Notas iniciais
Apesar de eu já ter postado o capítulo 19 e 20, não acho justo com quem leu e ficou o maior tempo esperando por novos capítulos, por isso vou postar mais :D

SE PREPAREM, REVELAÇÕES AGORA!

Como um motoqueiro fantasma

Eu te procuro

A noite é fria

Eu dirijo sozinho

Como um motoqueiro fantasma

Para finalmente estar contigo

(Geisterfahrer – Tokio Hotel)

30 de Agosto de 2109

Quase caindo da cadeira na sala de Gustav

23h47min PM

Bill me conhecia. Essa era a maior certeza que eu tinha, mas não me lembro dele. Juro que nunca tinha visto ele antes! Tentei relembrar qualquer situação da minha vida que ele poderia estar... escola? Não. Festas (além dessas)? Não. Infância, talvez? Que eu me lembre, não também. Eu não podia estar errada quanto a isso já que o jeito que ele falava era como se me conhecesse há muito tempo.

Continuei vendo os vídeos, Bill me seguia até quando eu ia à escola e soltava comentários que variavam em me chamar de idiota até exclamações bastante preocupadas ao me ver fazendo algo errado. Eu nem sequer fazia ideia de que ele estava lá, apenas andava por aí sem saber o que estava acontecendo a minha volta. Finalmente cheguei ao último vídeo e meu coração gelou quando percebi que se tratava da noite do meu acidente.

A câmera me mostrava fumando no sofá da festa de Sylvia Motte, o lugar estava abarrotado de pessoas, com casais se pegando no sofá – ao meu lado, diga-se de passagem – e pessoas dançando em cima da mesa, enquanto bebiam garrafas de vodka até entrarem em coma alcoólica. Eu parecia estar totalmente chapada e não conseguia nem parar em pé direito, quando Katze veio me avisar que Ian Chesnutt estava me esperando no andar de cima. Naquela época, eu era completamente apaixonada por aquele babaca do Ian e ele nem ao menos sabia que eu existia.

Um sorriso bobo surgiu em meu rosto quando ela disse aquilo e tratei de subir o mais rápido possível as escadas do jeito que só uma pessoa chapada consegue. Bill veio atrás de mim, com sua câmera me perseguindo por todos os lugares, até chegar ao segundo andar da casa. Abri o primeiro quarto que achei e dei de cara com Ivan se pegando com Sylvia, seminus. A câmera focou naquele casal e juro que ao ver aquilo de novo, não senti nada. Ivan só fora uma paixonite e como disse antes, ele nem sabia que eu existia. Saí correndo do quarto, com lágrimas no rosto e me choquei com Bill, fazendo a imagem do vídeo ficar negra.

– Espere! – Bill disse, tentando me segurar, pelo menos era o que dava para deduzir, já que a câmera chacoalhava toda hora, mas eu me lembrava vagamente de algo assim.

– Deixe-me em paz! – eu falei, saindo correndo dele, descendo as escadas.

Bill correu atrás de mim, atravessando aquela multidão e saindo da casa de Sylvia. Eu entrei em um carro e fiquei alguns segundos tentando ligá-lo, mesmo que a câmera não mostrasse isso, eu me lembrava. Então o carro finalmente ligou, saiu faíscas de fogo atrás e eu acelerei tanto que logo só havia um pontinho ao longe.

– Droga! – Bill exclamou, indo em direção a sua moto que estava perto, escondida atrás de uma moita – Aquela desgraçada vai se matar desse jeito. Por que diabos decidi bancar a babá daquela estúpida?

Ele subiu na moto e acelerou com tudo que podia atrás de mim. Logo dava para avistar meu carro e ao longe, lá estava o ônibus parado a alguns metros, o que era um bocado estranho já que pensei que estava em movimento.

– Merda! – Bill gritou, tentando acelerar mais a moto – O freio dela está quebrado, ela foi pega!

Aumentei a tela de vídeo e realmente dava para ver um líquido viscoso escorrendo do meu carro. Também me lembrava de ter tentado frear várias vezes, mas sem sucesso, só que pensei que estava tão chapada que imaginei tudo. Meu carro se chocou com o ônibus parado com toda força, virando uma pilha de ferrugem e tombando no chão já que o dispositivo gravitacional quebrara. Alguém havia sabotado meu carro. Eu havia vistoriado ele há uma semana e não havia nada de errado, como que o freio quebrara assim de repente?

Finalmente a moto de Bill chegou perto do carro, ele a deixou de lado e se encaminhou até aquele monte de ferrugem. Foi então que ele arrancou a porta do meu carro facilmente, com apenas uma mão e a jogou longe. Isso não era possível! Voltei o vídeo nessa parte e vi mais umas três vezes até acreditar. Nenhum humano faria uma coisa dessas... Bill tinha um braço robótico. Isso explicava porque consegui acabar com Georg facilmente e com ele não, ele também era um Humanoid igual a mim!

A imagem que preencheu a tela holográfica foi meu rosto com um corte enorme na testa, fazendo sangue escorrer no meu olho esquerdo enquanto o direito estava fechado. Meu braço direito se encontrava massacrado do outro lado e minhas pernas sumiram no meio de tanto metal. Mesmo assim, eu estava viva e olhava para Bill de forma vaga.

– Oh, Gott! – Bill exclamou – Não acredito no que eles fizeram com você, se sobreviver a isso já vai ser demais. Você pode me ouvir?

