Hybrids

15 Indo para casa



Hoseok estava inquieto. O olhar perdido na paisagem que desfilava pela janela era uma tentativa frustrada de acalmar o desconforto que crescia em seu peito.

“Talvez eu esteja ficando doente” — pensou, tentando encontrar uma explicação lógica para aquela sensação estranha.

Ao seu lado, Mingi dirigia com tranquilidade, as mãos firmes no volante, enquanto uma estação de rádio tocava discretamente canções country americanas. As melodias suaves enchiam a cabine do caminhão de uma atmosfera que irritava Hoseok mais do que gostaria de admitir.

Normalmente, já teria provocado Mingi por aquele gosto musical, mas nem isso conseguiu fazer. Estava indisposto, sensível, um pouco estranho. Algo estava errado. Nunca se sentira assim antes.

Fez um bico involuntário e desviou o rosto, como uma criança contrariada. Mingi, percebendo o gesto, deu uma risadinha contida, e aquilo foi o suficiente para Hoseok sentir um arrepio involuntário percorrer-lhe a espinha.

Talvez fosse o estresse da fuga. Talvez fosse o calor abafado da cabine. Ou talvez, e ele odiava considerar essa possibilidade, fosse simplesmente Mingi. Porque bastava olhá-lo por mais de dois segundos para sentir aquele frio incômodo na barriga. Um frio que nada tinha a ver com medo, mas sim com o tipo de nervosismo que ele não sabia como lidar.

Virou o rosto ainda mais, cruzando os braços, numa tentativa infantil de se proteger. Mingi apenas sorriu, sem dizer nada, como se já tivesse entendido tudo.

— O que foi agora, chatinho? — perguntou Mingi, sem desviar os olhos da estrada.

— Essas músicas são horríveis — Hoseok resmungou, emburrado.

— Quem tá no volante escolhe a trilha sonora — Mingi deu de ombros. — Quer dirigir então?

— Eu nem sei dirigir! — retrucou Hoseok, cuspindo as palavras com irritação. Era impressionante como Mingi sempre sabia como irritá-lo.

— Um gênio que não sabe dirigir? Interessante…

— Sou inteligente demais pra isso. Dirigir é coisa de gente normal — cruzou os braços e virou o rosto, exibindo aquele biquinho que Mingi adorava provocar só pra vê-lo surgir.

— Quer que eu te ensine? — Mingi perguntou casualmente, uma das mãos no volante, a outra relaxada no câmbio. Hoseok virou os olhos em sua direção e, ao notar que Mingi o observava de volta, desviou o olhar.

— Não preciso que me ensine. Se eu quisesse, aprenderia só de te ver.

— Isso é uma desculpa pra ficar me olhando, é? — Mingi lançou o sorrisinho travesso que Hoseok mais detestava. Ou fingia detestar.

Hoseok bufou, fingindo desprezo, mas suas orelhas ligeiramente coradas o entregavam. Mingi apenas riu, satisfeito com a vitória silenciosa.

— Vai à merda! Por que eu perderia meu tempo te olhando?

— Talvez porque você me ache bonito? — Mingi deu um sorrisinho malicioso.

— Nunca! — Hoseok respondeu na hora, emburrado.

Mingi riu alto, se divertindo com a birra.

— Então… vai querer que eu te ensine ou não?

— Quero — Hoseok respondeu num murmúrio quase inaudível, bicudo.

— Hein? Não entendi, repete aí.

— EU DISSE QUE EU QUERO, SATISFEITO?! — gritou irritado.

— Ei, não precisa gritar, bravinho.

— Foi você quem mandou falar alto!

— É que eu prefiro te ouvir gritar em outras situações — Mingi lançou um sorriso safado.

— Você é um idiota.

— Eu sei — respondeu com orgulho, sem apagar o sorriso.

De repente, Mingi ficou sério e franziu o cenho, como se estivesse tentando escutar algo.

— Tá ouvindo isso?

— O quê? — Hoseok o encarou, confuso.

— Esses… gemidos?

— Ah, isso? — Hoseok deu de ombros — É só o Jimin. Nada demais.

— Ele tá bem?

— Bem até demais. Eles tão transando.

— Transando? — Mingi gargalhou. — Céus… esses dois sabem mesmo aproveitar a vida.

— Jimin tá no cio e o Jungkook é completamente louco por ele… então eles não param de transar. Todo dia isso — Hoseok cruzou os braços, claramente irritado.

— Tá com inveja? — Mingi perguntou com um sorriso provocador.

— Inveja? Daquilo ali? — Hoseok apontou com o polegar para trás, de onde ainda vinham gemidos abafados — Por que eu teria inveja? É só sexo.

— Já fez assim com alguém?

— Já, com o Jimin e com o Yoongi. E daí?

