Hybrids
11 Encomenda por engano

Taehyung continuava sentado no chão, exatamente como tinha caído. Seus olhos permaneciam arregalados, fixos em Yoongi. E não era pelas orelhas de gato, isso era o menor dos detalhes. O verdadeiro choque era ter visto um rapaz saindo de uma caixa no meio da sua sala.
— Q-quem é você? — perguntou, ainda tentando entender se estava sonhando ou enlouquecendo.
— Ah, onde estão meus modos? — disse Yoongi, saindo calmamente de dentro da caixa como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. — Min Yoongi. Prazer em conhecê-lo. Sou seu, a partir de agora.
— Meu? — Taehyung franziu a testa, notando as fitas vermelhas amarradas na cabeça do rapaz, como se ele fosse um presente de aniversário.
— Sim. Seu “animal de estimação”, pra ser mais exato — respondeu Yoongi, fazendo aspas com os dedos. — Você tem salgadinho?
— Espera aí — Taehyung se levantou devagar, ainda zonzo com a situação. — Olha, Yoongi, né? Eu não sei o que você acha que está acontecendo, mas eu não pedi ninguém. Não curto esse tipo de serviço. Isso foi um engano. Você veio parar na casa errada.
A única explicação que veio à sua mente era que aquilo era algum tipo de fetiche esquisito. Talvez Yoongi fosse um garoto de programa, o que explicaria as orelhas e os laços.
Yoongi revirou os olhos com força.
— Ai, Deuses… Não é o que você está pensando. O endereço está certo, sim. Você é Kim Taehyung, promotor, certo? Reconheci você assim que vi.
— Sou, mas isso só torna tudo mais estranho. O que você quer comigo? Por que apareceu assim, do nada, na minha casa?
— É uma longa história…
— Ótimo. Tô de folga hoje. Tenho todo o tempo do mundo — respondeu Taehyung, cruzando os braços, ainda desconfiado, mas visivelmente curioso.
— Tudo bem. Mas antes disso, será que você tem algo pra comer? Tô com fome.
Taehyung suspirou, vencido. Aquele rapaz podia ter saído de uma caixa e dizer que era “seu”, mas ao menos tinha um jeito fofo de pedir comida.
— Tá, vou fazer uns lanches. Depois você me conta essa história absurda.
— Com atum. Quero muito atum — disse Yoongi, já tirando os laços da cabeça e resmungando mentalmente contra Jimin por ter arrumado ele como se fosse um presente embrulhado.
…
Taehyung preparava um patê de atum caprichado, espalhando a mistura com cuidado sobre fatias de pão. Ao seu lado, Yoongi observava tudo de perto, farejando o ar como se fosse, de fato, um gato curioso. Tinha acabado de chegar — literalmente de dentro de uma caixa — e já se sentia estranhamente à vontade naquela casa.
— Isso cheira bem — comentou Yoongi, com os olhos fixos na comida, enquanto salivava discretamente.
— Você gosta mesmo de atum, hein? — Taehyung sorriu, achando engraçado o entusiasmo.
— Eu sou um gato, né — respondeu Yoongi, dando de ombros como se fosse óbvio.
— Bom… você é bonito, isso não posso negar.
— Não tô falando desse tipo de gato — retrucou Yoongi, sem nem olhar para ele. — Claro que sou bonito, isso é visível. Mas eu sou literalmente um gato.
— Ah… entendi — Taehyung engoliu em seco, lembrando de todos os malucos que já entrevistou como promotor. Sabia que não deveria contrariá-los — E… qual é o lance das orelhas?
— Já disse, sou um gato — Yoongi respondeu impaciente. — Isso vai demorar muito?
Taehyung soltou uma risadinha, cortando os lanches em pequenos triângulos e colocando em uma travessa. Mal ele colocou na mesa, Yoongi já se sentou, pegando os sanduíches com rapidez e fome digna de quem esteve escondido em uma caixa por horas.
— Tem leite? — perguntou de boca cheia, mastigando sem a menor cerimônia.
— Leite? Ah, claro. Gatos gostam de leite — comentou Taehyung, divertido. Pegou um copo, serviu e entregou a Yoongi, que aceitou como se fosse o mínimo que esperava.
Taehyung também se sentou à mesa, e entre uma mordida e outra, passou a observar o jeito desajeitado e intenso com que Yoongi comia. Tinha algo cativante ali, como se ele realmente fosse um bichinho mimado que exigia cuidados.
Quase sem perceber, pegou um guardanapo e limpou a boca de Yoongi, que nem se incomodou, pelo contrário, pareceu achar aquilo completamente normal. Ser paparicado, na opinião de Yoongi, era o mínimo que o mundo lhe devia.
Depois de devorar metade dos lanches e secar o copo de leite, Yoongi inclinou o queixo levemente para frente, oferecendo os lábios para que Taehyung o limpasse.
Taehyung piscou algumas vezes, em silêncio, sentindo seu coração derreter com aquela cena absurda de adorável. Ele nunca pensou que teria um ataque de fofura por causa de um estranho lunático que afirmava ser um gato.
