Hybrids
23 Baby a caminho

Jimin ainda lutava para aceitar a gravidez. A ideia parecia grande e desconhecida demais. Era como se tivesse sido jogado em um mar profundo sem saber nadar. Seu maior medo, no entanto, beirava o caótico: ele havia pesquisado sobre a gestação em cães e agora estava convencido de que poderia, de alguma forma, acabar com uma ninhada inteira. Dez filhos ou talvez mais. A mente dele girava em cenários desesperadores, imaginando uma casa tomada por choros simultâneos e a impossibilidade absurda de cuidar de tantos bebês ao mesmo tempo.
Em momentos mais críticos, parava diante do espelho e observava o próprio corpo com atenção quase científica, como se, a qualquer instante, algo pudesse mudar. Chegou a cogitar, em pânico, a possibilidade de seu corpo “se adaptar” de maneiras nada convencionais para amamentar dez filhotes, o que só piorava sua ansiedade. Hoseok, com sua paciência quase infinita, sempre intervinha, explicando com calma que aquilo não fazia sentido, que Jimin continuava sendo humano, e que seu corpo não funcionaria daquela forma.
Com o passar dos dias, aquelas teorias foram perdendo força, dissolvendo-se aos poucos como neblina ao sol. Ainda assim, o medo não desaparecia completamente, apenas mudava de forma. Em outros contextos, tudo aquilo poderia até soar engraçado, mas Jimin estava genuinamente assustado, e isso tornava cada pensamento um peso real. Yoongi, por sua vez, assistia a tudo tentando manter a compostura, engolindo comentários irônicos que certamente guardaria para um momento mais leve no futuro.
Para Jungkook, aquele período também não era fácil. Ele precisava acompanhar um coração que parecia mudar de estação a cada poucos minutos. Havia momentos em que Jimin se aninhava nele, buscando carinho, romance e calor, como se Jungkook fosse seu único refúgio no mundo. E então, sem aviso, o humor virava: Jimin se afastava, sensível, irritado, incomodado até com a simples presença dele. Pequenas coisas, como um suspiro ou um movimento, pareciam demais. Mas essas tempestades eram breves. Logo depois, como se nada tivesse acontecido, Jimin voltava para os braços dele, carente, buscando exatamente aquilo que minutos antes rejeitava.
E Jungkook permanecia ali, constante, como quem entende que amar também é saber esperar as marés se acalmarem.
Um mês já havia se passado, e Jimin criou o hábito quase ritualístico de se observar no espelho todas as manhãs, analisando cada detalhe do próprio corpo, especialmente a leve mudança em sua barriga. Passava a mão por ela, franzindo o cenho, como se procurasse respostas que o reflexo não podia dar.
— Eu tô gordo, né?
Jungkook ergueu os olhos do mangá que lia, abandonando a página no meio e se levantando sem hesitar. Aproximou-se por trás e o envolveu em um abraço, encaixando o queixo em seu ombro.
— Não tá. Você tá lindo como sempre, meu amor — murmurou, pontuando as palavras com beijos suaves na pele exposta do pescoço.
Jimin fez um biquinho desconfiado, ainda encarando o espelho.
— Você só tá falando isso pra me animar.
— Tô falando porque é verdade. Você é e sempre vai ser o homem mais bonito do mundo.
— Mas você nem conhece o mundo todo pra saber disso.
Jungkook sorriu contra a pele dele.
— Nem preciso. Não existe beleza maior que a sua.
Seus lábios deslizaram devagar pelo pescoço de Jimin, deixando um rastro de carinho quente, até roçar de leve o lóbulo da orelha dele.
— Kookie… assim você me deixa com vontade de novo — Jimin murmurou, já sentindo o corpo reagir ao toque.
— E você não quer? — Jungkook provocou, a voz baixa, quase um sussurro, enquanto mordiscava de leve a pele sensível do pescoço.
Jimin soltou um suspiro, apoiando-se mais nele.
— Você não tá cansado? Já foram… cinco vezes. Pelo menos até onde eu contei.
— Quanto mais eu tenho você, mais eu te quero — Jungkook respondeu, deslizando as mãos por baixo da blusa dele, acariciando sua barriga com delicadeza, como se quisesse memorizar cada centímetro.
