Estou preso entre os mundos

Coordenado, Incógnito

(Humanoid [german version] – Tokio Hotel)

02 de Setembro de 2109

Bêbada e exausta

00h25min PM

Eu estava em uma cadeira, com a mão em meu rosto tentando parar aquela sensação de navegando em alto-mar. Todos os outros estavam quase na mesma situação, Gustav estava passando mal, com a cabeça deitada em uma mesa, Georg acabara dormindo em sua própria cadeira e Tom estava pálido feito um fantasma. Apenas Bill parecia estar bem e ainda mantendo um copo com um pouco de cerveja, sem tocar nele.

– Quem vai querer bolo? – Natalie exclamou – Precisamos cantar parabéns para os dois. Não acredito que são tão fracos a ponto de já estarem passando mal!

Só de pensar em bolo, minha barriga já se revirava. Uma coisa é beber cerveja calmamente, outra coisa é bebê-la como se fosse a última bebida do deserto. Todos nós tentamos nos levantar e ir até a mesa para cantar parabéns. Bill estava sóbrio o suficiente para ficar em equilíbrio e segurar Tom que estava quase caindo em cima do bolo. Acho que as fotos desse ano vão ficar bem mais divertidas do que a do ano passado.

Quando toda aquela baboseira acabou e alguns poucos se aventuraram a comer o bolo, puxei Tom para longe dali, tomando cuidado para que nós dois não caíssemos no chão.

– Aquele seu beijo foi impressionante, você realmente gosta dele – Tom falou, se sentando em uma cadeira afastada do pessoal.

– Não gosto dele – eu falei, achando que minha voz soou com um tom babaca – Aquilo foi só para vocês pararem de encher.

– Wilhelmine, eu confirmei por mim mesmo que você é uma ótima garota para o meu irmão.

– Você está bêbado, não sabe o que está falando! – eu ri, enquanto abria a minha bolsa e tirava um pacotinho – Isso é para você, feliz aniversário!

Ele pareceu um bocado surpreso, tive que insistir para que ele pegasse meu presente. Tirando o papel com cuidado para que não rasgasse, um escapulário caiu na palma de sua mão. Fiz sinal para que ele abrisse e ao fazê-lo, encontrou a foto de sua mãe e a de Bill, um em cada lado.

– Mas não era seu?

– Era, eu quero que fique com ele. Graças a Gustav, consegui imprimir as fotos e colocá-la aí. Não é grande coisa, mas espero que goste.

Inesperadamente ele me abraçou e meu coração começou a bater fortemente por aquela ação e pelo receio que alguém visse isso. Logo eu seria considerada a vadia da base se pensassem que eu estava ficando com os dois gêmeos, mesmo que seja um pouquinho de verdade. Isso me fez pensar no que Tom disse: “Sou o único que ele permite tal coisa, porque praticamente somos a mesma pessoa, estamos juntos nessa”. Mesma pessoa. Talvez isso explique porque me sinto tão bem perto deles.

– Espero que você tenha um presente para Bill, sei que está zangada, mas ele gosta de verdade de você. Ele passou praticamente a vida inteira se perguntando se você estava segura e agora que está aqui, é como se ele tivesse perdido um peso tremendo das costas – ele falou enquanto se afastava de mim.

– Eu tenho um presente para ele, mas não sei como entregar.

– Tenho uma ideia, vá para a cozinha dele. Vou fazê-lo ir até lá, vocês vão ter toda a privacidade para conversar.

– Obrigada, mas... Tom você está enganado, eu não gosto dele.

– Gustav me contou que você dormiu no quarto de Bill – ele falou aquilo de forma tão natural que quase pude evitar meu enrubescimento – As câmeras são controladas por ele, não sei se você sabia. Eu sei que não aconteceu nada porque Bill não gosta de aventuras de uma noite, além de que ele estava tendo aquele problema do corpo rejeitando as peças robóticas.

– O que? O corpo dele rejeita as peças? Por isso estava com febre? – eu exclamei realmente surpresa.

– É, ele precisa tomar remédios todo o dia. É igual quando uma pessoa faz transplante de órgãos, para aceitar o novo inquilino, precisa tomar certas substâncias. Só que o Bill é cabeça-dura, ele não toma certinho, alegando que um dia ele não precisará mais dos remédios, então ele tem recaídas.

– Ele não me contou isso, pensei que fosse apenas uma febre comum.

– Ele não gosta que sintam pena dele, é um idiota insensível mesmo, por isso que não aconteceu nada naquele dia, pelo menos, eu acho. Mas aconteceu algo que te deixou com raiva, eu vi como estava receosa. Se ele te contou toda aquela baboseira de “Não quero que mais ninguém que eu ame morra, por isso vou evitar ter relacionamentos”, não dê a mínima. Bill pode ser um Humanoid, um cruel, mas ainda é humano.

– O problema dele é o passado, ele está muito preso a ele – eu comentei, me lembrando de Petrova.

– Ah, você está falando da russa! Ele te chamou de Petrova, não foi? – Tom começou a cair na risada, deixando-me totalmente sem-graça – Quando Bill fica com febre, tem alucinações e a maioria é com ela. Deve ser difícil esquecer um grande amor, mas nada como outro.

