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Eu nunca vou te deixar para baixo

Junte-se a mim para sempre agora

(Forever Now – Tokio Hotel)

06 de Setembro de 2109

Na World Behind My Wall Corporation

00h49min PM

O prédio da World Behind My Wall Corporation estava do mesmo jeito que a última vez que o vi. A parte administrativa, onde eu fiquei quando fui sequestrada, estava na penumbra como sempre por ser madruga, já a área onde ficava o hospital, dava para ver algumas janelas iluminadas. Percebi que o saguão de entrada que fora explodido, já estava consertado e bem mais bonito que antes. Aquilo me dava um tremendo sentimento de nostalgia, eu sonhava com esse lugar, trabalhando com cientistas renomados. Nunca sonhei em ser reconhecida como Humanoid e sim pela minha capacidade.

Parei de ficar pensando em assuntos tristes e comecei a prestar atenção em uma mulher saindo do saguão. Nós devíamos ter a mesma altura, mas ela era bem mais encorpada que eu, mesmo assim a coitada seria minha vítima. Sorrateiramente, sem que ela visse ou percebesse qualquer movimento, coloquei um pano com clorofórmio, tampando sua respiração. Ela se debateu, tentando se soltar, mas nada adiantou e ela desmaiou. Acho que vou bater o recorde como a garota que mais fez pessoas desmaiarem em curto tempo.

Arrastei-a atrás de uma árvore e comecei a procurar roupas de médico dentro da sua bolsa. Troquei-me naquele frio, sem nenhum medo de ser atacada por um pervertido, afinal sou uma Humanoid e conseguiria dar conta do recado. O jaleco ficou um pouco folgado e as calças um tanto comprida, mesmo assim, duvido que alguém fosse perceber algo de estranho.

A última coisa e mais importante era o crachá dela, que estava preso ao jaleco, uma bolinha metálica do tamanho de uma moedinha. Eu o apertei e surgiu bem rente uma tela holográfica pequenina onde se via a foto da mulher e seu nome, Sophie Benzner, ortopedista. Aproximei-me de um dos postes iluminados e tirei uma foto minha com meu Idiary e depois o conectei ao crachá, mudando todas as informações até surgir Ellie Haskel, farmacêutica.

Ellie Haskel foi minha melhor amiga na segunda série, nós éramos praticamente inseparáveis e vivemos quatro anos juntas até que seus pais, com medo dos furacões, se mudaram para a Holanda. Soube meses depois que ela contraiu a mesma doença forte da minha mãe e acabou morrendo. É nessas horas que eu me pergunto, se ela tivesse ficado, será que estaria viva até agora? Será que após minha mãe morrer, ela ficaria ao meu lado e impediria que eu me metesse em encrencas? Será que uma amiga verdadeira teria me ajudado a passar por esse momento difícil? Não faço ideia.

Tomei coragem e encaminhei-me para o saguão da World Behind My Wall Corporation que abriu automaticamente quando detectou o meu crachá. Fui para o corredor que me levaria ao prédio do hospital e logo fui encontrando diversos médicos no corredor, conversando animadamente. Alguns olharam para mim, talvez tentando ler o meu crachá para descobrir quem eu era, mas ignorei, andando firmemente sem mostrar hesitação.

Olhei para uma tela holográfica onde informava o que havia em cada andar e o que eu procurava era o quinto. Entrei dentro do elevador com mais três médicos, cumprimentei-os vagamente tentando mostrar que sou social e que estou ali há algum tempo. Dei uma olhada rápida no espelho para ver se minha peruca ruiva não estava fora do lugar, mas estava tudo em perfeita ordem, mesmo eu estando nervosa.

Rapidamente o elevador parou em cada andar sem que ninguém falasse comigo e dei graças aos céus por chegar ao quinto sem ninguém desconfiar de mim. Agora a próxima etapa era achar a farmácia, andei pelo corredor todo a procurando até chegar a uma porta branca ao lado de uma janela de vidro onde se via potinhos e caixinhas de diversos medicamentos. Já estava preparada para abrir a porta ao meu estilo hacker quando percebi que não havia nenhum identificador de digitais e sim uma maçaneta com uma fechadura.

Eu empaquei olhando aquela coisa absurdamente velha e incomum sem saber o que fazer. Se fosse qualquer coisa feita de dados, eu conseguiria me infiltrar facilmente, mas como se infiltrar naquilo sem uma chave? Virei a maçaneta na esperança de que aquilo abrisse, mas estava trancado. Droga! Agora onde eu poderia achar a chave? Quem estaria com ela? Decidir ir até o balcão daquele andar e perguntar para a secretária se ela sabia de algo, mas eu tinha medo de que ela descobrisse toda minha façanha.

– Com licença – falei polidamente, fazendo a secretária se virar para me olhar – Eu fui enviada para pegar um medicamento na farmácia e ela está fechada.

– Ah, a última a pegar a chave foi a Doutora Tiersen – ela falou sem ao menos desconfiar de mim.

– Você sabe onde ela está?

– Não faço ideia, mas daqui a pouco ela volta porque a chave precisa ser entregue a mim. É muito urgente?

– Ah, não. Posso esperar – e me afastei dela antes que ela questionasse mais alguma coisa. Sentei-me em um dos banquinhos que estava ali e fiquei esperando pacientemente.

