Hölle
22 Extra III: Enjoy the Silence
Notas iniciais
Palavras como violência
Rompem o silêncio
Chegam destruindo
O meu pequeno mundo
Doloroso para mim
Me atravessam
Eleonora agonizou o fim de semana inteiro . Praticou durante a expressão que faria se o visse, e se encolheu de vergonha logo em seguida. Ensaiou respostas negativas e curtas caso ele tentasse iniciar uma conversa, e se encolheu logo em seguida. Imaginou um cenário no qual ela cedesse e--, não conseguiu terminar antes de se encolher constrangida. Pensar em Amatore incendiava seu rosto, acelerava seu coração, suava suas mãos e a enchia de vergonha.
"Se minha esposa estivesse me esperando em casa", foram as palavras exatas dele. Eleonora esgotou todas as interpretações possíveis. Então ele era casado de verdade, isso não era fofoca, ele tinha mesmo uma esposa, mesmo que desse a entender que ela não se importava muito. Inferno, Eleonora contemplava as folhas de camomila no fundo da xícara, eu preciso saber mais, eu preciso ter certeza.
Eleonora sentiu uma pedra de gelo escorrer por suas costas. Depois de todas as ponderações e meditações, ela havia se preparado para todos os cenários, exceto esse. Amatore cumprimentou todas as enfermeiras do posto, menos ela, a quem ele apenas acenou com a cabeça. Eleonora cerrou os dentes, pedindo aos céus que nenhuma das suas colegas comentassem, mas, assim que Amatore estava fora de alcance, o burburinho começou.
— Nora? Ele te ignorou? — Nieng arregou os olhos.
— Ele não trouxe aquele chocolate pra você? — Foi a vez da Rodriguez comentar.
— Talvez a mulher dele tenha descoberto. — Pompeu martelou o último prego no caixão.
Eleonora cravou as unhas contra as palmas de suas mãos. Elas tinham que abrir sua ferida e derramar um pouco de sal dentro.
— Vocês estão imaginando coisas. — A resposta exasperada
— Claro, claro. A Dra. Hiezabel pediu pra alguém levar isso no consultório dela. – Nieng levantou uma pilha de prontuários de cima da mesa. Eleonora revirou os olhos, como esperado, nenhuma enfermeira fez menção de ir.
— Eu levo.
Eleonora subiu as escadas e andou pelos corredores como se tivesse medo da própria sombra. Se Amatore a ignorasse mais uma vez, causaria um dano irreparável ao seu ego e aí ela teria que voltar para a casa de sua avó porque a humilhação seria demais e-, Eleonora escondeu o rosto sob as folhas, vagamente notando as informações de um paciente. Bateu na porta do consultório com o máximo de discrição, afinal, o Dr. Malloch estava na sala ao final do corredor.
— Dra. Hiezabel, eu trouxe os prontuários.
Eleonora esperou o ‘pode entrar’, mas encontrou apenas o som de coisas caindo dentro da sala e uma voz sussurrando.
— Dra. Hiezabel? — Ela repetiu.
A mulher abriu a porta, com um sorriso amarelo em seu rosto.
— Ah, sim, os prontuários. Muito obrigada.
Ela os puxou da mão de Eleonora e fechou a porta. Eleonora encarou a porta por alguns segundos, poderia ter sido apenas sua imaginação, mas podia jurar ter visto um homem despido embaixo da mesa de vidro.
Eleonora não podia acreditar na sua sorte — ou na falta dela. Quando tudo o que ela queria era evitar Amatore, conseguia ouvir os passos dele atrás dos seus e as despedidas dos colegas. Eleonora apertou o passo. Suspirou aliviada ao chegar ao cascalho do estacionamento. Certamente, ele deveria ter ficado pra trás.
— Nora.
E seus pés pararam sem que ela realmente quisesse. Eleonora se virou para encará-lo.
— Dr. Malloch. — Ela procurou um ponto no qual pudesse se focar, algo além dos olhos ou boca. Se viu encarando um sinal de nascença abaixo de seus lábios. Não era de muita ajuda.
— Posso falar com você?
— Sim. — Todas as respostas ensaiadas eram expelidas com o ar de seus pulmões.
— Depois de você.
Como aconteceu da última vez, Eleonora se viu guiada ao carro preto de janelas escuras, contudo, Amatore parou em frente ao veículo. Ele ergueu seu rosto com a ponta do dedo. Sua técnica de evasão havia sido descoberta. Eleonora não podia olhar para outro lugar que não seus olhos.
