Hunt at Night
11 Um adeus cruel
Me virei e sai correndo da floresta. No caminho tropecei e cai,ali no chão praguejei em outra língua. O problema era que língua eu falava, não era alemão muito menos português. Meus joelhos estavam ralados e escorria sangue. Então não agüentei e comecei a chorar ali mesmo no chão. Eu estava brava com raiva de Jessye por sair, por não ter contado nada a mim, por ter mentido e ter me treinado para algo que eu não sabia se eu queria. Eu estava ainda mais brava com Bryan por tudo, principalmente por ter Jessye ter se apaixonado por ele. Sei que a culpa não era dele, mas eu tinha que culpar os dois. E eu estava mais brava ainda comigo por ter permitido que tudo isso tivesse acontecido, eu os apresentei e agora estavam juntos, o que me irritava mais.
Levantei, limpando as lagrimas e indo para o acampamento. Tentei também me recuperar mental, coisa que estava bem difícil. Logo vi Beatrice conversando com Stella. Ela se levantou e veio ao meu encontro.
– Aconteceu alguma coisa, Ty? Você está pálida. – exclamou ela. Stella se aproximou sorrateiramente. Eu não havia me aproximado dela, estava meio preocupada com Jessye e sua momentânea mudança.
Nessa hora meu celular tocou. Peguei-o sem muito entusiasmo e vi que Bryan me ligava. Será que Jessye já havia comunicado a ele que eu havia surtado? Tomara que não, mas por precaução resolvi ignorar totalmente.
–Eu estou bem- menti.
–Tem certeza?- perguntou Beatrice.
Olhei para ela com palavras nos olhos “Por favor, não insista!”
–Ok. Você tem certeza. – resmungou ela.
Sorri agradecida. Será que eu aparentava estar tão mau assim? Credo eu devia estar pior que uma das três Parcas.
De repente, Jessye e Ártemis aparecem correndo, e se ajuntam a nós.
– Caçadoras preparem! Está próximo um grande bando de animais. – alertou Ártemis.
Olha a cena era ate bonita de se vê. Todas nós nos ajuntamos e formamos em semicírculo, nossos arcos brilharam em nossas costas junto com muitas flechas. Se você estivesse lá, juro que conseguiria sentir a adrenalina correndo por nossas veias. Preparamos as flechas com as palavras na ponta da língua.
Do meio da floresta saiu um grande bando de cães infernais, de olhos vermelho-sangue fixado em nós. Parecia que tinha mais de dois animais para apenas uma caçadora. Jogo injusto!
– Dois para cada! –alertei. – Quando terminarem ajude as outras.
As caçadoras assentiram. Nessa percebi o que tinha feito, tinha agido como uma tenente. Mas que droga, Jessye!
Os cães avançavam, flechas choviam no ar, como uma chuva prateada. Caçadoras gritavam em outras línguas, acionando seus poderes. Peguei uma flecha e gritei: “ Luare” e logo se tornou uma flecha envenenada, que com o contato com o alvo , o matará em 5 minutos. Disparei mais duas, três e muitos outras que choviam a minha volta.
Muitas atacavam, mas quanto mais monstros, matávamos mais surgiam tomando o lugar dos que já se foram. As caçadoras novatas que acabamos de recrutar em Dakota do Norte tinha um pouco de dificuldades com os animais. Eu matei uns três e corri para ajudá-las, o que não foi muito fácil atravessar campo de batalha com tanta gente. Flechas zumbiam perto de meus ouvidos cortando o ar. Eu tentava utilizar os ventos ao meu favor. Já que meu pai era o deus dos céus, para mim era fácil controlar as coisas como puxar raios, criar mini-tempestades e ate mesmo controlar os ventos. Todas lutavam com determinação mas os monstros não acabavam e o cansaço logo estava estampado em seus rostos. Eu tentava ajudar da melhor maneira possível.
Estava atravessando, quando um monstro veio de ataque, e como eu não tinha nenhuma flecha preparada, utilizei meu braço como um escudo. Se estivesse em câmera lenta eu poderia sentir cada tira de minha pele sendo rasgadas, mas como estava com adrenalina, só senti o calor do sangue escorrer. Olhei para o ferimento e vi que eu parecia um pão fatiado, cinco belas tiras. Ignorei o machucado e sem colocar a flecha no arco, a usei como uma faca perfurando o pescoço do animal.
–Ty, Cuidado!!!- gritou Jessye do outro lado do campo.
Quando soube o que Jessye queria dizer, vi duas montanhas pretas vindo na minha direita e mais três na esquerda. Preparei três flechas e apontei para os monstros, mas pelas minhas contas ainda faltaria uns dois para matar e daria tempo para eles me pegarem, o que não seria nada bom. Mesmo assim parecia a única escolha. Atirei. Três instantaneamente morreram, mas os dois que sobraram também atacaram. Tive tempo para armar apenas uma flecha e lancei. Quando me virei para o outro monstro... Bem, a partir daqui não conseguiria descrever sem a ajuda das meninas... Jessye se materializou ao meu lado, o que quase me fez pular de susto.
