Hybrids
8 O Enfermeiro

Jungkook não sabia ao certo se estava acordando ou sonhando. Tudo parecia embaçado, distante, mas ele conseguia ouvir vozes. Risinhos abafados. Murmúrios desconexos, como se estivesse cercado por alguém, ou algumas pessoas. E estava.
Jimin, Yoongi e Hoseok estavam sentados próximos ao colchão improvisado onde ele repousava, observando-o como se ele fosse uma espécie rara recém-descoberta.
— Ele é gato, — comentou Jimin, com um sorrisinho torto.
Yoongi se inclinou, analisando as orelhas e o cabelo do rapaz desacordado.
— Gato? — perguntou, confuso. — Cadê as orelhas e o rabo?
— Não gato igual você, — explicou Jimin, revirando os olhos. — Gato no sentido de bonito.
— E onde você aprendeu a falar assim, vira-lata? — provocou Yoongi, com um olhar malandro.
Jimin fez um biquinho, visivelmente ofendido.
— Não sou vira-lata… seu… seu… seu… — ele tentava encontrar uma ofensa à altura, mas tudo que conseguiu foi — … seu bobo.
Yoongi bufou e revirou os olhos, entediado.
— Parem vocês dois, — cortou Hoseok, focado enquanto examinava o corpo do desconhecido. — Temos coisas mais importantes pra resolver.
Ele analisava os braços de Jungkook, comparando com os próprios. Era impressionante o quanto o rapaz era definido. Tinha músculos firmes e torneados, como se tivesse sido esculpido.
— Deixa eu ver também, — disse Jimin, já passando a mão com delicadeza pelo braço de Jungkook, explorando o contorno. — É tudo durinho.
— Deixa de ser safado, — Hoseok bateu na mão dele, afastando-a.
— E por que você pode e eu não? — Jimin rebateu, emburrado.
— Porque eu sou cientista, estou examinando. Você está passando a mão com segundas intenções.
— Ele é bonito, — Jimin deu de ombros, completamente sincero.
Hoseok suspirou, passando a mão no rosto.
— Não sabemos quem ele é, nem o que estava fazendo lá embaixo. Foi arriscado trazer ele pra cá.
— Eu não ia deixar ele lá. Ele estava amarrado há dias, quase morrendo sem comida. E se estava naquele estado, provavelmente não está do lado dos donos daqui — argumentou Jimin, a voz baixa, mas firme.
Hoseok pensou por alguns segundos.
— É… tem razão. Mas precisamos esperar ele acordar pra confirmar.
— Eu faço as perguntas! — Jimin se animou, batendo palminhas.
— Nem pensar! — Hoseok rebateu na hora. — Você não tem foco. Se ele piscar, você já fica de quatro.
— Não é bem assim… — Jimin tentou se defender, fazendo bico.
— Ah, é sim, — Yoongi comentou, cruzando os braços. — Você é o mais safado daqui.
Jimin apenas deu de ombros, sem negar.
— Fazer essas coisas é divertido e gostoso. Imagino como seria com um homem desses… — ele murmurou, passando a mão devagar pelo peito de Jungkook, sentindo a pele quente e os músculos duros.
— Tira a mão daí, — Hoseok afastou de novo a mão de Jimin, já cansado das gracinhas. — Temos aquelas aulas inúteis daqui a pouco. Vamos revezar. Cada hora, um de nós fica de vigia.
Jimin bufou, mas assentiu. E pela primeira vez em muito tempo, havia algo novo em seus dias monótonos: um estranho que podia mudar tudo.
…
Jungkook despertou devagar, com os sentidos ainda embaralhados. Dessa vez, não ouvia risadas, nem vozes cochichando ao redor. O ambiente estava silencioso, iluminado apenas por uma luz fraca que deixava o espaço menos agressivo aos olhos.
