Hybrids
4 Hero

Namjoon e Jin davam todo o carinho do mundo ao pequeno Taehyung. Sempre foram papais corujas, completamente rendidos aos encantos do filhinho, que com cada risadinha arrancava suspiros bobos e olhares apaixonados dos dois.
A família Kim era respeitada e influente no meio jurídico. Tanto Namjoon quanto Jin eram advogados renomados, e foi entre processos, audiências e cafés apressados que se conheceram. De encontros descontraídos em meio a pilhas de papel, nasceu uma relação sincera que rapidamente se transformou em amor. Não demorou até se casarem e, pouco depois, terem Taehyung em suas vidas, um raio de luz que trouxe ainda mais alegria ao casal.
Taehyung cresceu saudável, alegre e de coração bondoso, sempre guiado pelos ensinamentos cuidadosos de seus pais. Mas, como qualquer criança, cometia erros sem perceber. E Namjoon e Jin, com toda a paciência do mundo, faziam questão de orientá-lo com amor, mostrando o caminho certo com firmeza e afeto.
Num certo dia na escolinha, Taehyung teve seu primeiro grande desafio de convivência. Uma menininha correu na frente dele e pegou os melhores brinquedos, o que o deixou irritado. Sem pensar duas vezes, empurrou a garota e a chamou de feia.
A notícia chegou em casa, e Jin simplesmente surtou. Não admitiria, sob hipótese alguma, que seu filho crescesse para se tornar um macho escroto.
Depois de uma conversa séria com os dois pais, uma semana sem desenhos, e uma noite dormida de couro quente, Taehyung entendeu perfeitamente que havia errado.
Na manhã seguinte, acordou mais calado que o normal. Jin estava na cozinha preparando o café da manhã quando o menino se sentou à mesa, cabisbaixo, as mãozinhas sobre o colo e o olhar preso ao chão.
— Me… me desculpa, papai — disse baixinho, com a voz embargada.
Jin se virou, parando o que fazia. Olhou para o filho com seriedade, mas sem raiva.
— Não é pra mim que você deve pedir desculpas, Taehyung — disse, com calma e firmeza. — Acho que sabe o que deve fazer, não é?
Taehyung assentiu lentamente, ainda sem levantar os olhos. Sabia que no fim da aula, teria que encarar a coleguinha, olhar nos olhos dela, e pedir desculpas de verdade. E ele faria isso porque não queria ser um menino ruim. Queria ser como os papais, pessoas boas, firmes, justas e gentis.
Taehyung ergueu os olhos para Jin, mas logo desviou o olhar de novo, envergonhado.
— Sim, papai… eu sei.
Seu olhar pousou no arranjo de flores coloridas sobre a mesa.
— O papai Nam deu pro senhor?
Jin não conseguiu conter o sorriso bobo e assentiu, orgulhoso.
— Sim! Ai, ai… seu pai sempre me deixando feliz com esses gestos.
Taehyung ficou em silêncio por um momento, pensativo.
— Papai… posso dar uma flor pra menininha da minha sala? Como forma de desculpa também? Acho que ela vai ficar feliz, né?
Jin, derretido, foi até o menino e apertou suas bochechas com carinho.
— Que fofo! É isso mesmo, meu amor, ela vai adorar — respondeu com um sorriso doce, acariciando o rosto do filho. — Sabe, filho, as mulheres são como flores: são lindas, delicadas… e precisam ser tratadas com cuidado e muito amor, pra não serem machucadas.
— Mesmo se elas tiverem espinhos? — perguntou Taehyung, com as sobrancelhas franzidas.
— Mesmo assim, mocinho! Se você pegá-las com cuidado, elas não vão te machucar.
— Hum… — Taehyung voltou o olhar para o arranjo na mesa, refletindo com atenção. — As flores são lindas mesmo, papai… Quando eu tiver a minha flor, vou cuidar bastante pra não machucá-la. Que nem o papai cuida do senhor.
— Isso mesmo, filhão — disse Namjoon ao entrar na cozinha, passando a mão carinhosamente na cabeça do menino e lhe dando um beijo.
Ele então olhou para Jin com aquele sorrisinho atrevido.
— Só tem que entender uma coisa, Tae: aqui em casa, a nossa palavra é sempre a última. Como machos alfas, a gente sempre diz “Está bem, amado marido Jin” ou “Sim, senhor Jin, o senhor está certo”.
