Hölle

8 Agnosthesia


Notas iniciais
Agnosthesia Substantivo. O estado de não saber como você realmente se sente em relação a algo, o que lhe força a examinar e procurar por pistas em seu próprio comportamento, como se você fosse outra pessoa. Sugestão de música: Jessie Reyez - Coffin

Uma criança corre pela sala, seus pés batendo contra o piso de uma madeira tão desgastada que poderia muito bem ser um chão de terra. As paredes não são menos decrépitas; a pintura, em sua maior parte, descascou há tempos e a infiltração do teto se estende até elas. A luz amarela da lâmpada minúscula adiciona sombras de repugnância no cômodo, combinada com o sofá rasgado e a televisão em estática, o lugar parece uma casa abandonada. E, ainda assim, a criança corre como se nada fosse alarmante. Ela parece estar brincando, toca uma parede, a outra, conta até dez e corre.

Dana fabricou o cenário por si só, quando fui puxado para dentro do sonho, ele já tinha começado. Não tenho a mínima ideia do porquê Dana estar sonhando com um lugar caindo aos pedaços, é impossível que essa seja a casa que ele morava antes de morar com Eleonora, pois a criança não seria a protagonista do sonho.

Ou talvez eu esteja procurando muita lógica dentro de um sonho; Sonhos não tem lógica.

Suprimo um bocejo. Não só o dia foi desinteressante, o prospecto da noite não parece melhor. Apesar do tédio do sonho, encontro um ponto positivo. Dana, com as bochechas arredondadas permanentemente vermelhas, os olhos castanhos sem a moldura de olheiras escuras e o cabelo claro, é uma criança fofa. Infelizmente para ele, a criança não está sozinha em seu inconsciente.

Passos pesados ecoam atrás da porta de madeira apodrecida. A criança para de brincar, a atenção pregada na porta. Os passos se aproximam, assustando Dana o suficiente para que ele procure abrigo no quarto, porém, quando ele corre para o sofá a única coisa que ele encontra é um espaço vazio. A televisão também vai. Conforme os passos se aproximam, a luz se esmaece. No instante em que uma mão pesada esmurra a porta, as luzes se apagam. Dana tem o bom senso de não gritar, mesmo em sonho, ele cerra os dentes e se agacha cobrindo a cabeça com as mãos.

Seu corpo treme tanto quanto a porta sendo socada. Nós ficamos assim por um tempo, as batidas não cessam e o pavor revela-se ainda mais em Dana. Gotas de suor se misturam as lágrimas, os dentes cerrados não são o suficiente para abafar o berro em sua garganta, então ele segura o lábio inferior entre os dentes. Me pergunto se ele vai ter uma marca quando acordar.

Ele quer ficar plantado no chão? Ótimo. Desejo concedido.

A madeira é rompida pelo par de garras, as pontas e farpas não fazem diferença para a criatura prestes a rastejar pelo buraco. Vendo a coisa grotesca rastejar até a criança, o ridículo de tudo fica evidente pra mim. O Dana real não é uma criança, monstros e criaturas podem assustá-lo dentro do pesadelo, entretanto, fora dele eles não têm poder. Ele acorda, lembra que já conhece um monstro e segue com o dia.

A criatura transfigura-se. Dana treme violentamente, incapaz de mover um músculo ouvindo a entidade aproximar-se. É tudo o que ele pode fazer, principalmente quando ela fala em sua mente com a mesma voz de Eleonora.

— Dana, Dana, Dana, essa casa vai cair na nossa cabeça e a culpa é sua. Você quer ver isso, não quer Dana? Você vai dançar sobre os meus ossos e cuspir no meu túmulo. Maldito moleque ingrato! – Nada do que a criatura Eleonoreesca diz, vem de mim. Eu apenas desejei que ela cutucasse as feridas de Dana, por assim dizer – Eu poderia ter me casado, ele ia me pedir em casamento antes de você! A gente ia ter um filho, eu ia ser uma mãe e uma madrasta, mas não, o Dana tinha que aparecer e estragar tudo.

