Hölle
4 Kuebiko
Notas iniciais
Pondero acerca dos rumos que posso fazer o sonho tomar. O pouco tempo que passei com Dana não me dá muitas ideias do que poderia aterrorizá-lo. Respiro fundo e me resigno a usar elementos genéricos de pesadelos, inclusive os meus, só para testar as águas um pouco.
Nuvens cinzentas surgem no horizonte, escuras, carregadas, e seu avanço sobre a campina obscurecem o céu límpido. O vento gélido vem logo depois, chacoalhando as árvores esquálidas, os troncos retorcidos se partindo.
A tempestade transforma o campo aberto em noite.
A família está no meio do temporal, mas não parece afetada. A risada e a conversa se erguem acima do ruído do vento.
Interessante, para dizer o mínimo.
As mudanças são extensões do meu próprio corpo, fáceis de controlar como fechar os olhos ou flexionar os dedos.
Volto minha atenção para o casal. O rosto da mulher é congelado em um sorriso de olhos arregalados. Dana, de pé entre suas pernas, aperta sua bochecha e a carne se esfarela entre os dedos pequenos. O rosto inteiro se desmancha em um monte de areia, prontamente sendo soprado através do campo. O casal desaparece em questão de segundos.
A garota olha ao redor, lágrimas em seus olhos, e sem os adultos ela percebe que tem algo errado. Ela agarra Dana pelas costas e tenta puxá-lo para longe, mas ela é pequena demais e Dana grita e grita, esperneando contra o aperto para revirar a areia restante na grama.
O vento e a chuva castigam as crianças e o garoto recusa a soltar os fios de vegetação rasteira. Seu choro perfura meus tímpanos, é mais alto do que o ribombar dos trovões.
É barulho que você quer? Penso, escaneando as árvores brevemente antes de olhar as crianças novamente.
Um uivo ecoa na campina, e mais um, e mais um. A origem do som surge em meio a escuridão, quatro figuras negras de olhos incandescentes. Elas uivam, rosnam, expõem os dentes e, finalmente, avançam.
A garota não precisa mais puxar Dana, eles correm de mãos dadas para o lado oposto ao dos cães. Eles adentram a floresta de árvores mortas deixando para trás uma trilha de pegadas e gritos agudos. Tento correr para alcançá-los e avanço mais rápido do que o possível, sem sentir a terra em meus pés. Olho para baixo, apenas para constatar a hipótese, e, de fato, não vejo braços ou pernas, nem qualquer outro membro. Não sou uma entidade física em sonhos, contudo, consigo me movimentar livremente entre as árvores ao lado dos cães, apenas preciso desejar fazê-lo.
Os perseguidores não fazem muito além de latir e correr, até que eu desejo que eles mordam. Quatro mandíbulas se abrem e fecham a centímetros do calcanhar descalço de Dana. Flutuando imaterialmente entre eles, estou ficando entediado. Em minha mente vejo os quatro cachorros pulando na garota, e assim eles o fazem.
O som de carne rasgando, ossos se partindo, e choros desesperados enchem o sonho. Dana continua a correr, lágrimas escorrendo por seu rosto. Deixo a garota e seus predadores para trás, flutuo acima de Dana, que dispara gritando palavras na mesma língua estrangeira em que a mulher cantava.
— MUTTER, VATER, SCHWESTER – Ele coloca as mãozinhas sobre as orelhas para não ouvir a garota chamando por ajuda.
Ele corre o mais rápido que suas pernas curtas o permitem. Deve ser uma lógica de sonhos que ele consiga correr pela floresta escura sem se chocar com nenhuma árvore e evadir os perseguidores. O observo no breu, somente quando os únicos sons são os da tempestade, ele para. Cai de joelhos arfando, suas costas tremendo pelo esforço físico. Pairo ao seu redor, observando o terror distorcer cada traço de seu rosto.
Talvez seja por estar em completo controle do sonho e saber que nada é real, mas não sinto remorso. É quase como estar assistindo televisão e esquecer que são pessoas de verdade na tela.
O último cão se manifesta da sombra de uma árvore. É impossível enxergar sua forma sem saber previamente do que se trata, e, mesmo com o focinho a centímetros do rosto de Dana, ele não nota o animal. O bicho expõe os dentes, baba caindo dos cantos de seus lábios sobre a cabeça de Dana, e seu rosnado é tão profundo que penetra meus ossos inexistente.
O garoto olha para cima e não tem tempo nem de gritar quando uma pata colossal o prende no chão. Antes de deixar o sonho, imagino o cão destroçando o corpo de Dana, membro por membro.
Abro os olhos no quarto dele, levantando de repente contra minha vontade. Dana deita na cama, tenso e rijo feito um cadáver, e suor brilha em seu nariz.
Em uma noite normal, esse seria eu. Eu acordaria com um grito preso na garganta, levantaria para tomar um copo de água e, na privacidade do meu quarto, desenharia até ter que ir para a escola. Sozinho, o tempo todo.