Jin revirou os olhos, fingindo impaciência, mas não conseguiu esconder o sorriso antes de receber um beijinho na pontinha do nariz.
Taehyung observava tudo com atenção, absorvendo cada detalhe daquela dinâmica. Já estava claro quem era o verdadeiro chefe da casa. No caso, Jin.
— Oh… entendi — murmurou, muito sério — Espero que a minha futura flor não tenha muitos espinhos.
— Boa sorte, filho — disse Namjoon, rindo enquanto recebia uma cotovelada de Jin.
E Taehyung, com um sorriso no rosto e o coração mais leve, sabia que naquele dia aprendera uma das lições mais importantes da vida.
…
Conforme os anos passaram, Taehyung cresceu com saúde, responsabilidade e um coração generoso — reflexo do lar amoroso em que foi criado. Na escola, sempre se destacava por ser um aluno exemplar, daqueles que os professores apontavam com orgulho como modelo de dedicação.
Ao iniciar a faculdade, manteve o foco absoluto nos estudos e também no trabalho. Mesmo vindo de uma família rica, com dois pais advogados bem-sucedidos, Taehyung fazia questão de trilhar seu próprio caminho.
Começou cedo, como ajudante em escritórios pequenos, organizando documentos, aprendendo a rotina jurídica por trás das cortinas. Quando ingressou na faculdade de Direito, conquistou um estágio em um pequeno escritório de advocacia, e foi ali que começou a vislumbrar seu futuro.
Namjoon e Jin, apesar de apaixonados pela profissão e esperançosos de que o filho talvez seguisse por esse caminho, sempre o deixaram livre para escolher. A única exigência era simples: que ele fosse feliz e agisse com justiça.
Taehyung, por sua vez, cresceu admirando os pais nos tribunais. Achava-os incríveis, verdadeiros heróis de terno e gravata, com palavras afiadas e convicções firmes. Sonhava, desde pequeno, em ajudar pessoas e combater injustiças. Ser um herói. E, em sua mente, a melhor forma de fazer isso era prendendo os vilões.
Quando se formou, Taehyung tomou um rumo um pouco diferente do de seus pais. Enquanto Namjoon e Jin defendiam seus clientes com maestria como advogados, Taehyung decidiu que queria acusar. Não por vingança, mas por justiça. Queria ser promotor.
E foi assim que o pequeno Taehyung, que um dia pediu perdão com uma flor, cresceu para se tornar um defensor incansável da lei. Com um coração justo, uma mente brilhante e a vontade de mudar o mundo, um caso de cada vez.
Aos vinte e seis anos, Taehyung já havia conquistado um feito notável: se tornar o promotor mais jovem de Seul. Apesar de seu jeito reservado e da tendência a se esconder por trás de seus óculos de armação fina, ele se transformava completamente ao pisar em um tribunal. Ali, o garoto tímido desaparecia.
Diante do juiz, dos advogados e do júri, Taehyung exalava confiança. Seu olhar firme e penetrante era tão intenso que alguns evitavam encará-lo durante os julgamentos. Sua presença se impunha com naturalidade, e suas palavras — articuladas, calculadas e cheias de convicção — faziam com que até os réus mais audaciosos se encolhessem.
Quando assumia um caso, mergulhava de corpo e alma. Passava dias em seu escritório, quase sem dormir, destrinchando cada detalhe, cada contradição, cada ponto obscuro. Desvendava mistérios como se fossem desafios pessoais, e não descansava até ter todas as peças do quebra-cabeça encaixadas.
Quem mais sofria com isso era seu assistente, Kwan Suk.
Apesar da aparência angelical — com seus traços delicados, corpo magro e baixa estatura — Suk era um ano mais velho que Taehyung. O que tornava engraçado vê-lo sendo chamado de hyung pelo próprio chefe, um homem alto, de ombros largos e presença marcante.
Suk tinha a pele alva como a neve, olhos e cabelos tão negros que pareciam feitos de tinta pura. Quando o tempo esfriava, suas bochechas ficavam coradas, tingidas de um tom rosado involuntário. Taehyung achava aquilo adorável e, para o desespero de Suk, não resistia em apertar suas bochechas com um sorrisinho divertido.
— Chefe, por favor! — reclamava Suk, tentando se esquivar, mesmo sabendo que era em vão.
Não bastava ter que lidar com as pilhas de documentos e investigações infinitas. Ainda tinha que aturar todo mundo o tratando como uma criatura fofa, inclusive o próprio promotor Taehyung.
