Hölle

25 Extra VI: Hayloft


Notas iniciais
gagagagaga

As pernas compridas de Amatore se esticavam além do sofá-cama. Nunca foi um problema muito grande, ele raramente dormia no apartamento, mesmo quando cochilava durante um filme ou episódio. Eleonora gostava de tê-lo por perto assim, aconchegado contra seu lado em uma noite chuvosa, assistindo um filme horrível e fazendo chacota de tudo.

— Você precisa de uma cama maior. — Amatore resmungou ao encolher as pernas.

— Ou um namorado menor.

A réplica de Amatore foi interrompida pela vibração do celular de Eleonora. A loira encarou a tela, o número da ligação desconhecido. Uma ligação às 11 da noite de um sábado não poderia ser coisa boa, Eleonora pensou enquanto atendia.

— Boa noite, é a Eleonora Hoyer que está falando?

— Sim, sou eu. — Ela sentou-se, um alarme soando em sua cabeça.

— Você não deve lembrar de mim, é a Margarethe. Eu sou vizinha da Bettina. Eu sinto muito.

— Ela está bem? O que aconteceu?

— A Bettina faleceu. Ela caiu da escada e não conseguiu chamar ajuda. Encontraram o corpo dela hoje e nós estávamos tentando entrar em contato com alguém da família. Em quanto tempo você consegue chegar aqui?

Em 36 horas com Amatore dirigindo. O funeral já estava acontecendo quando eles chegaram. A vizinha cedeu o lugar ao lado do caixão a Eleonora e ela passou horas recebendo condolências de conhecidos e desconhecidos. Amatore ficou do seu lado pelas primeiras horas, mas Eleonora não era indiferente aos olhares tortos amigos de sua avó; Eleonora odiava cada segundo daquilo.

Ela lhe convenceu a ir para um hotel com a promessa de que explicaria porque quando tudo estivesse acabado.

— Eu acertei o valor com a funerária, você pode me pagar em parcelas se for muito alto, eu não me importo.

— Não, por favor, eu não vou abusar da sua generosidade. Me dá a sua conta e eu vou pagar hoje mesmo.

— O que? Hoje não. Você vai ficar aqui com a Bettina. A gente resolve isso depois.

Depois de um abraço, Margarethe se foi. Eleonor fechou as portas da casa. Sentou-se diante do caixão fechado e tomou um gole do café. Oma era uma figura controversa em sua mente. Oma lhe criou, pagou por sua escola, sua faculdade, sua carteira de habilitação; Eleonora devia sua vida a ela. Essa era a pior parte. A ingratidão misturada a raiva e a vergonha. Como ela poderia odiar a mulher que havia lhe dado tudo?

Bom... Não tudo. Eleonora não sabia exatamente porque sua avó lhe criou. Ela se lembrava de ter uma mãe, um pai e um irmão. Se eles me amassem de verdade, ela pensou, não teriam me deixado com ela.

Oma lhe lembrava a bruxa de João e Maria. Uma senhora doce e gentil na superfície, uma bruxa debaixo da máscara. Oma não era uma simples mulher branca e conservadora, não, ela era pior. Oma trouxe consigo, quando emigrou da Alemanha, várias palavras terminadas em —ismo e -ia. Todo o seu círculo de amizades era assim. Amatore, cuja pele era pouco mais clara do que café com leite, se destacava sentado entre os amigos pálidosde Oma. Era um milagre que Eleonora não carregava as mesmas ideologias de sua avó.

Já acabou. Eu vou começar a desmontar tudo aqui, você não precisa vir ajudar.

11:34

Eleonora já segurava o telefone contra sua orelha quando Amatore ligou.

— É sério. Eu vou tirar tudo de dentro dos armários e colocar o que eu conseguir pra fora da casa e ligar pra uma imobiliária de manhã.

— Você não precisa fazer isso agora, Nora. Vem pro hotel dormir. Depois do enterro amanhã nós podemos chamar montadores e um corretor.