Jimin fechou os olhos por um instante, se rendendo à sensação.
— Isso é bom…
— Então vem — Jungkook sussurrou, sorrindo contra a pele dele. — Vamos deitar um pouco. Ficar embaixo das cobertas… se beijando, dando uns amassos.
Jimin virou o rosto, encontrando o olhar dele.
— Seu chato… você sabe exatamente como me convencer.
E sabia mesmo. Bastavam alguns toques, alguns beijos e aquele jeito cuidadoso de falar para transformar completamente o humor de Jimin, como se Jungkook tivesse aprendido a decifrar cada nuance dele e soubesse exatamente qual tecla tocar para trazer de volta à calma.
…
Dois meses haviam se passado, e o corpo de Jimin começava a contar a história antes mesmo que ele conseguisse organizá-la em palavras. A barriga, antes lisa, agora desenhava uma leve curva, uma lombadinha tímida que surgia sob o toque curioso de suas próprias mãos. Era pequena, quase discreta… mas impossível de ignorar. E com ela, vinha uma nova versão de Jimin: ainda mais sensível, ainda mais manhoso, como se cada emoção tivesse ganhado volume máximo. Jungkook, longe de reclamar, parecia secretamente encantado com cada nova camada dele.
Enquanto Mingi, Taehyung e Suk se afundavam nas investigações, cruzando pistas e tentando montar um quebra-cabeça cada vez mais estranho, Hoseok e Jungkook assumiam uma missão diferente, porém igualmente importante: cuidar de Jimin. E isso incluía uma rotina rigorosa de exames, acompanhamentos e cuidados constantes.
Graças a Mingi, aquele “acompanhamento” havia ganhado proporções quase profissionais. Ele conseguiu, de alguma forma nada suspeita, uma máquina de ultrassom, equipamentos médicos variados, além de vitaminas e medicações específicas. Em poucos dias, um dos cômodos da casa havia sido transformado em uma pequena clínica improvisada. Hoseok, apesar de impressionado, não conseguia evitar pensar que seu namorado definitivamente tinha contatos… questionáveis demais.
— Preparado pra ver seu bebezinho? — perguntou Hoseok, ajustando os óculos com um ar concentrado.
Ele vestia seu novo jaleco branco impecável, com “Dr. Jung” bordado em azul escuro no peito. Presente de Mingi para comemorar o primeiro mês de namoro. Hoseok tinha amado tanto que praticamente se recusava a tirá-lo, exceto para necessidades extremamente básicas.
Jimin, deitado na maca improvisada, parecia prestes a entrar em combustão emocional.
— Eu tô nervoso… — confessou, a respiração levemente acelerada só de pensar no que estava prestes a ver.
Jungkook, ao lado dele, entrelaçou suas mãos com firmeza, o polegar fazendo pequenos movimentos tranquilizadores.
— Eu tô aqui com você, amor. Não precisa ter medo.
Jimin assentiu, ainda inseguro, mas buscando coragem naquele toque.
— Ok… — Hoseok respirou fundo, assumindo uma postura mais séria enquanto organizava os materiais. — Então vamos começar.
Jungkook levantou com cuidado a blusa de Jimin, revelando a pele ainda lisa, agora levemente marcada por aquela nova curva que crescia aos poucos. Hoseok aplicou o gel com delicadeza, mas o contato frio arrancou uma careta imediata de Jimin.
— Tá gelado! — reclamou, encolhendo o abdômen por instinto.
— Fica quietinho — Hoseok respondeu, já concentrado, espalhando o gel com movimentos precisos antes de posicionar o aparelho.
Assim que a maquininha tocou sua pele, Jimin soltou uma risadinha involuntária.
— Faz cócega… — tentou se conter, mas o olhar sério de Hoseok o fez prender o riso, mordendo o lábio para não atrapalhar.
O ambiente mudou de tom. Hoseok deslizou o aparelho com calma, os olhos fixos na tela, analisando cada sombra, cada forma que surgia. Para quem olhava de fora, aquilo parecia apenas um borrão indecifrável. Mas, para ele, era um mapa vivo sendo revelado aos poucos. Seu rosto permaneceu neutro, concentrado, e isso só aumentava a tensão de Jimin e Jungkook.
