Você me faz bem, você me machuca

Eu estou na luta do amor

Corro contra o brilho

Caminho contra a neve

Apenas para a luta do Amor

(Kampf der Liebe – Tokio Hotel)

1º de Setembro de 2109

Em meu quarto

18h45min PM

O meu vestido estava esticado em minha cama e não tinha a mínima vontade de vesti-lo. Na verdade, estava pensando seriamente em continuar no quarto como fiquei praticamente o dia inteiro ou tentar fugir. Talvez Bill não estivesse falando a verdade quando disse que iriam tentar me localizar caso eu fugisse de Berlim. Vai ver ele ainda quer manter a promessa a minha mãe, por isso precisa que eu esteja o tempo todo ao seu lado.

De repente alguém bateu na porta, fazendo-me acordar dos meus pensamentos.

– Quem é? – eu perguntei como uma voz não muito disposta.

– Sou eu, Tom.

Quando abri a porta e o vi, pulei nele, dando feliz aniversário e todo aquele discurso que todas as pessoas falam nesse dia. Não importava o quanto eu estava brava, Tom não estava incluído nisso, não como seu irmão desgraçado.

– Porque não está arrumada ainda? – ele perguntou, vendo meu vestido em cima da minha cama e eu ainda com a roupa dos Dogs Unleashed.

– Não sei se deveria ir...

– Foi o incidente de ontem, não foi? Bill me contou e ele se arrependeu de ter dito algumas coisas.

– Mas ele disse, não que eu me importe – eu disse dando de ombros e sentando-me em minha cama.

– Se não for para ir por ele, vá por mim – Tom falou, sentando-se ao meu lado – Vai ser legal, claro que não o tipo de festa badalada que você frequentava.

– Não me lembre dessas festas. Vocês dois amam tocar na minha ferida, bando de insensíveis.

– Você vai ou não vai? – ele insistiu.

– Tudo bem, eu vou – falei em um suspiro – Agora cai fora do meu quarto, que vou me trocar.

– Qual o problema de eu ficar? – ele falou maliciosamente, passando sua língua pelo piercing em seus lábios.

– O problema é que você é um pervertido – peguei um dos meus travesseiros e bati nele, rindo – Vai, cai fora!

– Estou indo! – ele ria, enquanto eu batia nele com o travesseiro até ele atravessar a minha porta.

Agora eu estava sozinha novamente e tinha algo a fazer. Por mais que minha vontade fosse ficar aqui, eu tinha que ter pelo menos consideração por Tom, ele veio me convidar e realmente me quer na festa. Além disso, eu tinha um presente muito especial para ele e não podia perder a oportunidade.

1º de Setembro de 2109

Ainda aqui

19h39min PM

Eu estava pronta. Você não tem ideia do quanto eu estava feliz ao usar uma roupa além das calças de gangas, suéteres e regatas que tinha que usar todos os dias. Não aguentava mais usar preto, precisava de alguma coisa que me lembrasse natureza, precisava daquela segurança “Estou usando algo pelo mundo”, mesmo que fosse exagero pensar isso. Lembro que até tentei virar vegetariana, mas bastou ver que Berta – minha empregada robô – tinha feito sanduíches de frango – a única comida que ela sabe fazer perfeitamente são sanduíches – que não consegui resistir.

Não havia mais muita coisa a fazer pelo mundo, tínhamos apenas que torcer para que tudo voltasse ao normal. Os carros de hoje não emitem mais gases tóxicos, a energia em nossas casas vem de energia nuclear segura – pelo menos espero –, todo o lixo é biodegradável e é totalmente reciclado. Finalmente a humanidade se tocou, mas foi um pouco tarde demais. Realmente chamamos essa época de Reciclagem, não porque fazemos isso o tempo todo, mas é o que o nosso planeta está fazendo conosco. O nosso planeta está se autodestruindo para depois criar algo a partir disso. Gostaria de fazer a mesma coisa comigo, destruir o meu passado e tirar algum proveito disso para o meu futuro. Mas que futuro?

1º de Setembro de 2109

Vamos tentar festejar. Tentar.

22h02min PM

A tal festa seria no segundo andar acima do saguão, onde também ficava o quarto de Bill e Tom. Havia um salão enorme lá, que geralmente era usado para festinhas depois de grande feitos – como destruir um carregamento de robôs – ou simplesmente para descontrair. O que era estranho, já que eu não estava nem um pouco descontraída.

Mesmo no corredor, já dava para ouvir uma barulheira de dentro da porta, pessoas falando, barulho de copos e principalmente música. Faz tanto tempo que eu não ouvia música. Fazia tanto tempo que eu não ia a uma festa. Meu pai me proibiu depois do acidente, ele sabia o que acontecia sempre que eu saía de casa e alegava que qualquer substância forte, poderia fazer com que meu corpo rejeitasse as partes robóticas. Tive que ficar em uma clínica de reabilitação por um tempo e não foram os melhores dias da minha vida.

Festas me davam uma tremenda nostalgia, mas não de forma boa. Era como se eu quase temesse atravessar aquela porta, como se a lavagem cerebral e corporal que fizeram em mim, resultou em algum trauma. Era como Alex em Laranja Mecânica, só que menos louco.

