Hölle

5 Adronitis


Notas iniciais
Adronitis Substantivo. Frustração pelo tempo que se leva para realmente conhecer alguém.

Se sangue ainda corresse por minhas veias, minhas bochechas estariam coradas. Dana levanta o rosto e cerra os olhos para mim antes de se virar para a pia e começar a lavar louças.

— Eu vou descobrir... um dia. – Minha tentativa de soar desinteressado é traída pela falha em minha voz. Malditos adolescentes que não atingiram a puberdade antes de morrer.

— Viel Glück.

Não é sangue, mas algo definitivamente está queimando. Dana está fora do meu campo de visão, contudo, consigo sentir a satisfação irradiando dele. Ele me inspira a planejar um belo sonho para hoje à noite, e para a noite depois dessa, e depois dessa, até que ele acorde dentro do mesmo breu que eu.

— A sua irmã... que tipo de trabalho ela faz, voltando para casa a essa hora da manhã. – Lanço a isca.

— Eu não sei em que tipo de ambiente você foi criado para pensar isso. Minha irmã é enfermeira. – Ele morde a isca. Assim como minha tentativa anterior, ele não consegue suprimir a raiva pela minha leve insinuação.

Dana recolhe a panela de cima da ilha, tomando um segundo para me olhar de esguelha antes de colocá-la no fogão. Provavelmente ele estava considerando me bater com ela. Com a panela no fogo, o escuto sentar-se em uma das banquetas a minhas costas. Nenhuma palavra se passa entre nós, todavia, seu olhar crava adagas em minha nuca até que eu me vire para ele.

— O que... o que você fez pra ir pro inferno? – Dana começa confiante, mas sua voz também o trai. Conformo penso, me inclino sobre o mármore. Quando respondo, estou praticamente deitado sobre a pedra fria.

— Eu não sei? – A mentira branca é natural em minha boca. De todas as coisas ruins que já fiz, quem sabe qual foi o estopim que me mandou para o Inferno? Meu conhecimento bíblico é limitado ao pouco que ouvi da enfermeira de minha mãe e da professora católica de história – céu, inferno, Deus e Diabo, então posso ter vivido pecando. A minha própria existência pode ser um pecado, contudo, ao fitar os olhos sinceros de Dana a resposta é muito clara. Eu matei duas pessoas. Eu cometi suicídio. – Eu comi bacon, não aprendi uma língua adicional, nunca fui a igreja... tomei banho sem roupa. Herege é meu sobrenome.

O sorriso é como um raio de sol perfurando nuvens de chuva, tão furtivo que nem tenho certeza se o vi mesmo.

— Tenho certeza que sim.



Eleonora não precisa que ninguém a acorde. O fogo mal é apagado, ela surge na cozinha.

Ah, você precisa me ensinar a cozinhar assim. – Eleonora elogia, prato em mãos, pronta pra se servir.

Caecus.

Dana não consegue manter suas mãos paradas, sua irmã não parece notar, mas para mim o músculo que salta em sua mandíbula quando ele cerra os dentes é o suficiente. Ele sorri com constrangimento educado. Os irmãos se sentam em lados opostos da mesa. Eles comem em silencio, diferente do silêncio estranhamente normal entre nós, a tensão é palpável no ar.

Eleonora se inclina sobre o prato, não tenho certeza, contudo a ouço murmurar uma música enquanto come. A mulher é completamente ignorante ao carbono prestes a estalar.

— Dan, Dan, Dana. – Sua irmã chama até que ele levante o rosto do prato – O que você acha de a gente ir ao cinema com a Hiezabel? – Ela saiu de um comercial de margarina e parece tão certa de que Dana irá comprar a ideia que eu mesmo duvido que ele não vá.

— Acho que-

— Você prefere ficar em casa? – Eleonora sorri, antecipando a resposta de Dana.

— Sim – Dana ergue os cantos da boca sem humor, voltando a fitar o macarrão como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

— Ótimo. Eu convidei ela e a filha dela pra assistir um filme. Ela acabou de se mudar, acredita? Acho que vocês vão se dar bem.

Seu irmão acena com a cabeça. Eles terminam a refeição sem trocar mais palavras, o cantarolar de Eleonora sendo o único som além do bater de talheres nos pratos.

— Você pode ir lá pra fora? Eu vou limpar a casa com alvejante, pode provocar sua alergia.

Eleonora lava as louças com dedicação imprescindível, ela poderia estar falando com Dana ou sozinha, tão vaga é sua expressão. Eu sei que é mentira, ele deve saber também. A casa não tem um grão de poeira, uma teia de aranha. É imaculada. Seja lá o que ela quer, Dana cede.