Os cortes de Eleonora são precisos e ela nem o tocou ainda. A forma pegajosa se enrosca nos pés de Dana, subindo aos poucos, o envolvendo como uma serpente, enquanto ele, paralisado, não pode fazer nada mais do que sentir seu corpo ser consumido e ouvir os insultos.

Acordo na mesma posição que dormi, sentado contra a parede encarando o rosto adormecido de Dana. Com o lápis que ele nunca pegou de volta cutuco sua bochecha. Após algumas furadas insistentes, Dana abre os olhos. Pela primeira vez ele não se levanta logo em seguida.

Ah— Dana cobre a cabeça com o edredom. A mudança de planos não funcionou. O pesadelo não fez nem cócegas se ele é capaz de voltar a dormir assim que acabou. Quando ele estiver na escola, vou proc-

Um soluço rompe o silêncio da madrugada, tão suave que poderia ser um suspiro, não fosse seguido por vários outros. Resisto ao impulso de puxar o edredom e confirmar o que acho ouvir. Mas não preciso ver para saber. O som é inconfundível, Dana chora quietamente com o enterrado sob o lençol. Inacreditável.

— Argh, para de me encarar – Com a voz embargada, ele reclama. Não me mexo. Ele deve ver pelo menos minha silhueta, pois se vira para o outro lado.

— Por que você está chorando? – Não é uma pergunta retórica. Quero saber o que exatamente produziu o efeito inusitado.

— Eu tive um pesadelo e me lembrou da minha mãe e quando eu era pequeno e tinha pesadelos ela dormia comigo mas agora ela foi embora e eu não vou pedir pra Eleonora e a única pessoa aqui é você e você nem é uma pessoa – A resposta é dada em apenas um folego e na voz tremida de alguém que está segurando lágrimas. É um pouco mais do que eu esperava. Todavia, lembro-me claramente de Eleonora ter sido a voz do monstro, seriam ela e sua mãe tão parecidas a ponto de o próprio Dana se confundir? E, o mais importante, isso foi ou não um convite implícito para dormir... na cama. Não é como se eu não tivesse feito isso antes, porém, Dana estava dormindo e não havia um convite implícito em suas palavras.

Ele continua a soluçar silenciosamente. Uma satisfação estranha eclipsa meu raciocínio. Você entende, Dana? Não tem ninguém aqui além de mim. Nunca terá. Sento-me na extremidade oposta da cama, um vão considerável entre Dana e eu. Ao sentir o peso no colchão, ele abaixa o edredom o suficiente para que apenas seus olhos avermelhados e inchados sejam visíveis.

A visão espalha calor em meu peito. O pouco de culpa que havia lá é empurrado para fora, e a parte entretida em manipular Dana é única existente. Eu fiz isso. Eu fiz ele chorar. Eu posso tirar ele do sério. Eu posso fazer o que eu quiser, ser a raiz de qualquer problema, e ser recebido por ele como um benfeitor.

— Ahn... obrigada – Dana sussurra.

Reviro minhas memórias da semana. Em nenhum momento Dana carregou seu iPod, mas na quarta-feira, duas semanas depois, ele ainda segue firme e forte me ignorando com seu fone de ouvido. A não ser durante o intervalo, para Dana, eu sou invisível na escola. Ele sequer olha em minha direção assim que entramos no prédio – Como se não fosse eu quem o acorda todos os dias, passa o resto do dia com ele e vive em seus pesadelos a noite.

Na quinta, o deixo ir sozinho para a sala de aula, não que ele vá notar que não estou perseguindo sua sombra. Sigo o caminho familiar para a biblioteca. Dana sempre se senta no canto mais remoto, na mesa atrás da seção de línguas estrangeiras. Os dias acompanhado por Dana não são tão diferentes dos que eu passava antes, vagando invisível como um fantasma. Prefiro vagar invisível como um demônio, apesar do cuidado extra, como por exemplo, sentar em uma mesa distante para que outras pessoas não vejam um livro flutuante com um lápis pairando sobre ele.

