Hölle

26 Extra VII: Mary


Notas iniciais
Nós superamos os as sirenes Olhamos para a esquerda e para a direita E eu consigo sentir a dormência acompanhando minha dor

Ele não se importava. Amatore dirigia de dia e Eleonora de noite. Dois dias depois, às 6 da tarde, Eleonora encostava no meio-fio na frente de uma casa decrépita. Parte do muro que circundava a casa havia caído dentro do terreno, a casa em si parecia abandonada. Tábuas cobriam os vidros quebrados das janelas, o telhado era desalinhado e com telhas faltando, partes da parede ficavam expostas e Eleonora mordeu o lábio de nervoso. A coisa toda parecia prestes a cair com um soprar de vento.

— Acho que a gente deveria esperar um pouco antes de bater na porta. — Amatore mal concluiu a frase e a porta da frente foi aberta.

Um homem saiu da casa. Ele usava camiseta, calça e tênis. Deveria ter, no máximo, 40 anos. Poderia ser seu pai? Eleonora especulou, apertando as mãos no volante. O homem abriu o portão e saiu, olhando para os lados furtivamente. Eleonora conseguia ver luz saindo das brechas entres as tábuas, estava prestes a sair do carro quando a porta se abriu novamente.

Um garoto espreitou atrás da porta, uma cabeça loira com cabelos compridos e bagunçado. Eleonora estava no portão, mãos agarrando as barras de metal, antes de se dar conta de suas ações.

— Dana!

— Uhn?

A porta se fechou tão rápido que Eleonora pensou ter imaginado a coisa toda. Ela ouviu Amatore se aproximando e estendeu a mão para agarrá-lo.

— Ele tava ali, né? Tinha alguém ali, né?

— Sim, eu acho que você assustou ele. Quer tentar de novo?

Eleonora respirou fundo.

— Dana Reyes? É você? Eu sou Eleonora Reyes Hoyer, eu sou sua irmã. Você é meu irmão mais novo.

E Dana abriu completamente a porta.

— Eu posso provar. — Eleonora ergueu a pasta que ela nem se lembrava de ter pegado ao descer do carro.

— Eu não tenho a chave do portão.

Eleonora olhou para o ponto mais baixo do muro. Não era nada maior do que ela tinha pulado em suas fases rebeldes na adolescência.

— Você consegue pular? — Perguntou virando-se para Amatore.

Eleonora espanou o concreto em seus jeans. Amatore não parecia com alguém que acabara de invadir uma propriedade privada. Ele colocou uma mão em suas costas, guiando, e caminharam até a casa. Dana cedeu a passagem e Eleonora apertou a mão em sua camiseta para não deixar transparecer seu espanto.

A casa era tão disforme por dentro quanto era por fora. Dana se sentou em um sofá e Eleonora e Amatore em outro. Eleonora lutava para encontrar as palavras que estavam em sua cabeça desde que leu a carta. Ela não as encontrava pois estava ocupada surtando diante da aparência de Dana. Sua palidez cadavérica, olheiras profundas e magreza extrema inspiravam em Eleonora o desejo de jogá-lo sobre seu ombro e levá-lo a um lugar seguro, o que a casa atual definitivamente não era.

— E aí? Como estão as coisas? — As palavras ecoaram em todas as paredes e voltaram para Eleonora. Ela não conseguiu evitar a careta que seguiu diante de uma pergunta tão óbvia.

— Ótimas. — Dana falava em voz baixa e seus olhos voltavam para a porta atrás do sofá. Eleonora queria estalar os dedos e chamar sua atenção. — Porque você está aqui?

— Eu achei a carta que a mamãe escreveu pra nossa avó.

— E ele? — Dana apontou com o queixo para Amatore, que assistia a conversa em silêncio.

— Esse é Amatore, meu namorado. Ele está me acompanhando.

Eleonora correu os olhos pelo cômodo e sua atenção parou no objeto atrás de Dana. Com a luz fraca, ela não conseguia distinguir exatamente o que era, mas Dana notou.

— Dana, o que está acontecendo? Cadê a mamãe? Quem é aquele homem que saiu daqui?

Dana cerrou os lábios como se estivesse, fisicamente, tentando conter as respostas. Suas mãos se fecharam em punhos e ele as bateu contra os joelhos.