Então a porta se abriu, como se a pessoa do outro lado tivesse adivinhado que eu estava ali. Deparei-me com uma Natalie sorridente, segurando um copo de cerveja, totalmente descontraída, o tipo de coisa que as pessoas fazem em festas. Droga, será que eu poderia beber? Antigamente eu bebia até entrar em coma alcoólico, apesar de que a última vez que bebi vinho com Tom, tudo foi tão rápido que nem notei o que estava fazendo.

– Mine! Ainda bem que você chegou – ela falou, com as maçãs do rosto vermelhas, talvez ela já tenha bebido um bocado de cerveja – Entre, entre!

Dei uma boa olhada no interior, antes de realmente entrar. O lugar estava como da última vez há um ano, igual às fotos que vi no computador de Gustav. Havia uma mesa grande, contendo garrafas de cerveja e vinho, diversas comidas e finalmente o bolo, quase ofuscado pelos outros comes e bebes. Atrás da mesa estava escrito em um cartaz: “Feliz Aniversário Bill e Tom” e havia uma caixa com alguns presentes.

Tanto Bill e Tom, estavam em uma mesa, na companhia de Gustav, Georg, David e mais alguns caras que eu não conhecia. Havia ainda outras mesas contendo mulheres da base, para onde Natalie me arrastou, alegando que eu precisava de amizade feminina já que lidava o tempo todo com os homens. Claro que quando cheguei até lá, elas pararam de conversar e me fitaram.

– Hey, garotas, essa é Mine – Natalie falou, puxando uma cadeira para que eu me sentasse – A nova integrante da base!

– Ela é a Humanoid 483? – uma mulher loira, com cara de rato perguntou, olhando para mim como se eu fosse uma aberração.

– Sim, é ela – Natalie confirmou – Nem parece um robô, não é mesmo? Tão linda e natural. Quer beber algo, Mine?

– Ah, não, obrigada – eu disse rapidamente – Estou bem assim.

Nada de beber hoje. E do jeito que Natalie estava, possivelmente iria encher meu copo toda vez que ficasse vazio, claro que existia aquela tática de falar o tempo todo e fingir que estava bebendo, quando, na verdade, não estava. Mas fingir não era comigo. Juro que até gostaria de beber algo só para ficar mais relaxada, afinal eu estava totalmente tensa de ficar naquela mesa, recebendo olhares estranhos das outras mulheres. Ainda bem que depois elas voltaram aos seus assuntos nos quais eu ficava boiando totalmente.

– E como está o seu relacionamento com Tom? – Judd, a mulher com cara de rato perguntou a Alison, uma garota com cabelos ruivos e encaracolados, com o rosto cheio de sardas e uma risadinha asmática. Nessa hora eu acordei e decidi prestar atenção.

– Está me enrolando – ela disse bufando – Toda vez que vou falar com ele, dá alguma desculpa e some rapidamente.

– Também, amiga – Judd disse, bebendo um longo gole da cerveja – Falei para você não dar o bolo todo e sim uma fatia de cada vez. Você sabe da fama do irmão malvado, ele já pegou quase todas dessa base.

– Irmão malvado? – eu exclamei, tentando entender se eu ouvi certo – Pensei que o Bill fosse o irmão malvado. Tom é realmente o cara mais legal que já vi.

Claro que falei besteira. Alison ficou vermelha e me olhou como se eu fosse a nova amante dele e o resto parecia apenas impressionado por eu ter dito algo. Talvez pensassem que falar não estava no incluso no pacote robótico.

– Bill não usa as mulheres, acorde – Agnes respondeu com sua voz anasalada, enquanto arrumava uma mecha castanha que lhe caíra nos olhos – O que um irmão faz de menos o outro faz demais. Não me vai dizer que caiu nos encantos do irmão errado?

Eu ia perguntar de que irmão ela estava se referindo, mas seria colocar mais fogo na lenha.

– Não, não gosto dele – eu disse o mais rápido possível, tentando esclarecer tudo.

– Ah, eles não são tão ruins – Natalie exclamou – Bill é mais na dele, focado no seu trabalho. E Tom não quer ter relacionamentos, não adianta tentar. Ele tem sua fama, você já deveria saber, Alison.

– Maldita hora que eu pensei que comigo seria diferente – Alison bufou novamente, triste.

– Ei, Tom! – Judd gritou, acenando para a outra mesa, fazendo Alison dar um pulo – Vem cá um instante.

– O que você está fazendo? – Alison sussurrou.

– Estou te ajudando, amiga! Agora é uma boa hora para falar com ele.

Tentei não olhar muito na direção onde os caras estavam, mas meu olhar encontrou o de Bill e logo em seguida o de Tom, que estava vindo em nossa direção. Não tinha o que me preocupar, Alison ia falar com ele, podia rolar até alguma coisa e eu ficaria livre daqueles gêmeos. Talvez Judd pudesse ficar com Bill também, ela era tão insuportável quanto ele.

– O que foi? – Tom perguntou a Judd, mas depois se virou para mim – Wilhelmine, você veio! Que surpresa! Você está perfeita nesse vestido!

A voz de Tom ecoou por todo o local. A euforia em minha mesa sumiu. Alison ficou vermelha de raiva novamente. E todos estavam olhando para mim. Olhei para a cara dele e notei seu sorriso maroto que entregou todo o seu plano: ele queria chamar atenção de Bill. Nessa hora, minha vontade de esganar um irmão, mudou para o outro. Os dois são terríveis.