Quando olhou para as mãos, percebeu o acesso preso em seu dorso. Um líquido transparente escorria lentamente pela agulha, entrando em sua veia. Tentou se levantar, mas congelou ao ouvir uma voz ecoar na penumbra.
— É só soro. Não é veneno nem nada do tipo.
Seu olhar correu para o canto escuro da sala e encontrou a silhueta de alguém.
— Q-q-quem é v-você? O-on-onde eu tô? — sua voz falhou, a gagueira escapando antes que pudesse evitar.
A figura se aproximou devagar, revelando o rosto sorridente de um jovem de cabelos loiros, rosto redondo e feições adoráveis.
— Sou o Jimin, — respondeu ele, parando a uma distância segura.
Jungkook o observou com mais atenção. O que mais chamava a atenção, além do sorriso gentil, era a "tiara" com orelhinhas de cachorro no topo da cabeça. Parecia um daqueles acessórios que adolescentes usavam em festivais ou feiras temáticas. Embora o garoto fosse fofo, claramente já parecia mais velho para estar usando algo assim.
— Ji-ji-Jimin? — repetiu Jungkook, tentando pronunciar corretamente.
Jimin deu uma risadinha leve, os olhos brilhando de diversão.
— Quase isso. Tira alguns “Ji’s” e você acerta.
Jungkook respirou fundo, tentando controlar a ansiedade para que as palavras saíssem melhor.
— D-desculpe… eu tenho problema de dicção. F-fico gago quando fico n-nervoso.
Jimin inclinou a cabeça, sorrindo ainda mais.
— Tudo bem. É fofo.
— F-fofo? D-droga… — Jungkook murmurou, ficando ainda mais nervoso.
Jimin mordeu o lábio para segurar o riso, então se aproximou mais, saindo completamente da sombra.
Agora, Jungkook podia vê-lo melhor. Além das orelhinhas, havia também um rabo peludo, balançando preguiçosamente atrás dele. Por um momento, Jungkook imaginou ser parte de uma fantasia.
— Seu nome é Jeon Jungkook, correto? — Jimin perguntou, cruzando os braços e se aproximando um pouco mais.
Jungkook assentiu com cautela.
— S-sim… onde eu estou?
— Eu faço as perguntas primeiro, Sr. Jeon. — Jimin mordeu os lábios, o que deixou Jungkook ainda mais desconfortável, sentindo um frio estranho no estômago.
— Você é enfermeiro, correto?
— Sim, sou. — Jungkook respondeu, tentando manter a calma.
Jimin andou em círculos, como se estivesse brincando de interrogatório.
— Hum… se lembra como veio parar aqui?
Jungkook respirou fundo, vasculhando as memórias ainda confusas.
— N-não muito… m-m-me lembro que estava procurando o corredor dos resultados de exames, desci o elevador e continuei andando por alguns corredores… então me perdi. Aí senti uma pancada forte na cabeça e… e acordei com você na minha frente, naquele esgoto. F-foi você que me bateu?
Jimin arregalou os olhos, indignado.
— Claro que não! Jamais bateria em alguém tão… — ele passou a mão lentamente pelo peito de Jungkook, fazendo o moreno prender a respiração — ...legal quanto você, Sr. Jeon.
Jimin sorriu, mas logo o sorriso se desfez em uma expressão mais séria.
— Bem, vou te explicar o que aconteceu. Pelo visto, você encontrou esse lugar por acidente.
Jungkook franziu o cenho.
— Q-que lugar é e-esse?
— Pelo que imagino… é o subsolo de onde você trabalha. Ou melhor, o submundo. — Jimin soltou uma risadinha baixa, mas Jungkook não achou a menor graça.
— Submundo? — murmurou, ainda tentando entender.
— Sim. Isso aqui é enorme, uma instalação científica escondida do mundo. Ninguém sabe que estamos aqui, Jeon.
Jungkook sentiu a garganta secar.
— Instalação científica? O que eles… pesquisam aqui?