— Eu não sei… se eu deveria te contar.

— Você pode confiar em Eleonora. Ela só quer ajudar — Foi Amatore quem interviu e entregou a pasta a Dana, que a segurou como se pesasse uma tonelada.

Eles assistiram o garoto folhear fotos, cartas, uma cópia da carteira de identidade de Eleonora. Eleonora imaginou que ele demorou demais na última página, vendo o nome da mãe deles impresso no papel. Dana não relaxou. Se qualquer coisa, sua expressão se tornou mais urgente.

— Eleonora, mesmo que eu diga não vai adiantar nada. Eu não posso sair daqui, ele nunca vai deixar.

— Ele quem?

— O namorado dela.

E Dana levantou sua camiseta. O objeto estranho que Eleonora havia visto era na verdade uma corrente comum, se estendendo de algum lugar da cozinha e terminando ao redor da cintura esquelética de Dana, presa com um cadeado do tamanho de um punho fechado. A pressão do metal desenhou hematomas em sua pele clara e em alguns pontos, sangue opaco manchava a corrente.

Amatore estava de pé com o celular em mãos e Eleonora não sabia para onde olhar e Dana se levantou com as mãos erguidas e a sala parecia estar girando com a quantidade de coisas ocorrendo.

— Eleonora, nós temos que ligar pra polícia — Amatore disse, a urgência em sua voz refletindo em Dana.

— Por favor, a polícia não. Qualquer coisa menos a polícia, se vocês chamarem a polícia ele vai, ele vai-

Dana interrompeu sua própria frase repentinamente, olhos fixos no tapete e mãos puxando o tecido de sua calça. Eleonora cutucou Amatore, ele deveria saber como lidar com adolescentes, ele não tinha um filho adolescente? El es agiam assim normalmente?

— Dana, a gente não vai ligar pra polícia — Amatore assegurou. — Você pode nos contar o que está acontecendo?

— A mamãe… a nossa mãe foi embora há quatro meses. Ela me deixou com ele aqui e nunca mais voltou.

Eleonora e Amatore conversavam em silêncio. Na última piscada, Eleonora teve certeza que eles pensavam a mesma coisa.

— A gente pode te tirar daqui Dana. Eu moro em um estado bem longe daqui. Ele nunca vai achar você. — A última vez que Eleonora se lembrava de ter usado uma voz tão suave foi quando estagiou em uma UTI neonatal. — Sem envolver a polícia — Acrescentou tremulamente.

Dana sacudiu a cabeça com veemência.

— Dana, você é minha única família agora. E eu sou a sua única família. A vovó morreu, a mamãe sumiu e o papai- Eleonora se pegou sem palavras. Ela ainda não havia confrontado essa realidade. — Eu NÃO vou deixar você dentro desse buraco com-com esse cara.

Dana olhou para ela como se a enxergasse pela primeira vez.

— Amatore?

— Sim?

— Procura alguma coisa para quebrar essa corrente. Eu e Dana vamos ficar aqui e arrumar as coisas.

Amatore puxou o celular do bolso e estava prestes a ir para a cozinha quando Dana disse:

— Não tem nada na casa que possa partir ela, eu já procurei.

— Eleonora, posso falar com você aqui fora?

Eleonora o seguiu para o pátio minúsculo, seus olhos voltando para Dana imóvel no sofá da sala.

— Eu vou procurar uma loja de ferragens ou material de construção. A gente precisa ir o mais rápido possível. Fica com o seu celular na mão, caso aconteça alguma coisa.

E com um aperto tranquilizador em seu braço, ele foi pular o muro. Eleonora se virou para Dana.

— Vocês não precisam ter tanta pressa. Ele trabalha das 6 da noite até as 6 da manhã em um posto de gasolina.

— Bom, ótimo, na verdade. Vamos fazer sua mala.

Os pertences de Dana couberam dentro de uma mochila que Eleonora encontrou na área de serviço. Três blusas, duas calças, um par de tênis e nenhum documento de identificação. Toda a vida de Dana estava dentro da bolsa que Eleonora tinha em seu colo. O plano era quebrar o cadeado da corrente, entrar no carro e dirigir até o próximo estado antes de parar em um hotel. Eleonora estendia o plano em levar Dana para um check-up assim que eles em casa. Eleonora tinha um horrível pressentimento de que Dana estava mais machucado do que era aparente — e só a aparência era ruim o suficiente.