Eu acenei que sim, mas eu não me lembrava disso. Quer dizer, que meu sonho era uma memória um pouco distorcida, Bill realmente esteve comigo quando sofri o acidente de carro. Com todo cuidado, ele começou a retirar as ferragens que envolviam minhas pernas, pelo meu rosto, dava para ver que aquilo doía demais.

– Vou te tirar daí, preciso que aguente firme, vai doer – ele estava usando um tom calmo, mas dava para ver notas de desespero em sua voz. Aquilo era demais para minha cabeça, era como se eu acabasse de ser apresentada a um novo Bill, não era o que eu conhecia.

Pouco a pouco, as ferragens saíam das minhas pernas, fazendo um sangue escuro sair pelos ferimentos. Com um lenço, Bill tentava estancar o sangue e falava o tempo todo para eu me manter acordada, quando eu estava para desmaiar, ele segurou minha mão esquerda e a apertou.

– Não desmaie, por favor, isso vai se pior – meu rosto virou de um lado para o outro, mas eu não conseguia falar – Vou ter que fazer algo, eu tenho um choque-elétrico aqui, o deixarei com uma carga mínima. Se adormecer, você pode morrer ou ficar em coma, vou tentar acordá-la com isso, entendeu?

Eu fiz que sim, apesar da dor, toda hora que meu rosto parecia pender, Bill dava um mínimo choque-elétrico que fazia meu olho direito abrir de susto. Logo a lança em meu braço direito foi retirada, ele rasgou um pedaço do seu casaco e o envolveu para estancar o sangue. Aos poucos ele foi me tirando do carro e me trazendo para o frio da Hamburgo em seus braços, colocou-me em sua moto e ajeitou minhas pernas para que ficassem apenas de um lado. Bill se sentou atrás e fechou o que sobrara de seu casaco em volta de mim, para que eu não caísse.

– Mine, eu juro que vai ficar tudo bem. Não vou deixar que destruam você – Bill sussurrou, acelerando a moto.

Então o vídeo parou, Bill havia desligado a câmera, mas logo sua imagem voltou. Ele parecia estar péssimo e mal humorado.

– A perdermos – ele disse finalmente – A levei a um hospital, eles precisavam de um responsável para fazer a cirurgia, mesmo assim não daria em nada. Wilhelmine perdeu o braço, a visão do olho esquerdo e nunca mais poderá voltar a andar. Langebahn conseguiu de novo, ele terá uma nova cobaia, se não a transformar completamente em um robô, vai ser sorte... está acabado. Esse é o último vídeo.

A tela ficou preta e meu corpo pendeu na cadeira flutuante. Não conseguia acreditar no que acabara de ver. Bill tinha um braço robótico e quem sabe o que mais. Meu acidente não foi completamente minha culpa, alguém sabotara o meu carro. A mãe de Bill e Tom trabalhara com meu pai e o traíra. Ela foi morta pelas informações que tinha. Bill me conhecia de algum lugar.

Minha vontade de fugir se extinguira, eu não sabia mais em quem confiar e no que acreditar. Quem era a vítima nessa história toda? World Behind my Wall Corporation ou Dogs Unleashed? Ou os dois eram vilões, brigando por poder? Eu podia fugir, fugir para longe. Eu podia recomeçar minha vida novamente, em um lugar afastado de tudo isso, sem que ninguém desconfiasse.

Desconectei meu Idiary do computador, quando comecei a desligá-lo, a porta da sala abriu com tudo. Bill estava lá, ofegante e surpreso por me encontrar ali. Não consegui ficar com qualquer expressão, só o encarei, petrificada, tentando ler qualquer coisa que indicasse se ele era o mesmo cara do vídeo.

– O que você está fazendo aqui? – ele exclamou realmente furioso – Sabia que algo havia acontecido com Tom, eu senti. O que você fez com ele?

– Na-nada – eu disse, tentando me explicar – Está tudo bem, ele está na cozinha. Estava aqui apenas em busca de respostas.

– Dê-me – ele estendeu a mão, olhando para o meu Idiary – Sabia que tinha que ter eliminado isso antes.

– De jeito nenhum! – eu exclamei, ultrajada, guardando meu Idiary em minha mochila – Fique longe disso! Não peguei nenhuma informação importante, só o usei para conseguir entrar no computador de Gustav.

– Se você não entregar por bem, vou pegar por mal, entregue-me agora!

Ele não podia ser o mesmo cara de antes. Bill nunca se importou comigo de verdade, talvez eu tenha confundido tudo. Quando ele avançou para cima de mim, eu o empurrei com toda força que eu tinha contra a parede, o pegando de surpresa. Antes que pudesse me nocautear, o arremessei para cima da cama que me prenderam na primeira vez que fui naquela sala. Apoiando meu peso nele, prendi seus braços e depois prendi suas pernas.

Se Bill tivesse mais partes robóticas, não seria questão de tempo para ele se libertar. Então empurrei a porta e saí da sala, fechando-a e rezando para que ela não se abrisse com suas digitais e sim só com as de Gustav. Corri o mais rápido que eu podia, sabia que a saída era para cima, mas os Dogs Unleashed podiam chegar a qualquer instante. A melhor coisa que eu poderia fazer era me esconder e descobrir outra forma de sair. Eu precisava me livrar de tudo e de todos, não queria saber mais de nada.