Ela se virou para mim e disse:
– Espero que ainda não esteja ressentida comigo!- exclamou ela.
– Na verdade ainda estou sim e muito. Mas conversamos mais tarde, agora não estou a fim de morrer. – afirmei, saindo uma frase bem sarcástica.
Jessye me olhou por um segundo e vi como ela se lamentava. Sem dizer palavra sequer, ela armou uma flecha e acertou o monstro. Foi então que as coisas ficaram feias.
Dois cães feiosos substituíram seu colega já morto e mais um do lado da Jessye. Legal, vamos matar a caçadora e deixar a garota normal na dela, pensei ironicamente como um cão. Preparei mais uma flecha e apontei para o monstro e puf! Já era. Quando fui preparar mais uma flecha, o monstro levantou sua pata giganta que acabou atingindo minha mão, fazendo meu arco rodopiar no chão e eu cair sentada na grama, abismada. O monstro bufou e partiu para cima de mim. Na hora fechei os olhos, esperando minha morte rápida, ou não. Quando voltei a abrir os olhos, Jessye estava jogada na minha frente agonizando de dor. Sua blusa estava ensopada de sangue. Ela se atirou na minha frente, defendendo-me.
Bem... Dessa parte em diante, não me lembro muito. As meninas me explicaram depois. Eu levantei, sem nada nas mãos, com o ódio correndo nas veias. Peguei uma flecha e a usei como receptor. Uma força foi puxada de mim e um raio laçado no animal. Passei correndo pela Jessye no chão e peguei meu arco. Disseram-me que parecia um demônio, e eu não duvidei disso. Eu estava sendo alimentada por meu ódio, raiva, ressentimento e muitas outras coisas que não entendia. Passei aonde tinha monstros e os matava sem dó ou piedade. Não me importava nada, ninguém mais iria se machucar. Por mais que os alvos eram difíceis, eu puxava um vento para me erguer e atirava. Quando finalmente parei, não restava um monstro sequer. Minhas irmãs de armas estavam todas espantadas e completamente paralisadas. Caminhei com dificuldade, pois me sentia zonza e muito cansada a ponto de desmaiar, mas ignorei tudo isso e fui ate Jessye. Ela ainda gemia e sangrava.
Joguei de joelho ao seu lado, tentando conter o sangramento com as minhas mãos, mas seus cortes eram grandes e muitos. Mesmo assim, continuava a segurar e murmurar:
– Vai ficar tudo bem! Só agüente firme- disse eu.
Jessye sorriu fraco, e sua boca já não tinha mais cor.
–Achei que estava brava ainda – falou ela.
– Ah. Ate parece que você não me conhece. Estava fazendo drama, uma raiva temporária. Você me salvou, não tenho direito de ficar brava com você.
– Eu fiquei realmente preocupada com você.
– Eu sei. Mas agora, agüente firme.
–Estou tentando.
Olhei em volta a procura de ajuda, mas caçadoras estavam tão paralisadas que nem piscavam. Voltei o rosto para Jessye.
–Olha, fala para seu irmão que eu sinto muito, e lhe digo o mesmo. Você me perdoa? Eu queria te contar antes, mas não deu. – disse Jessye.
– Claro. Mas isso não importa agora... – falei.
– Importa sim. Não quero partir sabendo que te deixei magoada.
– Você não vai a lugar algum. Vai ficar aqui comigo, não vai? Por favor!
– Você sabe que não da mais. Eu sinto muito em deixá-la, mas estará em boas mãos. Foram como te disse no primeiro dia, todas aqui são pessoas incríveis e da pra confiar por toda eternidade.
– Mas também quero que você fique.
– Lamento, lamento muito mesmo. Lembre-se do que eu te disse há pouco tempo a trás: sempre te considerei como uma irmã.
– E somos. Por favor, não vai. Resista! Irmãs não se vão, elas ficam juntas...
– Até a morte, minha querida.
Não falei mais nada. Jessye deixou seu rosto cair de lado e fechou os olhos, parecia que ia apenas cochilar, mas se tratava do sono da morte. Seu corpo parou de se mexer e sua respiração cessou. Ela havia partido. Eu não segurei e deixei as lagrimas rolarem livremente. Lancei meus braços em seu corpo sem vida, e passei a chorar em seu ombro. Eu não queria nada daquilo, queria a Jessye de volta, que tudo voltasse ao normal. Meus soluços eram altos, e a dor maior ainda, chegando a estado de insuportável. Senti mãos quentes nas minhas costas, confortando-me. Não sei quando tempo fiquei ali chorando, mas não me importa. As lagrimas pareciam não ter fim.
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