Hybrids

7 Agente Puppy



Jimin respirava com dificuldade, encolhido no duto de ar estreito. O metal gelado apertava seus joelhos e a escuridão à sua volta fazia seu coração bater ainda mais rápido.

— Jimin, isso é bem simples, você consegue. Eu acredito em você, — disse Hoseok através do fone em seu ouvido, a voz calma tentando acalmá-lo.

— Mas eu tô com medo, — sussurrou Jimin, o tom quase infantil — É escuro e apertado aqui… por que justo eu tinha que vir?

— Porque você é o menorzinho de nós três. Cabe em qualquer lugar, — Hoseok respondeu com uma risadinha, mas logo voltou ao tom sério — Falando sério, precisamos de você. É só fazer como o combinado, está bem? Vou estar aqui com você o tempo todo te orientando.

Jimin respirou fundo e assentiu, mesmo que Hoseok não pudesse ver.

— Está bem… — sussurrou, tentando se convencer. Apesar do medo, havia uma parte dele que se sentia orgulhoso. Pela primeira vez não era só o “fofinho”, o “dengoso”. Era o essencial do grupo.

Rastejando com cuidado, ele continuou pelo duto, cada movimento controlado para não fazer barulho. Sua missão era clara: chegar até a sala de descanso dos administradores e pegar o cartão de acesso de um dos responsáveis. O único com permissão para alterar os destinos dos experimentos.

Após alguns minutos, Jimin alcançou o ponto certo. Parou sob uma grade estreita e espiou. Lá embaixo, dois homens conversavam sentados em poltronas. Um deles, o alvo, tinha o cartão pendurado no pescoço, exatamente como Hoseok havia descrito.

— Estou pronto, — sussurrou Jimin, com determinação recém-descoberta.

— Ok, — respondeu Hoseok imediatamente — Você tem quinze minutos. Boa sorte, Chim. Já pode começar a operação.

Jimin fechou os olhos por um segundo, buscando coragem.

Hoseok havia feito sua parte com perfeição: as câmeras da sala estavam completamente desligadas — ou melhor, redirecionadas apenas para o terminal secreto do próprio ruivo. Durante quinze minutos, ninguém teria acesso àquelas imagens, ninguém saberia o que acontecia lá dentro. Ao mesmo tempo, pelas câmeras dos corredores e elevadores, Hoseok monitorava cada passo, cada porta, cada movimento, garantindo que ninguém sequer suspeitasse da operação em andamento.

Lá dentro do duto, Jimin respirou fundo, a adrenalina começando a circular com força. Puxou a pequena máscara de gás, colocou sobre o rosto e fixou com cuidado. Com dedos firmes, abriu silenciosamente a grade de ventilação.

Com precisão milimétrica, arremessou a granada de gás.

O barulho seco ao tocar o chão foi a única coisa que os dois administradores ouviram antes de a fumaça branca tomar conta do ambiente. Tosses abafadas, passos cambaleantes e então, silêncio.

Jimin esperou exatamente sessenta segundos. Então, como treinado por Hoseok, desceu com leveza até o chão da sala. Pousou sem som. Como se fosse parte da sombra.

Ambos os homens estavam desmaiados.

Com rapidez, pegou o cartão do crachá do rapaz responsável pelos registros de entrega e o enfiou no bolso lateral de sua calça. Em seguida, posicionou os dois homens da forma mais natural possível: o primeiro sentado de frente para o computador, como se tivesse apenas cochilado; o outro esticado confortavelmente no sofá. Nenhum sinal de invasão. Nenhum traço de violência.

Jimin então recolheu a granada vazia e guardou no outro bolso, exatamente como Hoseok havia instruído.

Na sala ao lado, encontrou o painel com os tanques de gás. Abriu uma válvula com cuidado e deixou escapar uma leve quantidade do mesmo gás. A intenção era simples: quando acordassem, os administradores pensariam que houve um vazamento acidental. Algo raro, mas não impossível.

Jimin voltou para o duto, escalando silenciosamente até a entrada por onde havia vindo. Ajustou a grade de volta ao lugar e respirou, por fim, aliviado.