Jimin respirou fundo, e dessa vez, passou as mãos lentamente pelo próprio corpo, como se estivesse se mostrando. Jungkook tentou desviar o olhar por respeito, mas era impossível não reparar na sensualidade natural do rapaz.
— I-i-isso o quê? — Jungkook perguntou, cada vez mais nervoso.
— Eu… — Jimin parou e olhou diretamente para ele. — Eu sou o que eles estudam.
Jungkook arregalou os olhos, confuso.
— P-po-por quê?
— Você não reparou que eu sou diferente?
— N-não… — Jungkook arqueou as sobrancelhas, confuso, olhando de novo para as orelhas no topo da cabeça do loiro.
— Meu Deus… — Jimin soltou uma risadinha, como se aquilo fosse óbvio. Ele apontou para as orelhas de cachorro.
Jungkook soltou uma risada leve, achando graça da cena.
— É bonita sua tiarinha… confesso, muito fofa. Mas… o que isso tem a ver?
Jimin parou de sorrir e o encarou, como quem ouve a maior besteira do mundo.
— Tiarinha?
— Sim, ué… isso que você tá na cabeça…
— Isso são as minhas orelhas.
Jungkook soltou uma gargalhada baixa, balançando a cabeça, achando que o loiro estava brincando.
— Isso é fofo, muito fofo… mas não tem como ser de verdade.
Jimin suspirou, cruzando os braços, já impaciente.
— Mas é de verdade, — disse, dando um passo à frente até encurtar a distância entre eles. Seus rostos ficaram tão próximos que Jungkook se assustou, encolhendo um pouco, mas logo se obrigou a se recompor, mesmo que seu coração estivesse disparado.
Jimin tinha um rosto bonito, e isso só deixava tudo ainda mais confuso e tenso.
— Veja mais de perto se não acredita.
Jimin afastou com delicadeza algumas mechas loiras do próprio cabelo, revelando as orelhinhas com mais clareza. Jungkook arregalou os olhos. Não havia fita, nem arco, nem encaixe visível. Elas simplesmente saíam da cabeça de Jimin, como se sempre tivessem feito parte dele.
E então Jungkook viu um canal auditivo, bem no fundo da orelha canina. Um detalhe biológico que não fazia sentido nenhum. Era como o ouvido de um animal. Mas Jimin também possuía orelhas humanas, discretas, nas laterais da cabeça.
— I-i-isso… isso não é possível… — murmurou Jungkook, estendendo a mão de forma quase automática.
Ele tocou as orelhinhas com cuidado, como se fossem frágeis demais para aguentar qualquer movimento brusco. Jimin fechou os olhos por um instante, claramente gostando daquele toque delicado, seu rabo até se mexeu levemente atrás dele.
— Isso vai contra toda a anatomia humana… — Jungkook balbuciou, chocado, tentando processar o que via e sentia.
— Entendo a sua descrença, — respondeu Jimin, abrindo um sorriso — mas isso é possível sim… por isso estou aqui, sendo estudado. Eu fui feito aqui.
Jimin mordeu o lábio e se inclinou, sussurrando de um jeito provocante:
— Sou geneticamente modificado. Se quiser, pode estudar minha anatomia à vontade… — ele piscou descaradamente — sabe… como minha anatomia é de um canino, consigo fazer umas coisas bem interessantes.
Jungkook ficou tão em choque que nem percebeu a malícia da frase.
— Então… quer pegar no meu rabo também? — Jimin completou, a voz carregada de intenção.
Mas Jungkook estava tão pasmo que ignorou qualquer segunda intenção. Tocou o rosto de Jimin com as duas mãos, os olhos cheios de compaixão, como se quisesse protegê-lo de algo que nem compreendia por completo.
— Por que… por que fizeram isso com você? — sussurrou, a voz falhando de tão indignado.