Um tremor na pálpebra de Dana chama minha atenção. Ele ainda está consciente no sonho? Ele sente o cachorro lambendo seus ossos?
Não sei, mas isso deve ser o suficiente, certo? É o suficiente para a primeira noite. Me ajoelho no colchão, pairando sobre Dana, e seguro seu rosto. Meço minha força, apenas um pouco, e o sacudo de um lado para o outro esperando que isso seja o suficiente pra lhe acordar.
Seus olhos se abrem subitamente e ele senta na cama com a respiração ofegante. Não quero ser dissimulado, perguntar se está tudo bem porque eu mesmo que causei isso, mas ele está tremendo intensamente como se ainda estivesse sentindo os dentes do animal em sua carne. Nem parece lembrar que estou no quarto.
O louro aperta os joelhos contra o peito, sua respiração é laboriosa e encolhido assim ele é uma imitação do garoto no sonho. Esperando-o se acalmar, sento na borda da cama cruzando as mãos em meu colo. O colchão afundando com meu peso o traz de volta a realidade.
— Obrigado por me acordar. – Dana não levanta a cabeça ao falar comigo.
— Você estava gritando e eu não consegui dormir – Minto com um sorriso afetado..
Ele levanta a cabeça o suficiente para só um olho avermelhado me fitar com indiferença.
— Demônios dormem? – Ele indaga com falsa ingenuidade, claramente querendo se distrair do pesadelo.
— As forças do mal também precisam ir pra cama.
— Ótimo – Ele resmunga se levantando da cama com o rosto propositalmente virado para o outro lado, passa por mim e sai do quarto fechando a porta atrás de si.
Quando perguntei para Astarte se demônios podiam dormir ela retrucou “Claro, mas porque nós faríamos isso”. Talvez demônios mais velhos não sintam a necessidade de não existir por um tempo, eu, por outro lado, sinto cansaço enevoar minha mente. Preciso urgentemente de uma soneca.
Nula– Murmuro ao deitar na cama de Dana, o vão no colchão no edredom me embalando em um sono profundo.
Acordo com a voz rouca de Dana vindo do corredor, cantando ou recitando um encantamento, não posso dizer por que não entendo uma palavra do que estou ouvindo. Abro os olhos para o teto de gesso branco, e como se estivesse me esperando acordar, Dana entra no quarto em silêncio.
Ele corre os olhos pelo quarto e franze as sobrancelhas ao não me encontrar. Dana se abaixa me procurando debaixo da cama, olha para os lados. Fico um pouco lisonjeado, isto é, até ele sorrir satisfeito em não me ver e voltar a cantarolar. Levanto da cama e saio em seu encalço para a cozinha. Ele se volta para a pia, onde corta legumes em uma tábua de vidro tão rapidamente que sua mão vira um borrão.
Sua recuperação da noite passada é quase milagrosa. O vendo cozinha na cozinha de sua casa, cantando na língua estrangeira e usando uma camiseta preta de mangas compridas que cobre sua silhueta, mas não a esconde, ele não parece o garoto da parada de ônibus de ontem, nem a criança desamparada da madrugada de hoje. E ele parece tão confortável sozinho, suas costas parecendo menos uma tábua reta, que sinto estar invadindo sua privacidade estando invisível e intocável.
Nesse estado não posso ter interações com os objetos ao meu redor, contando Dana. Coloco a mão na tábua de vidro, e a atravesso como aconteceu com a porta de seu quarto, então corro os dedos por entre a porção de tomate fatiado e ele continua imóvel. Testando o que mais posso fazer assim, e talvez querendo lhe provocar, admito, me aproximo um pouco mais de seu rosto e assopro sua franja para o lado.
Seu canto fica suspenso junto com a faca que ele segura e vagarosamente seu rosto adquire um profundo tom de vermelho enquanto ele olha para os lados, claramente me procurando. Uma mordida de lábios azeda sua expressão ao mesmo tempo em que ele revira os olhos
A irritação estampada no rosto de Dana é demais para mim e uma risada involuntária deixa meus lábios. Ao me escutar rir ele solta a faca em cima da pia parecendo ofendido. Seus lábios se abrem em uma súbita tomada de ar, o que eu penso que é o fôlego para me insultar, mas antes que ele possa soltar alguma ofensa, a porta de frente se abre e a mulher entra direto para a cozinha com sacolas de compra nas mãos.
— Dana, eu trouxe.... Almoço – Ela para ao ver que ele estava cozinhando. Dana responde dando de ombros.
É a mesma garota do sonho, com certeza. É a irmã de Dana, agora só faltam os pais.
— Eu posso congelar, desculpa, eu não sabia que você ia trazer comida. – Ao ouvi-lo pedir desculpa, a mulher revira os olhos e sorri.
