Hölle

23 Extra IV: Glory Box


A última coisa que Eleonora esperava do dia era ver Amatore sentado em seu sofá-cama, com o combo de pernas cruzadas e o rosto apoiado em uma mão. Ela não confiava em si mesma para sentar ao lado dele. Ao invés disso, encostou-se na parede oposta e cruzou os braços para impedir o decote do robe de deslizar contra sua pele.

— Eu e Bellona estamos em nossas bodas de porcelana. — Amatore piscou.

Isso só poderia ser uma piada, Eleonora rangeu os dentes. Que tipo de homem desprezível iria a casa de sua potencial — POTENCIAL — amante no dia de seu aniversário de casamento?

— Nós nos conhecemos na universidade. Eu me mudei de Turim para estudar medicina em uma universidade aqui. O plano era voltar pra Itália e trabalhar lá, como meus pais queriam. Bom, quando eu voltei com uma noiva americana eles não ficaram muito felizes. Eles cortaram contato comigo, A única família no nosso casamento foi o meu irmão. Nosso filho veio quatro anos depois.

Eleonora se arrependia de todas as decisões que a levaram a esse momento. Essa tinha que ser sua punição por ser uma meretriz.

— Bellona sempre teve uma constituição fraca. Não me preocupava muito, afinal que médico eu seria se não conseguisse cuidar da minha própria esposa? Pelo menos foi o que eu pensei durante os primeiros anos. Bom, eu estava errado. Você não precisa saber dos detalhes. Só precisa saber que agora Bellona e eu não passamos de amigos de longa data. Eu me preocupo com a saúde dela, claro, mas nosso filho é a única razão pela qual estamos juntos. Nós nem mesmo dormimos no mesmo quarto.

— E, exatamente, quantas pessoas sabem disso?

— Eram duas, agora nós somos três.

Então ele não contava a historinha pra qualquer uma. Eleonora correu a língua pelos dentes diante da possibilidade, mordeu o lábio tentando controlar sua expressão, pois estava ciente de que Amatore a analisava.

— Bom, eu agradeço a sua confiança ao me contar isso.

— E então? Isso muda como você se sente em relação a mim?

Ela mordeu a língua. Sentou-se ao seu lado no sofá-cama.

— Na verdade, não. Eu continuo achando que isso pode não acabar bem. Mas… a gente não precisa se levar tão a sério… eu acho.

— Você está sugerindo que isso — Amatore apontou para ela e depois para si mesmo — seja casual?

Eleonora assentiu.

— Eu ficaria grata. Pelo menos enquanto eu me acostumo com a dinâmica disso.

— Como você quiser.

O silêncio seguinte foi cheio de perguntas silenciosas.

Isso significa que agora eu sou namorada dele? Quer dizer, ele é casado, querendo ou não, então, amante? Eu posso beijar ele agora? E se ele achar que eu sou uma puta por me submeter a isso? E se ele decidir que não gosta de mim e eu não conseguir mais trabalhar no hospital porque vai ser horrível demais ver ele todo dia? Eleonora pensava.

Por que ela está tão pensativa? Será que ela não acredita em mim? A Bellona estava certa, quem acreditaria? Mas e se ela achar que nem o casual vale a pena? Vai ser horrível trabalhar com alguém que me rejeitou… de novo. E ela é tão graciosa com uma seringa em mãos... E se ela realmente não acreditar em mim? Amatore pensava.

Finalmente, Eleonora suspirou resignada. Ambos se levantaram. Ela o levou até a porta.

— Te vejo amanhã.

— Espero que sim.

Antes de fechar a porta, Eleonora pressionou um beijo casto nos lábios de Amatore.

— Boa noite.

Inferno, Eleonora amaldiçoou mentalmente e tirou o cup noodles do microondas. O Dr. Malloch estava de volta ao normal. Sem convites, sem conversinhas, sem nem mesmo olhares. Então era um teste, Eleonora ponderava. Eles nem ao menos trocaram números de telefone. Ao final do horário de almoço, ela derramava a sopa na pia da cozinha.

Era o terceiro dia desde que Amatore esteve em seu apartamento. Ele sorriu ao cumprimentar as enfermeiras no posto e entregar uma caixa de chocolates a Nieng. Seu rosto mudou completamente quando ele, finalmente, olhou para Eleonora.

— Srta. Hoyer, — A expressão carregada fez a loira tremer em seu jaleco — Eu preciso ter uma palavra com você.

— Sim, claro. — Ela respondeu, a voz trêmula.

— Agora. — O ar parou ao redor das outras enfermeiras.

Eleonora seguiu Amatore e, mesmo incerta do que estava acontecendo, não podia ignorar como o jaleco caía bem em seus ombros largos Era a primeira vez que entrava no consultório e estava tão nervosa que mal conseguia notar o ambiente ao seu redor. Amatore fechou a porta atrás de si.

— Eu fiz alguma coisa errada?

— Sim. Você não me deu seu número. — Amatore sorriu, a fileira perfeita de dentes brancos e alinhados. Eleonora resistiu a vontade de socá-los.

— Você me assustou.

Amatore a abraçou e, Eleonora não havia se dado conta da diferença de altura, apoiou o queixo sobre sua cabeça. Eleonora fechou os olhos, recostou-se contra o corpo sólido e quente de Amatore e respirou o aroma amadeirado que o permeava.

— Eu passei esses dias pensando em formas de nos distanciar aqui. Eu não me importo com o que dizem sobre mim, mas não quero que as pessoas tenham a impressão errada de você.

— Claro que não.

Entre uma palavra e outra, ela se viu contra a mesa de vidro. E então tudo aconteceu rápido demais. Amatore a ergueu e ela se sentou sobre a mesa com ele entre suas pernas; as mãos de Amatore deslizaram de suas costas para sua nuca e seus lábios estavam em seu pescoço.

E foi assim que a Dra. Hiezabel os encontrou quando ela abriu a porta.

— Malloch, você vem tomar... café?

Eleonora empurrou Amatore e a gravidade da situação a atingiu. Suas bochechas queimavam de vergonha e um arsenal de desculpas ameaçava sair de seus lábios… exceto que se Amatore estava preocupado com o flagra, ele não demonstrava. Se qualquer coisa, ele parecia mais confuso com o empurrão.

— Não, como você pode ver eu estou um pouco ocupado.

— Ah sim e VOCÊ É AQUELA ENFERMEIRA? Haha, agora nós estamos quites. — Dra. Hiezabel sorriu como se Amatore a tivesse convidado para se juntar a eles.

— Eu não-

— Tudo bem, tudo bem. Eu já vou.

A saída apressada, Eleonora notou, tinha menos a ver com seu desespero e mais com o sutil balançar da cabeça de Amatore.

— Você não trancou a porta? — Ela puxou as lapelas de seu jaleco.

— Eu tranquei, eu juro que eu tranquei.

Eleonora estava certa de que isso era uma punição. Como era o versículo? Sobre nenhuma mentira ficar encoberta? A professora adorava fazer sua turma repeti-lo. Não havia adiantado muito, pelo menos para Eleonora.

— Da próxima vez, vamos a um motel como pessoas normais.