Isso já demorara demais, uma coisa que era para ser rápida e silenciosa já estava me causando problemas. O pior que a tontura e as náuseas pioraram, eu sentia-me terrível e se não estivesse sentada, acho que já teria caído faz tempo. Será fraqueza dos últimos dias? Nunca havia passado por isso antes, não depois de ter se tornado uma Humanoid.

Depois de uns vintes minutos de espera, uma mulher realmente ruiva surgiu e a secretária fez sinal mostrando que aquela era a Doutora Tiersen. Ela era muito magra e alta, chegava quase a ter a altura de Bill e tinha um sorriso ossudo e cheio de sardas. Levantei-me rapidamente do banquinho e fui até o balcão, pensando no que diabos eu diria.

– Desculpa a demora – disse a Doutora Tiersen entregando a chave para a secretária – Tive problemas com um paciente e precisei atendê-lo.

Quem pensa que a World Behind My Wall Corporation apenas cria robôs está enganado. Para unir o útil ao agradável, ou seja, ótimos médicos com ótimos cientistas, a empresa comprou um antigo hospital. Além de que com o dinheiro que conseguiam com os pacientes poderiam patentear muito bem as suas experiências.

– Poderia me emprestar a chave agora? – perguntei calmamente, estendendo a mão.

– Você não é muito nova? – a secretária perguntou me fazendo congelar – É uma estagiária, não é? Porque nunca a vi nesse andar antes.

– Ah, sim... eu estou terminando a faculdade ainda. Por quê? Algum problema? – perguntei ficando um pouco mais aliviada.

– Precisa de algum médico para acompanhá-la, da última vez que um estagiário entrou na farmácia, roubou um monte de remédios para vender nessas baladas. Quem é o médico responsável por você? – disse a Doutora Tiersen, me olhando como se eu fosse algo digno de atenção.

– Ah... é... Doutora Benzner, Sophie Benzner – falei, lembrando do nome da mulher que eu ataquei – Mas ela já foi embora, acabou seu horário. Decidi ficar mais um pouco, terminando um trabalho da faculdade e preciso de certo medicamento para finalizá-lo.

– Você pode acompanhá-la, Doutora? – a secretária perguntou – Ela não pode ir sozinha, são as regras.

– Claro, posso ajudá-la a achar o medicamento mais rápido – ela respondeu prontamente, pegando a chave e fazendo sinal para que a seguisse.

Gott, tudo dera certo! Já estava suando e começando a gaguejar! Lidar com robôs e nocautear pessoas é mais fácil do que conversar com elas quando você não tem ideia do que realmente falar. Quando falei com o Delegado Roth hoje, eu já tinha planejado tudo e estava com tanta raiva que meu cérebro parecia arquitetar tudo rapidamente para que não desse errado. Agora eu estava em um terreno muito mais perigoso que me deixava totalmente tensa.

A Doutora Tiersen abriu a porta com a chave e adentramos aquele local cheio de prateleiras e uma geladeira mantendo certos medicamentos em sua temperatura necessária. Peguei o papel que Natalie havia escrito aqueles nomes complicados e comecei a procurar os que tivessem o mesmo escrito em seu rótulo. Eu tinha duas opções: ou achar o medicamento totalmente feito ou achar os componentes para que Natalie o fizesse depois.

– O que está procurando? – a doutora perguntou, se esgueirando com seu pescoço comprido pelo meu ombro, tentando ler o papel. Dei um pulo de susto ao vê-la tão próxima.

– Ah... isso – falei, mostrando a ela, pois se eu me recusasse, pareceria estranho.

– É um medicamento para que o corpo aceite algum transplante... sobre o que é seu trabalho?

– A robótica na medicina – falei a primeira coisa que veio à minha cabeça – Estou falando dos transplantes, alguns problemas que podem acarretar e como evitá-los. Por isso preciso desse medicamento.

– Eu sei onde ele está – ela falou, encaminhando-se até uma das prateleiras e pegando justamente um potinho cheio de pílulas brancas e redondas como a lua – Pronto, aqui!

Senti de repente a tontura piorar e me apoiei em uma das estantes, tentando me manter em pé. Céus! O que estava acontecendo? Meu corpo parecia queimar de dentro para fora, mas a área que mais parecia um vulcão em erupção era justamente o meu braço esquerdo. Foi então que entendi o que estava acontecendo, meu corpo estava rejeitando aquele braço! Eu estava passando pela mesma coisa que Bill e precisava daquelas pílulas milagrosas que estavam perto o suficiente para terminarem com aquele sofrimento.

– Você está bem? – ela perguntou, me segurando – Está pálida e quente! Acho que está com febre!

– Não, estou bem – eu falei, tentando me recompor e equilibrando meu peso que mais parecia estar em cima de uma corda bamba. Quando estendi minha mão para pegar o potinho, fui ao chão, caindo de joelhos.

Gott! – a Doutora Tiersen exclamou – Você... você está usando uma peruca?

Percebi que a peruca ruiva havia ficado torta em minha cabeça, mostrando alguns chumaços do meu cabelo castanho escuro. Tentei arrumá-la de novo em seu devido lugar, mas a Doutora arrancou da minha cabeça para confirmar sua suspeita.

– Você é de uma empresa inimiga! Está se infiltrando no nosso hospital para roubar informações! – ela exclamou se afastando e virando as costas.

– Espere! – gritei, fazendo ela se virar. Quando se virou, seus olhos arregalaram-se em pânico ao ver a arma em meu pulso – Ou você entrega esse medicamento por bem, ou vou pegar por mal.