— Nós vamos comer sua comida, eu posso levar isso para comer no trabalho – Dito isto, Dana assente e retorna para a tábua e ela começa a guardar as compras.
Dana olha discretamente ao redor da cozinha, é no mínimo divertido vê-lo sabendo que ele não tem consciência da minha presença, diferente de ontem à noite, quando mesmo sem ter feito nenhum barulho ele percebeu que eu estava no quarto.
— Bu!— Dana solta a faca sobre a tábua, seu susto é tamanho que ele chega a andar para trás e sua irmã o olha alarmada.
— Dana você tá bem? – Ela pergunta fazendo menção de se aproximar, mas ele coloca uma mão sobre o peito e diz que sim.
— Um inseto chegou muito perto de mim, eu me assustei – Ele responde com as bochechas coradas.
— Ah, é a estação. Eu devia ter trago um repelente, ou nós podíamos colocar telas nas janelas – Ela continua falando sobre como eles podem prevenir insetos e as bochechas de Dana ficam cada vez mais vermelhas.
Acho que o envergonhei o suficiente. Sento na ilha com as pernas cruzadas e murmuro videtur. Me sinto deslocado no meio da cena cotidiana, todavia não tenho mais o que fazer.
— Qual é o nome dela? – Pergunto distraidamente, dessa vez Dana não pula, só me olha com desconfiança e se vira de volta para a pia.
A dita cuja, que terminou de guardar tudo, se apoia sobre o granito e com Dana de costas, ela abre a boca várias vezes para falar, sem dizer nada. Por fim, ela suspira, olha para cima e pergunta suavemente.
— Você precisa de ajuda?
— Não – Ele responde e continua cortando – Pode ir deitar, eu te chamo quando estiver pronto.
Ela franze os lábios, claramente insatisfeita, mas conforma-se.
— Guten Nacht.
— Oh – Ela para na saída da cozinha – Danke.
Assim que ela fecha a porta de seu quarto, Dana se vira para mim com os braços cruzados e a expressão fechada. Ele não fala e eu também não tento iniciar o diálogo,
— Eleonora – Dana diz e volta a cortar como se não tivesse dito nada.
Eleonora, tenho quase certeza que ela é a garota do sonho e possivelmente irmã de Dana. Então agora só faltam os pais. Ou eu poderia estar completamente equivocado e ela é a mãe dele.
— A sua mãe é... nova. – O efeito de minhas palavras é visível antes mesmo que eu termine de falar. Ele me olha sobre o ombro com algo entre escárnio e desprezo.
— Ela é minha irmã, idiota.
— Ah, você tem uma irmã – Digo, cruzando as pernas em cima da ilha. – E o resto?
— Resto?
— Da sua família.
Dana fica em silêncio por alguns segundos, a faca contra a tábua de vidro sendo o único som na cozinha. Seria útil demais se a palavra órfão estivesse escrita em sua ficha. Por fim, ele dá de ombros e, ainda cortando metodicamente, responde.
— Se você está aqui, isso significa que existe um inferno, certo? – Sua pergunta me pega de surpresa.
— Sim.
— E um céu?
Pondero por um segundo. Sim, existe um Inferno com I maiúsculo, eu vi com meus próprios olhos e senti em minha própria pele, mas isso não quer dizer que exista um céu. Mas, pensando bem, que tipo de Criador sádico criaria um lugar de danação eterna e não um de recompensa?
— Acho que sim.
— Então meu pai está no céu e minha mãe no inferno.
— Ahn – O som monossilábico temporariamente encerra a conversa. Pelo menos um dos pais de Dana foi para o céu (e isso soa tão infantil, me faz querer morrer de novo), tenho plena confiança que os meus estão o Inferno.
Meu pai, um adúltero, não pode estar em outro lugar. Minha mãe, aquela mulher gélida e morta por dentro antes mesmo que eu a matasse, faria bem a ela um pouco de calor. Com meus pensamentos descendo um caminho sombrio, pergunto a Dana antes que me esqueça.
— O que você falou antes?
— Uh?
— Antes, hoje mais cedo, você estava cantando, falando, não sei.
Dana segura a tábua com as duas mãos e se aproxima de mim. Seus olhos não deixam o chão nem por um segundo. Ele derrama os pedaços picados de legumes na panela que está em cima da ilha, concentradíssimo.
— O que você ouviu?
— Eu não sei, não soavam como palavras. Na verdade-
— Ich komm hinauf für einen Kuss von dir, einen Kuss von dir, ja den wünsch ich mir – A voz de Dana não poderia ser mais monótona, contudo, ainda é melódica e, estando tão perto, me encontro fitando seus lábios, a maneira vagamente lasciva com a qual eles se movem para formar as palavras estrangeiras.
— E o que isso significa? – Pergunto, ainda concentrado. Leio seus lábios antes de processar o que ele responde.
— Que eu falo alemão e você não.
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