Desde que começaram a trabalhar juntos, Taehyung e Suk desenvolveram uma amizade sólida e verdadeira. Havia cumplicidade, respeito e uma leveza rara de se ver em ambientes formais como o tribunal.
Suk adorava o jeito protetor e carinhoso com que Taehyung o tratava. Diferente de muitos homens que já haviam lhe dirigido olhares duvidosos ou palavras condescendentes, Taehyung sempre o tratou com a dignidade e o carinho que se reservam a um irmão mais novo, mesmo que, tecnicamente, Suk fosse o hyung.
A relação entre eles não tinha malícia, nem segundas intenções.
Taehyung costumava brincar, dizendo que seu futuro namorado precisava ser fofo como Suk, porque ele havia se acostumado com aquele nível de ternura no dia a dia. Suk revirava os olhos, claro, mas não conseguia esconder o sorriso satisfatório que surgia logo depois.
A dupla TaeSuk logo virou queridinha nos corredores do tribunal. Taehyung era o homem que todos queriam ter por perto: dedicado, gentil e com um charme tímido irresistível. Já Suk era a coisinha mais adorável do lugar — embora ele próprio não fosse fã desse título, que achava diminuir sua competência. Ainda assim, quando ganhava um doce de um colega ou recebia elogios por ser “fofo demais”, ele corava e fingia que odiava.
Mas nem todos caíam nos encantos da dupla.
Choi Dak-ho, ou “Dark”, como alguns o apelidaram num trocadilho debochado com seu nome e seu humor, era a exceção.
Advogado renomado e temido, Dak-ho já havia enfrentado Taehyung em vários casos. E com cada derrota, ou até mesmo vitórias difíceis, o ranço só aumentava. Taehyung também não fazia questão de esconder a antipatia, e Suk, bom... Suk era o ponto fraco da equação. Porque, ao contrário dos outros, Suk não apenas tolerava Dak-ho. Ele gostava dele. Até demais.
Dak-ho era alto, provavelmente nos seus trinta e poucos anos, com uma aparência viril e marcante. A pele bronzeada, o corpo robusto e bem definido, mesmo de terno, era fácil notar o quanto ele cuidava do físico. A mandíbula forte, os olhos intensos e a expressão quase sempre fechada só tornavam sua presença mais intimidadora.
E, quando ninguém estava olhando, Suk o observava. Cada vez que Dak-ho tirava o paletó. Cada vez que afrouxava a gravata. Cada vez que passava por ele no corredor e sequer o olhava.
Suk não sabia ao certo quando aquilo começou, mas uma coisa era certa: o advogado carrancudo fazia seu coração bater mais rápido.
— Cheguei! — anunciou Suk ao entrar no escritório, carregando uma sacola com dois cafés e o mesmo entusiasmo de sempre.
— Você demorou — respondeu Taehyung, sem tirar os olhos da papelada que cobria sua mesa. Estava cercado por pilhas de documentos, anotações rabiscadas e pastas abertas, o caos organizado de quem mergulha de cabeça no trabalho. — Já sei… tava babando por aí espionando o nosso arqui-inimigo, né?
— Eu? Claro que não, Tae! — Suk levou a mão ao peito, fingindo indignação. — Tá louco? Jamais ficaria babando por aquele gostoso do Dark — completou com uma gargalhada sincera.
Taehyung balançou a cabeça, tentando conter o sorriso.
— Por isso que eu não me interesso por ninguém. Preciso manter o foco no meu trabalho… e espero que você também.
— Aqui é cem por cento foco, chefe! — Suk bateu continência com exagero teatral. — Mas… ele tava com uma camisa hoje que dava pra ver o tórax malhado. Tava coladinha… — murmurou baixinho, como quem não queria ser ouvido.
— Eu ouvi isso. — disse Taehyung, sem sequer levantar os olhos. — Agora mexa esse seu traseiro seco e venha me ajudar. Pra sua felicidade, o advogado desse caso que pegamos… é o seu crush.
— Ai deuses! — Suk dramatizou, jogando as mãos para o alto. — Vou me tremer todinho.
Taehyung soltou um suspiro profundo, já prevendo a novela que viria pela frente. Mais uma semana intensa, mais uma pilha de trabalho, mais noites mal dormidas.
Mas, no fundo, ele sorriu. Adorava semanas assim. Adorava aquele caos. Adorava ter Suk por perto.
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