Humanoid Chronicles
32 Capítulo 32
Caio na noite
E procuro por você
Tudo o que está dentro de mim se quebra
O sonho queima
O amor congela
(Sonnensystem – Tokio Hotel)
02 de Setembro de 2109
Na cozinha de Bill
00h37min PM
As luzes da cozinha se acenderam, dando-me um susto. Eu ainda estava sentada no balcão quando Bill chegou e também ficou surpreso ao me ver ali, parada, no escuro como um fantasma. Esperei que ele dissesse alguma coisa, mas apenas ficou encarando-me, como se eu fosse uma espécie de alucinação criada por sua mente um tanto embriagada.
– Feliz aniversário – eu disse finalmente, quebrando todo o silêncio.
– O que está fazendo aqui? – ele perguntou sem um pingo de gratidão pelo o que eu dissera.
Desci do balcão e fui até a minha bolsa, precisava entregar esse presente antes que decidisse jogá-lo contra a parede. Não que isso fosse importante, na verdade aquilo se tornara mais uma obrigação do que realmente algo feito de bom grado. Bill não merecia nenhum presente da minha pessoa, ainda mais um que me fez ficar umas nove horas tentando consertá-lo.
Estiquei o pacote na frente dele. O papel azul que eu surrupiara da sala de Gustav para empacotar os dois presentes e não deixá-los tão pobrezinhos. Ele ficou um tempo olhando para o presente, como se não acreditasse naquilo, como se fosse uma espécie de armadilha.
– É seu – eu disse para confirmar – Pegue logo.
Bill pegou o pacote e começou a abri-lo, lançando olhares para mim como se esperasse um ataque eminente. Eu fiquei na minha, apenas observando enquanto ele tirava seu Idiary tão brilhante que parecia novo, direto da loja. Só esperava que por dentro estivesse tão digno quanto sua carcaça.
– Consertei seu Idiary, o achei na gaveta do seu quarto. As fotos que peguei não eram para vingança, era para serem escaneados e colocados nele, assim você poderia levar suas lembranças mais facilmente com você – eu disse de forma quase que decorada, sem vida – Não sou infantil, não sou digna de desconfiança e deveria dizer que não sou vingativa, mas acabei pegando essa sua mania irritante de última hora.
– Obrigado – ele disse finalmente, ligando o seu Idiary que acendeu sua tela quase em um milagre, científico, claro – Desculpe pelo que eu disse, eu não sabia que era esse o motivo de você ter pegado as fotos, se eu soubesse, nunca teria dito aquilo...
– Mas disse – falei rispidamente – Você disse o que pensa de mim. Eu não sou sua irmã menor, Kaulitz. Não preciso ser tratada como uma criança irresponsável e mimada. Cuidei muito bem de mim mesma durante esses anos e se segui o caminho errado ou sofri o acidente, foram apenas obstáculos que tive que passar. Não sou a garotinha de dois anos nem a adolescente rebelde, já passei dessas duas épocas.
Quando terminei de dizer, notei que ele estava surpreso, mas não era por causa do sermão. Eu havia o chamado de Kaulitz e só havia uma pessoa que o chamava daquela forma quase autoritária: Petrova. Ficar lendo o diário dele por um tempo me fez achar engraçado chamá-lo daquela forma e até fiz a nota mental de que devia tentar algum dia. E acabei chamando-o, mas de forma inconsciente.
– Não precisa mais cumprir a sua promessa, pois já foi cumprida. Estou salva e sei que nada vai acontecer comigo, não precisa ficar bancando o irmão mais velho que uma hora está preocupado e outra hora está me dando sermão e fingindo que não se importa. Juro que você é a pessoa que menos entendo nesse mundo.
– Você acha que fiz tudo que fiz por causa de uma promessa? Eu me importo com você e já disse isso. Só não sei como lidar com você, não sei o que esperar de uma pessoa que me enfrenta, que questiona minhas ordens. E sim, a considero como minha irmã mais nova e vou continuar te protegendo mesmo que não queira.
– Eu não preciso de sua proteção, Kaulitz – eu falei novamente, adorando o efeito que isso causava nele – Sua proteção masoquista e militar. Tanto que quero ir embora daqui, não aguento mais ficar nessa base! Nem que a World Behind My Wall Corporation me localize, não dou a mínima para essa conspiração e sua vingança.
– Não pode, você não sabe nem metade do que está te esperando lá fora. Wilhelmine, você não é a filha do célebre cientista do Projeto Humanoid, você é uma cobaia que deu certo. Para eles, você não é mais uma pessoa e sim um objeto. Eles estavam esperando sua recuperação para que finalmente pudessem tirar o resto de humanidade que há em você e transformá-la em uma máquina.
– Talvez eu fique igual a você, frio e calculista.
– Vai ficar pior – ele falou em fúria e depois olhou para o seu Idiary – Por que me deu um presente?
– Também não sei, foi perda de tempo, você não merece.
– Qual era o motivo antes de eu confrontá-la por causa das fotos? – ele perguntou novamente, fazendo-me ficar pensativa.
