Hybrids

22 Investigações



A chuva começou fina naquela manhã, mas logo se transformou em gotas pesadas que batiam contra o vidro da janela com insistência. O som constante preenchia o quarto com uma espécie de melodia melancólica, reconfortante e triste ao mesmo tempo, como se o mundo lá fora compartilhasse do mesmo peso que agora se instalava entre aquelas quatro paredes.

Jimin despertou devagar, remexendo-se entre as cobertas. O frio era suave e agradável, daqueles que convidam a permanecer mais alguns minutos na cama. Ainda sonolento, estendeu o braço ao lado, procurando instintivamente por Jungkook, como fazia todas as manhãs. Quando se sentou, esfregando os olhos, seu olhar encontrou Hoseok sentado na poltrona, de braços cruzados, com uma expressão séria e carregada que imediatamente dissipou qualquer resquício de tranquilidade.

— Hobi… — chamou Jimin, a voz embargada antes mesmo de formular qualquer explicação.

— Vocês nunca me escutam, não é? — respondeu o ruivo, sem elevar o tom, mas com uma firmeza que pesava mais do que um grito.

Jimin tentou falar, mas as palavras se embaralharam na garganta. Ele não havia imaginado que aquilo pudesse acontecer, não havia planejado nada, e agora o medo parecia esmagá-lo por dentro. Antes que conseguisse concluir qualquer frase, o choro veio, intenso e descontrolado. Seus ombros começaram a tremer, e ele se curvou sobre si mesmo, sentindo a culpa e a incerteza invadirem seu peito.

Jungkook não hesitou. Aproximou-se rapidamente e o envolveu em um abraço firme, puxando-o para junto de si com cuidado, como se temesse machucá-lo ainda mais. Sua mão deslizou pelas costas de Jimin em movimentos lentos, tentando transmitir segurança.

— Não chora, meu amor. Eu estou aqui com você. Nós vamos passar por isso juntos — disse, a voz baixa, mas decidida.

Hoseok observava a cena em silêncio, lutando contra a própria frustração. Ele havia insistido tantas vezes sobre responsabilidade, havia alertado sobre as consequências de não usarem camisinha, e ainda assim os dois haviam ignorado seus conselhos. Parte dele queria repreendê-los com dureza, mas outra parte, mais sensível e consciente da fragilidade daquele momento, entendia que não era hora de acusações. Jimin estava visivelmente abalado, e Jungkook tentava manter a compostura enquanto carregava o próprio medo.

O ruivo soltou um suspiro longo, descruzou os braços e se levantou. A situação já não podia ser desfeita, e insistir no erro não mudaria o que estava acontecendo. A prioridade, a partir daquele instante, precisava ser outra.

— Depois a gente conversa com calma. Agora o mais importante é você ficar bem — disse, dirigindo-se a Jimin, antes de sair do quarto e fechar a porta suavemente atrás de si.

A chuva continuava a cair de forma persistente. No silêncio que se seguiu, Jungkook apertou Jimin contra o peito, sentindo o corpo dele tremer não apenas pela febre, mas pelo medo do que o futuro poderia trazer. Naquele abraço havia preocupação, amor e uma promessa de que, independentemente do que viesse pela frente, eles enfrentariam juntos.

— Não fica com medo, amor. Vai dar tudo certo. A gente vai dar conta disso… e vamos ter uma família linda.

Jimin se encolheu ainda mais nos braços de Jungkook, agarrando a camiseta dele com força, como se o simples ato de segurar pudesse impedir seu mundo de desmoronar.

— Kookie… eu nem sei como ele vai ser — murmurou entre soluços baixos. — Eu sou… sou isso… uma aberração. E se ele nascer igual a mim? Eu tô com tanto medo…

As palavras saíam cheias de culpa, como se cada sílaba pesasse toneladas. Jungkook segurou o rosto dele com cuidado, obrigando-o a encará-lo.

— Você não é uma aberração. Nunca mais fala isso, tá me ouvindo? — a voz dele não era dura, mas carregava uma firmeza que não admitia contestação. — Você é o homem mais lindo que eu já conheci. Foi por você que eu me apaixonei. Eu amo você exatamente como você é. Me dói ouvir você falar assim de si mesmo.

Jimin fechou os olhos por um instante, deixando mais algumas lágrimas escaparem.

— Desculpa… é que eu fico com medo e começo a pensar nas piores coisas possíveis. Parece que minha cabeça só sabe imaginar desastre.

— É normal ter medo. Eu também tô com medo — Jungkook confessou, respirando fundo. — Mas medo não significa que vai dar errado. Eu já cuidei de muita gente, já vi situações difíceis, e a gente sempre encontra um caminho. E o Hobi, mesmo sem diploma, é mais inteligente que qualquer cientista por aí. Nós dois vamos cuidar de você. Não vou deixar nada acontecer com você… nem com nosso bebê. — Ele apoiou a testa na de Jimin, acariciando os cabelos dele. — Você não tá sozinho nisso. Nunca esteve.

Jimin suspirou, o choro diminuindo aos poucos, substituído por uma exaustão pesada.

— Obrigado, Kookie… — murmurou, ainda inseguro, mas um pouco mais calmo.

Não era exatamente a vida que ele tinha imaginado, nem o momento que teria escolhido. Mas, mesmo em meio ao medo, havia algo que o sustentava, ele estava cercado por pessoas que o amavam, e isso era o que mais importava naquele momento.

— Como ele tá? — Mingi perguntou, aproximando-se por trás e puxando Hoseok pela cintura.

— Ei, aqui não! — Hoseok tentou se desvencilhar, olhando ao redor por reflexo.

— Qual o problema? Todo mundo já sabe que a gente tá namorando.

— Namorando não. Se pegando sem compromisso — Hoseok fez um bico. — É diferente.