Abaixo dele, a fumaça começava a desaparecer. Ele podia ver perfeitamente a cena. Dois minutos depois, os seguranças arrombaram a porta e invadiram a sala. Jimin ficou imóvel, apenas observando. Não havia sido descoberto. A missão havia sido cumprida. E, por alguns segundos ali, preso entre sombras e aço, Jimin sentiu orgulho.

Os guardas, ao notarem o cheiro forte de gás, imediatamente correram até a sala ao lado e fecharam o registro. A cena diante deles parecia um acidente bobo: dois administradores dormindo no expediente e um leve vazamento por descuido. Nenhum sinal de invasão, nenhum motivo para desconfiança.

Do alto, Jimin observava tudo com os olhos arregalados e o coração disparado. Quando viu os guardas deixando a sala sem levantar suspeitas, soltou o ar preso nos pulmões. Tinha dado certo. Ele tinha conseguido.

Com alívio, começou a rastejar de volta pelos dutos, sentindo o corpo inteiro cansado, mas leve de satisfação. Até que o som agudo das hélices soou como um pesadelo. O ar nos dutos passou a circular com mais força, e ele viu as hélices girando adiante. O caminho por onde viera agora era uma armadilha mortal. Se tentasse passar, seria picado em pedaços.

— H-Hoseok… — sussurrou com a voz trêmula. — As hélices estão ligadas… eu não consigo passar.

Do outro lado, Hoseok congelou por um segundo, então respondeu com a voz calma, mais calma do que se sentia por dentro.

— Jimin, escuta com atenção, — disse, firme. — Precisa mudar a rota. Volte um pouco pra trás. À sua direita tem uma bifurcação, uma passagem mais estreita. É antiga e um pouco mais difícil de passar, mas vai te levar até uma entrada lateral do esconderijo.

Jimin engoliu em seco.

— Eu consigo? — perguntou baixinho.

— Claro que consegue. Você já fez o mais difícil. Agora só precisa rastejar mais um pouco. Tô com você o tempo todo, ok?

— Tá bem… me guia, Hobi. Eu confio em você.

E com o coração ainda acelerado, mas com coragem nos olhos, Jimin deu meia-volta. Estava escuro, apertado, e o ar estava mais quente. Mas mesmo ali, vulnerável e sozinho, ele tinha uma certeza reconfortante: não estava realmente sozinho. Hoseok estava com ele. E ele não ia parar agora.

O medo fazia os músculos de Jimin tremerem, e não era só por causa do cansaço ou do frio metálico dos dutos. Era o tipo de tremor que vinha de dentro, de quando a coragem precisa lutar com o pânico para continuar. Ele se arrastava lentamente, como Hoseok o guiava, até que parou diante de um novo obstáculo: um caminho íngreme, estreito, com uma queda visível no final. O duto parecia terminar abruptamente em um buraco escuro e sem fim.

Jimin engoliu em seco.

— E agora, Hobi? — perguntou, a voz trêmula.

Do outro lado do fone, Hoseok levou um segundo antes de responder, tempo suficiente apenas para ajustar o tom da própria voz.

— Agora você vai ter que confiar em mim, — disse, calmo, firme, presente — Esse duto desce para os andares inferiores do nosso esconderijo. Depois disso, é só subir uma escada e você vai sair naquela passagem secreta do lado sul. Não tem outro caminho, Chim.

Jimin fechou os olhos por um instante, tentando reunir força dentro de si.

— Está bem, Hobi. — respondeu, quase num sussurro.

— Só tome cuidado, está bem? Vá devagar. Se escorregar, tente segurar nas laterais. Eu estou com você o tempo todo.

— Vou tomar cuidado… — disse Jimin, e sua voz falhou no final, embargada por emoção.

Ele não era habilidoso como Yoongi. Não era inteligente como Hoseok. Mas ele estava ali, se arrastando no escuro por eles, por si mesmo, pelo futuro. E isso o tornava mais corajoso do que jamais havia se dado conta.

Jimin reuniu toda a coragem que ainda lhe restava e começou a descer o duto, agarrando-se com força às laterais. Suas mãos tremiam, e a cada movimento sentia o corpo se arrastar com dificuldade por aquele espaço estreito. Mas então, como se a gravidade tivesse decidido não cooperar mais, o duto se inclinou ainda mais abruptamente.

