Hölle

2 Zielschmerz


Notas iniciais
Zielschmerz Substantivo. O pavor estimulante de perseguir o sonho da sua vida, o que requer que você se exponha com todas as sua habilidades, não mais protegido dentro do terrário de seus sonhos e ilusões. Sugestão de música: Royal Blood - Blood Hands

O corredor se estende infinitamente. Paredes cor de creme, chão de madeira clara e lustres de vidro até onde a distância transforma tudo em um borrão — e nenhuma porta além a Astarte fechou atrás de nós.

— Aqui.

Astarte nos vira para um ponto específico na parede clara e, sem hesitar, andamos através dela.

Não é exatamente o que eu espero, mas a essa altura do campeonato estou tentando o meu melhor para não esperar nada.

Tenho a impressão de que estamos em uma versão do Inferno pensada para ser uma rave: o salão colossal que parece ter sido escavado dentro de uma montanha, as estalactites irradiando luz vermelha e iluminando o lugar abarrotado de gente vestida em couro. São todos demônios? Quero perguntar a Astarte, mas a música pulsante vinda de deus-sabe-onde abafa até meus pensamentos. Penso que devo estar deslocado em meu pijama enquanto Astarte me guia pela multidão, olho para baixo e deixo escapar um som muito mais demoníaco do que meus poucos minutos como um deveriam permitir. Nem de longe estou deslocado, porque, entre uma parede e outra, a roupa suja de sangue foi substituída por roupas justas de látex e botas de couro, que é a razão pela qual meus pés estão protegidos do chão pedregoso.

Não ajuda muito que eu sinto como se tivesse participado de uma orgia após apertar as mãos de Lilith e Lúcifer. Ao meu redor estão acontecendo orgias de verdade. Astarte parece notar meu nervosismo.

— Você não precisa fazer nada que não queira. Aqui é só um lugar para demônios relaxarem entre um trabalho e outro, mas nós podemos nos sentar em um lugar quieto e conversar, okay?

— Látex?

— É a preferência geral. — A ruiva dá de ombros. — OI DAGON!! EU ESTOU COM UM NOVATO, DEPOIS A GENTE CONVERSA! — Ela grita para um demônio que está em uma aglomeração de demônios, onde é impossível apontar onde começa um e termina outro.

Sentamos em um vão na parede, longe o suficiente da música, e do som de corpos se chocando, para que eu possa ouvir Astarte.

— Sua mão — A ergo para mostrar o símbolo vermelho e Astarte traça as linhas com a ponta de sua unha afiada — Esse é o seu selo. Todo demônio tem um, são as letras do seu nome misturadas com o seu propósito.

Ela ergue as mãos para me mostrar o seu selo, ele não é vermelho como o meu, é dourado da mesma cor de seus olhos.

— Se um humano descobrir o seu, pode usá-lo para lhe evocar então eu sugiro que o oculte. Quer dizer, normalmente, só o seu Objeto pode lhe ver.

— Objeto?

— Ah, desculpa. Eu faço isso há tanto tempo e ainda me enrolo pra explicar. — Astarte faz uma careta e continua falando — A pessoa a qual você foi designada é seu Objeto. Você pode interagir normalmente com ele e com as pessoas ao seu redor, mas só seu Objeto consegue lhe ver.

Então, em teoria, eu poderia usar as pessoas ao redor do Objeto pra afetar ele?Sim! Esse é o espírito! Só tem um porém. Se você for pego por um Anjo atentando qualquer um além do seu propósito ele irá lhe punir e nós não nos metemos nesses assuntos. É a hierarquia. Até um Anjo da guarda tem mais poder do que Lilith e Lúcifer.

Astarte dá de ombros, o desprezo em seus olhos os faz brilhar mais. Ela joga o cabelo por cima do ombro antes de continuar.

Tirando esse pequeno detalhe, não existem limites para o que você pode fazer. O objetivo final, é claro, é penetrar a barreira mental do Objeto.E o como eu faço isso? Manipulando as emoções do Objeto. Em estados de extrema exaustão, medo e euforia, eles se tornam propensos a nós.

Astarte fala e eu pergunto como se estivesse entendendo, mas minha cabeça gira com as informações. Não tenho a mínima ideia do que fazer.

Você pode criar ilusões, entrar nos sonhos, assombrar a casa, no geral criar situações desconfortáveis para o Objeto. É mais simples do que parece, Cam. Com um pouco de prática você vai se sair muito bem.

Cruzo as pernas e o látex roçando em minhas pernas é a sensação mais desconfortável desde que morri.

