Humanoid Chronicles
28 Capítulo 28
Uma aberração da natureza
Presa na realidade
Eu não me adapto a imagem
Eu não sou o que você queria que eu fosse
Desculpe-me
(Strange – Tokio Hotel feat. Kerli)
31 de Agosto de 2109
Na sala de Gustav
15h22min PM
Quando Tom deixou-me na frente do meu quarto, com tudo que era necessário para amanhã, percebi que faltava apenas uma coisa: o presente. Eu precisava achar dois presentes em uma base secreta, onde não se podia sair para comprá-los. Para Bill, era muito fácil o que poderia ser dado de presente, mas não muito fácil de efetuá-lo. Mas quanto a Tom, eu não tinha a mínima ideia.
Enquanto eu pensava no presente para o outro gêmeo, decidi cuidar do presente mais fácil – se é que eu poderia dizer isso. Corri rapidamente para o andar onde ficava o quarto de Bill, esperei algumas pessoas saírem do corredor e abri a porta que deixara apenas encostada. O quarto estava como da última vez, encaminhei-me até a gaveta, peguei todas as suas fotos e o seu Idiary, colocando cuidadosamente em minha mochila.
Eu precisava da ajuda de uma pessoa, mas antes precisava me desculpar com ela. Como previsto, essa pessoa era Gustav, que demorou alguns segundos para abrir a porta de sua sala, enquanto eu batia sem desistir. Quando ele finalmente abriu a porta e olhou para mim, pude ver sua expressão de raiva.
– Por favor, não feche a porta – eu disse, segurando-a com meu braço robótico. Claro que ele poderia tentar fechá-la, mas não conseguiria – Quero desculpar-me por ter invadido seu computador. Eu precisava da verdade, precisava saber se poderia confiar em vocês e essa foi a única alternativa.
– Agora confia? – ele retrucou emburrado – Porque eu não confio em você.
– Eu sei que não sou digna de confiança, mas agora confio em vocês. E preciso muito da sua ajuda.
– O que quer?
– Posso entrar? – apesar de ele relutar um pouco, ele fez sinal para que eu entrasse, logo a porta se fechou às minhas costas – Quero consertar uma coisa e acho que você tem as peças necessárias.
– O que quer consertar?
– Isso – eu disse, tirando o Idiary detonado da minha mochila – Sei que parece um pouco impossível, mas a memória está intacta, tenho apenas que consertar a carcaça.
– É seu? – ele fez a pergunta que eu menos queria responder.
– Ah... não – eu disse hesitando – É do Bill, amanhã é seu aniversário e queria consertar isso para ele.
– Você não o odiava? Não estava tentando matá-lo? – ele exclamou surpreso.
– Odiava antes de saber da verdade. Eu sei que ele é insuportável, mesmo assim ele não é tão ruim quanto eu imaginava. E no passado, Bill me ajudou muito, queria recompensar de alguma forma.
– Hum... entendi. Meu aniversário também é daqui alguns dias, espero um presente bem legal de você – ele falou, insinuando alguma coisa – Saiu uma nova atualização de armas no Chronos Stardate, tem um baclo e um machado que estou de olho, mas estão muito caros e acabei gastando meu dinheiro comprando uma águia dourada para ser minha mascote e novas vestes a prova de fogo.
– Se você me ajudar a consertar o Idiary do Bill, não só compro o baclo e o machado, como te presenteio com o item limitado lança de Athenas – eu disse, fazendo os olhos deles brilharem.
– Então, o que você precisa?
Gustav realmente quis me ajudar, até se prontificou a tentar consertá-lo, mas eu queria fazer isso. Ele me disponibilizou várias caixas contendo os mais diversos dispositivos e me ajudou a caçar o necessário para consertar o Idiary. Havia muita coisa para dar conta, eu teria que substituir algumas peças por outras que não havia na caixa e ainda testar tudo para ver se dava certo.
A melhor parte de ter um pai que trabalha com robótica, é que você convive com isso praticamente a vida inteira. Lembro-me do meu primeiro cachorro robótico, ele era um graça e fazia quase tudo que um cachorro de verdade fazia, mas não era de verdade. Decidi abrir o coitado e descobrir como era o seu funcionamento, mas o objetivo verdadeiro era irritar meus pais a ponto de me darem um cachorro feito de carne e osso. Foi nessas brincadeiras inocentes que descobri um mundo de dispositivos e ligamentos.
Todos os meus brinquedos futurísticos eram abertos por mim, e trocando suas peças, eu tentava descobrir o que mudava neles. Claro que no começo eles entravam em pane ou chegavam até a explodir, mas depois comecei a entender como tudo funcionava. Com um pouco mais de dedicação, comecei a descobrir que o computador seria um grande aliado na programação dos meus brinquedos, foi nesse instante que comecei a entender os tais códigos.
Não sou um gênio nem nada, apenas fui guiada pelo meu interesse e agradeço, porque sem isso, não poderia consertar esse Idiary. O meu maior medo era que Bill descobrisse o sumiço dos seus pertences na gaveta, ele com certeza saberia que fui eu e ficaria louco. Espero que ele não note nada até amanhã, por isso, já tomei providências de escanear cada foto com meu Idiary para depois passar para o dele. A ideia é que ele tenha aquelas fotos junto com ele e de maneira mais fácil.