— Ele jogou fora todas as nossas coisas. Meus livros, minhas roupas, as roupas da mamãe.

— Onde… onde ela encontrou esse cara? — Eleonora mordeu a língua para não dizer o que realmente pensava: Como ela pôde trazer uma pessoa tão desprezível para dentro de casa?.

— Ela vendia doces na rua. Um dia ela parou no posto em que ele trabalha…- Dana deu de ombros e o resto da história Eleonora podia muito bem imaginar.

O silêncio foi quebrado pela volta de Amatore, empurrando a porta com uma sacola em seu braço.

— Espero que funcione. — Ele disse, puxando o maior alicate que Eleonora já virá de dentro da sacola.

— Dana? Você se importa? — Amatore gesticulou um levantar de camisa, abrindo e fechando o alicate em suas mãos.

Dana se levantou do sofá e virou de costas. Ele ergueu sua camiseta e Eleonora engasgou com o ar em seus pulmões. Nas costas de Dana, hematomas cobriam cada centímetro de sua pele. Marcas antigas, marcas novas, listras que poderiam ser marcas de dedo e marcas menores que poderiam ser de dente. Eleonora piscou para dispersar o choque. Todas as marcas estavam perfeitamente cobertas pela camiseta. O que teria acontecido com Dana se ela não tivesse visto as cartas?

CLACK

O cadeado caiu aos pés de Amatore e a corrente aos pés de Dana. Amatore estendeu a sacola para Dana e o garoto a encarou sem entender.

— Você pode vestir essas roupas.

Ele pegou a sacola, ainda hesitante. Sua voz tremia quando ele falou de novo.

— Obrigada.

Eleonora olhava sobre seu ombro a cada 5 minutos. Ela não sabia o que estava esperando, um par de faróis os seguindo ou o banco de trás vazio. Eleonora olhou sobre seu ombro. A estrada estava escura e vazia, Dana, vestido com o moletom cinza que Amatore lhe deu, dormia no banco de trás.

— Ele não vai evaporar, Eleonora.

— Eu sei.

— E aquele homem não vai nos seguir.

— Eu… sei.

Amatore suspirou e, apesar de suas palavras, Eleonora o viu checar o retrovisor com a mesma frequência que ela se virava. Eleonora fechou os olhos. Os eventos das últimas 5 horas ficaram frescos demais em sua mente para que ela conseguisse dormir.

Dana não mentira, o homem realmente trabalhava até às 6 da manhã. Porém, naquela noite, um vizinho benevolente achou a movimentação de carro e pessoas estranhas e ligou para ele. Uma série de eventos inoportunos, Eleonora pensou. Ela, Amatore e Dana mal haviam colocado os pés na calçada e o homem dobrou a esquina. A mulher observou as mudanças em seu rosto conforme ele absorvia a situação. Quando ele chegou em sua frente, seu rosto era um misto de raiva, descrença e um pouco mais de raiva.

— Mas o que é que tá acontecendo aqui? Dana, quem é essa gente? O que vocês estão fazendo com meu enteado?

Eleonora cerrou os dentes diante do tom. Ela sentiu o ombro de Amatore tocar o seu e com uma rápida olhadela percebeu que eles formavam um escudo humano para Dana.

— Eu sou Eleonora Hoyer, irmã do Dana. Eu sinto muito que você tenha cuidado dele sozinho por esses meses, mas eu estou aqui para levá-lo pra casa.

— Irmã? Dana, desde quando você tem irmã?

— Desde que ele nasceu. — Eleonora fechou as mãos em punhos. — Agora com licença, nós temos uma longa viagem pra fazer.

Eleonora se virou e o homem avançou com os braços estendidos. Depois, ela perceberia que ele tentava agarrar Dana, mas no momento ela apenas se assustou. Ela piscou e Amatore o havia pego pelos ombros; ela piscou novamente e Amatore o segurava contra o capô do carro.

— Entrem no carro. — A voz de Amatore era calma, ele poderia muito bem estar comentando sobre o clima.

Eleonora entrou no banco traseiro com Dana ao seu lado.

— Dana, você está bem?

Ela não precisava esperar pela resposta. A respiração acelerada de Dana se transformou em soluços e seu corpo inteiro tremia e enquanto ele sussurrava:

— Me desculpa, me desculpa, me desculpa.

