Notas iniciais
Estou colocando esse aviso novamente, porque pode ter pessoas que clicaram primeiro aqui do que no capítulo 19, ou seja, só para garantir que alguém vai ler essa nota.

Gente, estou repostando esses dois capítulos (o 19 e o 20) porque simplesmente o Nyah excluiu os dois! ARGGGGGGGGGGH
No mesmo dia caiu o servidor, eu havia postado de manhã, então acho que acabou perdendo os dados e os reviews que ganhei ):
Acho que poucas pessoas chegaram a ler esses dois capítulos porque logo em seguida caiu o servido, no máximo, digo umas quatro. Então, aí está, novamente.

Está alguém a rir
Para matar a dor
Está alguém a gritar
O silêncio
Apenas abra os seus olhos cansados

(Zoom into me – Tokio Hotel)

30 de Agosto de 2109

Minha hora de hacker

22h53min PM

Saí correndo da cozinha e subi as escadas, parei no andar das celas e fiquei pensando se deveria salvar Starkey agora ou depois. Optei que depois era a melhor escolha, ele só iria me atrapalhar agora. Primeiramente, eu precisava pegar minha mochila em meu quarto, por isso cheguei até o saguão vazio, subi mais um andar e finalmente cheguei, sem um pingo de cansaço graças as minhas pernas e meu coração robótico.

Peguei minha mochila e fui em direção a sala de Gustav, eu tinha certeza que lá teria todas as respostas para minhas perguntas. Claro que quando cheguei, a porta estava trancada e só abriria com as digitais dele, mas ele não contava com minha habilidade de descobrir senhas e detonar proteção de arquivos. Conectei meu Idiary ao dispositivo da porta e abri um programa que eu havia criado, eu o chamava de Detonador, que consistia em procurar em toda a memória do programa a senha ou a permissão.

Dispositivos para abrir portas são mais fáceis de detonar do que senhas de computador, já que muitos usuários – a maioria que entende do assunto de hacker – tentam protegê-las da melhor forma possível. Bastou o meu programa vasculhar na memória para conseguir que a porta abrisse como se Gustav tivesse acabado de colocar sua mão ali. O dispositivo sempre grava quando se deve abrir ou fechar a porta, é só enganá-lo para que faça isso.

Entrei na sala que estava um breu e fechei a porta o suficiente para que não ficasse trancada, mas que ninguém desconfiasse de que houvesse alguém ali. Com as mãos trêmulas e com aquela sensação boa de adrenalina passando pelas minhas veias ainda humanas, fui ligando os computadores até as telas holográficas ligarem. Sentei-me na cadeira dele e estava me sentindo tão esperançosa, que tinha quase certeza que poderia escapar daqui hoje.

Mal a tela holográfica ligou e já estava pedindo uma senha. Gustav devia entender de códigos tão bem quanto eu e isso seria o maior desafio. Conectei o meu Idiary – não sem antes protegê-lo, afinal, há grandes chances de na tentativa de me infiltrar no computador do Gustav, haja detonadores que queimem o sistema do meu Idiary para que evite o processo – e comecei a tentar acessá-lo, mas logo surgiu na tela “Acesso Negado”.

Eu precisava quebrar aquela barreira que Gustav colocara, por isso, abandonei o Detonador e comecei a tentar me infiltrar por mim mesma. O medo tomou conta de mim, porque os minutos passavam e eu simplesmente não estava conseguindo destravar o acesso, pensei em desistir e cair fora dali enquanto havia tempo o suficiente para isso. Mas finalmente achei a barreira e consegui destruí-la.

Novamente, usei o Detonador do meu Idiary e dessa vez consegui usar a senha contra o programa e ele permitiu meu acesso. Lá estava a Área de Trabalho de Gustav, com um Papel de Parede do Chronos Stardate e pronta para ser usada e abusada por mim. Comecei a procurar nos arquivos algo que fosse importante, até que me deparei com uma pasta “01_09_2108”. Percebi que depois de amanhã seria a mesma data e decidi clicar para descobrir sobre o que era.

