética e rápida possível .

Expulso quaisquer reflexão ou hesitação de minha cabeça. Reúno o restante de minhas forças e lanço o cutelo contra a lateral do meu pescoço.

Swoosh.

A torrente vermelha espirra como uma mangueira aberta, por alguns segundos não noto nada além do vermelho suspenso no ar. E eu quero morrer, quero muito, mas minhas mãos soltam a faca e voam para o meu pescoço. Sinto sob minhas palmas a bagunça viscosa de cabelos e algo que não deveria estar exposto em meu corpo. Contra meus dedos o sangue é quente, contudo, o sinto frio escorrendo por meu corpo. Cada vez mais frio, minha hora está chegando.

Caio de joelhos, minha cabeça girando, sangue fluindo entre meus dedos, a Lua não parece mais tão acolhedora. Quando caio entre os corpos dos meus pais com o rosto na terra úmida, molhada com meu próprio sangue, tenho a impressão de ver um olho se fechando no céu, e minha pequena alucinação não dura muito, pois logo sou eu quem está fechando os olhos.

Meu rosto afunda mais e mais na terra macia, a mais leve inspiração enche minhas narinas de terra e é tudo apenas um prefácio para a dor. até que não consigo respirar sem inalar sujeira. A dor não havia me atingido ainda. Meu corpo inteiro treme e arde como se estivesse em chamas.

Isso é o inferno? Eu já morri? A dor latejando por todo meu corpo não é resposta.

A pulsação frenética em meus ouvidos abafa o vento e o gotejar de sangue, e não demora muito para o som desaparecer por completo. Não consigo ouvir nada e privação sensorial me faz abrir os olhos. Não há mais terra obstruindo meu nariz.


Finalmente. Eu morri.

Pós-vida, deus, que palavra horrível.

Não há vida. Sou apenas eu sozinho no vazio eterno, aparentemente. Toco meu pescoço de forma hesitante, com medo de encontrar um buraco onde sua lateral deveria estar, mas, para minha surpresa, sinto a superfície irregular de uma ferida cicatrizada. Fecho e abro minhas mãos repetidamente. Quando tento mexer minhas pernas, percebo que em algum momento entre o fogo e a escuridão, eu fiquei de pé. Consigo sentir o chão invisível sob meus pés descalços.

Não é quente, nem frio, tampouco sua textura é desagradável.

— Cameron.

A voz ecoa ao meu redor. Na escuridão, é impossível apontar a origem do som.

— Cameron?

A voz feminina chama novamente, firme, porém delicada. não pode ser minha mãe, sua voz nunca teve tanta vitalidade, nunca se ergueu acima de um sussurro. Estendo os braços a minha frente procurando por um corpo, uma parede, qualquer coisa concreta além da escuridão.

Um

Dois

Três passos. Toco uma parede sólida com a ponta dos dedos.

— Olá?

— ISSO! Continue nessa direção!

A voz diz animada. Não sei se ainda fala comigo, encosto uma orelha na parede para escutar melhor e BAM. Tropeço no vão de uma porta. Pisco várias vezes, confuso com a cena.

Eu não estou no inferno, estou em um escritório, apenas um grande e antiquado escritório. Paredes revestidas de cima a baixo por estantes abarrotadas com livros de capa dura, uma mesa de madeira escura sobre um grande tapete estampado e uma cadeira de couro do outro lado da mesa.

E a mulher que chamou meu nome, como eu poderia deixar de notá-la? Sentada com as pernas cruzadas em cima da mesa.

— Cameron! Eu quase não acredito que você está aqui.

— Eu não acredito que eu estou aqui.

Digo em voz baixa, confuso pelo curso que as coisas estão seguindo. A mulher não se deixa abalar, seu sorriso continua ofuscante como se minha afirmação tivesse sido minimamente entusiástica e ela acena para eu me aproximar.

Hesitante, sento na cadeira de couro perto da mesa, a uma distância segura de alguns centímetros.

