Hybrids
14 O dia da fuga
Notas iniciais

Já fazia quase um mês desde que Yoongi havia partido. No subsolo daquela corporação sombria, onde o tempo parecia se arrastar, Jimin dormia encolhido em sua cama gelada, tentando encontrar calor em meio ao vazio. Detestava o frio, e por isso tinha o hábito de se aninhar nos outros, fosse um abraço apertado ou deitando no colo de alguém. Hoseok não se importava; via Jimin como um irmãozinho carente de afeto, mesmo que, vez ou outra, compartilhassem momentos mais íntimos.
Jungkook, por outro lado, ainda não sabia lidar com aquele tipo de proximidade. Os gestos afetuosos de Jimin o deixavam visivelmente desconcertado. Seu rosto corava, sua respiração se acelerava e a gagueira tomava conta sempre que ele se aproximava.
Naquela noite especialmente fria, Jimin acordou tremendo, abraçado ao travesseiro como se fosse a única fonte de calor do mundo. Suspirou e olhou em volta. A cama era grande demais, fria demais, e o silêncio o sufocava.
— Kookie… — chamou com voz manhosa — Tô com frio... posso ficar no seu colo?
Além do frio, o cansaço pesava nos seus ombros. Tinha sido um dia longo, cheio de exames e testes desconfortáveis.
— C-c-c-c-c-claro… — respondeu Jungkook, quase engasgando com as próprias sílabas. Ele se odiava por não conseguir manter a compostura na presença de Jimin.
Jimin sorriu e caminhou até ele com sua coberta em mãos. Sentou-se em seu colo com a leveza de quem já se sentia em casa, encostando a cabeça na curva dele, aninhando-se com um suspiro de alívio. Envolveu-se na coberta, como um cachorrinho se enroscando em busca de proteção.
Do outro lado da sala, Hoseok os observava por cima dos óculos, contendo o riso.
— Tô vendo que você me trocou fácil, hein? — provocou, com um tom divertido.
Jungkook continuava estático, a veia do pescoço saltada, como se estivesse prendendo a respiração. Tinha certeza que morreria de vergonha antes que aquela noite acabasse.
Jimin passou a mão devagar pelo peito de Jungkook, que ficava cada vez mais rígido, no corpo e na postura. O rabo de Jimin se enroscou instintivamente na canela dele, e Jungkook estremeceu com o toque. Era estranho. Estranhamente... bom.
Jimin levantou o rosto e sorriu, um sorriso tão fofo e sereno que parecia coisa de outro mundo. Aqueles olhinhos brilhando como se ele fosse feito de luz. Um anjo. Um anjo com intenções nada inocentes.
— Kookie? — chamou baixinho, com a voz suave como mel.
— O-oi? — Jungkook respondeu, e sem nem perceber, passou os braços ao redor da cintura fina de Jimin.
— Posso te pedir uma coisa?
— P-p-pode… — respondeu engolindo seco, torcendo com todas as forças para que fosse só um convite para ver dorama.
Jimin deslizou a mão pelo seu peito, com um carinho doce e provocante, e sussurrou:
— Kookie… transa comigo?
Jungkook engasgou no mesmo instante. Arregalou os olhos, encarando aqueles lábios rosados e inocentes que tinham acabado de dizer... aquilo. Como era possível?
— T-t-t-transar?
— Uhum. Fazer sexo. Você e eu — repetiu com naturalidade e uma piscadinha sapeca, como se tivesse acabado de pedir um favor trivial.
O corpo de Jungkook reagiu antes da mente. Jimin percebeu e deu um sorrisinho malicioso e gracioso ao mesmo tempo.
— Mas… p-p-por que eu?
— Ainda pergunta? — Jimin inclinou o rosto, colando a boca pertinho do ouvido dele — Confesso que sua aparência me agrada bastante. E é claro que eu tenho vontade de fazer isso com você.
Jungkook já estava em combustão interna, mas então veio o golpe final.
— E… bem… meu cio tá chegando — sussurrou, com a voz arrastada e quente — e acho que vou precisar de ajuda.
Foi nesse momento que Jungkook sentiu que o universo estava conspirando contra sua sanidade.
Hoseok ria baixo das reações desesperadas do enfermeiro. Observava Jungkook como quem já se preparava para aplicar uma massagem cardíaca a qualquer momento.