— Não assim — Mingi estreitou os olhos. — Já fez com alguém por quem você estivesse apaixonado?

— Nossa, agora tá falando igual o Jimin. Que nojo — Hoseok fez careta — Como eu já disse: sexo é só sexo. Uma reação do corpo, impulso químico. Nada mais. Sentimento não tem nada a ver com isso.

— O mundo é grande demais pra você já ter certeza disso, ruivinho. Vai ver você ainda não conheceu a pessoa certa. Quando conhecer, vai ver o que é fazer amor de verdade.

As palavras de Mingi ecoaram fundo demais. Hoseok tentou fingir que não foi nada, mas sentiu o incômodo crescer dentro do peito. Aquele arrepio, o suor nas mãos, o coração acelerado. Algo estava errado com ele. Ou talvez estivesse certo demais.

“Preciso chegar logo e fazer um exame de sangue em mim mesmo… só pode ser alguma doença”, — pensou, evitando encarar Mingi, que ainda sorria com aquela maldita calma irritante.

— Você realmente é um idiota. Vai se dar bem com o Jimin… mas… — Hoseok fez uma pausa. Sabia que não deveria perguntar, mas a curiosidade coçava — Você já se apaixonou? Não que eu me importe. É só uma pesquisa científica, sabe?

— Ah, claro — Mingi deu uma risadinha — Respondendo à sua pergunta: já sim.

— Hum… e ainda é apaixonado por essa pessoa? Reforçando: é pra pesquisa.

Mingi riu mais.

— Era uma pessoa especial. Nossa relação amorosa acabou, mas viramos bons amigos.

— Ah, então era sua namorada?

— Meu ex-namorado. Meu primeiro amor. Hoje em dia somos grandes amigos.

— Entendi… — Hoseok desviou o olhar, visivelmente incomodado. — E pra onde a gente tá indo mesmo? Falta muito? — resolveu mudar de assunto; falar do passado romântico de Mingi era insuportável.

— Estamos quase lá. Em trinta minutos chegamos no nosso novo lar.

— Nosso? — Hoseok arqueou as sobrancelhas.

— Ah, não te falei? Vamos morar juntos.

— Você e eu?

Mingi riu.

— Isso seria fofo, mas não será só nós dois… não ainda, né? — piscou para ele, e Hoseok corou — Seus amigos e os meus, alugamos uma casa grande, com vários quartos. Mais seguro assim. Eu tô montando o escritório, inclusive… você pode me ajudar.

— Claro que vou te ajudar. Mas que fique claro que é só pelo bem da ciência. Alguém precisa guiar suas mãos com minha inteligência. Não pense que é uma desculpa pra ficar perto de você ou sentir esse seu cheiro ridículo, que por acaso tem notas de cidra, bergamota, limão e flor de oliveira. Não que eu goste.

— Você acertou meu perfume! — Mingi arregalou os olhos, lembrando que híbridos tinham olfato aguçado. Mas Yoongi nunca demonstrou interesse no cheiro dele.

— Também, né? Esse cheiro fica grudado no meu nariz — Hoseok fez uma careta de quem tentava parecer enjoado.

— Pela sua carinha, não pareceu tão ruim quando descreveu — Mingi sorriu de lado.

Hoseok desviou o olhar e revirou os olhos. Nem morto admitiria que aquele perfume era maravilhoso. Olhou pela janela, tentando distrair a mente, mas não conseguiu evitar imaginar como seria sentir aquele cheiro direto na pele de Mingi, com o rosto enterrado em seu pescoço.

Ele sacudiu a cabeça com força.

“Pensamento inútil. Cientificamente sem sentido. Totalmente descartável.”

Durante o restante da viagem, eles ficaram em silêncio. Hoseok acabou pegando no sono, Mingi algumas vezes o olhava, mesmo dormindo ele continuava com aquela carinha emburrada. Mingi sorriu com tamanha fofura.

Depois de meia hora, eles enfim haviam chegado. Mingi estacionou o caminhão dentro da grande garagem e então soltou o cinto.

Se inclinou sobre Hoseok e o cutucou de leve para acordar.

— Hoseok?

Hoseok abriu os olhos lentamente, vendo o belo rosto de Mingi bem próximo ao seu. Seu estômago deu um nó e ele deu um pulo, quase batendo sua testa na de Mingi.

— Que susto, Mingi! Porra! — Hoseok colocou a mão no peito, ainda assustado, estava colado na porta do caminhão, tentando se afastar mais.

— É que você não acordava… bem… chegamos. Precisamos ver se o casal de coelhos lá atrás estão vivos ainda.

— Eles devem ter dormido, transaram tanto que cansaram.

— Sinto inveja deles — Mingi deu aquela típica risadinha sacana que Hoseok odiou ter amado.

— É, eu também…

Notas finais
Já era, Hobi... já era... só aceita!