A mulher é, com certeza, a mais estonteante que vi na vida, ou na morte, ainda não tenho certeza. Ela tem grandes olhos de um profundo dourado que brilham ainda mais contra sua pele escura, o cabelo cacheado emoldurando seu rosto quadrado é tão preto que parece sugar a luz ao redor, seu sorriso de 1000 megawatts ainda está em potência total e eu não lembro de algum dia alguém ter olhado pra mim com tanta ternura, o que é muito estranho visto que essa mulher é uma completa desconhecida.

— Nós estávamos muito ansiosos aguardando sua travessia. Uma alma como a sua não é fácil de encontrar.

Balanço a cabeça ainda confuso. Alma? Eu não me sinto como uma alma. Olho para baixo e meu corpo está sólido como sempre foi, meu pijama ensopado de sangue, terra embaixo das minhas unhas e, de repente, fico envergonhado do quanto estou maltrapilho.

O som de uma porta se abrindo chama minha atenção. Viro para trás e um homem entra por uma porta que eu não havia notado antes.

O sorriso da mulher vai me cegar a qualquer momento. Ela desce graciosamente da mesa e caminha em passos rápidos até ele.

— Querido.

Ele segura sua mão e constrangimento aquece meu rosto quando eles ficam em minha frente e me olham atenciosamente.

Assim como ela, ele é alto. Seu cabelo é quase branco, ondulado e mesmo penteado para trás, algumas mechas escapam. Ele é tão branco quanto uma parede de gesso, mas seus olhos são vermelhos e ainda mais ardentes do que os dela.

Eles parecem ter saído de uma revista, ele em um terno preto bem ajustado, ela em um vestido executivo justo, combinando com ele.

— Cameron, me desculpe, eu fiquei tão empolgada em ver que você tinha conseguido que nem me apresentei. Eu sou Lilith, prazer, e esse é Lúcifer, meu consorte. Nós cuidamos das coisas por aqui

—Cam... Me chamem de Cam.

— Muito bem, Cam. Vamos aos negócios — Lúcifer diz e ele e Lilith se sentam do outro lado da mesa, em cadeiras que simplesmente não estavam lá antes.

Minha cabeça está rodando. Lilith e Lúcifer. Eles são Lilith e Lúcifer. Eu morri. Eu estou morto. Esse é o inferno. Era isso que eu queria? Não era isso que eu queria? Por que parece que meu coração vai sair pela boca?

— Sua travessia foi rápida, não? Algumas pessoas demoram dias, anos, em tempo humano, é claro, pra chegar aqui. — Ele sorri com apreciação e é isso, meu cérebro para de funcionar.

— E você fez algo que nós apreciamos muito. — Lilith ergue as sobrancelhas pra mim e não consigo mais respirar.

— Matou seus pais.

— Se matou.

— E com todo o ressentimento e ódio em sua alma, você não iria pra nenhum lugar além daqui, então não é surpresa, mas estamos felizes por você estar aqui.

— Almas como a sua não merecem apodrecer debaixo de nossos pés.

— Sim, você merece um propósito e nós temos um especial para você.

— Um demônio.

— Demônio? — Pergunto, confuso, extasiado e levemente distraído pela sincronia e sinceridade com a qual eles falam.

— Sim. — Lilith acena com a cabeça.

— Nós temos certeza que você já ouviu sobre eles antes.

— Esqueça tudo o que ouviu sobre eles antes.

— São almas torturadas, especiais, que nos servem.

— Simples assim.

— Você aceita, Cam?

Os encaro, boquiaberto, um pouco surpreso, completamente lisonjeado. Um demônio, parece ser melhor do que o mofo entre as tábuas de madeira do chão.

— E seu disser não?

Eles se entreolham e dão de ombros.

— Você terá desperdiçado sua vida e sua morte, mas eu sei que você não vai fazer isso. — Lilith sorri de forma afetada e olha para Lúcifer com descrença.

Alguns segundos se passam enquanto eu olho para minhas unhas sujas, fingindo considerar as opções com muito afinco, tentando manter um pouco de dignidade. Posso estar alucinando, mas sinto meu coração batendo tão forte que, não fossem Lilith e Lúcifer na minha frente, eu não acreditaria que estou morto.

— Sim, eu aceito.

O sorriso de Lilith é quase obsceno.