— A-ajuda, tipo... aju-juda...? — Jungkook gaguejou, sentindo o coração disparar como se fosse explodir no peito.
— Sim — Jimin sussurrou ao pé do seu ouvido — Exatamente esse tipo de ajuda que você tá imaginando.
E então, como se não bastasse, deu uma mordidinha leve na orelha dele.
Jungkook se arrepiou da cabeça aos pés, um arrepio quente e involuntário. O ar saiu dos pulmões num suspiro sufocado.
— Vocês não vão transar na minha frente, né? — Hoseok cruzou os braços, olhando pros dois com a sobrancelha arqueada. — Jimin, o enfermeiro tá à beira da morte.
— Ele tá vivíssimo, Hobi — Jimin respondeu todo manhoso, rebolando sutilmente no colo de Jungkook, que soltou um gemidinho abafado. — E, pelo que tô sentindo aqui, parece que ele tem energia de sobra.
— Meu Deus do céu… — Hoseok se levantou, balançando a cabeça. — Deixem pra se pegar depois, por favor. Precisam comer antes. Jungkook fez uma sopa, só estávamos esperando você acordar pra comermos juntos.
— Mas tá tão bom aqui… — Jimin fez bico, se aconchegando ainda mais — Não quero sair. Tá quentinho, confortável e cheiroso.
— J-Jimin… você pode v-voltar depois… — Jungkook disse, quase implorando por misericórdia.
— Você gosta que eu fique no seu colo, né? — Jimin sorriu com uma doçura quase inocente, inclinando o rosto para encará-lo. — Eu amo ficar aqui. É tão gostoso. Gosto de sentir sua respiração quente... e o seu coração batendo bem rápido só por minha causa.
— Vocês tão me dando nojo. Não vão começar com boiolagem agora, né? — Hoseok reclamou, fazendo uma careta.
— Hobi, você é muito chato… precisa namorar urgentemente — Jimin retrucou com um sorriso provocador.
Hoseok revirou os olhos com força.
— Eu preciso de ar, comida e sono. Namorar é perda de tempo, um comportamento irracional. Eu só namoro com a ciência.
Jimin suspirou fundo, com ares dramáticos.
— Quando você achar uma ciência com trinta centímetros de p...
— Jimin! — Hoseok quase gritou, tapando os ouvidos. — Meu Deus, menino! Eu não te ensinei isso!
— Ah, ensinou sim, Hobizinho — Jimin respondeu com um sorriso travesso.
Hoseok bufou, derrotado, e saiu da sala rumo à cozinha para preparar a mesa, resmungando. Jimin riu ao vê-lo sair e então virou o rosto lentamente para Jungkook, que travou na hora que seus olhares se encontraram. O enfermeiro engoliu em seco.
— Agora somos só nós dois — Jimin sussurrou com um sorriso travesso, enlaçando o pescoço de Jungkook e aproximando os rostos até ficarem perigosamente perto.
Jungkook respirou fundo, tentando manter a compostura. Jimin riu baixinho, adorando a forma como conseguia desmontá-lo só com um olhar.
— E-eu… tô um pouco nervoso… me-desculpa.
— Não precisa se desculpar — Jimin sorriu de canto — Eu também fico nervoso… a diferença é que, quando isso acontece, eu fico ainda mais excitado.
Jungkook sentiu o rosto esquentar como nunca antes. Já não fazia esforço pra esconder as reações do próprio corpo, era impossível. Baixou os olhos, envergonhado, como se seu próprio desejo fosse uma confissão.
— Ei — Jimin segurou gentilmente seu queixo, fazendo-o encará-lo — Não precisa ficar assim. Eu tô te incomodando, Kookie? Quer que eu saia do seu colo?
— N-NÃO! Não… n-n-não quero que você saia… eu gosto… eu só… fico muito tímido, e isso é tão ridículo…
— Ridículo? — Jimin riu baixinho — Eu acho fofo. Adoro seu jeitinho tímido. Mas… se quiser, posso te ajudar a relaxar.
— P-pode?
— Claro. Fecha os olhos.
Jungkook obedeceu, fechando os olhos devagar.
— Agora respira fundo… puxa o ar devagar… e solta — Jimin guiava a respiração como se conduzisse uma música suave. Sua voz era tão doce e aveludada que Jungkook parecia flutuar.