— Hoseok...! — ele tentou chamar, mas sua voz se perdeu no ar quando seu corpo deslizou.

Num segundo, estava caindo.

O metal passava rapidamente sob suas costas, braços e pernas, esquentando com o atrito. A luz no fim do duto se aproximava como uma lâmina. Jimin tentou desesperadamente segurar-se nas bordas, mas seus dedos escorregaram.

E então veio o impacto.

Seu corpo atingiu o chão com força. As costelas pareciam ter sido esmagadas por dentro, e o ar fugiu completamente de seus pulmões. Ficou imóvel por alguns segundos, o mundo girando em torno dele.

Estava deitado de barriga pra cima, os olhos fechados, a respiração curta e irregular. Seu coração batia alto, desesperado.

— Jimin?! Jimin, responde! — a voz de Hoseok soava distante, mas aflita.

Com muito esforço, Jimin abriu os olhos. O teto estava alto, o bastante para deixar claro o quanto ele havia caído. A dor era intensa, mas quando moveu os braços e depois as pernas, percebeu que nenhum osso havia se quebrado. Ainda doía muito, mas ele estava inteiro.

Se sentou com dificuldade, rangendo os dentes, os joelhos ralados e os braços arranhados. Tocou as costelas, fazendo uma careta. Ainda doía respirar fundo, mas estava vivo.

Provavelmente o que o havia salvado era o que antes tanto odiava ouvir: sua natureza híbrida. Seu corpo era mais resistente, mais forte do que o de um humano comum. E naquele momento, isso tinha feito toda a diferença.

— Hobi… tô bem, — murmurou, a voz fraca.

Do outro lado, Hoseok soltou um suspiro tão grande que parecia ter prendido o ar desde a queda.

— Graças a Deus... Chim, não se mexa por enquanto. Recupera o fôlego, respira devagar. Já estou rastreando sua localização. Você conseguiu, só falta um pouquinho agora.

Mesmo com o corpo moído, Jimin sorriu de leve. Ele tinha conseguido. Ainda estava de pé, ou quase.

Jimin olhou ao redor, sentindo o estômago revirar com o cheiro pútrido que invadia suas narinas. Estava em um enorme pátio subterrâneo, escuro e sombrio, com o teto e as paredes cobertos de lodo viscoso. O chão úmido escorregava sob seus pés, e o som constante das goteiras ecoava pelo ambiente como um relógio distorcido. Canos grossos de concreto atravessavam o lugar, confirmando sua suspeita: aquilo era um esgoto.

Mesmo enjoado e machucado, Jimin forçou os olhos a vasculhar cada canto. Foi então que viu, no extremo oposto do pátio, uma silhueta.

Deu um pulo para trás, assustado.

Havia alguém ali.

Um rapaz, algemado a um cano de ferro enferrujado preso à parede. Vestia um jaleco branco encardido, o corpo pendendo como se não tivesse mais forças. Estava imóvel, mas consciente o suficiente para olhar diretamente para Jimin. Seu olhar era vazio, cansado, como o de alguém que já não esperava mais nada.

Com cautela, Jimin se aproximou. Seu coração acelerado, mas algo naquele rosto abatido e silencioso o impedia de fugir.

Parou diante dele, observando-o. A pele estava pálida, os olhos fundos. Os lábios ressecados tinham rachaduras que chegavam a sangrar. Então, Jimin viu o bordado no bolso do jaleco: “Jeon Jungkook” em azul escuro.

Sem pensar duas vezes, Jimin tirou a garrafinha d’água que carregava e cuidadosamente despejou o líquido nos lábios do rapaz. Jungkook, mesmo fraco, bebeu como se fosse sua última chance de vida, engolindo com desespero.

— O-o-obrigado… — murmurou, com a voz quase inaudível, antes de apagar.

Jimin segurou o corpo dele com cuidado para que não desabasse de vez. O coração do loiro batia acelerado.

A missão de hoje tinha mudado. Ele não estava mais sozinho naquele pátio fétido. Agora, havia mais alguém para salvar.

Notas finais
Olha só quem apareceu 👀