Hölle
24 Extra V: Shades of Cool
Notas iniciais
Os dias passavam rápidos demais. Eleonora, se dividindo entre ignorar Amatore no trabalho e passar todo seu tempo com ele fora do hospital, se surpreendia com as ligações de sua avó. Era fácil apagá-la de sua vida quando ela mal tinha tempo para sentir remorso.
— E então, mai tochter, já está pronta para admitir que não é estável o suficiente para viver sem um marido e longe de mim?
Eleonora certamente não estava estável. Ela equilibrava o celular entre o ombro e a orelha, suas mãos mãos ocupadas em manter um firme aperto nos ombros de Amatore. Afinal, tinha sido ideia dela usar os últimos minutos do pernoite na banheira da suíte e tocar música em seu celular. Ela só não esperava que a Oma fosse ligar tão cedo.
— Eu não tive nenhum problema até agora. Eu sei que meu salário não é muito, mas é o suficiente pra mim.
Amatore a encarava e Eleonora mordeu o lábio para segurar um riso. Ele parecia um cachorro ensopado esperando para se sacudir.
— Se você está dizendo... O Otto Schmidt ainda está procurando uma noiva, se você quiser-
— Oma, minha bateria vai...
Eleonora encerrou a chamada. Amatore ergueu uma sobrancelha, sua expressão séria e solene. Eleonora colocou o celular no nicho da parede, as pálpebras caídas em indiferença. Olhando para seus rostos, era difícil imaginar o que a ligação da senhora de meia idade havia interrompido.
— Então você era candidata a noiva do Otto Schmidt e eu só estou ouvindo isso agora?
— Ah, me desculpa. Eu não sabia que você se importava com esse tipo de coisa.
— Nem um pouco. A gente pode dividir.
Eleonora sentiu o sorriso de Amatore contra seus lábios.
— Ele parece com você — Eleonora disse olhando o adolescente que se afastava.
Não eram palavras ao vento. Amatore havia lhe mostrado suas fotos de quando era jovem e o garoto era idêntico. Os mesmos olhos escuros e perfurantes, os lábios cheios e o nariz reto, o cabelo grosso e preto — no garoto ele passava dos ombros.
— Você não vai levar ele em casa?
— Ele prefere ir andando.
Eleonora não respondeu. Poderia ser isso, ou poderia ser a reserva no restaurante, para o qual eles já estavam atrasados. Ela assistiu o garoto sumir no retrovisor. Amatore não havia delimitado que opiniões ela poderia ter sobre sua família, porém, para Eleonora, seria constrangedor se ela dissesse algo que fosse respondido com "Isso não é da sua conta”. Em sua cabeça ela conseguia pensar "Amatore, você parece... Um pouco frio quando se trata do seu filho", mas jamais diria isso em voz alta.
— A Hiezabel me convidou pra fazer compras semana que vem. — Amatore não reagiu a mudança brusca de assunto.
— Que bom que você está fazendo amigos, mas a Hiezabel é... — Ele fez uma careta.
— O que?
— Ela não é uma boa influência.
— Isso é discutível. Eu achei que você fosse amigo dela.
— Ah, eu sou, por isso eu sei disso.
Eleonora não poderia apontar o que era casual em sua relação com Amatore nem que tivesse uma arma contra sua cabeça. Em um raio de 200 km fora da cidade, eles eram um casal. Fazendo compras na cidade vizinha, se hospedando em um hotel no litoral, indo ao cinema e em restaurantes, andando de mãos dadas na rua. Apesar de gostar da sensação, Eleonora mantinha sua distância.
Ela sabia que era idiota. Nada do que ela dissesse iria superar a bomba de Amatore, mas ela ainda não conseguia se forçar a compartilhar a história de sua família. Meus pais não eram casados, eles odiavam minha vó e me deixaram com ela quando tiveram outro filho. Ela sentia humilhação fechar sua garganta. Se nem seus pais a quiseram, porque Amatore iria querer?
Às vezes, quando esses pensamentos infernizavam sua cabeça, ela abraçava Amatore e escondia o rosto em seu peito. Ele sempre parecia feliz e confuso com a reação, mas não perguntava a razão dela.
E assim, os dias viraram semanas, as semanas viraram meses.
Nora: Vou sair com a Hiezabel. Te vejo às 10.
Dr. Amatore: :(
Eleonora deslizou o celular dentro da bolsa depois de sorrir para a carinha triste.
— Credo — Hiezabel fez uma careta ao notar — Esse homem não pode te esquecer por uma hora?
Eleonora arremessou a primeira calcinha de renda que suas mãos alcançaram e Hiezabel apanhou com um sorriso.
— Não.
