Hybrids

10 O plano da Raposinha



— D-desculpa... eu só... só... — Jungkook tentou justificar o olhar insistente, mas nenhuma desculpa lhe pareceu boa o bastante. Então apenas baixou os olhos, corado, mergulhado no próprio constrangimento.

— Tá tudo bem — Jimin respondeu com um riso leve — Pode me olhar o quanto quiser. Além de ser diferente, eu sei que sou bonito. É normal você ficar curioso.

Ele se sentou em frente a Jungkook e, com delicadeza, levou as duas mãos ao rosto dele, guiando-o para que o olhasse. As mãos de Jimin eram quentes, suaves, e o toque trouxe um arrepio inesperado a ele. Jungkook ergueu os olhos, obediente ao gesto, e naquele instante sentiu algo dentro de si se acender. Era como se uma onda de sentimentos o atravessasse de uma vez. O coração disparou.

Mas sua timidez foi mais forte, e ele desviou o olhar para o chão novamente.

— Olha pra mim — Jimin pediu, com a voz mais baixa.

Jungkook obedeceu. Seus olhos encontraram os de Jimin, e o peso daquele olhar o atingiu em cheio. Era como se estivesse sendo despido, não das roupas, mas das defesas. Lutava para manter o contato visual, mesmo com o rosto queimando de vergonha.

Ficaram assim por alguns segundos, presos um ao outro, em silêncio. Quando Jimin começou a afastar as mãos, Jungkook, num gesto involuntário, segurou seus punhos, impedindo-o.

O toque fez Jimin prender a respiração. As mãos de Jungkook eram maiores, firmes e estavam pedindo por mais. Não com palavras, mas com a linguagem muda de quem já estava entregue sem perceber.

E dessa vez, foi Jimin quem ficou sem saber o que dizer.

No fim da tarde, quando os três saíram para as aulas e testes, apenas para manter as aparências, Jungkook ficou sozinho no quarto. Com algum esforço, se levantou. As pernas ainda estavam fracas, mas ele precisava de um banho.

Passou longos minutos sob a água quente, deixando que o vapor aliviasse a tensão de seu corpo. Sentia-se mais vivo a cada gota que escorria por sua pele.

Depois do banho, caminhou até o quarto procurando por alguma roupa. Não podia ficar usando aquele pijama de hospital para sempre. Experimentou algumas peças. As de Jimin e Yoongi eram pequenas demais, quase infantis em comparação ao seu corpo. As de Hoseok, embora ainda um pouco justas, foram as que melhor serviram.

Já vestido, se sentou no sofá com uma pilha de anotações nas mãos. Cadernos e folhas soltas com diagramas, hipóteses e esquemas anatômicos. Eram de Hoseok. Mesmo sendo apenas um enfermeiro, Jungkook conseguia entender parte daquilo. E o que lia o impressionava.

Hoseok não era só um experimento, era um cientista por conta própria. Alguém que se recusava a ser apenas uma cobaia. Estudava tudo sobre eles: estruturas genéticas, alterações comportamentais, dados clínicos. Buscava entender o que haviam feito com seus corpos. Jungkook segurou as folhas com mais firmeza. Aquilo não era só injusto. Era desumano.

Estava decidido. Ajudaria aqueles três a saírem dali. Faria o que fosse preciso para protegê-los daquele lugar, não como um enfermeiro, mas como alguém que não suportava ver tanta crueldade sendo tratada como ciência.

Na manhã seguinte, Hoseok já estava pronto para colocar seu plano em ação.

— É o seguinte — começou o ruivo, ajustando os óculos no rosto como se fosse um verdadeiro cientista — Com o cartão que Jimin me trouxe, consegui acessar a ficha de Yoongi e descobrir pra onde ele seria enviado. E, obviamente, mudei o destino. Usei aquele endereço que já tínhamos em mente: o do promotor Kim.

— Mas será que ele vai mesmo nos ajudar? — perguntou Yoongi, cético.

— É aí que você entra. Vai ter que ser convincente. Pelo que descobri, o Promotor Kim nem faz ideia do que acontece aqui embaixo. Então, quando ele te ver, vai levar um susto. Você precisa pensar bem nas palavras que vai usar. Acha que consegue?

Yoongi deu uma risadinha sarcástica, com seu típico ar superior.