Quando percebeu que ele estava mais calmo, Jimin se aproximou. Encostou os lábios no cantinho da boca de Jungkook e passou a língua devagar, sentindo a pele quente sob o toque.
Jungkook não se mexeu, mas seu corpo respondeu, apertou mais a cintura de Jimin, puxando-o contra si.
Jimin repetiu o gesto, dessa vez com mais ousadia. Jungkook então reagiu. Segurou firme a nuca de Jimin e, com um gesto ainda inseguro, mas cheio de vontade, deslizou a língua pelos lábios dele. Era um convite e Jimin aceitou.
O beijo começou lento, suave, como se os dois estivessem descobrindo um ao outro pela primeira vez. As bocas se encaixaram numa sincronia quente, e as línguas dançavam em um ritmo faminto e íntimo. Não havia mais dúvidas nem hesitações, só desejo.
Foi quando uma terceira voz quebrou o momento.
— O jantar tá na mesa — anunciou Hoseok com total despreocupação. — Deixem pra trocar saliva depois e venham comer antes que a sopa esfrie.
Jimin soltou um suspiro frustrado, e Jungkook ficou vermelho até a alma.
…
Naquela madrugada, Jimin despertou sobressaltado, suado e com o corpo em chamas. A respiração ofegante e o coração disparado entregavam o que ele mais temia, seu cio havia começado.
Sentia-se febril, mas o calor que o dominava era outro, era desejo. Uma excitação insuportável pulsava em seu ventre, irradiando pontadas que se espalhavam como ondas. Seu membro latejava, sensível ao ponto de doer, e as roupas coladas ao corpo pelo suor traziam desconforto, enquanto sua roupa íntima estava úmida, melada pelo líquido que escapava involuntariamente.
Com esforço, se sentou na cama, as pernas trêmulas quase não sustentavam o próprio peso. Ao olhar para o lado, viu Hoseok dormindo profundamente, o que, por si só, já era incomum. Mas fazia sentido. Durante o dia, o ruivo passara horas elaborando planos de fuga com um agente da CIA chamado Mingi, alguém que, segundo ele, era “um completo idiota metido a esperto”. Aparentemente, o sentimento era recíproco, já que Mingi também não o suportava.
Jimin respirou fundo, tentando controlar o calor que lhe dominava. Sabia que precisava sair dali. Se arrastou até a beirada da cama, apoiando-se nos móveis ao redor. O quarto estava mergulhado em escuridão e ele evitou acender a luz para não acordar Hoseok. Pegou uma lanterna com as mãos trêmulas e seguiu para a porta.
Conforme avançava pelo corredor sombrio, a dor se intensificava. Era como se seu corpo estivesse pegando fogo por dentro. Cada passo era uma tortura. O chão parecia girar sob seus pés, e a vontade de se encolher ali mesmo, como um animal ferido, era quase irresistível.
Seu coração martelava contra o peito como se quisesse escapar. A respiração vinha em rajadas irregulares, tão ofegante que parecia ter corrido uma maratona. A cada centímetro percorrido, o cio se tornava mais insuportável, como uma fome que não podia ser saciada.
Claro que não era a primeira vez que Jimin ficava excitado, sua natureza o deixava vulnerável a isso com frequência, e ele sempre recorria aos amigos para aliviar essa tensão. Mas agora era diferente. Aquilo não era só excitação, era um desejo bruto, selvagem, que queimava por dentro como se fosse devorado por uma febre.
Sua mente estava enevoada, consumida por uma única imagem: Jungkook. Seu nome martelava em seus pensamentos como um mantra, sua pele clamava pelo toque dele.
Atravessava os corredores escuros de forma desajeitada, tropeçando nos próprios pés, os dedos agarrando o tecido da blusa como se aquilo pudesse conter a dor e a necessidade. Parava às vezes, arqueando o corpo em espasmos de desejo, apertando as coxas e ofegando, sentindo cada célula gritar por alívio.
Com esforço, atravessou as passagens secretas, desceu as escadas com as pernas bambas e chegou até o esconderijo. Lá estava ele, o único que poderia salvá-lo da tortura.
Sem pensar, Jimin se jogou na cama de Jungkook, enfiando-se por debaixo das cobertas como se sua vida dependesse disso.
Jungkook acordou assustado com o súbito calor que tomou conta do colchão. Seus olhos se arregalaram ao sentir o corpo quente e trêmulo se apertar contra o seu.