O aniversário de Amatore seria na próxima semana. Ela não sabia o que fazer e Hiezabel sugeriu ‘algo que fizesse ele esquecer que tem mais de 40 anos’. Isso tinha lançado ela em uma crise existencial. Amatore não parecia ter mais de 40 anos. Na única vez em que ele tinha convencido ela a ir para academia, ele correu 10km enquanto ela se recuperava de andar 3km. O único contexto no qual ela imaginava ele como um 'senhor' seria em um quarto vermelho com couro e palmatórias. O comentário de Hiezabel a fez lembrar que ele era, de fato, mais velho do que ela.
Então, para o aniversário dele, ela estava comprando lingerie, bebidas e fazendo reservas. Eleonora estava mergulhando na fantasia da namorada mais nova.
— E o seu namorado, Hiezabel?
— Eu terminei. Ele era muito grudento. Na verdade, agora que EU estou perto de fazer 40, acho que eu vou tentar reconquistar o pai da minha filha. Quem sabe ele não paga meu silicone.
Isso não está acontecendo, Eleonora queria bater a cabeça contra a parede. Ela ouviu a mulher fechar a porta do banheiro, o suspiro de Amatore, o ruído do tecido quando ele cruzou os braços.
— Eu tenho um paciente em 15 minutos.
— É o suficiente.
Eleonora fechou os olhos. Isso não poderia estar acontecendo. Se ele fez isso com a esposa de 20 anos, ela pensava, porque comigo seria diferente? Ela ergueu os pés contra a porta, tentando não derrubar o teste em suas mãos e não fazer nenhum barulho. Ela ouviu o som de choque entre peles e engoliu em seco.
— EI, MAS QUE DROGA — A mulher exclamou.
— Foi pra isso que você me chamou aqui?
— PRA QUE MAIS, AMATORE?
— Eu achei que tinha deixado claro da última vez. Eu não estou disponível.
— Você não pode estar falando sério.
Eleonora olhou para a luz fluorescente no teto, contando suas respirações. Ela escolheu esse banheiro por ser o mais deserto durante o dia e, aparentemente, ela não era a única que sabia disso. A mulher falava alto, sem medo de alguma testemunha passar na frente da porta.
— ISSO, ISSO É RIDÍCULO. EU VOU CONTAR PRA ELA E EU SEI QUE EU NÃO SOU A ÚNICA. VOCÊ VAI SE ARREPENDER DE ME DIZER NÃO.
O click-clack de saltos se afastou. Eleonora só relaxou ao ouvir a porta batendo. Seu alívio evaporou em um segundo. Amatore ainda estava do lado de fora. Eu tenho que arrancar que nem um band-aid, ela pensou. Antes que perdesse a coragem, Eleonora destravou a porta do cubículo e saiu, teste em mãos e tudo.
O rosto de Amatore adquiriu o tom branco da parede.
— Nora? O que você está-
Seus olhos se detiveram na pequena listra vermelha. Só uma listra.
— Eu percebi que ela já deveria ter descido há alguns dias — Eleonora não lembrava porque estava com raiva, apreensiva, acusando Amatore em sua mente. Quando Amatore a segurou contra seu peito, ela só conseguia pensar no calor ao seu redor.
— Falta quanto tempo?
— 1 minuto, eu acho.
Ela se desvencilhou do abraço para colocar o teste de gravidez em cima da pia. Eleonora sentiu Amatore deslizar os dedos entre os seus e apertar. Ela apertou de volta, as mãos úmidas com transpiração.
O celular apitou em seu bolso. O teste ainda mostrava apenas uma linha.
— Da próxima vez… faça um exame de sangue como uma enfermeira normal.
Hiezabel soprou a fumaça acima de sua cabeça, um cigarro em uma mão e a taça de vinho na outra.
— Você deveria colocar um DIU. Ah, eu lembro quando eu descobri da Elisheva. Eu nem era nova, mas minha mãe escondeu todos os cabides da casa. Sempre é uma opção, sabe?
Eleonora não respondeu imediatamente. Apesar do susto, a mera possibilidade jamais havia passado pela sua cabeça. No dia em que ela notou o atraso, teve um pesadelo. Amatore olhava o bebê com a mesma frieza que olhava para seu outro filho, seu único filho. Esse era o maior combustível de seu medo, a possibilidade de ter uma criança que não fosse amada pelos pais, como ela não tinha sido.
— Sim, com certeza.
Ela observou seu reflexo no vidro. Quando o conforto da não-maternidade eminente havia passado, ela se lembrou de ter ouvido Amatore rejeitar os avanços da mulher desconhecida. Era por isso que ela estava afogando as mágoas no sofá de Hiezabel.
— Ele é popular, Nora. Sempre foi. — Hiezabel deu de ombros, lendo o silêncio de Eleonora. — Eu não entendo porque você está chateada. Ele não alimentou, seja quem era ela.
— Eu seiii. É uma coisa saber. É outra coisa ouvir.