— Por favor, sou Min Yoongi. Convencer um promotor com cara de trouxa é o mínimo. — Olhou brevemente para a foto de Taehyung no dossiê. O homem sorria na imagem, usando óculos de grau e uma camisa social impecável.

— Perfeito. Precisamos manter contato. Assim que ganhar a confiança dele, você tem que dar um jeito de nos tirar daqui — continuou Hoseok.

— Eu vou tirar vocês daqui. Nem que eu tenha que derrubar esse lugar com as próprias mãos.

— Só não vale dormir no caminho — provocou Jimin, rindo baixinho.

— Por que você não vai correr atrás do próprio rabo? — retrucou Yoongi, tentando acertar um tapa em Jimin, mas Jungkook se colocou na frente no último segundo, em silêncio, mastigando um pedaço de pão.

Jimin riu, claramente satisfeito com a cena.

— Tenho um guarda-costas agora — disse, mostrando a língua e se escondendo atrás de Jungkook.

— Pelos deuses… — resmungou Hoseok, passando a mão no rosto — E pensar que somos supostamente seres superiores. Será que dá pra focar? Estamos numa reunião de missão importantíssima aqui!

Os três pararam imediatamente e se viraram para ele, como alunos bagunceiros sendo flagrados pelo professor.

— Continuando… — retomou Hoseok, já cansado das interrupções — está tudo pronto para o nosso plano de fuga. Tudo certo pra você, Yoongi? Alguma dúvida?

— Nenhuma. Só certifique-se de deixar minha caixa bem confortável. Não quero sair com dor na lombar — respondeu Yoongi, com o tom mais sério do mundo.

Hoseok balançou a cabeça, revirando os olhos.

— Pode ficar tranquilo, vai viajar em primeira classe felina. Sua ida está programada para sexta-feira. Então, tem dois dias para se preparar.

— É o suficiente.

— Não tá nervoso, Yoonie? — perguntou Jimin, já se jogando nos braços dele, como se não tivessem trocado farpas há poucos minutos.

— Nem um pouco. Só preciso convencer o tal promotor… e torcer pra que ele tenha petiscos gostosos em casa.

Hoseok ignorou o comentário e seguiu com o que era realmente importante.

— Certo. Fim da reunião. Temos dois dias para nos preparar. Yoongi, vou te passar todas as informações que consegui sobre Kim Taehyung. É bom decorar tudo, estude esse homem como se sua vida dependesse disso… porque depende.

Yoongi suspirou, resignado, já lamentando as preciosas horas de sono que seriam sacrificadas em nome da missão.

Taehyung estava tranquilamente lendo um livro no sofá quando o interfone tocou.

— Alô? — atendeu, ainda com os olhos presos na última linha que lia no livro.

— Senhor Kim, chegou uma encomenda para o senhor — informou o porteiro.

— Encomenda? — franziu a testa — Pra mim? Não tô esperando nada.

— Está no nome do senhor, inclusive com todos os seus dados.

— Tá bem… pode mandar subir, por favor.

Minutos depois, a campainha tocou. Taehyung deixou o livro de lado e foi atender a porta. Dois entregadores estavam ali, suando para equilibrar uma enorme caixa retangular.

Após assinar o papel de recebimento e agradecer aos homens, ele fechou a porta e encarou a caixa gigante agora estacionada bem no meio de sua sala. O que quer que fosse aquilo, era estranho. Não tinha selo, nem remetente, apenas seu nome e dados. E o mais esquisito: havia pequenos buracos espalhados pelas laterais… como se fosse uma caixa de transporte de animal.

— Mas que… — ele murmurou, intrigado.

Curioso e um tanto cauteloso, se aproximou devagar e começou a abrir a caixa. Assim que retirou a tampa, deu um pulo para trás e caiu de bunda no chão, assustado.

De dentro da caixa, um rapaz de aparência séria e cabelos desgrenhados se espreguiçou preguiçosamente como se tivesse acabado de acordar de uma soneca.

— Finalmente — murmurou Yoongi, bocejando. Depois fitou Taehyung com um olhar entediado. — Tô com fome. Tem alguma coisa pra comer aqui?

Notas finais
Agora que a história começa! E vamos de encontro TaeGi no próximo cap. Coitado do Tae, do nada uma encomenda como essa na sua casa.