— Satisfeito? — perguntou Taehyung, ainda meio desacreditado com toda a situação.
— Agora sim — Yoongi respondeu, passando a mão pela barriga estufada — Só falta escovar os dentes. Odeio ficar com gosto de comida na boca... vai que você resolve me beijar.
Taehyung engasgou no próprio ar. Tossiu uma vez, depois caiu na risada. Yoongi o encarou com as sobrancelhas franzidas, sem entender qual era a graça.
— O banheiro fica no fim do corredor — disse Taehyung, ainda rindo. — Na primeira gaveta da pia tem escovas novas. Pode usar uma. Se quiser, aproveita pra tomar um banho também e vestir algo mais confortável.
Foi só então que ele notou de verdade a roupa de Yoongi. Agora que o susto inicial passara, seus olhos desceram com mais atenção: calça de couro preta, absurdamente justa, moldando seu corpo com precisão perigosa; camisa branca, transparente demais para esconder o que quer que fosse. Taehyung engoliu em seco. Aquele rapaz era um completo estranho — e claramente maluco — mas aquilo não impedia seu cérebro de processar a imagem.
“Respira, Kim Taehyung”.
— Vou tomar banho. Não me incomode — anunciou Yoongi, já caminhando pelo corredor com a mesma confiança de quem era o dono da casa.
Taehyung ficou parado por alguns segundos, olhando para o nada.
“E eu achando que meu dia ia ser entediante.”
…
Taehyung estava na sala, parado diante da caixa aberta e vazia no meio do chão. Olhava para ela como se pudesse encontrar ali alguma resposta. Tudo parecia um sonho muito esquisito.
— Tem um rapaz tomando banho no meu banheiro… — murmurou para si mesmo, incrédulo — Um rapaz que eu nunca vi na vida. Isso é insano.
Foi tirado de seus pensamentos por uma voz vinda do corredor:
— Taehyung! Toalha!
Era Yoongi. O chuveiro ainda ligado, o vapor escapando por baixo da porta. Taehyung pegou uma toalha e correu até o banheiro.
"Por que estou fazendo isso?", pensou, já com a mão na maçaneta. Tinha algo estranho naquele rapaz. Não apenas orelhas de gato ou sua entrada triunfal numa caixa. Era o fato de que era fácil fazer o que ele pedia. Quase prazeroso.
— Onde eu coloco? — perguntou, mantendo o rosto virado para a fresta da porta entreaberta.
— Tá aberta, entra. — respondeu Yoongi com a maior naturalidade.
— Entrar? Tá maluco? Você tá pelado! E eu nem te conheço!
— E daí? Entra logo, não quero pegar friagem.
— Você tá numa situação vulnerável. Eu poderia ser uma pessoa ruim.
— Te garanto que o único em perigo aqui é você. Eu sou uma espécie superior, lembra?
— Ah, sim. O lance do gato. Como esquecer.
Mesmo relutante, Taehyung entrou devagar, os olhos fixos no chão como se aquele azulejo fosse a coisa mais interessante do mundo. O som da água cessou. Silêncio. E então o som do box de vidro sendo arrastado.
Yoongi puxou a toalha da mão dele, rindo da expressão do promotor, tão desconfortável quanto encantador. Aquela mistura de pureza e confusão quase fazia Yoongi querer apertá-lo.
— Relaxa, promotor — disse ele, com um sorrisinho provocante — não vou morder. Talvez arranhar.
Taehyung saiu do banheiro em silêncio, com as bochechas pegando fogo.
…
Yoongi vestiu as roupas que Taehyung havia separado e, sem cerimônia, se jogou na cama do promotor. O colchão era macio, os lençóis estavam limpos e a temperatura do quarto era aconchegante. Com a barriga cheia, o corpo limpo e o cabelo ainda úmido, o sono veio.
Antes de se render completamente, começou a afofar os travesseiros. Era um hábito seu, um ritual quase sagrado antes de dormir. Jimin odiava isso, dizia que ele ficava com um olhar estranho demais. Pior ainda era quando Yoongi encarava o nada, como se enxergasse algo atrás deles. Hoseok, só pra assustar, dizia que Yoongi podia ver espíritos e que, quando olhava assim, era porque havia um demônio atrás da pessoa. Jimin, claro, chorava. Enquanto os dois davam risada.
Taehyung bateu na porta do próprio quarto antes de entrar. A cena que encontrou fez seu coração amolecer num nível que ele não esperava: Yoongi dormindo completamente à vontade na sua cama, com os braços abraçados no travesseiro que ele havia acabado de afofar. Parecia um bichinho cansado que tinha finalmente encontrado um lar quente para descansar.
Ele ficou parado ali por alguns segundos, apenas observando. Nunca pensou que acharia alguém dormindo tão fofo. Mas Yoongi era exatamente isso. Fofo. Inexplicavelmente fofo.
E o mais louco era tudo que tinha acontecido até ali. Um desconhecido literalmente saiu de uma caixa no meio da sua sala. Ele o alimentou, preparou lanches com patê especial, deu toalha, roupas, acesso ao banheiro, e agora o deixava dormir em sua própria cama. Tudo isso em poucas horas.