Para minha surpresa, havia fotos, e não era nada do que eu esperava. Era uma festa de aniversário que havia acontecido na base dos Dogs Unleashed, havia bolos e latas de cervejas e várias pessoas comemorando. Depois de olhar várias fotos, percebi que o aniversário era nada mais que de Bill e Tom, sendo que o último sorria para as fotos e Bill simplesmente as ignorava. Aproximei a tela holográfica para dar uma olhada no rosto de Bill, então percebi que havia uma cicatriz que começava na testa, no lado esquerdo, e ia descendo até o lado direito dos seus lábios. Havia mais cicatrizes bem evidentes – por causa da regata – em seus ombros e braços.

Cliquei em um dos vídeos que estava ali e logo pude ver que se tratava da festa e mostrava o rosto de Bill, atrás da mesa comemorativa.

– Bill, sorria pelo menos uma vez! – Gustav exclamou, aproximando a câmera do rosto de Bill que a tampou com a mão.

– Desliga isso aí, Gustav! Não estou para comemorações – ele falou no seu jeito arrogante de sempre, então acabou o vídeo.

Juro, que um ano atrás, Bill estava pior do que hoje. Sua aparência estava muito machucada e sua expressão era de uma profunda tristeza, como se eu estivesse olhando para o rosto de um moribundo. Por mais que fosse totalmente perda de tempo, decidi dar uma checada em outras pastas que continham fotos, principalmente as antigas.

Encontrei um Bill com cicatrizes mais evidentes, mas ele não estava tão triste, tanto que havia uma foto dele, com Tom e uma mulher loira. Ela abraçava os dois com uma ternura que eu só havia visto na foto que estava em meu relicário, com certeza, era a mãe deles. E era esse o motivo para a tristeza de Bill, ela havia morrido.

“Calar minha boca? Não consegue fazer o trabalho sujo sozinho? Esqueci que precisa da puta traidora da sua mãe”.

Starkey havia dito algo sobre a mãe de Bill, ele havia a xingado como se a conhecesse. Eu estava ficando realmente com medo do que poderia descobrir, mesmo assim, minha curiosidade era tanta que continuei procurando mais informações no computador. Finalmente achei uma pasta chamada “Projeto Humanoid”, cliquei nela e várias pastas abriram, decidi começar por vídeos, já que quanto mais provas, melhor.

Quase caí da cadeira quando percebi que havia exatamente 482 vídeos ali, e que cada um continha o nome Humanoid e um número o acompanhando. Abri o primeiro vídeo, temendo pelo que estivesse ali, mas logo eu estava encarando o rosto do meu pai, só que muito mais jovem, ele devia ter uns vinte anos. Em vez dos cabelos grisalhos, ele tinha cabelos castanhos e não usava óculos.

– Hoje é 23 de Fevereiro de 2080 e será a primeira tentativa do Projeto Humanoid – ele disse, de forma séria para a câmera que depois se virou para um rapaz deitado em uma cama – Essa é nossa primeira cobaia, um rapaz de dezoito anos que teve o coração perfurado por uma barra de metal durante o furacão que atingiu Munique faz dois dias. Por enquanto, ele está sobrevivendo através de aparelhos, mas em breve, estará usando o primeiro coração robótico.

O vídeo foi mostrando toda a cirurgia, enquanto meu pai estava dando todas as explicações necessárias. Decidi avançar o suficiente para não ver nada realmente nojento – apesar de já estar vendo um bocado de sangue.

– A cirurgia foi um sucesso – meu pai disse, encarando a câmera, mas ele não parecia nada feliz. Seu rosto continha olheiras e sua expressão era de cansaço – O coração funcionou e começou a pulsar sangue como qualquer coração humano faria, mas o corpo do rapaz está recusando o novo órgão. Tentamos fazer de tudo, mas duas horas depois ele morreu.

Desliguei o vídeo e fiquei me perguntando se deveria ver os outros. Não fui assistindo em seguida, decidi ir pulando. Todos era sobre cirurgias, a maioria era transplante de órgãos robóticos em pessoas que estavam à beira da morte. Depois, tudo mudou um pouco, havia pessoas saudáveis também, uns voluntários, outros com alguma doença e ainda havia criminosos sendo usados como cobaias.

Pensei em parar de assistir quando algo me chamou atenção. Parei o vídeo no exato momento em que uma mulher loira passa atrás do meu pai.

– Hoje estamos com uma nova equipe médica – meu pai disse a câmera, apresentando duas pessoas que eu conhecia muito bem – Esses são Starkey Kopatz e Simone Kaulitz. O doutor é cirurgião e a doutora é neurologista.