Jimin engoliu em seco, o sorriso se desfazendo aos poucos.
— Eu não sei… humanos são assim. Fazem porque podem. Nada pessoal, Jeon.
Ele desviou o olhar, mas sua voz continuou firme.
— Eles queriam criar uma raça nova. Um tipo de ser que fosse domesticável, obediente e que servisse para satisfazer os desejos dos donos que pagassem caro por nós.
Jungkook sentiu o estômago revirar.
— Isso é horrível… não podem fazer isso! — sua voz saiu mais firme do que ele esperava.
Ele não conhecia Jimin. Mal sabia quem ele era de verdade. Mas naquele momento, tudo o que queria era protegê-lo daquilo. Não podia aceitar a ideia de alguém como Jimin, como qualquer pessoa, sendo tratado como um objeto, como um animal à venda.
Ele fechou as mãos em punhos, determinado a entender até o fim o que estava acontecendo ali.
Jungkook sentiu seu corpo congelar. Cada palavra de Jimin parecia um teste para sua sanidade — ou para sua ingenuidade.
— M-mas… eles já… — ele engoliu em seco, tomando coragem para perguntar — … já abusaram de você?
Jimin negou com a cabeça, cruzando os braços.
— Não. Nunca. Aqui, eles não fazem isso. Somos tratados como joias raras, como mercadoria cara demais para ser “estragada”. Eles nos preservam até a venda oficial. Até lá… somos só cobaias de testes e aprendizado.
— Aprendizado? — Jungkook franziu o cenho.
— Sim. Quando acordamos… é como nascer de novo. Não sabemos falar, não sabemos nada. Eles apagam quem éramos antes. Mas o que eles não sabem é que nosso cérebro evoluiu… somos mil vezes mais rápidos que eles pra aprender. Sem ofensas, claro.
— Tudo bem… — Jungkook sussurrou, o estômago revirando de novo. — Mas vocês precisam sair daqui. Isso é… cruel demais.
Jimin soltou um longo suspiro.
— Já tentamos. Inúmeras vezes.
— Então tentem de novo… eu… eu posso ajudar! — Jungkook se inclinou um pouco, sincero, determinado.
Mas Jimin cruzou os braços e inclinou o rosto, desconfiado.
— E se você for um espião deles?
— Eu não sou! Eu quase morri naquele lugar. Se você não tivesse me encontrado, eu… eu já estaria morto!
Jimin não respondeu de imediato. O silêncio pairou entre eles até que ele deu um passo mais perto, estreitando os olhos.
— Tem um jeito de descobrir.
— Q-que jeito? — Jungkook engoliu em seco.
O sorriso malandro de Jimin se abriu lentamente.
— Precisamos acasalar.
— A-a-a-a… a-acasalar?! — Jungkook quase engasgou com a própria saliva.
— É. Transar.
— T-t-t-t-t-t-transar?! — Jungkook sentiu o rosto queimar.
Jimin deu um passo ainda mais perto, o sorriso cínico crescendo.
— Sim. Eu tenho um… poder especial, — ele sussurrou, fingindo mistério — que me permite sentir a verdadeira natureza da pessoa quando transo com ela. Eu descubro se ela é boa ou má.
Jungkook estava tão surpreso que não sabia se ria ou acreditava. Aquele lugar já tinha quebrado qualquer noção de normalidade.
— Você… pode mesmo fazer isso? — perguntou ele, hesitante, mas curioso.
Jimin deu um sorriso vitorioso, começando a desabotoar o primeiro botão da própria camisa, inclinando-se levemente para frente.
— Claro que posso… — ele sussurrou de forma provocante — É só transar comigo, Jeon, e você oficialmente fará parte do nosso grupo de fuga. Então… o que me diz?
Jungkook prendeu a respiração, o cérebro em curto-circuito, incapaz de decidir se estava em uma pegadinha… ou prestes a se meter na maior enrascada da sua vida.
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