— Eu vou ler um livro no quintal.

E ler um livro no quintal ele vai. Dana não reclama quando eu o sigo. Acabamos no quintal, embaixo da árvore, Dana sentado sob a sombra das folhas com dois livros no colo e eu deitado distante o suficiente para que o sol da tarde nublada de outono me faça fechar os olhos.

— Você vai ficar deitado a tarde inteira aí? Eu entendo que você seja um demônio, mas você não tem nenhum passatempo ou coisa do tipo?

Abro os olhos sem desviá-los do sol, apesar de não sentir o calor, a luz os faz queimar. Enquanto minha retina é cozida, considero uma resposta que não pareça rude. Eu não escutava música porque fones de ouvido me machucavam e eles seriam o único jeito de fazê-lo sem incomodar minha mãe, assistir televisão trazia os mesmos problemas; ler livros era um pouco difícil visto que eu não saia de casa para ir a uma livraria comprá-los e a biblioteca do colégio mal possuía livros didáticos. Sair com amigos estava fora de questão, visto que eu não tinha nenhum. Tudo o que eu fazia era desenhar. Lembro que quando eu era criança, a empregada ou meu pai me faziam calar a boca me dando uma caixa de giz de cera e um pedaço de papel. Desde então, lápis, cadernos e mais lápis eram as únicas coisas com as quais eu gastava.

— Sim, eu gosto de ficar imóvel. Aí a pessoa me stalkeando morre de tédio. Eu também gosto de desenhar.

— Ahn.

Escuto Dana atirar algo em mim, antes que eu me ofenda precipitadamente, estendo a mão para agarrar o objeto. Levanto-me subitamente ao fechar os dedos ao redor de um lápis.

Minha visão está distorcida em espirais vividas. Elas transformam o quintal e Dana em ouroboros. A inspiração soaks me like rain. Enquanto minha visão normaliza, gravo os detalhes em minha mente. No que volto a enxergar normalmente, vejo Dana retirar de dentro de um dos livros, um punhado de folhas dobradas ao meio. Ele as empurra para o lado junto com outro livro, para que eu tenha um lugar onde apoiá-las. Estendo a mão, mas Dana não faz nenhum esforço para que eu alcance a folha. Eu só preciso me esticar um pouco mais; me apoio de quatro, a humilhação de engatinhar sendo derrotada pela preguiça de levantar-me ou pedir por favor.

Uma miríade de cores passa pelo rosto de Dana. A cor predominante é a vermelha, e fico parado com a mão em cima da folha, confuso com sua reação.

— Dana?

Seu semblante clareia como se eu tivesse estalado os dedos, contudo, o rubor se intensifica. Seja lá o que for, decido ignorar. Volto ao meu lugar sob o sol, deitado de bruços, de forma que possa me apoiar nos cotovelos para desenhar apropriadamente. Conscientemente, esforço-me para não ficar envergonhado ou perturbado pelo par de olhos escuros me examinando.

O sol se põe antes que eu tenha terminado de usar completamente as sete folhas de papel, mas em cada página há um rascunho. O papel em cima da pilha mostra a última imagem que eu vi antes de Eleonora bater na janela de vidro: Dana encostado no tronco, os olhos fechados e uma ruga entre suas sobrancelhas

Eleonora é uma ótima atriz, é do que estou convencido.

A mulher parada na janela segura as mãos como se estivesse rezando. Seu cenho tem as mesmas marcas de um papel amassado e os seus lábios cerrados estão tão pálidos quanto a parede atrás dela. E toda gravidade expressa em seu rosto evapora quando Dana abre os olhos.

— Dana, elas estão chegando – Ela entra em seu quarto antes que ele levante.

Ele não precisa olhar para trás; o sigo como um cachorro treinado. Dana entra em seu quarto enquanto eu sigo para a sala com as folhas em mão. Escuto os irmãos se arrumando em seus respectivos aposentos. Com os ouvidos atentos para a aproximação de Dana, levanto uma almofada no sofá e coloco as folhas embaixo. Borboletas arrastam suas asas murchas por meu estômago quando penso em Dana vendo qualquer um dos rascunhos. Nunca mostrei meus desenhos para ninguém e não vou começar agora – principalmente para a pessoa que serviu de inspiração para eles.

Sento em cima da almofada, um gesto tão infantil, me faz querer desaparecer. Talvez eu devesse mesmo assistir de camarote Dana interagir com alguém além de Eleonora.

