Hölle

7 Fata Organa


Notas iniciais
Fata Organa Substantivo. Um flash de emoção real vislumbrada em alguém sentado na mesma sala que você, ociosamente preso em uma conversa, olhos brilhando com vulnerabilidade, ou antecipação, calma ou um tédio cósmico. Sugestão de música: The Neighbourhood - Afraid.

Quando volto a mim mesmo, estou deitado ao lado de Dana. Por alguns segundos encaro o teto branco, imóvel, escutando o ritmo irregular de sua respiração. Não consigo focar em outra coisa, inclusive em como acordá-lo sem tocar em seu corpo. Tenho a forte impressão que ele, depois do pesadelo, arrancaria meus dedos se eu fizesse a menção.

Levanto-me da cama para sair de seu alcance. Inclino-me sobre seu rosto. Respiro fundo, olhando a sombra que seus cílios lançam sobre as olheiras. O rosto horrorizado de seu pesadelo volta ressurge em minha mente. A covinha aparecendo e desaparecendo, o completo terror em seus olhos. Eu gosto. Eu gosto muito, principalmente quando não são direcionados a mim e eu posso recebê-lo — ou ser recebido ? — de braços abertos ao final de tudo.

Sopro seu rosto com todo o meu fôlego. Ele franze as sobrancelhas, abre e fecha a boca, e, apesar de minha precaução, sua mão atinge meu rosto em cheio quando ele tenta se levantar. O estalo é tão alto que espero a ardência e a dor, mesmo sabendo que é impossível senti-las.

Ai— Dana me olha. A confusão o faz olhar ao redor, respirar fundo, levar a mão à nuca e puxar o próprio cabelo. Aos poucos, o desamparo se esvai, ele ergue as sobrancelhas em surpresa, como se estivesse me vendo pela primeira vez no quarto

— O vinho — Ele diz, gesticulando com as mãos. Antes que eu possa perguntar o que ele quis dizer, Dana coloca uma mão sobre a boca e outra sobre a barriga. Seus pés mal tocam o chão e escuto os mesmos sons engasgados que eu emiti a horas atrás, só que Dana tem conteúdo suficiente pra colorir o tapete, o chão, a cama e um pouco da parede. Subo na cama com as mãos levantadas, pronto para recuar ou avançar ou desviar de um tapa a qualquer segundo. Dana cai de joelhos, petrificado, olhando para o vômito no chão como se fosse sangue.

— Dana?

Ele não responde, não se move. Dois cenários se desenrolam à minha frente. Em um eu bato na porta do quarto de Eleonora até que ela acorde e ache que foi o Dana, cuide dele, e o Dana, é claro, fica muito grato; em outro eu mesmo tento ajudá-lo, na melhor das possibilidades eu consigo e ele fica muito grato, na pior ele me afasta e lida com a bagunça sozinho.

Faço a escolha ao mesmo tempo que ele. Minhas botas protegem meus pés contra o chão pegajoso, só assim consigo me aproximar da figura encolhida. Paro em sua frente, me agacho até estar a sua altura. Dana mal parece estar respirando, mas seus olhos estão abertos.

— Dana, eu vou precisar que você coopere comigo.

Aproximo minhas mãos de seus braços imóveis. Ele não se esquiva, seu olhar não se mexe e aí eu tenho certeza de que alguma coisa muito errada... eu não quero tocar nele, pelo menos diretamente. Sem desgrudar os olhos dele, puxo o edredom e coloco ele ao redor de Dana. Segurando-o por seus cotovelos, levantamos do chão sujo e o levo até a porta. Ele não resiste, não diz nada, apenas segue o caminho que eu guio no escuro.

Suponho que o banheiro seja a terceira porta no corredor. É a primeira vez que vejo o cômodo e é exatamente como o resto da casa, parece intocado, saído de uma revista com o esquema preto e branco, as louças de porcelana e as toalhas e tapetes felpudos e imaculados. Isto é, até que eu e Dana pisamos com os pés sujos. Acendo a luz com a mão que não segura Dana.

Ele ainda está imóvel quando o sento na borda da banheira. Jogo suas pernas para dentro e encosto suas costas na parede de ladrilhos. Puxo o edredom. O olhar de Dana é tão opaco que chego a ponderar se ele está cego de verdade. Tirar sua roupa está fora de questão. Pego a ducha acima da banheira. Abro a torneira torcendo para que a água esteja fria, não só porque seria engraçado, mas porque espero que isso o faça despertar de, bom, seja lá o que está acontecendo dentro de sua cabeça.

De fato, no instante em que a água gelada toca seu corpo, Dana franze as sobrancelhas e seu olhar finalmente me encontra.

— E aí? – Pergunto casualmente, a ducha ainda em mãos.

Dana não diz nada, mas continua olhando ao redor parecendo confuso.

Porque eu estou molhado — Ele segura sua camisa ensopada e eu esguicho um pouco de água em seu ombro, em um respingo imperceptível no escuroO que diabos você está fazendo? – Ele pergunta, sem sair do alcance da água.Sei lá, eu achei que não seria muito – Procuro a palavra certa, gentil? Cavalheiresco? Humano?—...viável deixar você morrer em uma poça do próprio vômito.