— Então vamos começar. Sua primeira tarefa é coletar uma alma. Para coletar essa alma, seu corpo precisa estar morto, óbvio.

Quase retribuo o sorriso de Lilith. Eu tenho que matar alguém. Afinal, não é algo que eu não tenha feito antes.

— Porém — Porém? — Essa alma precisa desistir da existência de seu corpo, de bom grado.

— Em outras palavras, você precisa fazer uma pessoa cometer suicídio.

Oh. Meu suicídio foi de bom grado, eu matei meus pais de bom grado, mas levar outra pessoa a fazê-lo está em um nível completamente diferente, e eles acreditam que eu possa alcançá-lo.

Olhos dourados e vermelhos me encaram com expectativa, esperando meu próximo movimento.

— Nome?

Dessa vez é quem Lúcifer sorri.

— Aqui. — Em um único movimento ele roda na cadeira e puxa um livro da estante. Lilith o abre e o estende para mim.

"Dana Joseph Reyes, 17 anos"

O resto da página está em branco. Resisto tanto ao impulso de revirar os olhos que dói.

— Ótimo. Quando eu começo?

— Agora. Um demônio experiente vai lhe lhe prover com um pouco de mentiria. Depois disso você está por conta própria.— Ela diz fechando o livro e o colocando de volta na estante.

— Quanto tempo eu tenho para fazer isso?

— Todo o tempo do mundo. — Lúcifer responde e eu não certeza se ele está falando sério ou apenas caçoando da minha pergunta.

— E se eu não conseguir?

— Você terá provado que nosso julgamento quanto a seu caráter foi falho. — As palavras de Lilith refletem um brilho perverso em seus olhos.

— E sua alma vai para o lugar de onde não deveria ter sido poupada.

Ele me dá uma visita grátis.

As paredes se dissolvem em cinzas, o chão se abre e meu corpo cai em queda livre nas chamas.

E eu queimo. A dor é ainda mais insuportável do que a de minha morte. Consigo, literalmente, sentir minha pele derretendo, mas quando abro a boca para gritar, percebo meu erro tarde demais.

O fogo engolfa minha garganta. Sangue e fumaça saem do meu nariz.

A luz, o calor, a dor, minha cabeça gira sem conseguir formar um pensamento coerente.

Arquejando, com as unhas enterradas em meus pulsos, pisco várias vezes tentando assimilar o pequeno delírio.

Eu nunca saí do lugar, Lilith apenas sorri inocentemente.

A porta se abre e uma pessoa entra.

— Senhores? — Ela pergunta, sua voz séria e profissional.

— Ele é todo seu.

— Astarte irá cuidar de você a partir de agora. — Lilith gesticula para mulher parada perto da porta.

— Foi um prazer, Cam.

Lúcifer e Lilith dizem em uníssono e estendem suas mãos em perfeita sincronia, estendo a minha suja de sangue, simultaneamente eles a cobrem. Encaro nossas mãos envolvidas, envergonhado demais para conseguir erguer meu olhar. Calor se espalha por todo meu corpo e quando eles soltam minha mão, acho que entendo por quê.

O sangue foi remanejado na forma de um símbolo nas costas da minha mão, um círculo vermelho com caracteres singulares que eu nunca vi antes.

Não ouso desgrudar os olhos do chão. Com a cabeça baixa, levanto-me e vou até Astarte. Ela coloca uma mão em minhas costas, me guia para fora da sala por uma diferente da qual eu entrei. Assim que estamos a alguns passos de distância, e eu ainda estou com os olhos cravados na madeira, Astarte desliza um braço por meu pescoço.

— Ah, Cam, nós vamos nos dar muito bem.

Notas finais
Ai mis amores, vocês não tem ideia do quanto eu estava ansiosa pra repostar essa fic! Sim, repostar! Eu escrevi e postei ela pela primeira vez em 2016, em uma época sombria da minha vida. Eu me divertia horrores ouvindo vocaloid e escrevendo até altas horas da madrugada. Depois... eu percebi que a fic era muito ruim KKKKKKKKK Resolvi reescrever e estou a dois anos nessa empreitada. Espero que tenham gostado! Todo feedback é bem-vindo ♡