— E então, Hobi? — Jungkook perguntou, incapaz de conter a ansiedade.
Hoseok ajustou levemente o ângulo do aparelho e, após alguns segundos que pareceram eternos, soltou o ar devagar.
— Aqui… achei.
Ele virou um pouco a tela para que os dois pudessem ver.
— Tá vendo esse pontinho? Ainda é bem pequeno… uma sementinha mesmo. Mas tá aqui. Tá tudo certo.
Um sorriso suave finalmente apareceu em seu rosto.
— E é um só, tá? Nada de dez filhotes. Pode ficar tranquilo, Jimin.
O alívio veio como uma onda. Jimin e Jungkook não conseguiram segurar. As lágrimas vieram rápidas, sinceras, quase infantis. Jungkook se inclinou sobre ele, depositando vários beijinhos apressados em seu rosto, como se quisesse agradecer de todas as formas possíveis ao mesmo tempo.
— Obrigado, meu amor… obrigado por isso — disse, a voz embargada, enquanto as lágrimas escorriam.
Jimin apenas chorava, incapaz de organizar qualquer frase. Seus dedos se agarraram à mão de Jungkook, e tudo que conseguia emitir eram pequenos sons entrecortados, carregados de emoção.
Hoseok observou a cena em silêncio por alguns segundos, permitindo que aquele momento se expandisse sem interrupções. Havia algo precioso ali, algo que merecia existir por inteiro. Discretamente, deu um passo para trás e saiu do quarto, oferecendo a eles um pouco de espaço, enquanto o quarto se enchia de abraços, beijos e aquela felicidade tremida, ainda misturada com medo, mas absolutamente real.
…
Meia hora depois, Hoseok voltou para o quarto com uma xícara de café nas mãos, o aroma quente preenchendo o ambiente antes mesmo de sua presença ser notada. Ao entrar, encontrou exatamente o que esperava… e talvez até um pouco mais: Jimin e Jungkook ainda abraçados, colados um no outro como se o mundo lá fora tivesse simplesmente deixado de existir. Não havia palavras, apenas sorrisos tímidos, olhares suaves e aquele silêncio confortável que dizia tudo.
Hoseok arqueou uma sobrancelha, quase sorrindo com a cena.
— O casal mais meloso do planeta continua nesse modo, é?
Jimin soltou um riso baixinho, escondendo o rosto no ombro de Jungkook, enquanto ele apenas apertava o abraço, como se não tivesse a menor intenção de soltar.
Hoseok então assumiu seu tom profissional, dando um gole no café antes de continuar.
— Jimin, a gestação está evoluindo bem. Seus exames estão dentro do esperado e, por enquanto, você está saudável. Mas vou ajustar sua alimentação e incluir mais vitaminas. — Cruzou os braços, olhando sério para ele. — E dessa vez, sem reclamar.
— Hobi… você já fica no meu pé o dia inteiro — Jimin murmurou, fazendo um leve bico.
— E vou ficar ainda mais — retrucou, sem hesitar. — A gente não sabe como essa gestação vai se desenvolver. Não sabemos se vai seguir um padrão humano ou se podem surgir características híbridas. Então eu preciso que você siga tudo à risca, sem exceção.
Jimin suspirou, mas assentiu, mais rendido do que realmente contrariado.
— Tá bom… eu vou seguir, prometo.
— É bom mesmo. Eu sou seu médico agora, não esquece disso.
— E eu também vou ficar de olho — Jungkook levantou a mão, entrando na conversa com um sorriso tranquilo. — Vou cuidar do meu Jimin e garantir que ele fique bem, confortável e feliz.
Ele se inclinou e deu um beijo leve na ponta do nariz de Jimin, arrancando um sorriso automático dele.
Hoseok observou a cena por um instante, em silêncio. Apesar da leveza daquele momento, algo dentro dele permanecia atento e inquieto. Havia muitas variáveis naquela gestação, muitas perguntas ainda sem resposta.
E, mesmo vendo tudo correr bem, ele não conseguia deixar de torcer para que seus receios estivessem completamente errados.
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