Fiquei encarando um Starkey mais novo, com cabelos castanhos, porte grande, um tanto gordo e uma expressão de puro orgulho. Ao seu lado, havia uma mocinha, ela tinha os cabelos loiros e apesar de não ter rugas, sua fisionomia bastava para saber que se tratava da mãe de Bill e Tom. Aquela informação me deixou em choque, Simone trabalhara com meu pai e de alguma forma, traíra o trabalho deles. Um segundo medo tomou conta de mim: será que o que ela fez, a levou a morte? Meu pai foi capaz de matá-la por causa das informações que ela tinha?

Desisti dos vídeos. Não queria ver mais nada sobre aquelas cirurgias, meu estômago ainda humano estava se revirando. Voltei para a pasta do Projeto Humanoid e fiquei surpresa ao descobrir que havia uma pasta com meu nome “Wilhelmine Langebahn”, cliquei sem hesitar. Havia um bocado de informações sobre mim ali, como boletins escolares, notícias sobre o prêmio que ganhei na escola ao inventar um programa de computador, certidão de nascimento e até meu tipo de sangue. Tinha até uma notícia do Jornal Online sobre meu acidente de carro.

O que mais me chamou atenção foi a quantidade de fotos minhas que foram tiradas, na maioria, enquanto eu frequentava festas. Foi então que achei mais vídeos naquele bolo assustador de informações, pensei em não clicar, afinal já tinha visto coisas o suficiente, mas já que era sobre mim...

– Não gosto de vídeos, mas Gustav falou que é necessário já que posso captar ótimas informações com uma câmera – eu fiquei surpresa ao estar encarando Bill, ele não estava com moicano e sim com um cabelo comprido, preso em um rabo-de-cavalo. A cicatriz em seu rosto sumira quase por completo e ele se vestia completamente de preto – Hoje é 15 de Março de 2109 e estarei coletando qualquer coisa sobre Wilhelmine Langebahn, estarei ao seu encalço o suficiente para poder protegê-la. Minha vontade é de sequestrá-la, mas acho que não seria sensato. Minha vontade também é mandar qualquer idiota nessa missão, mas... não posso abandoná-la agora. Não faço ideia de como seja sua personalidade e não sei como vou lidar com ela.

O rosto de Bill encarou a câmera por um tempo, preocupado e depois sua imagem sumiu. Como assim protegê-la? Como assim ele não pode me abandonar? Não podia acreditar que estava mirando um Bill preocupado comigo, sendo que ele sempre me tratou mal o tempo todo. Pelo menos, o que Tom falara era verdade, eles definitivamente não queriam me matar.

A imagem do vídeo surgiu, mostrava uma rua um tanto movimentada e um pub iluminado com uma música eletrônica ao longe. Eu conhecia muito bem aquele lugar, pois frequentava com minhas amigas quando morava em Hamburgo. O zoom da câmera aumentou até focar em mim, fumando encostada na parede e rindo na companhia de minhas amigas Breanna e Katze.

– A morena é Wilhelmine – disse a voz de Bill atrás da câmera, sussurrando para que ninguém o descobrisse – Pelo tempo que estou aqui, ela está totalmente chapada, rindo igual uma idiota junto com aquelas duas amigas desmioladas. Já tracei um perfil psicológico dela: filhinha de papai, rica o suficiente para bancar seus baseados, bebidas e festas. Pelo visto, aquele filho da puta do Langebahn a estragou.

As imagens só me mostravam fumando, entrando no pub, dançando com minhas amigas, bebendo até desmaiar e mais outras coisas que eu fazia. Juro que não me orgulho daquela época, ela parecia tão distante o suficiente que às vezes penso que nunca existiu, mas lá está ela, viva de novo. Em um dos vídeos, eu acabei desmaiando de tanto beber, Breanna e Katze simplesmente sumiram, me deixando sozinha no chão enquanto uns caras me olhavam com uma cara tão chapada quanto a minha.

– Ela é gata – disse um deles – Podíamos brincar com ela.

Quando eles começaram a se aproximar de mim, Bill avançou e me carregou e, pelo visto, lançou um olhar feio para os caras que caíram fora. A câmera focou em meu rosto desmaiado, e algumas mechas foram afastadas dele pelos dedos finos e compridos do meu salvador.

– Mine, o que diabos você virou? – ele perguntou, fazendo meu coração robótico disparar de uma forma que nunca vi antes.