Eu espero que sim.O primeiro sempre é especial.

Astarte corre uma unha pelas linhas de sua mão. Seus olhos dourados iluminam o nicho onde sentamos. Ela os fecha brevemente e suspira.

Demônios podem dormir? — A pergunta a faz abrir os olhos e um sorriso.Claro, mas porque a gente faria isso?

Astarte estala os dedos e a próxima coisa que vejo é uma parada de ônibus. Fecho os olhos, desorientado pela mudança de luz, e os abro novamente para encontrar um par de olhos me encarando.

A sensação é estrangeira para mim e eu fico confuso por alguns milisegundos antes de perceber que é vergonha tentando se manifestar em um corpo onde as mãos não tremem e as bochechas não ficam coradas. Se isso pudesse acontecer, meu rosto estaria tão vermelho quanto as luzes da caverna. Eu ainda estou usando os trajes indecentes de látex. Olho para baixo, pronto para morrer uma segunda vez, mas acabo suspirando de alívio. Entre uma dimensão e outra, o látex foi substituído por calças jeans e uma camisa preta, nada diferente do que eu usava normalmente.

Então por que ele está me encarando?

Oh, sim. Porque eu, literalmente, apareci do nada na parada de ônibus. Mordo minha língua tentando compor uma expressão séria. Mesmo depois de ouvir as orientações de Astarte, não tenho a mínima ideia de onde começar. Ela disse que o assustar até a morte talvez não seja a melhor ideia. Hoje será o dia da pesquisa de campo. Eu vou observar Dana Jonathan Reyes e descobrir como ele vive sua vidinha miserável e porque eles querem que eu a "colete".

O observo de soslaio, felizmente ele se resigna a fitar o concreto, o que me dá uma vista no mínimo favorável de seu perfil.

Ele é pálido, é a segunda coisa que noto; a primeira são seus olhos escuros. O moletom cinza grande demais para sua figura lhe dá um ar doentio, somado as olheiras profundas e a cabelo extremamente claro, ele parece com alguém que não precisa de mim para cometer suicídio.

Provavelmente é por isso que estou aqui, porque ele é uma tarefa fácil e Lilith e Lúcifer estão me testando.

O ônibus encosta no meio-fio, Dana Jonathan sobe e eu fico na parada o observando. No momento em que ele se senta, olha pela janela e me vê o examinando, o que eu achei que era sua expressão fechada, vira uma expressão fechada. Seu queixo fica levemente projetado, seu nariz tem uma ponta arrebitada que o deixa ainda mais petulante quando ele estreita os olhos pra mim.

Dana me faz ter um dos dias mais maçantes de minha pós vida.

Ele está presente durante as aulas, mas não assiste de verdade. Com o capuz do moletom obscurecendo seu rosto e fone de ouvido, ele passa a manhã sem abrir o caderno ou trocar uma palavra com alguém.

Na aula de educação física, ele entrega uma folha para o professor, senta-se em uma das arquibancadas vazias. E passa duas horas de aula fitando o chão.

Mantenho minha distância, mas acho que ele me viu uma vez e sua expressão nunca se tornou menos apática.

No intervalo ele vai para a biblioteca e passa 20 minutos olhando para um livro. Não lendo, apenas encarando o livro sem passar nenhuma página. Quando as turmas são liberadas às 17:30, decido que vou voltar de ônibus com Dana Jonathan.

Estou sentado na parada quando ele sobe, e eu o sigo.

Ele se senta na primeira fileira, perto do motorista e onde nenhum estudante baderneiro ou conversador se sentaria. Tomo o assento vazio, com a atenção cravada na rua, e cruzo as pernas, casualmente ignorando Dana.

Ele não presta muita atenção em mim, exceto quando o ônibus passa em um buraco e meu joelho acidentalmente toca o seu. Brevemente, sinto o peso do olhar de Dana perfurando meu perfil como se estivesse prestes a reabrir a ferida em meu pescoço.

Após algumas voltas do ônibus, começou reconhecer os prédios e as ruas e, eu não havia me perguntado isso antes, ainda estou na mesma cidade em que morri.

