Você quer me consertar
Empurrar-me
Para dentro da sua fantasia
Você tenta me pegar
Vender-me
Sua personalidade

(Strange – Tokio Hotel)

05 de Setembro de 2109

Na Delegacia da Berlim intacta

20h44min PM

As sombras da noite alcançaram Berlim. Não havia uma alma viva por perto além dos barulhos sinistros que o vento fazia. Eu estava com aquela maldita peruca loira em minha cabeça, usando uma saia preta, meia arrastão, coturnos, um top preto e um sobretudo preto. Dediquei-me até a maquiar meus olhos de preto para deixar tudo mais real possível. Ou era a fantasia de gótica ou seria a de mulher gato, que era bem mais chamativa.

Quando cheguei à delegacia, precisei ficar um bom tempo do lado de fora arquitetando tudo. Rasguei um pouco da minha saia e do meu top e pus-me a chorar até a maquiagem preta ficar borrada. Corri para dentro da delegacia, chorando em plenos pulmões até chegar a um balcão, onde um policial me olhou bastante assustado.

– O que aconteceu? – ele perguntou, mas os meus soluços de mentira me impediam de falar – Quer um pouco de água? Você precisa se acalmar!

– Oh, Gott! Algo terrível, terrível!

– Conte-me, podemos te ajudar...

– O delegado – eu disse de repente, olhando para ele com uma expressão de terror – Preciso falar com ele, é urgente. Não posso, não posso, não posso...

– Ele está muito ocupado, por favor, tente se acalmar – ele falou, pegando um copo de água e colocando em minha frente. Eu peguei com as mãos tremendo e levei a minha boca, bebendo desesperadamente. Isso está me soando mais divertido do que eu pensava – Está tudo bem agora?

– Eu preciso falar com o delegado – falei, começando a soluçar novamente – É terrível, só ele pode me ajudar. Estou em perigo! Por favor, chame-o, por favor!

Todas as tentativas de me acalmar foram em vão, o ruim é que eu estava chamando um bocado de atenção e outros policiais já estavam de olho em mim. Depois de muita insistência, o gentil Policial Weiss foi falar com o delegado e enquanto ele fazia isso, coloquei meus braços em volta de mim e fiquei olhando para o chão como uma garota transtornada faria. Quando ele voltou, mandou-me segui-lo até uma porta no fim do corredor onde se lia na placa: Delegado Roth.

A porta abriu com a palma do policial e demos de cara com um homem gordo e quase careca, apenas com um pouco de cabelo que ia do castanho ao grisalho. Ele não parecia muito de bom humor, talvez lidar com os Dogs Unleashed fosse bastante estressante, espere até o idiota lidar comigo.

– O que você quer? Não estou com tempo para ouvir sobre brigas adolescentes – ele disse de uma maneira bastante rude.

– Eu matei uma pessoa, não queria, mas... – os soluços vieram da forma mais profissional que pude fazer. Deixe-me cair no chão aos prantos enquanto o delegado olhava-me sem saber o que dizer – Ele me ameaçou... agora estão atrás de mim...

– Quem? – ele perguntou, por fim – Quem está atrás de você?

– Não posso, não posso, não posso! Precisamos ir até um lugar seguro, as paredes têm ouvidos e eles vão saber como chegar até a mim – eu disse tentando mostrar terror – Por favor, não deixem me pegar!

– Tudo bem, tudo bem – ele disse de má vontade, levantando-se e estendendo o braço para que eu ficasse de pé – Vamos a um lugar mais seguro.

O delegado levou-me até aquelas salas cinza, onde a única forma de saída é pela porta de entrada. Mas o que mais me chamou atenção foi uma placa onde se lia Celas perto de onde nós estávamos, o que tornaria nossa caminhada muito mais rápida. Fui até a cadeira que ele indicou, de frente para uma mesa, onde ele sentou-se do outro lado com sua expressão impaciente.

– Não sei o que está ganhando ao ajudar a World Behind My Wall Corporation, mas agora você está do meu lado – eu disse calmamente, olhando para o rosto gordo dele de repente ficar pálido – Se você abrir a boca ou tentar qualquer movimento brusco, eu atiro em você antes que consiga dizer socorro.

Ver o cano da arma sair do meu pulso foi o suficiente para que ele ficasse totalmente petrificado e sua testa começou a suar como se acabassem de despejar um copo de água nela.

– Gostou da minha atuação? – perguntei em escárnio – Não me diga que está cansado de lidar com Humanoids?

– O que você quer? – ele perguntou, finalmente conseguindo falar.

– Quero que você me leve até as celas e faça tudo que eu mandar. Não pense que você e mais os outros cinco policiais podem lidar comigo, sou suficiente forte para dar conta de cada um. Vamos ou não?