— J-J-Jimin?! — Ele mal teve tempo de reagir antes de sentir os braços do híbrido o envolverem com força.
Jimin encostou o rosto em seu pescoço, inspirando profundamente, seu corpo tremia, ele arfava alto.
— Kookie… — sua voz era rouca, carregada de desejo e desespero — por favor… me ajuda…
Jungkook ficou paralisado por alguns segundos. O calor do outro o envolvia por completo. E o modo como seu nome foi dito, foi quase um gemido.
Jimin subiu lentamente por cima dele, até ficar encaixado, a respiração entrecortada. Os olhos marejados se encontraram com os dele.
— Ji-Ji-Jimin? — Jungkook se sobressaltou, esticando a mão trêmula até o abajur e acendendo a luz fraca ao lado da cama.
Jimin não respondeu. Seus braços tentavam envolver Jungkook com urgência, os lábios procurando desesperadamente seu pescoço. Jungkook, ainda confuso e assustado, o conteve com cuidado, segurando-o pelos ombros.
— Jimin, espera… você tá bem? — sua voz era cheia de preocupação. Ao tocar na pele do outro, sentiu o calor intenso — Meu Deus, você está em febre.
— Kookie… eu só… preciso de… você — Jimin arfava entre as palavras, como se estivesse lutando contra o próprio corpo.
— É o seu cio, não é? — Jungkook tocou com delicadeza seu rosto. O simples contato fez Jimin fechar os olhos e arfar profundamente, se aconchegando mais na palma de sua mão, sedento por carinho.
— Sim… por favor… me ajuda — sussurrou, roçando o rosto na mão de Jungkook como se aquilo fosse o único alívio possível.
— M-Mas, Jimin, eu… — Jungkook tentou falar, mas foi interrompido.
Com um impulso repentino, Jimin o empurrou de leve, fazendo com que ele se deitasse. Subiu sobre o corpo do enfermeiro com movimentos suaves, mas famintos. Jungkook congelou. Sentiu a respiração quente contra seu pescoço e, num só segundo, seu corpo inteiro estremeceu.
Jimin começou a distribuir beijos úmidos e lentos em sua pele, cada toque deixando um rastro de fogo. Jungkook arfou e, instintivamente, segurou firme sua cintura, apertando o corpo pequeno com força, o que arrancou um gemido baixinho de Jimin.
Num impulso, Jungkook inverteu suas posições, ficando por cima. Jimin abriu as pernas com naturalidade, o puxando para mais perto, como se pertencessem àquele encaixe. Os olhares se encontraram e quando ele mordeu suavemente o lábio inferior de Jimin, este soltou um suspiro entre prazer e alívio.
Não havia mais volta.
Ali, sob a luz tênue e a respiração entrecortada, eles souberam que não podiam, e nem queriam, lutar contra o desejo que os consumia.
…
Jungkook e Jimin foram despertados pela já familiar voz estridente de Hoseok gritando ao telefone. Não era preciso muito para saber com quem ele discutia, seu “rival” oficial, Mingi. As brigas entre os dois já faziam parte da rotina. Hoseok jurava que, no dia em que visse aquele metido da CIA pessoalmente, a primeira coisa que faria seria acertar um soco bem no meio da cara dele.
Os dois viviam em pé de guerra, sempre tentando provar quem era o mais inteligente, o mais rápido, o mais essencial para a operação. E o engraçado é que os dois realmente eram bons. Apesar das faíscas que voavam mesmo a quilômetros de distância, trabalhavam incrivelmente bem juntos. Eram, afinal, as duas mentes por trás do plano para desmontar a corporação sombria que sequestrava e modificava jovens e crianças.
Nem mesmo Taehyung, um dos promotores mais respeitados da Coreia, ousava se intrometer nas discussões. Mingi preferia deixá-lo focado na coleta de provas e nos trâmites legais. E, para isso, contava com Suk, que mergulhava cada vez mais fundo nos cantos obscuros da internet, vasculhando fóruns anônimos e mercados secretos em busca de qualquer pista.
A deep web era um território vasto e sinistro, drogas, armas, até órgãos humanos estavam à venda. Mas encontrar híbridos? Isso era diferente. A existência deles ainda era tratada como um boato entre poucos, um segredo muito bem guardado. E quanto mais o grupo cavava, mais percebia que estavam lidando com algo muito maior e mais perigoso do que qualquer um imaginava.