Caecus

A casa tem uma campainha. Descubro isso quando o som de sinos soa pela sala e Eleonora corre até a porta. Com o sofá de frente para a porta, tenho uma visão privilegiada das visitantes.

— Nossa, quanto tempo. – A mulher mais alta diz, o deboche evidente em seu tom de voz. Eleonora revira os olhos antes de abraçá-la afetuosamente – Eleonora, Elisheva. Elisheva, Eleonora.

— Oi, tudo bem? – Elisheva cumprimenta.

— Tudo, e você? Como a cidade tá te tratando? – Eleonora pergunta com um braço ao redor da outra mulher.

— Hmm... não me mataria sair para dar uma volta por aí – Elisheva responde, sua voz é doce. Seus olhos revirando contam uma história diferente. Antes que ela possa tecer algum comentário, a mulher – levanta uma garrafa de vinho e a entrega para Eleonora.

— As crianças podem assistir um filme enquanto a gente cuida de esvaziar isso aqui.

— Vinho seco? Hm, Elisheva, acho que a sua mãe está tentando me matar com uma ressaca! Podem entrar, o Dana já está vindo.

Se eu não soubesse de antemão, jamais diria que Hiezabel e Elisheva são mãe e filha. A mulher é alta, mais do que eu provavelmente, lânguida e da cor de uma vela, feições afiadas, cabelos ruivos cortados na altura dos ombros e olhos verdes com sobrancelhas arqueadas que parecem sempre sugerir uma ideia maliciosa; a adolescente é menor do que Eleonora, o rosto arredondado e suave não é emoldurado, seu cabelo é quase tão curto quanto o de Dana. A única semelhança imediata entre elas são os olhos verdes.

Talvez ela seja adotada, penso comigo mesmo enquanto elas se sentam no sofá. Elas evitam o assento que eu tomei. No primeiro momento, imagino que seja uma coincidência, até que, inspecionando as feições de Elisheva, ela olha em minha direção, não diretamente, mas como se estivesse prestes a espantar algo em cima de minha cabeça.

As mulheres conversam animadamente, Elisheva continua não-me-encarando. O ruído da porta abrindo não as interrompe, não vejo Dana, mas o ouço se aproximando pelo corredor. Eleonora levanta e automaticamente as duas visitantes a imitam.

Dana— Hiezabel se adianta, assim que ele entra em seu alcance ela coloca um braço em seu ombro – Como vai?

É uma cena um tanto cômica, a mulher que parece uma viking segurando Dana em um meio abraço e ele claramente tentando controlar o que se passa em seu rosto.

— Ótimo – A resposta soa sufocada.

— Dana, essa é a Elisheva, minha prole – Ela os apresenta da forma mais estranha possível. E Dana, com todo o carisma de uma pedra, acena com a cabeça para a garota.

— Nós vamos colocar isso na geladeira – Eleonora mostra a garrafa e as duas seguem para a cozinha.

Dana respira fundo uma, duas, três vezes, antes de se lembrar que não está sozinho na sala.

— Eu achei que ela fosse insuportável só comigo – Elisheva menciona voltando a se sentar longe de mim.

Dana se senta exatamente do meu lado antes de responder.

— Não é tão horrível – Ele mente em uma voz pequena. Com a proximidade, consigo ver seus dedos trêmulos.

Elisheva revira os olhos novamente, contudo ela ainda parece um pouco simpática– Ahn, oi, de verdade dessa vez.

— Oi – Dana retorna.

— E a assombração?

— Oi?

— Tem uma coisa do seu lado, ela parece particularmente maliciosa.

— Ele? O Cam? Ele não está nem aqui– Dana se vira para mim, realização tingindo suas bochechas quando ele, provavelmente, se lembra do fenômeno no almoço.

E se Elisheva consegue sentir minha presença quando nem Dana pode me ver, ela é uma médium. Dentre todas as coisas que Astarte me disse, eu não esperava que fosse precisar justamente dessa. Um médium é uma pessoa capaz de sentir, as vezes ver e se comunicar, criaturas não-humanas. Eu não queria encontrar uma no meu segundo dia como um demônio; só ficaria melhor se ela tivesse um anjo da guarda.

— Ele tem nome? – Elisheva arqueia uma sobrancelha (De repente ela se parece com Hiezabel) olhando intensamente para os mosquitos em meu cabelo.

— Entre outras coisas, sim.

— Mas que... interessante. Acho que eu preciso dar uma volta, você me acompanha?

Notas finais
Eu sou burra?? Os views eram eu voltando pra ver como eram as notas iniciais???? foda