A folha entre as páginas do livro é remanescente das que Dana me deu. Gosto de pensar que não sou arrogante, mas ao olhar para os traços no papel uma pontada de orgulho me atinge. Creio que como um demônio não deveria reprimir essas emoções, contudo, fecho o livro e o seguro contra o meu peito. Não preciso mais olhar para o desenho, cada linha já está gravada em minhas pálpebras. Dana teria um aneurisma se visse; o pensamento me entretém.

Ele torceria o nariz e ficaria vermelho como uma cereja ao se ver dentro da banheira, o cabelo escorrido grudado a testa, os olhos semicerrados e a boca fixa em uma linha rígida, apenas seu rosto visível sobre a água que, pela minha falta de estudo de objeto, reflete a luz sem revelar o resto de Dana. E, envergonhado como ele é, sairia com a folha e me deixaria com a liberdade criativa de lhe recriar novamente, como já fez antes. Me pergunto o que ele fez com o primeiro desenho que pegou de mim.

Reabro livro e começo a trabalhar em outro rascunho. Desenhando, costumo perder a noção de tempo mais do que o normal. Só para o lápis ao ouvir Dana se aproximando pelo corredor. Ele se senta à minha frente, um livro embaixo de seu braço. Não é estranho que ele se sente sem uma palavra e fique encarando o nada, mas hoje o sinto roubar olhares furtivos em minha direção. Risco o papel algumas vezes antes de fechar o livro.

— E aí?

— Você não pode me seguir hoje – Ele diz em voz baixa. Não é um pedido, mas também não soa como uma ordem.

— Por quê?

— Eu tenho um lugar pra ir e eu tenho que ir sozinho – Dana responde, sério. Essa é nova. Dana não me diz onde eu posso e não posso ir, contudo, não disperso sua ilusão.

— Você tem um encontro ou alguma coisa assim? – A reação de Dana é automática. Ele cerra os olhos e inclina a cabeça.

— É, alguma coisa assim.

— Ótimo.

Ele abre o livro em cima da mesa e um folder colorido cai dentre as páginas. Coloco meu próprio livro no colo e puxo o folder.

HALLOWEEN FEST 201X

NOITE DA INVERSÃO

GOSTOSURAS OU TRAVESSURAS?

ENTRADA GRÁTIS P/ QUEM VIER A CARÁTER

— Eles estavam distribuindo nas salas de aula – Dana responde à pergunta estampada em minha testa. Nem em um milhão de anos consigo imaginá-lo em uma festa, ainda mais fantasiado.

— Do que você vai se vestir?

— De Diabo. Ele tem chifres e um rabo ou não? – Dana toca o queixo como se realmente considerasse a ideia, mesmo que todo o resto diga que ele está debochando.

— Não. Ele é... – A imagem de Lúcifer na única vez que o vi me vem à mente – fascinante e parecido com você, tirando a cor dos olhos.

Dana franze as sobrancelhas. Em parte estou provocando, mas ele não faria um mal Lúcifer. Ele apoia o rosto nas mãos.

— Você pode colocar um lençol na cabeça e ser um fantasma.

Dana não estava brincando sobre precisar ir sozinho. Eleonora não vai buscá-lo na escola e ele não pega o ônibus. Dana caminha em uma direção com a qual estou familiarizado. Imaterialmente, caminho atrás dele até o hospital aparecer no horizonte. Aparentemente, Dana também é familiarizado com o lugar. Ele cumprimenta o segurança na porta e a recepcionista. Não escuto o que ele diz além disso, porém sinto que a surpresa vai me distrair e é o que eu preciso depois que piso dentro do prédio. Olho para Dana, tentando focar em sua figura, mas minha mente insiste em voltar ao tempo em que eu ficava nessa mesma recepção esperando o Dr. Malloch por horas a fio. E o dia que culminou em nossa morte.

A recepcionista chama o nome de Dana e ele se levanta e entra em uma sala ao final do corredor. Em seu encalço, entro no consultório e fico a suas costas. A senhora sentada do outro lado da mesa sorri quando Dana se senta. Ela usa óculos gatinho e seu cabelo comprido não se decide entre ser castanho e grisalho.