— Vamos, acordem seus putos! — Hoseok puxou a coberta dos dois de uma vez, como quem arranca um curativo. Ver os dois pelados não o surpreendeu nem um pouco. — Levanta logo! Vão tomar banho e voltem em dez minutos. Vocês tão fedendo a sexo.
— Ei! Hobi! — Jungkook protestou, sentindo o frio gelado invadir o quarto e puxando a coberta de volta para cobrir a si mesmo e Jimin.
— Só mais cinco minutinhos… — Jimin murmurou manhoso, abraçando Jungkook e se enfiando mais ainda nas cobertas.
— Nem pensar. Estava no telefone com o babaca da CIA e adivinha? A gente vai sair daqui hoje.
— HOJE? — Jimin e Jungkook gritaram juntos, arregalando os olhos.
— Isso mesmo. Por isso, mexam essas bundas peladas e vamos nos preparar pra fuga.
— E como vai ser? — Jimin perguntou, meio sonolento — Ah, deixa eu adivinhar… reunião, né?
— Olha só, temos um gênio entre nós — Hoseok cruzou os braços, impaciente. — Isso, reunião. Estratégia. Fuga. Liberdade. E pra isso eu preciso de vocês limpos, acordados e com menos cara de quem acabou de transar por horas.
Jungkook e Jimin foram para o banheiro, mas é claro que demoraram. Hoseok já andava de um lado para o outro, bufando. Só não derrubou a porta porque, apesar de tudo, sabia que Jimin estava no cio, e decidiu, por um segundo raro, ser compreensivo.
Hoseok precisava aproveitar aquele breve intervalo em que os hormônios de Jimin pareciam ter dado uma trégua. Ainda assim, os dois não paravam de se cutucar com soquinhos bobos, só pra ter uma desculpa pra se tocarem. Hoseok revirava os olhos a cada segundo.
— Dá pra vocês dois pararem de se alisar um minuto? — ele jogou um pedaço de giz que acertou o meio dos dois. — A reunião é aqui, não no motel.
— Desculpa, Hobi — disse Jungkook tentando se recompor, mas com um sorriso bobo estampado no rosto. — J-jimin, v-vamos nos comportar agora…
Jimin respondeu com um sorrisinho malicioso, mas assentiu.
— Muito bem. Como eu ia dizendo… — Hoseok estalou os dedos para manter a atenção — Não foi fácil bolar um jeito seguro de sairmos daqui sem levantar suspeitas, mas eu consegui.
— Você e o Mingi, né? — Jimin alfinetou, com aquele tom pirracento que já fazia Hoseok suspirar de raiva.
— Ele só obedece. As ideias geniais sempre partem de mim, entendeu? Enfim... — Hoseok respirou fundo para não se estressar — O plano é o seguinte: vamos sair daqui hoje de madrugada. Mingi invadiu o sistema de segurança e conseguiu burlar as câmeras. Vamos sair disfarçados… na caçamba de lixo.
— O quê? — Jungkook arregalou os olhos.
— Sim, na caçamba. A mesma empresa que coleta o lixo daqui todas as semanas. Usaremos um caminhão igualzinho, com documentos falsificados e tudo. Mingi e Taehyung deram conta dessa parte, falsificaram crachás, notas fiscais, uniformes... tudo impecável.
— E quem vai dirigir? — Jimin perguntou.
— Um dos dois. Ainda estão decidindo no par ou ímpar — respondeu Hoseok com desdém. — O importante é: a saída está garantida, mas só se formos discretos.
Jungkook e Jimin o encaravam em choque, ainda tentando processar o que Hoseok acabara de dizer. Quando finalmente entenderam que sim, iriam mesmo sair dali, os dois se abraçaram, emocionados. Era difícil de acreditar. Tantos anos presos, tantos planos frustrados. E agora, uma chance real de liberdade. Até mesmo Jungkook, que estava no local havia pouco mais de dois meses, sentia um alívio esmagador ao imaginar o mundo lá fora.
Tomados pela euforia, os dois se levantaram e correram para abraçar Hoseok, que tentou se esquivar de qualquer forma.
— Me soltem! — ele resmungou, tentando escapar dos braços grudados dos dois — Vocês tão fedendo a sexo, parece que não fizeram outra coisa desde ontem!
