Hybrids

6 Por que estão olhando pra mim?



Com o passar do tempo, os três amigos não apenas amadureceram, eles evoluíram. Cada um à sua maneira, com talentos únicos, estratégias silenciosas e uma aliança inquebrável construída à base de confiança, lealdade e segredos bem guardados.

Para os médicos, continuavam sendo híbridos obedientes, ainda em "processo de aprendizagem". Mas, na realidade, já estavam muito além do que os cientistas imaginavam.

Hoseok, agora praticamente um cientista por conta própria, já possuía seu próprio laboratório clandestino, montado peça por peça com os equipamentos que roubava discretamente. Centrífugas, tubos de ensaio, computadores de alta potência, tudo retirado em doses pequenas, imperceptíveis, mas que, ao longo dos anos, formaram um espaço completo e funcional.

O esconderijo deles ficava ainda mais abaixo das instalações oficiais, uma ala subterrânea esquecida, provavelmente construída antes da base atual e nunca mais utilizada. A estrutura antiga e negligenciada foi aos poucos sendo restaurada com o cuidado dos três e transformada em um lar, não um abrigo improvisado, mas um lar de verdade, com identidade, conforto e, principalmente, liberdade.

Yoongi cuidou da parte da segurança, com rotas de acesso secretas e alertas de movimento. Hoseok adaptou a iluminação, o sistema elétrico e, claro, os computadores. Já Jimin foi o responsável por dar vida ao lugar. Colocou almofadas coloridas, cobertas macias, pendurou pequenos enfeites que encontrava escondidos nas áreas de descarte, e, claro, trouxe as cortinas.

— Cortinas? — Yoongi riu ao ver a primeira ser pendurada. — Aqui nem janela tem.

— É pra fingir que tem! — Jimin respondeu com um sorriso, puxando o tecido de cor clara e esvoaçante. — Vai que um dia o sol resolve entrar.

E assim, com ciência, sonhos e um toque de inocência, eles foram criando o único lugar onde podiam ser eles mesmos.

Ali embaixo, longe das câmeras, dos testes e das expectativas impostas, três experimentos deixavam de ser projeto e passavam a ser pessoas.

A relação entre eles era complexa, única e totalmente fora de qualquer padrão que o mundo lá fora entenderia.

Yoongi, Jimin e Hoseok eram amigos, irmãos de alma, cúmplices de uma história que só eles conheciam. Mas, nas horas de necessidade, quando o corpo clamava por contato e a solidão dos porões se tornava mais pesada, eles também eram amantes.

Sem pressões, sem expectativas. Apenas a intimidade segura entre três pessoas que confiavam profundamente umas nas outras.

Hoseok, como sempre, gostava de racionalizar tudo:

— É puramente científico, — dizia, antes de arrancar a camisa e provocar Yoongi com uma piscadinha. — Exploração prática de prazer e conexões híbridas.

Mas, no fundo, eles sabiam que ele também gostava.

Os momentos íntimos entre os três eram, além de prazerosos, quase terapêuticos. Entre carícias e descobertas, aprendiam mais sobre seus corpos, seus limites e seus desejos. Era uma liberdade rara, um espaço seguro onde podiam se permitir sentir.

Claro, sempre com os devidos cuidados. Hoseok era obcecado por controle e saúde e, embora dissesse em tom de piada, tinha genuína preocupação.

— E se a gente puder se reproduzir?

— Você já imaginou um bebê meio humano, meio gato, meio cachorro e meio raposa?

— Seria tipo um Pokemón híbrido de três classes — Yoongi deu risada.

Mas Jimin, por trás dos risos e suspiros, guardava um vazio. Ele gostava da intimidade com os amigos. Sentia-se amado, tocado, desejado. Mas no fundo do peito havia um anseio que nenhuma troca de prazer supria. Ele queria algo mais.

Amor romântico.

Não só o carinho de um amigo. Mas aquele sentimento que via nos doramas. O amor que vinha com mãos entrelaçadas, promessas sussurradas e olhos brilhando só por ver o outro sorrir.