Ele definitivamente não estava prestes a morrer... estava? O Inferno contabilizaria isso como suicídio? Enquanto eu me faço perguntas, Dana não faz mais nenhuma. Ele diz algo tão suavemente que, com o barulho da água correndo, não escuto.

— Hã?

— EU DISSE... obrigada.

— Não conte comigo se isso acontecer de novo – Respondo colocando a ducha dentro da banheira. É uma mentira e Dana não precisa saber disso. Afinal, se não for suicídio eu saio perdendo.

— Você pode me dar a escova? Ali em cima? — Ele aponta para a pia, onde vejo uma escova e… uma mini escova com o cabo transparente? — É isso mesmo.

Ele responde a pergunta que não fiz. Pego o objeto e coloco em sua palma estendida. Sob minha curiosidade, Dana o encaixa na ponta do dedo e o leva a boca.

Viro de costas para sair, porque a imagem de Dana com um dedo na boca, escova de dentes ou não, é algo muito perigoso.

Pressinto Dana me seguindo com os olhos quando paro para limpar a bota no tapete branco. Sem virar para ele, indago sobre algo que ecoou dentro de minha mente desde que ele disse.

— Eu pareço com quem? Antes de dormir você disse que eu parecia com alguém, mas eu não ouvi quem.

Uma quantidade considerável de água é desperdiçada até que ele responda em uma voz minúscula.

— Não lembro, desculpa.

Saio do banheiro e fecho a porta atrás de mim. A única pessoa com a qual já ouvi que tenho semelhança é meu pai, contudo, Dana não tem como saber disso, nem que eu odeio quase tudo em minha aparência porque odeio ele.

Na medida do possível, consegui ajudar Dana, ainda receberei a gratidão mais cedo ou mais tarde. Esperando-o sair, vou para sala procurar as folhas e o lápis embaixo da almofada para continuar os outros rascunhos.

Sentado no chão e desenhando em cima da mesa de centro é como consigo raciocinar claramente. Meu plano de observação e reconhecimento durou dois dias e não sinto que fiz muito disso; contudo, a impressão que tenho é que Dana não é o tipo de pessoa que se quebra com hostilidade.

Existe mais de um jeito de desestabilizar uma pessoa, nem tudo se resume a assombrações e pesadelos, ou pelo menos foi isso que Astarte me assegurou. Entre o som da água correndo e o lápis no papel, a resposta parece muito clara. Eu não preciso assustar Dana até a morte, e provavelmente não seria capaz se tentasse.

Escuto o som da água parar, em seguida ele saindo do banheiro e o bater de baldes e panos; todos os ruídos envolvidos com a limpeza do quarto. O mais ínfimo raio de sol atravessa a cortina quando ele para no corredor. Coloco as mãos em cima da folha o mais discretamente que consigo. Percebendo que não vou falar nada, Dana se senta no lado oposto da mesa.

Levanto o rosto para encará-lo. Sem nenhuma surpresa, seu semblante é de alguém que acordou de um pesadelo e vomitou de madrugada. Se possível, suas olheiras têm um tom mais escuro e sua boca um mais claro.

— Eleonora e Hiezabel saíram pra comprar pizza – Ele começa, suas mãos traçam figuras no tapete e ele as fita – E aí a Elisheva disse... que seria engraçado se a gente tomasse uma parte do vinho e enchesse o resto com suco de uva. E foi o que nós fizemos.

Puro arrependimento emana de sua voz, da postura curvada e a cabeça abaixada. Luto contra um sorriso visto que Dana se justifica embora eu não tenha o questionado sobre nada. Quem visse a cena de longe, poderia imaginar que ele está no banco de réu, aguardando a sentença de um crime hediondo.

— Acho que é seguro dizer que você precisa aprender a beber – Incredulidade afeta minha voz. Acho difícil de acreditar que Dana cederia de bom grado a sugestão de Elisheva, porém não sei o que me faz chegar a essa conclusão. De forma hesitante, ele ergue o rosto e sustenta meu olhar.

— Já que eu te fiz um favor você pode me dizer uma coisa? – Pergunto o encarando. É uma informação que eu poderia descobrir de outra forma, mas pegar atalhos quando eu posso ir direto a fonte é um desperdício de tempo. Ele assente, propriamente disciplinado – Onde você vivia antes de morar com a sua irmã?

Suas bochechas perdem toda a cor restante, ele coloca as mãos no colo e cruza os dedos. Essa não era a pergunta que ele estava esperando. Por fim, ele responde, achando muito interessante estudar o gesso do teto.

— Com minha mãe e ele.

— Ele? – O pai?

— O namorado dela – Ele balança a cabeça com desdém .

— E por que você mora com a Eleonora?

— Uma coisa.

— O que?

— Uma coisa – Ele repete, voltando a estudar o tapete. Ah, ele só ia me responder uma coisa.