Ilorno é uma minúscula cidade com pessoas menores ainda. O centro é tomado por lojas de souvenires e agências que promovem viagens, escaladas, passeios pelas florestas e lagos aos arredores da cidade. Minha casa ficava... Fica em uma área reclusa próxima a saída da cidade, um lugar onde os ruídos mais altos eram dos galhos de árvores chacoalhando ao redor e do carro do meu pai chegando. O silêncio, de vital importância para minha mãe moribunda, me custava uma caminhada de 3 km até a escola mais próxima. A única outra instituição de ensino é a qual eu acabei de sair (6km, não valia a distância). Uma cidade onde eu não conhecia ninguém, mas provavelmente todo mundo seria capaz de me apontar como filho do Dr. Amatore Malloch.

O ônibus chega à vizinhança de onde nós saímos de manhã, uma parte da cidade para a classe média que não pode comprar casas vitorianas perto das montanhas. Nada mal, apenas casas sem graça mas com cercas brancas e gramas verdes.

Dana se levanta e faz menção de passar, mas minhas pernas tomam todo o espaço e eu levanto meu rosto vagarosamente, esperando encontrar o semblante carregado dele, contudo, a expressão irritadiça deu lugar a confusão, e eu que fico confuso.

Levanto de forma a deixá-lo passar e segui-lo em seguida.

Ele não olha para trás, mas sua postura rígida deixa claro que ele sabe que eu estou em seu encalço.

Dana caminha até uma das poucas casas com quintal. Ele ignora a porta da frente e segue uma trilha de pedras até o fundo da casa. Dana para em frente a uma árvore solitária no quintal imaculado e se vira pra mim.

— Por que você está me seguindo? — Dana pergunta e sua voz me assusta, porque eu esperava um grunhido colérico, mas é baixa, melódica, e acima de tudo, exausta. Fico paralisado. Eu não deveria ter seguido ele até aqui se não tivesse pelo menos a mais ínfima esperança de ser confrontado. Ainda assim, quando Dana me encara, confuso e contrariado, meu cérebro entra em pane. Quero continuar encarando e quero responder e quero continuar calado.

— Eu sou seu demônio. Quer dizer, eu sou um demônio e nesse momento eu... sou seu?

Tenho a surpresa de ver o rosto de Dana ficar surpreso. Ele abre a boca, mas não fala nada, coloca as mãos dentro do bolso do moletom, respira fundo e abaixa a cabeça antes de dizer:

— Isso é ridículo. Você é ridículo. A única coisa que eu tenho é desgosto.

— Você só precisa se matar e eu vou desaparecer da sua vida... você estar morto é o agravante, eu acho.

Dana abre a boca ao mesmo tempo em que uma voz feminina chama de dentro da casa.

—DANA!

Ele levanta a cabeça e um sorriso plástico se abre em seus lábios. Ao passar por mim, ele murmura entre dentes.

— Se você não sair daqui eu vou chamar a polícia.

Ele é corajoso, posso dizer pelo menos isso. O adolescente entra na casa pela porta da varanda, felizmente, há uma grande janela sem cortinas que torna possível ver parte da cozinha da casa. Em pé, perto do que acho ser uma mesa, uma mulher loira sorri para Dana quando ele entra. Ela diz algo com um sorriso, e daqui parece algo como uma reprimenda suave. Estende um prendedor de cabelo para Dana e quando me pergunto o que ele faria com isso, ela se vira de costas e ele reúne o cabelo comprido em uma trança.

Quando termina, ela sorri de novo e faz menção de se aproximar de Dana, mas muda de ideia e a sai do campo de visão da janela acenando uma despedida. Escuto a porta de frente abrir e assim que ela sai, Dana coloca as mãos sobre a mesa, sua mandíbula cerrada e os olhos fechados.

Ele levanta os olhos e quando me vê observando a janela como quem assiste televisão, sem tirar os olhos de mim, a expressão semelhante à de ódio de quando ele me viu pela janela do ônibus, caminha até a janela e puxa duas cortinas obscurecendo minha visão do interior da casa.

Vejo a mulher que saiu da casa a pouco passar pela calçada. Com o cabelo preso na trança ela parece jovem, jovem demais para ser a mãe de Dana até. Mas a semelhança gritante entre eles denuncia algum tipo de parentesco, exceto que a mulher parece uma pessoa mais agradável e seus olhos são azuis, tão brilhantes que posso ver dessa distância. Sua pele levemente bronzeada é o que menos a distingue de Dana.

Parado no quintal da casa de Dana, sou atingido pela súbita realização de que o matar vai ser mais difícil do que pensei. Penso em estender o dia de estudo de campo pelo final de semana. Segunda-feira posso ser um demônio com D maiúsculo, mas pelos próximos dias serei apenas um observador.

Notas finais
Sou muito bandida e ocupada Dsclp Bjos até a próxima :*