Taehyung coçou a nuca, incrédulo.
— Isso não é normal. Nada disso é normal.
Mas, ainda assim, não conseguia se afastar. Yoongi poderia ser perigoso. Um golpista. Um maluco qualquer. E ainda assim havia algo nele. Algo que fazia Taehyung querer agradá-lo, deixá-lo confortável, cuidar dele. Era como se dissesse “sim” sem nem pensar, sem nem saber por quê.
Era como se Yoongi tivesse um poder. E talvez tivesse mesmo.
Yoongi abriu os olhos devagar, ainda embalado pelo sono. Bocejou e murmurou com a voz arrastada:
— Senhor Promotor?
— Olá, Senhor Yoongi — Taehyung se aproximou da cama com um sorriso paciente. — Deve estar exausto. Descanse. A gente conversa melhor amanhã, tudo bem?
— Uhum... — respondeu Yoongi, manhoso, quase como uma criança sonolenta. — Seria muito estranho se eu pedisse pra você cantar uma música pra eu dormir?
Taehyung arqueou uma sobrancelha, mas sorriu.
— Te garanto que depois de hoje nada mais me surpreende. Que música você quer?
— Uma que o Hobi canta pra mim às vezes.
— Hobi? Que Hobi?
Yoongi o olhou como se fosse óbvio.
— O Hobi! Como assim você não conhece o Hobi? O maior cientista do mundo. Tudo bem que eu só conheço ele, mas ainda assim ninguém supera ele em inteligência. Estou sinceramente preocupado por você não saber quem ele é.
Taehyung riu baixo, sentado na beira da cama.
— Acho que ainda temos muita coisa pra conversar.
— Not today! Agora só quero dormir, humano — Yoongi bocejou novamente. — Canta Gatinho Macio pra mim.
Taehyung arregalou os olhos, tentando conter a risada.
— Gatinho Macio?
— É um clássico. Você não sabe cantar? Que tipo de humano é você?
— Eu sei cantar, só... só estou tentando aceitar que um desconhecido felino invadiu minha casa, me obrigou a fazer lanches e agora quer que eu cante Gatinho Macio pra ele dormir.
— Exatamente. Canta baixinho pra não incomodar meu sono.
Antes que Taehyung pudesse dizer qualquer coisa, Yoongi deitou a cabeça em sua coxa como se aquilo fosse completamente natural. Taehyung ficou estático por alguns segundos, o coração acelerado com aquele gesto tão íntimo vindo de alguém que ele conhecia há menos de um dia.
Mas, por algum motivo, não o afastou. Ao contrário, levou a mão até os cabelos macios de Yoongi, acariciando-os devagar.
E então, com a voz baixa, doce e suave, começou a cantar:
Soft kitty
Warm kitty
Little ball of fur
Happy kitty
Sleepy kitty
Purr purr purr
Yoongi fechou os olhos, um sorrisinho satisfeito no rosto.
Taehyung, entre um verso e outro, só conseguia pensar em como tudo aquilo era completamente absurdo. E em como, de alguma forma, ele estava gostando.
Yoongi fazia um barulhinho baixo e ritmado, quase um ronronar. Taehyung o observava em silêncio, sem perceber o sorriso que se formava em seu próprio rosto.
“Meu Deus… devo estar mesmo ficando louco. O que faço com ele agora?”
Com cuidado, se inclinou e o pegou no colo. Yoongi, ainda dormindo, reagiu instintivamente: enroscou os braços em seu pescoço, se agarrando ao corpo dele como um filhote carente. Taehyung sorriu, encantado com aquele gesto tão doce.
Com delicadeza, ajeitou o pequeno dorminhoco na cama, cobrindo-o e certificando-se de que estava quentinho e confortável.
“Quem é você, Min Yoongi?” — pensou, encarando aquele rosto sereno.
“Por que veio parar justo na minha casa?”
A curiosidade o corroía. Inclinou-se um pouco mais, analisando de perto as orelhinhas felinas de Yoongi.
“Será que deveria tirar isso? Deve ser desconfortável dormir com uma fantasia dessas…”
Tocou uma das orelhas com a ponta dos dedos e puxou levemente, tentando não acordá-lo. Mas, ao sentir a textura e resistência, Taehyung congelou.
“Espera… o que é isso?”
As orelhas eram quentes, macias e… vivas. O susto foi silencioso, mas intenso.
“Isso… isso é real? É um implante? O que esse menino é, afinal?”
Sem saber o que pensar, desistiu de remover as orelhas e apenas suspirou. Pegou mais um cobertor e cuidadosamente o acomodou sobre Yoongi, quase como se estivesse protegendo algo precioso.
Apagou a luz e foi para a sala, mas sabia que dormir seria quase impossível. Sentou-se no sofá e encarou o teto, perdido em pensamentos.
Yoongi era um enigma, uma pergunta sem resposta entregue dentro de uma caixa. E Taehyung, pela primeira vez em muito tempo, estava ansioso pela manhã seguinte.
Fale com o autor