Eleonora virou a taça em sua boca, sem deixar tempo para o vinho tocar sua língua. Ela podia sentir o álcool subindo direto para sua cabeça. O segundo motivo de sua visita. Bellona estava tendo uma crise e Amatore, como seu marido e médico mais próximo, não queria deixá-la sozinha. Então Eleonora estava sozinha. Dois golpes em apenas uma semana. Hiezabel a considerou com seus olhos afiados.
— Eu posso dizer uma coisa que, talvez, vá tranquilizar você. Mas você tem que prometer que não vai ficar chateada com o contexto. Combinado? — Eleonora acenou com a cabeça, sua sede por reafirmação a fazendo desconsiderar parte do combinado.
— Eu conheço Amatore há um bom tempo — Hiezabel apagou seu cigarro no cinzeiro da mesa de centro — Quando eu cheguei aqui, era uma mãe recém-divorciada que havia perdido a custódia da única filha. Amatøre parecia mais um viúvo do que outra coisa. A gente se deu bem de cara. Ele levava o filho para todo o lado. Aquele menino… — Hiezabel tomou um pequeno gole da taça.
— A parte tranquilizante?
— Ah, tá. Você pode imaginar o que aconteceu. Ele nunca me contou sobre a Bellona, eu descobri sozinha. Até hoje, acho que ele não sabe que eu sei. Enfim, eu achei que fosse dar certo, eu pensei que nós fôssemos parecidos. Eu queria algo casual, sem muito compromisso. Uma coisa mais "você é livre pra ver outras pessoas". No começo foi assim, mas ele sempre me ligava, aparecia aqui. Quando eu percebi que ele queria um relacionamento estável, com uma pessoa estável, foi o fim. Você acha, por causa do casamento dele, que ele está mais propenso a querer outras mulheres, não é? Essa é a minha parte tranquilizante pra você. Quando o Amatore se compromete com uma pessoa, ele se compromete. E caso você esteja curiosa, o acordo com a Bellona vale para os dois. Ela só é mais discreta.
Eleonora fitou Hiezabel com choque refletido em seu rosto. Ela tentou imaginar Hiezabel e Amatore como um casal e, inferno, eles ficaram tão bem juntos que lágrimas queimaram seus olhos.
— Nora, porquê você tá chorando?
Um par de médicos igualmente atraentes, 2 anos de diferença entre eles, ambos com filhos adolescentes.
— Porque vocês combinam tanto — Ela soluçou com a cabeça entre os joelhos.
— Ele nunca esteve tão feliz, Nora, como ele é com você agora. Você deveria parar de agir como uma idiota e começar a aproveitar.
Hiezabel suspirou pensando na reação de Amatore. Ela não ia contar para Eleonora que, depois do término, ele aprendeu a não ser tão sério e a amizade entre ela e Amatore tinha todas as cores do arco-íris.
Eleonora encarou sua forma no espelho. Eles poderiam ficar no quarto até meio-dia, ela já estava enrolada em um edredom, apenas seu rosto visível dentre as dobras. Ela viu Amatore deslizar para baixo das cobertas e se deixou ser abraçada sem reclamar que ele não havia se secado após o banho. Se qualquer coisa, era apenas uma desculpa para esconder o rosto no pescoço de Amatore.
A camisola de cetim fora uma boa ideia de Hiezabel — quem mais pensaria nisso? -, pois a renda delicada que ela usou no começo da noite estava espalhada em pedaços pelo chão.
— Pode dormir, eu acordo você quando for hora de ir embora.
Eleonora considerou em silêncio. A noite foi ótima, ela estava exausta, mas não ia pregar os olhos enquanto não falasse.
— Na verdade, nós nunca tivemos a oportunidade de falar sobre o que aconteceu semana passada.
Eleonora ouviu uma breve interrupção na respiração de Amatøre.
— Ela é uma pessoa que já foi próxima de mim no passado e queria outra chance.
— Isso acontece com frequência?
— Você realmente quer saber?
— Eu… eu fico pensando que, talvez um dia, você vai se cansar de dizer não. — Amatore a segurou pelos ombros, mas antes que ele pudesse falar algo Eleonora continuou — E eu sei da Hiezabel. Essa parte não me incomoda tanto, eu só queria ter ouvido de você antes. Eu me sinto como uma criança que não pode saber dos segredos dos adultos.
— Eleonoooora — Amatore a chacoalha levemente e ela sente todos os seus pensamentos serem condensados em uma grande sopa de ‘e se você acordar e decidir que eu não valho o esforço?’ — Eu não sei o que preciso fazer pra você entender. Não importa o que aconteceu com Hiezabel, não importa o que poderia ter acontecido com aquela mulher. Só o que importa é você, é o agora.
Eleonora considerou em silêncio, firmemente evitando olhar o rosto de Amatore.
— Você quer ouvir de mim? Todas as pessoas com as quais eu estive nos últimos anos?
— Não. Eu só não quero ter uma surpresa desagradável de novo.
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