– Queria retribuir, por que me salvou, mesmo eu estando com raiva já que me chamou de Petrova. Eu... eu li o seu diário e entendi o seu jeito de pensar, conheci parte do seu passado. Queria que você continuasse a escrever, isso me deixa mais aliviada quando estou com raiva e talvez isso também funcionasse com você. Acho que você tem muito que desabafar.
Lá veio a culpa. Agora eu me lembrava bem do motivo de ter feito isso e me dedicado. Mesmo que fosse mínimo, havia alguma coisa em comum entre nós dois: tínhamos medo de ser esquecidos. Ao escrever esse diário, espero que algum dia alguém ache-o e descubra que existiu uma Humanoid chamada Wilhelmine. Bill, ao escrever seu diário, queria a mesma coisa, já que um dia vivo na guerra é um dia de sorte.
– Não foi perda de tempo. Talvez você não mereça agora ele, mas em algum momento anterior, mereceu – eu disse por fim, olhando para ele como se fosse um estranho. Bill nem sequer conseguia formular frases direito, apenas ficava em silêncio, talvez tivesse medo de falar alguma besteira.
– Obrigado, de verdade, pelo presente. Mesmo depois de eu ter brigado com você, você achou que valia a pena entregá-lo para mim. Agora é minha vez de retribuir de alguma forma. Vá para o seu quarto e se vista de uma forma mais confortável e pegue sua mochila, encontre-me na frente do meu – ele disse, abrindo a porta da cozinha e já saindo por ela, quando se virou – Ah, você fica muito bem nesse vestido, se quiser ficar com ele, tudo bem.
Então Bill sumiu, deixando-me sozinha novamente sem entender nada. Vesti as minhas sandálias e peguei a minha bolsa, fazendo o que ele pediu mais pela curiosidade de saber o que planejava. Só espero que ele ainda não dê uma boa olhada em seu Idiary, pois além das fotos de costume, ele iria encontrar uma nova com um recado: “Cachorrinho, uma versão mais nova para você já que a outra foto tem cinco anos. Com carinho, Wilhelmine”.
02 de Setembro de 2109
Trocando-me
01h19min PM
Eu havia vestido minhas roupas comuns de Dogs Unleashed e já estava com minha mochila nos ombros, em frente ao quarto de Bill. Quando ele saiu, estava com uma jaqueta de couro e fez sinal para que o seguisse. Subimos um bocado de escadas, por andares que eu nunca havia me aventurado antes até chegar a um espaço enorme onde havia dezenas de motos, dois helicópteros, um tanque de guerra e mais outros meios de locomoção ocultados pelas sombras.
– Suba – Bill falou quando se sentou em uma das motos e apontou para o lugar atrás de você – Segure firme, elas são mais potentes que as usadas comumente.
Não estava acreditando que íamos sair da base! Passei meus braços em volta dele e segurei-me firmemente enquanto a moto acelerava em direção a um portão automático que estava abrindo. Quando o ar gélido de Berlim foi de encontro ao meu rosto, finalmente senti-me bem por está livre de tudo aquilo, como se eu fosse um passarinho desesperado para sair da sua gaiola, que quando consegue, sente uma paz enorme. Por mais que ainda nutrisse certa raiva de Bill, agora ela desaparecera conforme os prédios destruídos sumiam.
A base dos Dogs Unleashed ficava no subterrâneo da parte mais destruída de Berlim, um lugar, que não é mais habitado por causa dos destroços. Isso explica porque a World Behind My Wall Corporation nunca descobriu a localização, eles pensavam que era um bando de adolescentes que viviam na parte rica e não destruída. E de certa forma, eu estava agradecida por eles nunca terem sido encontrados.
A moto de Bill sobrevoava todos os escombros velozmente, desviando de pedaços de ferro e entulhos que impediam nossa passagem. Eu não sabia ao certo para onde ele estava nos levando, mas decidi aproveitar aquela viagem sem me preocupar com isso. Sempre sonhei em ter uma moto, só que meu pai não confiava em mim, o que foi bom, afinal se eu sofresse o acidente em uma moto, com certeza não estaria aqui para contar a história.
Fiquei surpresa quando pude avistar o Portal de Brandemburgo, ainda intacto e imponente, mas sem nenhuma luz o iluminando. A moto parou bem em frente e Bill desceu, estendendo sua mão para que me ajudasse. Ainda não entendia o porquê de estarmos aqui, eu olhava o portal, esperando que alguma coisa surgisse do nada, mas tudo estava tão quieto quanto um cemitério.
– Eu não posso passar daqui, é perigoso, mesmo para mim, ir adiante sem contar com a ajuda dos outros – Bill falou, tirando algo da sua jaqueta e estendendo para mim – Pegue.
Olhei para sua mão e descobri que havia um bolo de notas de dinheiro. Nem meu pai me deixava andar com aquela quantidade toda.
– O que? Para que isso? – eu perguntei.
– Você falou que queria ir embora, queria recomeçar sua vida. Não tenho certeza se isso é suficiente, mas é o que tenho no momento – ele disse simplesmente, fazendo um desespero enorme surgir dentro de mim – Há ônibus levando pessoas de Berlim para Hamburgo às três da manhã no final da Unter den Linden (principal Avenida da Alemanha). Cuidado com eles, Mine, não os deixe pegá-la novamente.
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