Levantei-me e ainda mantendo a arma fora do meu pulso, encostei-a nas costas dele, fazendo-o levantar rapidamente ao contato. Nós saímos da sala cinza e nos encaminhamos até a porta das celas, onde com sua mão suada, ele abriu o dispositivo. O corredor era todo pintado de um bege meio sujo, com umidades no teto que davam um ar bastante precário. As grades se estendiam por todo o local e pude ver umas dez pessoas em cada uma, a maioria estava sentada ou deitada.

– Ande em frente – mandei, empurrando-o.

– Wilhelmine? –alguém perguntou, vindo de uma das grades. Foi quando percebi que se tratava de Tom. Ele estava com sangue seco na testa e um bocado sujo e machucado, mesmo assim, parecia estar bem – Gott, quase não a reconheci!

– Tom! – exclamei, fazendo várias pessoas das celas me olharem e logo depois sorrir ao descobrir que seriam salvas – Vim ajudá-los, não poderia deixá-los aqui!

– Não acredito que você nos achou! Eu pensei que eles estavam a mantendo presa também.

– Me mantiveram presa, mas consegui fugir – falei, logo depois empurrando Roth para a cela – Abra ou arranco sua mão e dou conta do recado.

A cela de Tom foi aberta, e junto umas dez pessoas saíram felizes da vida por estarem sendo libertadas. Fomos abrindo uma a uma e logo pude reconhecer Georg, Gustav e Natalie no mesmo estado de Tom, mas estavam bem o bastante para ajudar na fuga. Um Dogs Unleashed ou outro que parecia estar bastante ferido, mas que poderia ser carregado facilmente.

– Onde está Bill? – perguntei, de repente, ao ver que não o encontrara em nenhum lugar.

– Ele está na solitária – Tom falou amargamente, apontando para uma porta de ferro no final do corredor – Estavam o torturando por informações, não faço nem ideia se ele está vivo!

– É bom ele estar – falei, olhando feio para o delegado – Ou vou descontar minha raiva de uma forma nada legal.

– Caramba, você virou o Bill escrito – Georg comentou – Está falando como ele.

– Espero que seja um elogio – eu disse, enquanto abria minha mochila e tirava uma arma, jogando-a para Georg – Mantenham o delegado sob a mira.

Roth foi empurrado por nós até o fim do corredor onde abriu a porta da solitária. A cena que se seguiu fez meu coração afundar completamente. Bill estava sentado no chão, encostado a parede, seu corpo estava coberto de sangue e com vários ferimentos que mostravam claramente os mecanismos robóticos. Havia argolas grossas presas aos seus pés e aos seus braços que se ligavam a correntes presas na parede. Senti meu maxilar ficar hirto conforme uma fúria ir tomando conta de mim.

– Vou matar vocês – disse entre os dentes, fazendo o delegado tremer – Vou aniquilar cada um que participou disso e não vou fazer da forma mais rápida possível.

– As algemas dão choque – Gustav falou de um jeito que parecia estar prestes a vomitar – Se Bill se mexer de forma brusca, um choque enorme o atinge.

Fui até onde ele estava e coloquei a mão nas correntes sentindo choques de leve. Com toda a força furiosa que se estendia pelos meus braços robóticos, puxei-as com tudo, as arrancando da parede antes que o choque forte nos atingisse. Fiz a mesma coisa com as correntes dos pés e quebrei as argolas que envolviam seus membros como se elas fossem insetos. Caí de joelhos à frente dele, o segurando em meus braços enquanto eu sentia sua respiração lenta e fraca.

– Bill? – eu perguntei com minha voz embargada, dessa vez eu estava prestes a chorar de verdade – Está me ouvindo? Vim salvá-lo, está tudo bem agora. Por favor, diga alguma coisa.

Mas ele não disse nada, estava muito debilitado para sequer fazer algum movimento. Georg o colocou em suas costas e passou a arma para Tom enquanto eu tentava assimilar tudo que estava acontecendo. Abri a minha mochila e tirei os tranquilizantes, mandei-os ficar onde estavam enquanto eu dava um jeito de fugirmos sem chamar atenção.

Havia apenas cinco policiais naquele local e por mais que eu tivesse com raiva, não poderia matá-los. Muitos deles tinham famílias esperando ansiosamente por sua chegada, só porque perdi a minha, não quer dizer que não vou me importar com as dos outros. Um a um foi desmaiando em meus braços e os coloquei silenciosamente no chão, sem não antes esmagar cada câmera que filmava o local.

– Eu devia matá-lo, sabia disso? – falei ao delegado, que estava na solitária, tremendo e suando a beça – Mas não sou igual a vocês, mesmo que estejam me levando a esse caminho. Não fui feita para matar ninguém e não quero ser consequência disso.

Peguei uma das seringas e afundei no braço dele, deixando o líquido entrar completamente em sua corrente sanguínea. O delegado Roth caiu molemente no chão e deixamo-lo ali, enquanto saíamos o mais rápido possível daquele lugar que foi aterrorizante para os Dogs Unleashed. Os cães realmente estavam à solta está noite, indo em direção à escuridão e contando apenas com a luz da Lua, quem sabe, indo para onde?