— Dana, é sempre bom revê-lo.

— Igualmente.

— E então? Como estamos?

Para minha surpresa, Dana relaxa na cadeira. Ele cruza as pernas e coloca as mãos em cima da mesa.

— Indo.

A mulher folheia uma pilha de páginas à sua frente, revendo algo antes de voltar a olhar para Dana.

— Na última vez nós discutimos seu ciclo circadiano. Como está agora?

— Eu durmo em um horário normal, agora o problema é que eu acordo muito cedo e sempre tenho pesadelos, mas, a gente pode falar de outra coisa antes? – Dana sendo assertivo? O que essa mulher fez com ele?

— Claro, sobre o que você quer falar? – Ela rabisca na folha.

— Sobre amigos.

— Amigos? – Ela para de rabiscar e empurra seus óculos para cima.

— Aham. O que amigos fazem? – Dana tamborila os dedos na mesa.

— Bom, amigos conversam, saem juntos, se divertem, se ajudam. Você fez algum amigo recentemente, Dana? – Ela se inclina na cadeira, esperando a resposta.

— Não tenho certeza, acho que sim.

— O que faz você considerar essa pessoa um amigo?

— Essa é a parte que me confunde. Essa pessoa vive tirando sarro de mim, me ignora e-

— Isso não parece um amigo pra mim.

Eu sei, mas ele sempre me acorda quando eu tenho pesadelos e-

— Ele dorme na sua casa? Com você?

— SI-NÃO.

— Está tudo bem Dana. Você não precisa se envergonhar, contanto que seja consensual, é completamente natural que jovens da sua idade-

— NÃO É ISSO – O rubor alcança até sua nuca.

— Ah, me perdoe por assumir coisas sem esperar você terminar. Por favor, continue. Essa pessoa é sua amiga? – Então é assim que ela faz ele falar.

— Eu acho que sim, apesar do que eu disse antes, eu acho que sim.

— E...? – Ela pressiona.

— Eu tenho medo.

— Naturalmente. Mas, de que?

— Muitas coisas, na verdade – Dana considera a pergunta, o olhar perdido na janela. Espero ele começar a falar que esse “amigo” se apresentou dizendo que ele deveria se matar, que o amigo diz ser um demônio e que ele é a única pessoa que pode vê-lo, todavia, Dana não diz nada. Ele puxa de dentro de sua mochila uma pasta, e a estende para a mulher. Minha visão fica vermelha. É o desenho que ele pegou de mim – Ele fez isso.

— É lindo, Dana – Ela corre o dedo pelas linhas e olha por cima dos óculos para ele.

— Mas, Rashida, e se e quando ele descobrir ele vai me odiar e aí eu não vou ter nenhuma pessoa fora da minha família porque eu conheci essa garota, Elisheva, mas ela não conta e eu não posso falar com a Eleonora e a mamãe não vai voltar nunca-

— Dana, respira. Respira. – Rashida, inspira e expira e Dana a imita. Eu não tinha percebido, mas as mãos tamborilando em cima da mesa se moveram para puxar o cabelo em sua nuca. Quando ele parece estar calmo, ela continua – Você foi ensinado em casa, certo?

— Metrodidata – Ele diz e ela acena com a cabeça em reconhecimento da palavra que pra mim soa como o nome de um antibiótico.

— E, por um bom tempo, seus pais foram as únicas pessoas com as quais você interagia, sim?

— Sim.

— Dana, você não acha, essa falta de variedade nas suas relações afetivas pode ser uma razão para o seu medo de exposição?

Ele cruza os dedos sobre o colo.

— Eu não sei.

—Eu não posso prometer que seu amigo vai reagir positivamente, as pessoas são imprevisíveis, e você não é obrigado a compartilhar o que não quiser, mas algumas vezes nós precisamos expor partes de nós que não são bonitas, partes das quais nos envergonhamos. Nós não somos feitos só de partes bonitas.

Notas finais
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