— Não tá errado não — Jimin riu travesso — A gente só transou desde ontem mesmo. Inclusive — completou com um sorriso safado — Acho que vamos bater nosso próprio recorde de vezes em 24 horas.
Hoseok bufou alto, fechando os olhos e balançando a cabeça como se quisesse apagar tudo que ouviu.
— Deus amado...
Hoseok apenas suspirou. No fundo, estava feliz por eles. Mas não daria o braço a torcer. Ainda tinha um plano de fuga a liderar e dois pombinhos distraídos para manter sob controle.
…
Naquela tarde, Jungkook preparou algo para eles comerem. Estava genuinamente preocupado com Jimin, que não colocava nada no estômago desde o dia anterior. Se dependesse do híbrido, passaria o dia apenas transando, não que Jungkook estivesse reclamando, muito pelo contrário, mas queria vê-lo bem alimentado e saudável. Sabia que Jimin precisava de energia para aguentar o cio e tudo mais que ainda estava por vir.
Já Hoseok mal lembrava que precisava comer. Estava completamente vidrado em organizar seus livros, anotações e arquivos. Queria deixar tudo em ordem antes da fuga. Passou a tarde digitalizando o que podia e separando seus dados por pastas que pudesse acessar em qualquer computador. A única coisa que pretendia levar era o notebook, os demais equipamentos seriam inutilizados. Não podia correr o risco de deixar rastros de suas pesquisas naquele lugar.
Depois de muito insistir, Jungkook finalmente conseguiu que todos se sentassem para comer alguma coisa. Quando terminaram, voltaram sua atenção aos preparativos finais.
Jungkook, por sua vez, não tinha nada a arrumar. Tudo que tinha levado para aquele lugar eram as roupas do corpo e seu jaleco de enfermeiro, que há muito já tinham sido descartados, inutilizados pelo tempo em que ficou preso nas instalações. Desde então, ele usava roupas emprestadas de Hoseok, que por sorte eram as únicas que não ficavam tão pequenas em seu corpo.
Jimin espalhou sobre a cama as roupas que mais gostava. Estava indeciso sobre o que levar, queria escolher bem, mesmo que a mala que Hoseok lhe dera fosse pequena demais para seus padrões exigentes.
Hoseok, resmungando sobre espaço e logística, saiu do quarto para conferir se havia mais algo que precisassem empacotar.
Assim que Hoseok virou o corredor, Jimin agiu rápido. Caminhou até a cozinha e encontrou Jungkook lavando a louça com a tranquilidade de quem não esperava ser sequestrado de repente.
Sem dizer nada, Jimin o puxou pela mão.
— Ji-jimin? — Jungkook perguntou, surpreso, tentando entender o que estava acontecendo enquanto era arrastado com um sorriso bobo no rosto.
Jimin apenas continuou puxando, cheio de risadinhas travessas.
Quando entraram no quarto, ele o empurrou levemente na direção da cama.
— Eu tô em dúvida do que levar... então pensei que você podia me ajudar a escolher, Kookie. — Jimin fez um biquinho, apontando para as roupas espalhadas — Qual dessas você gostaria de me ver vestindo... ou tirando?
Jungkook sentiu o rosto esquentar imediatamente.
— J-ji-jimin...
Jimin sorriu satisfeito. Era exatamente essa reação que ele esperava.
…
Já era noite, e tudo estava pronto. Hoseok revisou cada detalhe pela última vez, queria muito sair dali, mas não podia deixar para trás nada que pudesse ser útil ou comprometer sua pesquisa.
Na hora marcada, eles seguiram sorrateiramente pelos corredores em direção ao local de coleta. Precisavam entrar no caminhão com a numeração exata que Mingi havia enviado a Hoseok mais cedo.
Conforme caminhavam em silêncio pela penumbra dos corredores, Jimin diminuiu o passo e olhou ao redor, inquieto.
— Não acham estranho estar tão... quieto? — ele sussurrou.
— Como assim? — Hoseok franziu a testa. — Esse lugar é sempre silencioso a essa hora.
— Não sei... tá tudo dando certo demais. Isso me dá medo.
Jungkook apertou suavemente a mão de Jimin, tentando confortá-lo.
— N-não tenha medo... eu tô com vocês. E não vou deixar ninguém nos machucar.
— Obrigado, Kookie — Jimin sorriu de leve, mas seu olhar continuava desconfiado. — É que... já tentamos fugir antes, e sempre fomos pegos. Agora tá tudo fácil demais. Nenhum guarda, nenhum alarme, nenhum sinal. Não parece estranho?
