Humanoid Chronicles
44 Capítulo 44
Notas iniciais
Esqueci de especificar qual domingo eu voltaria a postar a fanfic, a maioria pensou que era nesse de páscoa, mas é o próximo mesmo. Mas encontrei um tempinho e vou postar agora o/
Estou fisicamente, mentalmente obcecado por você
Eu estou como uma visão triste, triste.
É como uma noite fria, fria.
(Screamin’ – Tokio Hotel)
05 de Setembro de 2109
Nos esgotos abaixo de Berlim
22h05min PM
Quando se tratava de esconderijo, os Dogs Unleashed eram mestres. Segundo Tom, havia uma pequena base de emergência há alguns quilômetros da antiga base, onde poderiam ficar por um tempo para pensar em uma solução. Claro que para chegar até lá, seria um bocado perigoso ficar andando pelas ruas desertas onde ficaríamos evidentes entre os destroços da Berlim destruída.
Por isso a melhor forma de chegar até lá – apesar de ser nojenta – era através dos esgotos abandonados. Com minha ajuda, retirei um dos bueiros e um a um fomos descendo pelas escadas úmidas para dentro daquela toca fétida. Fiquei por último e decidi transportar Bill, era muito mais fácil e menos cansativo para mim, que ainda tinha energia o suficiente.
Os esgotos eram corredores enormes, com um córrego no meio e duas passarelas de cada lado que permitia apenas uma pessoa passar de cada vez. O cheiro chegava a ser tão podre que me dava náuseas e tinha tantos ratos que chegou uma hora que eu nem mais me importava de pisar neles. A pior coisa é que eles estavam debilitados, a maioria havia comido mal durante esses três dias e ainda tinham ferimentos da última batalha.
– Espere um momento – Tom falou, virando-se abruptamente para mim – Você não tem um localizador, Wilhelmine?
– Eu o arranquei – disse simplesmente – Acha que eu estaria com vocês se ainda estivesse com ele? Planejei tudo para que o plano desse certo.
– Bill pode ser um louco a maior parte do tempo, mas que ele treinou você melhor do que esses pupilos, ele o fez – ele disse, continuando a caminhada.
Ao ouvir o nome dele, um aperto tomou meu coração. Seus braços estavam em volta do meu pescoço, sem de fato estar segurando e seu corpo estava colado as minhas costas. Eu era capaz de sentir sua respiração, o que me dava certa esperança e conforto.
– Ele vai ficar bem, é mais forte do que aparenta – Tom disse ao ver minha expressão triste – Sou capaz de sentir o quanto ele está lutando, ainda mais quando descobriu que está aqui.
Não consegui conter o sorriso que brotou em minha face, eu tinha esperança suficiente de que ele iria melhorar, só precisávamos chegar a algum lugar seguro. Alguns Dogs Unleashed começaram a fraquejar depois de muitas horas andando e muitos tiveram que ser carregados. Eu também comecei a me sentir fatigada, com fome, já que desde que acordei, não comi nada e acho que só sobrevivi esses três dias com soro.
Quando finalmente chegamos ao bueiro mais próximo da base, saímos daquele lugar horrível e nos encontramos perto de um mercado totalmente destruído, onde um letreiro estava preso pela metade e pendia perigosamente para o chão. Eles foram até uma casa próxima, um tanto torta e que podia cair a qualquer movimento brusco, entraram sem qualquer cerimônia, passando pelos cômodos até chegar do outro lado.
Havia um campo enorme, com mato crescendo e várias ruínas espalhadas por cima, levadas pelos terremotos. Gustav se encaminhou até uma construção pequena e quadrada, onde geralmente ficava registros de água, mas quando o abriu, havia aqueles identificadores de digitais. Ele encostou sua mão e automaticamente o campo começou a ser partido como se fosse o Mar Vermelho, abrindo uma pequena passagem que levava direto as escadas.
– Nossas bases eram usadas antigamente para experimentos químicos, radioativos e nucleares – Tom explicou quando começamos a descer as escadas – Mas por causa dos terremotos, isso tudo foi deixado para trás.
– Não é perigoso?
– Não, a área foi toda revistada a procura de algum tipo de material radioativo, e o que tinha foi totalmente descartado sem causar problemas.
Aquela base secreta era bem menor que a outra, tinha apenas três andares, a maioria eram quartos e banheiros, também havia uma cozinha pequena e uma enfermaria. Foi para estar última que carreguei Bill e o depositei cuidadosamente naquelas camas intactas. Ele ainda estava do mesmo jeito, dormindo profundamente, sem ao menos emitir algum ruído ou algo mais que denunciasse que estava vivo além da sua respiração.
– Vou cuidar dele – Natalie falou, começando a procurar nos armários o que fosse necessário – Não vou poder fazer nada quanto a pele sintética, mas vou fazer o máximo para cuidar da parte humana dele.
– Posso ficar aqui? Prometo que não vou atrapalhar – falei tristemente
– Melhor não, não porque vai atrapalhar, mas você parece estar terrível e cansada. É melhor você tomar banho e comer alguma coisa, tenho certeza que há alguma gororoba enlatada para enganar a fome. Depois você volta e vai encontrá-lo em melhor estado.
Ela estava certa, eu me sentia debilitada e não era nem pelo cansaço, era mais emocionalmente. Meu corpo pode ser robótico, mas minha mente ainda é humana o suficiente para fraquejar perante algumas situações. Saí da enfermaria e fui direto para o primeiro quarto vazio que encontrei, precisava dar um jeito na minha aparência.