Jimin queria fazer amor com alguém que amasse. Que o olhasse como se ele fosse único. Ele só não sabia quando ou se isso seria possível naquele mundo em que viviam. Mas o desejo estava lá. Silencioso, discreto e crescendo.

Faltavam apenas alguns meses para o vigésimo primeiro aniversário de Yoongi, e com ele, o início do que os cientistas chamavam de "processo de entrega". Em outras palavras, a venda oficial para o seu “dono”.

— Precisamos fazer algo, — disse Hoseok, quebrando o silêncio enquanto seus olhos corriam as últimas linhas de um relatório hackeado.

— Sobre sair daqui? — perguntou Jimin, enquanto preparava sanduíches cuidadosamente, do jeitinho que os três gostavam.

— Sim. Segundo os arquivos, a idade mínima para a comercialização dos híbridos é vinte e um anos. E Yoongi tá quase lá. — A voz de Hoseok estava mais tensa do que de costume. — Preciso pensar em algo pra nos tirar daqui antes que isso aconteça.

Jimin suspirou, enquanto passava o recheio no pão com menos entusiasmo.

— Já tentamos várias vezes, Hoseok. Sempre dá errado...

— E vamos continuar tentando até dar certo, — respondeu Hoseok, firme — mas dessa vez de forma segura. Nada impulsivo.

Jimin sorriu de leve, mesmo com a apreensão.

— E como vamos fazer isso?

Hoseok reclinou na cadeira. Os olhos vermelhos de tanto tempo na frente da tela, piscaram devagar, cansados, até que...

Algo no canto do cômodo chamou sua atenção. Uma caixa de papelão esquecida, rasgada nas bordas, mas ainda resistente. Seu olhar ficou fixo nela por alguns segundos.

— Acho que tive uma ideia! — exclamou de repente, endireitando-se.

— Uma ideia? — Jimin se virou com o prato nas mãos, curioso.

— Sim. Pode parecer boba, pode até parecer cena de filme infantil, mas... precisamos tentar de tudo.

— E qual seria a sua ideia? — perguntou Jimin, entregando o sanduíche.

— Vou explicar melhor quando Yoongi acordar. — Hoseok deu uma mordida rápida. — Por falar nisso, ele já dormiu demais.

— Vou acordar ele pra comer meu super sanduíche.

— Perfeito. Acorde ele e venha pra cá. Hora da nossa reunião de fuga.

Com muito custo e depois de levar um chute bem direcionado nas costelas, Jimin finalmente conseguiu acordar Yoongi. O felino resmungou alto por terem contrariado seu instinto natural de hibernação diária.

Despertou com os cabelos ainda mais bagunçados que o normal e a cara amassada, o olhar semicerrado como se estivesse acordando depois de um apocalipse.

— Qual é? O que vocês querem? — resmungou, com a voz rouca e preguiçosa. — Espero que seja importante. Só tirei duas horinhas de cochilo.

— Yoongi, — interrompeu Hoseok, com a paciência no limite — você emendou o cochilo desde ontem. Isso não é soneca, é coma induzido.

Jimin riu baixinho, mas Hoseok ignorou e seguiu.

— Precisamos fazer uma reunião. Séria. De extrema importância.

Yoongi coçou o olho.

— Sobre o quê agora?

— Sobre o fato de que o seu prazo está se esgotando. — Hoseok se inclinou à frente. — Você vai completar vinte e um anos em poucos meses. E segundo todos os arquivos que eu li, esse é o momento em que você será oficialmente vendido.

— Eu sei, mas… sei lá… — Yoongi deu de ombros. — Ainda tem tempo, não tô com pressa.

— Você é muito sossegado, — Hoseok o cortou. — Ou você quer ser escravo de um filho da puta pervertido e nojento que vai te usar como bem entender?

Yoongi bufou, o bom humor definitivamente não fazendo parte do pacote matinal.

