Há beleza no inverno
5 A verdade
Notas iniciais
Eu chego na pista de patinação mais cedo do que o combinado. Eu e Jack marcamos de nos encontrarmos lá no final da aula para conversarmos. Havia calçado os patins e dava uns saltos pela pista, enquanto minha mente estava cheia de perguntas.
Eu não fazia ideia do que Jack me contaria. Eu não conseguia pensar em como ele saberia sobre meu segredo, e estava tremendamente confusa com o fato de ele ter os mesmos poderes que eu. E, mais ainda, ele parecia saber controla-los. Quer dizer, se ele havia congelado aquelas coisas de propósito, quer dizer que ele exercia algum controle sobre o gelo que ele criava. E isso não fazia o menor sentido para mim.
O gelo é como uma maldição. Toda a neve e coisas que eu crio são perigosas, e não há meio de controlar. Eu já havia passado boa parte da minha vida isolada, tentando não machucar os outros com meus poderes, tentando dominá-los, mas era impossível. Era maior, mais forte do que eu. Então, eu vivia solitária e com medo, e já havia me acostumado com isso. Já estava convicta de que essa seria a vida que eu teria
Mas Jack parecia por à prova tudo o que eu pensava sobre isso.
–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Ele chegou na pista um pouco depois de mim. Com os patins já calçados, ele deslizou em minha direção.
– E então – ele disse, aproximando-se.
– E então – eu repito, olhando-o nos olhos – Você precisa me explicar... Eu não estou entendendo mais nada.
– É claro, é melhor eu começar logo. – Subitamente, ele fez dois banquinhos de gelo para nos sentarmos. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele fez um sinal para que eu me calasse. – Elsa... Nós já nos conhecemos antes. Só que você não se lembra.
Fico pasma. Quer dizer, de alguma forma, ele me era estranhamente familiar... Mas ouvi-lo falar isso tornava as coisas muito diferentes.
Tornava-as reais.
– Nós passamos a infância juntos. Nós descobrimos nosso poder juntos, e brincávamos quase todos os dias. Nós nos encontrávamos em um parquinho perto de nossas casas e fazíamos tudo o que quiséssemos. Era... lindo. – Seu olhar vagou para longe, nostálgico – Eu nunca tive nenhuma amiga como você, nem nunca encontrei alguém que entendesse tão bem como era ser diferente.
– Mas, se era tão incrível... Por que acabou? – pergunto, enfim – E como eu não me lembro disso, não me lembro de você?
Ele respirou fundo.
– Bem, essa é a parte triste da história. – Ele virou a cabeça e olhou direto nos meus olhos – Elsa, acontece que os seus pais descobriram, e, bem, eles não gostaram nem um pouco. Eles me mandaram não voltar a ver você, e então eu fui embora. Não voltei mais a vê-la. Por isso eu não sei como você não se lembra, eu não se o que aconteceu.
Tentei forçar minhas memórias o máximo que consegui, mas... nada. Não conseguia me lembrar do que aconteceu.
Jack segurou minha mão.
– Elsa, por favor, pare de pensar que seus poderes são uma maldição, porque eles não são. Eles são lindos, são um dom que você possui. Você não precisa ser tão sozinha, não precisa se esconder tanto deste jeito...
Olho para nossas mãos entrelaçadas, sentindo o formigamento que isso me causa. Eu não estava com medo.
– Mas Jack, eu não consigo. Não consigo controla-los e... não tenho ideia de como você consegue.
Ele suspira fundo.
– Elsa, isso você vai precisar descobrir sozinha. – ele diz, enfim – Eu posso tentar ajuda-la, mas você precisa me deixar ao menos tentar, está bem?
Olho fundo nos olhos dele, tão azuis quanto os meus. Eu quero deixa-lo tentar, mas eu não saberia dizer se eu conseguiria. Nunca permiti que ninguém entrasse tão profundamente em minha vida.
Mas eu sentia, no fundo de meu ser, que eu deveria deixa-lo tentar. Deveria permitir que ele entrasse, e derrete-se meu âmago congelado. Eu apenas sentia que era o certo a fazer, e, é claro, eu poderia estar enganada. Mas, pela primeira vez na vida, eu sentia que valia a pena arriscar.
Eu me levanto, e deslizo no gelo um pouco longe dele.
– Talvez... nós pudéssemos começar com um beijo.
E então acontece. Ele vem em minha direção, e envolve minha cintura delicadamente. E depois ele se aproxima devagar e... Nos beijamos. Delicadamente. E é apenas... bom. É mágico. Nada desastroso acontece, eu não o machuco. Está tudo bem.
Ele se afasta um pouco e me olha nos olhos. Eu sorrio, e o puxo para perto novamente.
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