Hoseok arqueou as sobrancelhas, parando por um instante.
— Estranho é você estar mais cauteloso que eu... — murmurou, e depois suspirou. — Mas você tem razão. Vamos ficar em alerta. Não comemorem antes da hora.
A tensão se instalou no grupo. Cada passo seguinte ecoava como um alerta no silêncio do corredor, e agora todos caminhavam com os sentidos à flor da pele.
Hoseok conferiu os números pintados discretamente na lateral do caminhão e, ao confirmar que era o correto, fez sinal para os outros. Um a um, entraram na parte de trás do veículo.
Para alívio geral, a caçamba estava vazia. Nada de lixo, nem caixas, nem tralhas. Só o silêncio e o espaço que os aguardava.
No interior, um colchão havia sido cuidadosamente fixado à parede, formando um pequeno abrigo improvisado. Havia cobertores dobrados, travesseiros macios e até uma caixa com lanches — salgadinhos, lanches, doces, sucos e garrafas de água — além de alguns livros empilhados num canto. Tudo pensado nos mínimos detalhes por Suk, que, ansioso com a chegada dos híbridos, quis garantir conforto para o grupo. Yoongi ajudou na preparação, mesmo resmungando durante todo o processo.
Instalaram-se no pequeno espaço, tentando se acomodar da melhor forma possível. O silêncio entre eles era carregado de expectativa e tensão. O tempo parecia não passar, e cada segundo arrastado era uma eternidade.
Jimin tremia. Seu corpo, ainda fragilizado pelo cio recente e pela tensão da fuga, buscava refúgio. Se encolheu no colo de Jungkook, buscando no calor do enfermeiro um pouco de paz. Jungkook o envolveu com os braços, mantendo-o junto de seu peito, como se assim pudesse protegê-lo de tudo, do medo, do passado e de qualquer coisa que ainda estivesse por vir.
Hoseok observava em silêncio, sentindo um peso no peito. Aquela fuga era apenas o começo. E mesmo com todo o plano em andamento, ele sabia que nada estava garantido até ouvirem a tampa da caçamba abrir do lado de fora, em liberdade.
O ruivo suspirou, abraçando os próprios joelhos. As palavras de Jimin martelavam em sua mente, enchendo-o de uma inquietação difícil de ignorar. Tudo estava dando certo demais, e isso era sempre um mau sinal.
Mas não teve tempo para mergulhar mais nas paranoias. O ronco do motor os fez erguer os olhos de imediato. O caminhão foi ligado. Um silêncio denso tomou conta do baú enquanto os três se entreolhavam, sem ousar dizer uma palavra.
O veículo deu a partida, e a vibração da lataria anunciava cada avanço. Sem janelas ou qualquer referência externa, era impossível saber onde estavam ou por onde passavam. A sensação de cegueira só aumentava a ansiedade.
Minutos arrastados se seguiram. O tempo parecia se esticar como um elástico prestes a arrebentar. Cada curva, cada frenagem, fazia os corações baterem mais rápido.
Após cerca de vinte minutos, o caminhão começou a perder velocidade. O barulho dos pneus no chão indicava que estavam parando. O motor foi desligado. Silêncio.
Jimin se encolheu ainda mais no colo de Jungkook, agarrando-se a ele com força. O enfermeiro o envolveu, protegendo-o como podia. Hoseok, por outro lado, já estava de pé, com os punhos cerrados, pronto para enfrentar o que quer que estivesse do outro lado da porta.
E então, com um estrondo seco, a porta traseira do caminhão se abriu.
A luz da rua invadiu o interior escuro. Uma figura alta surgiu no vão da porta, vestida com um uniforme de lixeiro. Os óculos reluziam, e o rosto sério observava os três com calma.
— Olá — disse ele com uma voz firme, porém gentil. — Não tenham medo. Sou o Mingi. Estou aqui para levá-los a um lugar seguro.
Por um segundo, ninguém se mexeu. Hoseok o encarou fixamente, reconhecendo a voz. Era ele. O tal “idiota da CIA”.
O ruivo bufou, irritado e aliviado ao mesmo tempo. Era a primeira vez que via Mingi, sempre teve vontade de socá-lo quando se falavam por telefone, mas naquele momento queria abraçá-lo.
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