Eleonora poderia estar sendo presunçosa, arrogante, todas as coisas que sua escola católica havia tentado eliminar de seu caráter, mas o olhar de Amatore não poderia significar outra coisa. Ele não encarava seus olhos, como ela pensou que faria, ele encarava sua boca.
Deitada em sua cama naquela noite, Eleonora tentava definir quem avançou primeiro. Horas haviam se passado e o rubor ainda persistia em seu rosto. Ela procurou em seus quadris por marcas de dedos, certa de que encontraria sinais físicos do encontro inesperado.
Eleonora chegou a uma conclusão. Ela iniciou o beijo. Para seu crédito, ela o interrompeu também. Amatore tinha esse poder de nublar seu julgamento.
Eleonora acordou de manhã banhada em suor. Nem o banho gelado aliado ao café preto foram capazes de convencê-la a ir trabalhar. Sua cabeça girava com as deduções que teria em seu salário, porém não era nada que um ajuste em seu orçamento não cobrisse. Valia a pena perder algum dinheiro por sua sanidade. (Eleonora não admitiria, nem para si mesma, que estava preocupada com a opnião de suas colegas de trabalho; Ela sentia que elas saberiam o que havia acontecido assim que olhassem em seu rosto).
A ligação a interrompeu quando ela lavava o banheiro — a limpeza era sua válvula de escape. Oma, e a foto de sua avó sorrindo. Eleonora aceitou a chamada.
— Oma, guten abend. — Eleonora odiava falar em alemão com sua avó. A língua sempre trazia à tona tudo o que Oma havia tentado ensinar a ela.
— Meine tochter, esqueceu de mim?
— Não vó, eu só estava um pouco ocupada.
— Ah, sim. Tenho certeza que trocar fraldas o dia inteiro lhe deixa cansada demais para falar com a mulher que te criou. — E aí estava, ela não podia falar com a mulher por mais de 15 segundos sem ter algum aspecto da sua vida menosprezado.
— Eu prometo que vou ligar toda noite. Es tut mir Leid.
— Sicherlich. Agora deixa eu te falar. O filho da nossa vizinha, Otto Schimdt, recebeu uma proposta de trabalho na Mutterland, a mãe dele quer que ele se case antes de ir. Nós conversamos e você é-
Eleonora encerrou a chamada antes que dissesse o que estava em sua cabeça. Não, vó, obrigada. Minha Mutterland é a cidade onde eu nasci, aqui mesmo e, não, eu não preciso da sua ajuda para arranjar um casamento. Se a senhora quer saber, eu estou mais perto de um casamento do que a senhora acha. E ele não é um homem branco loiro e de olhos azuis.
Eleonora odiava como Oma a fazia se sentir. Ela já estava constrangida o suficiente, não precisava de mais alguém cutucando suas feridas. O celular vibrou em suas mãos. Eleonora respirou fundo e aceitou a chamada.
— Oma, acho que a ligação caiu. A senhora estava dizendo…?
Eleonora pulou na cozinha. Eram 11 da noite, mas ela poderia jurar ter ouvido batidas em sua porta. Ela iria contar até 3 e se não batesse de novo, ia fingir estar dormindo.
— Nora, você está aí?
— Já vai.
De repente, ela se viu agradecida pelo pijama da Victoria 's Secret e o robe que cobria a renda e o cetim. Que droga, isso não importa agora, ainda mais depois que ele já me viu com aquele trapo, Eleonora censurou-se ao abrir uma fresta da porta. Amatore deveria estar saindo de um plantão. O cansaço em seu rosto era típico de um longo turno, seria apenas cortês convidá-lo para tomar um chá e-
— Você não foi trabalhar hoje.
— Não.
— É sobre ontem?
— Sim.
Amatore correu os dedos pelos cabelos bagunçados, o cenho franzido.
— Acho que eu nunca esclareci a situação com minha esposa.
— Eu não quero ouvir. Estar perto de você, olhar pra você, até pensar em você… eu me sinto suja. Eu odeio isso.
— Eu… entendo. Você pode suportar esses sentimentos por mais alguns minutos?
Eleonora apertou o robe ao seu redor. Não tinha forças para negar o pedido quando Amatore parecia genuinamente desanimado. Ela acenou com a cabeça e abriu o resto da porta.
Fale com o autor