— Tanto faz. Você continua sendo meu ruivinho — Mingi respondeu, apertando-o mais contra o peito. — Agora me diz… como o Jimin tá?

O ar brincalhão deu lugar a um suspiro pesado.

— Ele tá muito assustado, e com razão. Não vai ser uma gravidez comum… nada na nossa vida nunca foi comum. — A voz de Hoseok perdeu a rigidez habitual. Ele se virou e apoiou a testa no ombro de Mingi — Eu amo meu Jiminzinho. Vou proteger ele de qualquer coisa. Hoje ele precisa do Jungkook, mas amanhã começo as pesquisas. Enquanto vocês cuidam da investigação, eu vou estudar tudo sobre essa gestação. Não posso deixar nada escapar.

Mingi o envolveu com mais cuidado, agora sem provocação.

— Como é inteligente o meu Hobi…

— Seu? — Hoseok ergueu o rosto, fingindo indignação. — Eu não sou de ninguém.

— Chato.

— E você não larga, né?

— Não largo — Mingi admitiu, depositando um beijo demorado no pescoço dele. — Porque além de brilhante, você é lindo… cheiroso… e perigosamente mordível.

— Tá, já entendi! — Hoseok tentou afastá-lo, mas o sorriso traía o quanto estava gostando daquilo.

O tom de Mingi mudou novamente, ficando sério.

— Me passa a lista do que você vai precisar. Equipamentos, qualquer coisa. Eu consigo tudo. A gente pode montar uma sala adequada aqui mesmo. Assim você acompanha o Jimin de perto.

Hoseok piscou, surpreso.

— Isso… é uma ótima ideia. Admito. Mas não vai ser simples conseguir esse tipo de material.

— Confia em mim. É só escrever o que precisa.

Hoseok cruzou os braços, tentando recuperar a postura altiva.

— Essa é a vantagem de namorar um agente da CIA.

Mingi arqueou a sobrancelha, divertindo-se.

— Então estamos namorando?

— Modo de falar, seu insuportável.

O rosto de Hoseok ficou vermelho até a ponta das orelhas. Ele escapou dos braços de Mingi e caminhou rápido pelo corredor, fingindo irritação.

Mingi ficou parado, observando-o ir embora, com um sorriso satisfeito que dizia muito mais do que qualquer provocação.

— O que você tá fazendo? — Yoongi circulava a cadeira de Taehyung como um felino impaciente, enquanto ele digitava concentrado.

— Tentando encontrar qualquer pista sobre o lugar de onde você veio — Taehyung respondeu sem tirar os olhos da tela, mas o sorriso surgiu assim que sentiu a presença dele mais perto. Ergueu a mão e fez um carinho demorado sob o queixo de Yoongi. — Vem aqui. Senta no meu colo e me ajuda a pensar.

Yoongi não precisou de convite duas vezes. Instalou-se ali com naturalidade, encaixando o corpo no dele como se aquele lugar pertencesse a ele desde sempre.

— Achou alguma coisa útil? — perguntou, inclinando-se para espiar a tela.

— Nada concreto ainda. Estou tentando rastrear qualquer ligação entre a clínica onde o Jungkook trabalhava e o laboratório subterrâneo. Oficialmente, a clínica é impecável. Documentação limpa, histórico regular, nada que justifique um mandado de busca. E tem outra questão, geograficamente falando parece impossível essa ligação entre o laboratório e a clínica — Taehyung suspirou, passando a mão pelo cabelo. — E isso é justamente o que me incomoda.

Yoongi franziu o cenho.

— Lá embaixo era gigantesco, Tae. Você não faz ideia. Não era só um laboratório, era como uma cidade escondida. Tinha áreas de treino tão distantes que a gente precisava ir de carro. Existia até um trilho de trem, mas eu nunca ouvi barulho nenhum, nunca vi vagão nenhum. Era como se tudo estivesse lá… mas invisível ao mesmo tempo.

— Isso torna tudo ainda mais complicado. — Taehyung esfregou os olhos cansados. — Se apagaram a memória do Jungkook na clínica e o transferiram para lá, fizeram isso com uma estrutura muito bem planejada. Sem provas, não posso simplesmente invadir o lugar.

Yoongi percebeu o cansaço na voz dele e girou no colo, ficando de frente para ele. Enlaçou os braços em volta do pescoço de Taehyung.

— Você tá exausto. E quando você fica assim, eu fico também.

Taehyung sorriu de lado, cansado e rendido.

— Um descanso seria perfeito. Principalmente se incluir beijar você um pouquinho.

— Gatos precisam de carinho constante, sabia? — Yoongi murmurou, já manhoso. — Tô carente do meu Taehy.

— Precisa mesmo?

— Uhum. Tô com saudade.

Taehyung riu baixo. A versão sonolenta e carente de Yoongi sempre desmontava qualquer muralha que ele tentasse manter.

— Eu sou todo seu, Yoon. Não precisa sentir saudade. Quer comer alguma coisa? Tá com fome?

— Não. O Kookie fez omelete, tava perfeito. Comi bastante. Agora só quero ficar aqui… no seu colo.

Taehyung o envolveu com os braços e encostou o queixo no topo de sua cabeça, aspirando o cheiro familiar que já começava a associar com casa. As investigações pesavam, as perguntas se acumulavam e o futuro parecia uma equação cheia de incógnitas. Ainda assim, naquele silêncio, com Yoongi acomodado contra o seu peito, ele sentiu algo raro, um breve e precioso descanso. E talvez fosse exatamente dessa pausa que precisasse para enfrentar tudo o que ainda estava por vir.

Notas finais
Jimin todo assustadinho, tadinho 🥺 Yoon sendo um gatinho mimado, que fofuraaaaa