— Meu pai foi assassinado e minha mãe desapareceu. — Dana responde e dá de ombros. — A Eleonora me trouxe pra cá.

Puxo os papéis de cima da mesa e Dana, ao ouvir o ruído das folhas, volta a prestar atenção em mim. Não diz nada e não precisa dizer. Ele quer ver o desenho, quer uma distração, qualquer coisa serve. Ele não sabe que o desenho mostra o próprio sentado no chão, coroado pelas sombras da copa da árvore, folhas secas ao seu redor

Minha resolução balança, contudo, sou confortado pela possibilidade de Dana ser a primeira e última pessoa a ver as imagens. A vergonha ameaça romper meu estômago vazio, é por uma causa maior, repito mentalmente. Fecho uma mão cravando as unhas na palma, e com a aberta, empurro a folha no topo da pilha na direção oposta à minha.

Dana encara a folha, olha pra mim, volta a encarar a folha. Leva uma mão ao rosto e, quando estou me perguntando por que, a parte exposta confessa o sorriso escondido e uma parte das bochechas ruborizadas. A reação quase faz minha própria vergonha valer a pena. Quase.

Quero falar algo para atiçá-lo, mas minha língua parece pesar em minha boca. Não consigo romper o vexame. A resposta de Dana ao invés de me incentivar faz minhas pernas ficarem moles. Ele se recupera mais rápido do que eu, além do rosto corado, seu semblante está normalizado quando ele abaixa a mão.

— Está... incrível – Dana permanece observando o desenho em silêncio.

É um daqueles momentos que espero reações que meu corpo não produz. É o empurrão necessário para voltar a meu estado normal e banir o adolescente lisonjeado que não consegue falar para o mais longe de mim o possível.

— Obrigada, mas não poderia ficar de outra forma.

— Ahn?

— O desenho tem só uma parcela de crédito, afinal, se a fonte de inspiração não for, pelo menos, extraordinária como a obra vai ser? — Dana desgruda os olhos do papel. Sua boca abre e fecha várias vezes, no entanto nenhuma palavra sai. Ah, é muito melhor estar desse lado e não ser a pessoa sem palavras.

— Muito engraçado – Dana retoque já se levantando.

— Você pode ficar com esse. Eu tenho outros – Ergo os papéis com desenhos não acabados e, apesar da iluminação tênue, Dana reconhece a figura em todos eles. Seu rosto alterna entre branco e vermelho, um pouquinho de roxo me diz que ele está prendendo a respiração.

— Você não pode usar minha imagem sem minha permissão! – Dana dispara antes de marchar para o corredor. No meio do caminho ele congela , volta, puxa a folha de cima da mesa e volta para o quarto, a curva petulante de seu queixo paralela ao chão.

— É mesmo? – Murmuro, dobrando as folhas ao meio.

Mesmo depois que ele se vai, minhas mãos continuam trêmulas. Patético. Eu sou patético. É apenas um desenho e parece que meu coração inexistente está batendo tão forte. Felizmente, comparando isso com as outras coisas, Dana parece reagir mais intensamente sob medo e constrangimento. É isso. Vou envergonhá-lo até a morte e espero não morrer uma segunda vez durante o processo.

O domingo na casa de Dana passa mais devagar do que uma semana inteira na minha. Ele não sai do quarto até Eleonora acordar, e aí não posso mais desenhar porque ela se assustaria com um lápis se movendo sozinho na mesa de centro. O almoço é silencioso, Eleonora lava a louça em uma contemplação profunda, Dana senta-se à mesa claramente não-me-ignorando. Depois, eles se sentam na sala. Eleonora traz consigo um kit e passa o resto da tarde fazendo as unhas enquanto Dana assiste televisão e prossegue não-me-ignorando. Ao final da tarde, a loira se oferece para fazer as unhas dele. Dana hesita e, como de costume, recusa.

— E o seu cabelo? – Ela pergunta, examinando suas unhas contra a luz – Você quer que eu corte?

Ele puxa uma mecha de seu cabelo, comprido o suficiente para chegar até suas sobrancelhas.

— Ainda não.

Se eu não tivesse ouvido Eleonora reclamar no dia anterior, não reconheceria a frustração em seu semblante. Com um sorriso congelado, ela deixa Dana assistindo televisão e volta para seu quarto. Após sua partida, poderia ser apenas minha imaginação, Dana parece relaxar, sua postura continua perfeita, contudo, ele não fica rígido como se estivesse carregando um fuzil nas costas. Do meu lugar no tapete consigo percebê-lo me olhando de esguelha várias vezes.

— Tem alguma coisa no meu cabelo? – Pergunto olhando para a parede.

Não — Ele responde. Pelo canto do olho o vejo dando um tapa na própria testa. Dana assiste a TV por mais alguns segundos, eu poderia estar errado, todavia o escuto suspirar – Não é nada

Notas finais
sabe eu não achei que as pessoas iriam ler de vdd então se você está aqui ignore que eu sugeri ready for minha xota como música pra ouvir durante o capítulo