Não adiantava conversar com ele, mesmo que eu negasse, Tom acreditava fielmente que eu gostava de Bill. Por isso, tive que partir da festa segundo o plano, mas não tinha certeza se conseguiria chegar até a cozinha, afinal eu via três portas em vez de uma. Eu só estava indo com isso adiante porque precisava entregar o presente e explicar tudo para Bill, o que seria muito constrangedor na frente de todo mundo. Além de que ele me encheria de desculpas, pelo menos, é o que eu espero. Depois do que eu fiz, acho que nunca mais vai querer olhar na minha cara, não que me importe.

Descer todas aquelas escadas era um sufoco e várias vezes pensei que iria cair e quebrar o pescoço. O chato de ser meio-robô é que você ainda é um tanto frágil, ou seja, totalmente mortal se for atingido no lugar certo. Claro que minhas costelas eram de platina, mas minha garganta não.

Graças aos céus que a grande cozinha estava totalmente vazia. Seria um bocado estranho atravessá-la bêbada com muitas pessoas te olhando. Até era bom ficar sozinha um instante, naquele breu o atravessando facilmente... Como diabos estou enxergando tudo perfeitamente nesse escuro? Olhei para minha mão e a conseguia ver como se estivesse no sol do meio-dia. Peguei uma das panelas de Inox ao meu lado e consegui ver meu reflexo, meus olhos estavam do mesmo jeito de sempre, mas um tanto acinzentados. Será que o álcool estava deixando-me relaxada o suficiente para usar meus poderes de forma tão natural?

Fui até o interruptor e liguei a luz, logo minha visão ficou escura e em segundos voltou ao normal, vendo todo o local perfeitamente. Desliguei a luz e o breu tomou conta, mas logo conseguia enxergar tudo novamente, como se estivesse com a luz acesa. Claro, a resposta estava na minha cabeça, literalmente. Meu cérebro entendeu que eu precisava enxergar o local para chegar ao meu objetivo, então meus olhos automaticamente se acostumaram com o escuro, mas do seu jeito robótico. Aquilo era muito mais preciso que olhos humanos. O que mais eu seria capaz de fazer e não sabia?

Abri a porta da cozinha de Bill, também tudo estava na penumbra. Decidi não ligar a luz por enquanto, caminhei até o balcão, coloquei minha bolsa no chão e tirei minhas sandálias. Eu precisava testar uma coisa antes, por isso também subi em cima do balcão. Queria tentar flutuar como Starkey disse que eu conseguiria. A maioria dos carros, motos, skates flutuam a certa distância do chão. Isso facilita muito a locomoção, principalmente em terremotos e enchentes, onde policiais e bombeiros conseguem socorrer mais fácil as vítimas. Se eu sou capaz de flutuar, isso seria uma grande ajuda.

Então eu pulei, tentando manter a mente limpa como se flutuar fosse o mesmo que chegar ao nirvana. Mas meus pés tocaram o chão sem o menor impacto, como se eu tivesse pulado de um degrau. Claro que eu não desisti, não sei quantas vezes subi no balcão – e caí também – e pulei, mas nada surtiu o efeito desejado. Como diabos posso flutuar e fazer tudo que Starkey havia dito? Ele falou que do mesmo jeito que um humano descobre seu corpo, eu também teria que descobrir meu corpo robótico, só que não faço ideia de como.

Havia um tempo que eu estava tentando descobrir qual seria a minha participação nos Dogs Unleashed. Será que eles iriam me levar para destruir carregamentos de robôs? Ou tentaríamos explodir a World Behind My Wall? Recuso-me a fazer uma coisa dessas, não quando passei grande parte da minha vida naqueles corredores. Não queria participar dessa guerra, não quero destruir nada nem matar ninguém, quero apenas ter uma vida normal.

Antes eu pensava em ser cientista, sabe? Queria trabalhar em programação de robôs e ajudar o meu pai. Meu sonho foi por água abaixo parcialmente. Claro que posso me tornar uma cientista, mas terei que conseguir sozinha e não tenho toda aquela segurança que eu tinha. Meu pai pagaria minha faculdade, ele que me daria trabalho. Agora que estou meio que contra ele, significa que meu sonho está mais longe do que antes. Não tenho ninguém e duvido que os Dogs Unleashed me dariam toda a segurança que preciso, eles tem mais com o que se preocupar.

Quando tudo isso acabar, serei só eu. Se os Dogs Unleashed ganharem, partirei rapidamente daqui para Hamburgo novamente e tentarei a vida sozinha. Se a World Behind My Wall Corporation ganhar, também fugirei, mas se forem atrás de mim, não terei escolha a não ser ficar do lado deles. Quem sabe não é o melhor, apesar de tudo que sei? Talvez o meu desejo seja que isso fique igual à Guerra Fria, ninguém atacando ninguém, apenas um tentando mostrar ao outro quem é o melhor. Só que isso significa que ficarei parada aqui, sem saber que caminho seguir. Uma geleira presa, estabilizada para sempre no mar ártico.