05 de Setembro de 2109
Na nova base secreta
23h47min PM
Havia algo de errado comigo, eu sentia vontade de vomitar mesmo não tendo nada no estômago e às vezes sentia uma tontura. Por um momento, pensei que estivesse grávida, mas era algo quase impossível afinal no acidente de carro, meu útero foi atingido ficando incapacitado de gerar vida. Lembro até que um dos futuros projetos da World Behind My Wall Corporation era desenvolver úteros robóticos que ajudariam mulheres que não podem ter bebês.
Talvez isso fosse causado pela fome ou pelo desgaste que sofri esses dias, por isso fui até a cozinha onde grande parte dos Dogs Unleashed estava comendo desde pacotes de bolacha até picles em conserva. Com certeza não era a melhor refeição do mundo, mas parecia um bocado com os lanchinhos que Berta e eu fazíamos. Mesmo assim, comi o suficiente para me manter em pé, não estava realmente com fome e o enjôo ainda permanecia.
Algumas pessoas ainda tentaram falar comigo, agradecer pelo que fiz, mas respondi mais em monossílabos e não estava com vontade de manter um diálogo. Quando terminei de comer, corri para a enfermaria onde eu ficaria ao lado do Bill e tentaria descobrir se finalmente melhorara. Natalie ainda terminando de limpar seus machucados e não parecia estar com uma boa expressão.
– O que foi? – perguntei de repente – Ele vai ficar bem, não vai?
– Cuidei de seus ferimentos, não sei nada quanto a parte robótica, mas... – ela parou bruscamente e fiz sinal para que continuasse – Bill não toma seus remédios há três dias, o seu corpo está rejeitando a parte robótica e a febre já está começando. Eu que fazia os remédios e tinha a receita, mas aqui não há tudo que é necessário.
– Gott! Eu posso ir atrás, se você der o que precisa, posso procurar em farmácias...
– São substâncias difíceis de conseguir, você pode até achar algumas, mas geralmente a importávamos – ela falou com seus olhos começando a lacrimejar.
– Tudo bem – falei pensativa, andando de um lado para o outro enquanto pensava – Mas é claro! Há um lugar onde deve ter tudo que precisamos: a World Behind My Wall Corporation. Conheço tudo como se fosse a palma da minha mão já que passei muito tempo por lá. Vou disfarçada e roubo o medicamento.
– Isso é loucura! – Natalie exclamou – Você pode ser pega!
– Posso, mas é melhor do que não tentar e esperar que ele morra. Não posso permitir isso, Natalie. Eu vou até lá e ninguém vai me impedir, entendeu?
Ela não disse nada e não adiantaria, apenas pegou um papel e escreveu o que era necessário que eu trouxesse. Eu iria hoje mesmo, não podia esperar, se não seria tarde demais. Voltei para o meu quarto e esvaziei um pouco minha mochila, deixando apenas o necessário. Ainda havia a peruca vermelha – já que a loira deixei no esgoto – para servir de disfarce, quanto às roupas de médico, não seria problema. Por mais que o mal estar ainda estivesse presente, eu teria que seguir em frente e pus-me fora do meu quarto, indo direto as escadas, quando alguém me parou. Um aperto forte em meu braço, fez-me lembrar de alguém, mas quando me virei, vi Tom e não Bill como realmente esperava.
– Não acredito que você vai direto a toca dos leões – ele disse esperando uma resposta minha.
– Se eu não fizer nada, Bill irá morrer. O único lugar que há o medicamento necessário é na World Behind My Wall Corporation.
– Eu não quero que Bill morra, ele é meu irmão, mas é perigoso ir até lá. É melhor você esperar, estaremos mais bem dispostos amanhã e poderemos ir em maior número.
– Não, sozinha é melhor, vocês irão me atrapalhar. Quanto menos pessoas nessa operação, melhor.
– Wilhelmine, não haja como se pudesse dar conta da situação! Você está acabada também, não pode ficar se esforçando só porque pensa que é um Humanoid. Ainda há fraquezas humanas e você precisa respeitá-las.
– Não podemos esperar, se Bill piorar, pode ser tarde demais – retorqui, puxando minha mão de seu aperto até ela finalmente sair. Aquilo era muito mais fácil de fazer com ele do que com Bill – Eu vou e estarei de volta em breve, não se preocupe comigo.
Quando já estava para tirar meu Idiary da mochila, para conectá-lo e abrir aquela porta enorme no terreno, Tom me parou. Ele me virou para encará-lo e pensei que iria falar o maior sermão de como eu não deveria ir a missões sozinha, mas fui surpreendia pelos seus lábios que se aproximaram dos meus. Meu corpo relaxou ao contato dele e parecia que todo o peso que eu estava carregando em minhas costas sumira. Seus braços envolveram a minha cintura e fui levada por aquele beijo que cada vez mais se aprofundava até que ele se afastou.
– Isso é o que Bill faria – Tom falou, com o seu rosto todo vermelho e com um sorriso maroto, tentando se explicar.
– Não minta – falei sem realmente estar brava.
– Tudo bem, é o que eu faria – ele riu – Preciso me certificar de que você é perfeita para ele, confesso que é até demais.
Tom colocou sua mão no identificador de digitais, fazendo o terreno se abrir acima das nossas cabeças. O abracei fortemente antes de sair para aquele mundo frio, achando aquela sensação nova totalmente estranha. Se Bill e Tom fossem a mesma pessoa, nada me impediria de se apaixonar por eles, mas a natureza decidiu separá-los e transformá-los em duas pessoas totalmente diferentes. E eu tinha medo de que isso atrapalhasse minha vida.
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