— Eu não quero ficar aqui mais tempo que o necessário. Depois do enterro eu quero voltar pra casa. — Eleonora cobriu os olhos com o antebraço para enxugar as lágrimas silenciosas. Ela estava sentada na sala da casa onde havia sido criada dizendo que queria ir pro kitnet minúsculo em outro estado, o qual ela se referia como "casa".

Uau, eu sou desprezível, Eleonora pensou.

— Eu chego aí em 5 minutos.

— A chave da porta está embaixo do tapete.

Com um tapa na tampa do caixão, Eleonora se levantou e foi para a cozinha. Mecanicamente ela colocava as louças, panelas e potes dentro de caixas de papelão. Seu plano era doar o que aceitassem em brechós. Amatore a encontrou empurrando as caixas para o hall de entrada.

— Você está adiantada.

Eleonora se deixou ser abraçada pela cintura. Ela poderia aproveitar

Um

Dois

segundos de conforto antes de chorar. Se afastou e apertou a mão de Amatore.

— Nós vamos conseguir terminar tudo hoje.

Oma não tinha tanta coisa assim. A casa estava praticamente vazia às 3 da manhã. O último cômodo era o quarto. Oma não havia mudado nada, Eleonora pensou, correndo os dedos pelo brocado na parede. Uma cama de casal, um closet pequeno, uma penteadeira e dois criado-mudos que ela sempre mantivera trancado. O cheiro de talco impregnava o carpete. Amatore despejava a gaveta da penteadeira em cima da cama quando Eleonora notou as chaves entre as bugigangas.

— Ei... Eu nunca abri o criado-mudo antes.

— Quer abrir agora?

Eleonora se sentiu como uma criança prestes a ser repreendida por uma travessura. Ela sorriu e pegou as chaves. Amatore estava ao seu lado com uma mão steadying em seu ombro.

— Abre.

Ela virou a chave e abriu a gaveta. Uma gaveta repleta de cartas a encarava de volta.

— O que é?

— Eu não sei, eu nunca vi isso antes.

Eleonora puxou os envelopes e os derramou em cima da cama. Agarrou o mais próximo de sua mão e o abriu.

Mutter, você ganhou mais um neto. O nome dele é Dana. Ele tem o cabelo loiro como eu. O próximo vai ter o cabelo preto como o Ezechiel, eu tenho certeza. A Eleonora aprendeu a contar até 100. Ela é uma menina esplêndida. Você deveria nos visitar algum dia. O Ezechiel não guarda rancor. Beijos.

Eleonora folheou várias cartas similares, sua mãe contando pequenas coisas sobre a família e pedindo que Oma os visitasse. Ela quase desistiu de ler as duas últimas cartas, mas Amatore, que lia outras cartas a seu lado, as empurrou em sua direção, os olhos ligeiramente arregalados.

Mutter, por favor. Eu preciso da sua ajuda. As coisas estão muito difíceis. Eu sei que você não se importa que o Ezechiel tenha sido assassinado, mas você também não liga para os seus netos? Eu não quero nenhuma ajuda pra mim, só para eles. Por favor. Nós estamos prestes a sermos despejados. Por favor, ajude os seus netos.

E anexado a carta estava uma foto da pequena Eleonora no auge dos seus 6 anos de idade, uma criança menor em seu colo.

Eleonora é uma boa garota. Não é permanente, certo. Eu juro que vou buscá-la assim que tiver um emprego estável.

Eleonora amassou a carta sem ler até o final. Essa claramente era uma grandíssima mentira.

Mutter, você pode não responder as minhas cartas e mentir pra minha filha, mas não finja que se algo acontecer com o Dana você não terá sua parcela de culpa. Essa é a última carta que eu lhe escrevo. Não se espante quando eu e ele aparecermos dentro de sacos pretos na sua porta.

O espanto em seu rosto era refletido no de Amatore. A carta estava datada de 5 meses antes. Talvez Dana e ela ainda corressem perigo, seja lá qual fosse. Eleonora checou o endereço no envelope.

— Você se importa se a gente esticar a viagem?

Notas finais
eu literalmente esqueci de editar esse capítulo, e ai quando eu editei lembrei pq esqueci nomes e datas, gente eu tinha até um mapa mental pra ter certeza que a linha do tempo estava consistente kkkk lesa