– Gustav? – a voz urgente de Bill atrás da porta fez-me dar um pulo. Corri para esconder seu Idiary e sentei-me em uma das cadeiras de Gustav, fingindo estar interessada em uma das telas holográficas.
– Hey, Bill – Gustav disse, abrindo a porta e lançando um olhar para mim – O que faz aqui?
– Eu preciso localizar Wilhelmine... – ele parou quando percebeu que eu já estava ali e pela sua expressão, não estava nada satisfeito. Ah, não... ele sabia.
– Oi, Bill – eu disse tentando parecer natural, mas engoli seco – O que quer comigo? Eu estava desculpando-me com Gustav e ensinando a ele algumas coisas para recompensar o incidente de ontem.
– Vou ser breve: devolva as minhas fotos – ele falou secamente, indo até a mim e abrindo a palma da sua mão na minha frente – Não vou brigar com você, apenas as devolva.
– Eu não as peguei – eu disse firmemente. Sei que elas já estavam escaneadas, mas não queria pagar de idiota cleptomaníaca, queria que tudo se resolvesse amanhã e ele entendesse porque fiz isso.
– Wilhelmine – ele disse meu nome todo de forma dura – Você foi a única pessoa que esteve em meu quarto.
– A porta dele está aberta, qualquer pessoa poderia ter entrado.
– Eu já deixei várias vezes minha porta aberta e ninguém nunca se atreveu a entrar. E ninguém teria interesse nas minhas fotos.
– Por que eu teria interesse? – eu retruquei, tentando manter a mentira para que ele desistisse, mesmo sabendo que Bill não faria isso.
– Vingança, você quer me dar uma lição – ele disse como se fosse óbvio, como se fosse o tipo de coisa que eu fizesse.
– Não sou como você.
– E você não se diz infantil! – ele exclamou realmente furioso – Você quer que eu cheque as câmeras? Quer ver as provas?
– Bill, tenho certeza que houve algum mal entendido – Gustav intercedeu por mim e lancei um olhar agradecido a ele.
– Você também? – Bill olhou para Gustav com aborrecimento – Tom também a protege o tempo todo.
– Talvez porque você devesse dar mais créditos a mim – eu o cortei furiosamente e levantei-me da cadeira, para ficar quase a sua altura, o que era quase impossível.
– Dou créditos ao que você era, não ao que você é agora. Ainda não confio na garota que jogou parte da sua vida fora daquela maneira!
– A vida é minha, mauricinho da Dior. Eu faço o que quero com ela e não fale da minha infância como se me conhecesse suficientemente bem, porque você só teve contato com uma garotinha de dois anos que ainda não tinha personalidade feita. Digo e repito, nunca pedi para você ter me salvado.
– Tudo bem, não dou a mínima para a sua vida. Só quero minhas fotos de volta.
Eu estava explodindo de raiva, por ter pensado em consertar seu Idiary e receber toda essa consideração em troca. Ele realmente me via como uma irmã mais nova, uma irmã mimada, irresponsável e infantil. Odiava ser tratada daquela forma e não queria mais saber dos meus planos, por isso fui até minha mochila, peguei as fotos e joguei no peito dele.
– Aqui estão elas! – eu gritei em fúria – Viva do passado delas, se afunde mais nessa mágoa gigante que há em você. Fortaleça mais essa barreira que impede as pessoas de se aproximarem. Eu também não dou a mínima para o que faz com sua vida.
Bill me lançou um olhar rancoroso e pôs-se a pegar as fotos que caíram no chão. Quando conseguiu recuperar todas, ele foi embora sem dizer mais nada, a porta fechou-se às suas costas e eu atingi um dos dispositivos da caixa nela, fazendo-o se espatifar.
– Wilhelmine – Gustav disse, ele esteve observando tudo àquilo sem saber o que dizer – Ele não sabe da verdade, não pode ficar zangada dessa forma. Quando ele descobrir que estava errado, irá se desculpar, com certeza.
– Prefiro os choques-elétricos – eu disse, tentando segurar as lágrimas que estavam banhando meus olhos – Ele não falava tanto quando os usava.
– Você vai continuar, não vai? – Gustav perguntou, pegando o Idiary de Bill que estava escondido atrás da caixa.
– Vou, não por ele, claro. Quando vou ter a chance de dissecar um Idiary sem me importar com os resultados? Além disso, tive uma ideia para o presente de Tom – eu falei, pegando o Idiary da mão dele.
Ignorei Gustav e sentei-me no chão, continuando meu trabalho de antes. As lágrimas impediram parcialmente minha visão e tentei não fungar tanto para que Gustav não percebesse. Terminei tudo exatamente 23h57min, agora Bill teria sua querida Petrova não só naquelas malditas fotografias, como também na tela de seu Idiary. Talvez ele voltasse a escrever, assim, quem sabe, meu nome não aparecesse mais vezes no Search? Claro que acompanhado de críticas, como sempre.
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