— É óbvio que não quero.

— Então acorda pra vida. — Hoseok cruzou os braços. — Se não fizermos algo, é exatamente o que vai acontecer. Não só com você, mas comigo, com o Jimin... e com todos que possam vir depois de nós.

Yoongi ficou em silêncio por alguns segundos, depois suspirou.

— Tá, mas o que faremos? Já tentamos fugir milhares de vezes e em todas as vezes deu errado.

— Foi o que Jimin disse, — Hoseok respondeu, apontando pro loiro que mastigava calmamente seu sanduíche — e vocês estão certos. Por isso, quero uma reunião. Um plano novo.

— É só falar agora, que bobagem de reunião, — resmungou Yoongi, bocejando.

Hoseok respirou fundo e lançou um sorriso raivoso.

— Yoongi, reunião em dez minutos. Vá lavar essa cara e escovar essa boca com bafo de leite. Se você for rapidinho e for um bom gatinho... eu te dou um ratinho de borracha.

— Vai à merda, sua raposa enferrujada — rosnou Yoongi, enquanto se arrastava, emburrado, até o banheiro.

…

Hoseok já estava sentado à frente da sala improvisada com o ar de quem comandava uma conferência da NASA. Vestia um jaleco branco roubado — ou melhor, adquirido por meios alternativos — com o nome de algum médico qualquer bordado no bolso. Isso só deixava tudo ainda mais cômico, já que ele realmente se achava um cientista renomado em missão secreta.

Usava seus inseparáveis óculos — que, diga-se de passagem, não tinham grau algum — mas lhe conferiam um ar mais “profissional”, segundo ele mesmo. E claro, já anotava freneticamente em sua prancheta cheia de post-its coloridos e rabiscos enigmáticos, como se estivesse prestes a mudar o rumo da história.

Do outro lado, Jimin estava sentadinho em sua cadeira, com as perninhas balançando, um bloquinho de notas no colo e uma caneta que piscava na ponta. O brilho nos olhos entregava: ele adorava aquelas reuniões. Se sentia parte de algo grande, como um membro da força especial dos híbridos.

Já Yoongi…

Yoongi entrou com a cara mais emburrada do planeta, passos arrastados e expressão de quem tinha sido obrigado a abandonar o paraíso — no caso, sua cama. O cabelo ainda estava bagunçado, e ele mal disfarçava o bocejo enquanto se jogava na cadeira com um suspiro dramático.

— Espero que isso seja mais útil que a última vez — murmurou, cruzando os braços.

Hoseok ignorou.

— Bom, já que todos os membros da resistência estão presentes, — começou, com a seriedade de quem comanda uma operação internacional — podemos dar início ao plano de fuga número 547. Codinome: Caixa da Liberdade.

Hoseok puxou uma pequena lousa branca que havia “adquirido” de um dos laboratórios. Jimin abriu um sorriso animado e se ajeitou na cadeira, enquanto Yoongi revirava os olhos.

— Bom, o tema da reunião de hoje é o nosso plano de fuga, — anunciou Hoseok, pegando o canetão vermelho como se fosse uma arma secreta. Com letras garrafais, escreveu “Plano de Fuga” na lousa.

— Genial, — disse Yoongi, batendo palmas devagar, o sarcasmo escorrendo pela voz.

— Se você escutar vai entender, bixano, — retrucou Hoseok com um olhar afiado por cima dos óculos falsos. — Como eu estava dizendo, acho que encontrei um jeito de sairmos daqui.

Com entusiasmo, começou a desenhar: uma caixa quadrada no centro, setas, rabiscos, e uma casinha no canto direito. Jimin observava tudo atentamente, enquanto Yoongi fingia que não estava prestando atenção — mas claramente estava.

— Uma caixa? — Jimin inclinou a cabeça, confuso. — Por que uma caixa?

— Sim, Jiminzinho, — disse Hoseok com um brilho nos olhos. — É uma caixa. E por mais idiota que pareça, é a forma mais segura de sairmos daqui. Mas tem um porém: — ele fez uma pausa dramática, ajeitando os óculos — só cabe um.