— Não, Dana, não.

A frase completa era "Dana, não é sua culpa", contudo Eleonora engoliu as palavras e ao invés de falar, segurou Dana contra seu corpo, uma mão firme em seu braço. Seus olhos nunca haviam abandonado Amatore segurando o homem contra o capô. Ela não era versada em leitura labial, então não conseguiu distinguir a fala de Amatore além de um torcer raivoso em sua boca.

— Eu tenho uma surpresa pra quando nós chegarmos em casa.

— É?

— Sim, e eu espero que você goste.

Amatore virou para o lado errado na rotatória. Eleonora sabia que seu apartamento ficava à direita e ele dobrou a esquerda. Ela segurou suas perguntas para não alarmar Dana. Eles seguiram para fora da cidade, onde as casas eram esparsas e as árvores formavam o cenário perfeito para uma história de terror. Amatore virou a direita e Eleonora pensou que eles estavam prestes a colidir com as árvores até notar uma passagem estreita, coberta pelas folhas.

Ela observava Dana pelo retrovisor.

Ela mordeu a bochecha quando Amatore dirigiu pelo subúrbio e parou em frente a uma das casas.

— Chegamos.

Eleonora abriu um sorriso amarelo para Dana, os dentes cerrados para não dizer "Amatore, o que está acontecendo.". Ela se deixou ser guiada com Dana pelos cômodos. A casa era linda, tudo parecia novo. Eleonora teve palpitações ao imaginar quantos meses de seu salário os móveis planejados da cozinha valiam.

— Nós vamos deixar você se acomodar. Grite se precisar de alguma coisa.

Dana acenou com a cabeça. Assim que Amatore fechou a porta do quarto, Eleonore o puxou para a frente da casa, onde Dana não poderia ouvi-los.

— O que é isso? Amatore, que casa é essa? Quem mora aí? — Mentalmente Eleonora o sacudia pelos ombros a cada pergunta

— Você e Dana. Considere como um presente de-

— NÃO.

— Eleonora, você estava planejando viver naquela kitchenette minúscula com ele?

— SIM! Eu ia procurar uma casa, eu vou.

— Porque você faria isso quando essa casa é sua?

Amatore tinha um resquício de sorriso em seus lábios. Eleonora segurava a cabeça entre as mãos e resistia ao impulso de bater a testa contra a parede.

— Eu não posso aceitar isso. É demais.

— Então não pense nisso como um presente. Pense na casa como um investimento que seu namorado fez.

— E esse namorado está investindo em que?

— Em lugar para vocês morarem quando ele for seu marido.

Eleonora sentiu sua mandíbula descendo sem nenhuma réplica. Amatore segurou seu queixo com a ponta do dedo e ela fechou a boca. Ele não podia sugerir algo tão sério de forma tão leve. A mente de Eleonora voltou para o garoto a um cômodo de distância.

— Eu não sei-

— Você tem muita coisa pra lidar agora. Eu vou pra casa, você fica aqui em casa e mais tarde eu passo por aqui pra ver como estão as coisas, que tal?

Eleonora respondeu com um beijo que seria algo mais se Dana não estivesse em casa.

— Obrigada… por tudo.

Amatore beijou sua testa e Eleonora piscou para dispersar mais lágrimas que insistiam em se formar.

— Eu vou dizer tchau pro Dana.

Eleonora cruzou os braços e o assistiu. Essa era sua vida agora. Ela era a outra mulher, a que recebia presentes, como uma casa mobiliada, e dava um beijo de despedida no namorado quando ele voltava para sua família, disfuncional como fosse. Eu também tenho uma família agora, Eleonora sorriu. Dana estaria seguro e com ela.

Vai ficar tudo bem.

Notas finais
Quando eu tava no ensino médio eu era participante de um coral de jovens Um dia uma colega minha, do colégio e do coral, apareceu na minha casa pra falar com meu pai (que era advogado) Pra perguntar se ela poderia viajar com o namorado, os dois sendo menores Ele disse que sim, se eles fossem maiores do que 16 Algumas semanas denunciaram para a pastora da nossa igreja que a garota estava sendo estuprada pelo próprio pai Ela não queria fugir com nenhum namorado, ela queria fugir do pai