Yoongi levantou o olhar. Jimin parou de mastigar a tampa da caneta.

— Se cada um for em uma caixa, corremos o risco de sermos enviados a lugares diferentes. E isso não é uma opção. Precisamos ficar juntos.

— Tá, e o plano? — perguntou Yoongi, começando a se interessar.

— Alguém vai como se fosse uma encomenda normal, enviada para a casa de um humano do mundo lá de fora, — explicou Hoseok, apontando para o desenho da casinha. — Mas esse humano precisa ser alguém influente. Alguém que vá nos ajudar. A caixa vai ser, na verdade, um pedido de socorro. E se ele entender isso, pode abrir caminhos de fora pra dentro. O que é bem mais fácil do que o contrário.

Yoongi franziu o cenho, pensativo.

— E quem iria? Eu?

— Isso é óbvio, né? Claro que é você, — disse Hoseok com um sorriso travesso. — Gatos adoram caixas.

— Piadista você, — Yoongi estreitou os olhos — Por que não pode ser o Jimin? Ele conquista qualquer um com esse jeitinho dele.

Jimin, que até então só observava em silêncio, abriu um sorrisinho todo bobo, corando levemente.

— Aw… você acha mesmo?

— Não me faz repetir, — resmungou Yoongi, desviando o olhar, fingindo irritação.

Hoseok balançou a cabeça, segurando o riso.

— Não, Yoongi, — respondeu Hoseok com firmeza — precisa ser você, por dois motivos. Primeiro, você tem mais malícia pra lidar com as pessoas. O Jimin é muito meigo e inocente... — lançou um olhar lateral para o loiro — quer dizer, menos quando quer sexo. De qualquer forma, não quero ele lá fora sozinho.

Jimin deu um sorrisinho sem vergonha, mas manteve o silêncio.

— Segundo, — continuou Hoseok — porque você já vai ser enviado de qualquer jeito pra casa de alguém. Então é melhor que seja pra casa que nós escolhermos, não?

Yoongi suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Tá, mas… como vamos saber quem escolher? E como vamos ter acesso ao endereço?

Hoseok abriu um sorriso satisfeito, como quem havia esperado por essa pergunta.

— Já tenho uma pessoa em mente.

— Quem? — perguntou Jimin, curioso, inclinando-se pra frente.

Com grande estilo, Hoseok desenhou na lousa um bonequinho de palito com cabelinhos enrolados.

— O nome dele é Kim Taehyung, — disse, girando a caneta no ar. — Promotor. Um dos mais jovens do país. Conhecido por muitos como um herói moderno. Ele combate corrupção, coloca criminosos poderosos atrás das grades. É justo, íntegro... e, segundo minhas pesquisas... — olhou diretamente para Yoongi — adora gatos.

Yoongi revirou os olhos como se já soubesse o que viria.

— Então é isso? Eu só preciso ser entregue na casa desse humano e pedir ajuda pra ele tirar vocês daqui?

— Exatamente! — confirmou Hoseok.

— E como a gente faz isso?

— Primeiro, — disse Hoseok, já virando a página da prancheta — precisamos de um cartão de acesso especial. Só com ele vou conseguir alterar o destino da encomenda no sistema central.

— E como conseguimos esse cartão?

Hoseok fez uma pausa dramática.

— Alguém vai precisar entrar na sala de segurança e pegar. Preciso de alguém pequeno e leve.

Ele e Yoongi se viraram lentamente, os olhos fixando no mesmo ponto: Jimin, que até então mastigava distraidamente o canudo do seu suco.

— Por que estão olhando pra mim? — perguntou Jimin, todo inocente.

Notas finais
Tadinho do meu doguinho 🥺 Parem de mandar ele fazer coisas perigosas, hump! Imaginei o desenho do Hobi, o Tae de cabelinho enrolado e castanho, ahhhhh que fofo 😍