Notas iniciais
Desculpem pela demora, ultimamente não tenho tempo para muita coisa. Mas de qualquer forma, também estou fazendo um suspense hehe.

Pessoas procuram pessoas

Todos procuram por si mesmos

Pessoas precisam de pessoas

Não queremos ficar sozinhos

Pessoas procuram pessoas

Em algum lugar, você procura por mim

(Menschen Suchen Menschen – Tokio Hotel)

31 de Agosto de 2109

Em meu quarto

13h23min PM

Eu não sabia como Petrova havia morrido, não fazia ideia do que tinha acontecido naquele 12 de Maio de 2108. O último relato era que os dois iriam se mudar para uma nova base com mais uns vinte soldados. Depois disso não havia mais nada e pelo estado do Idiary, tenho que dizer que Bill não parou de escrever por falta de vontade, algo realmente terrível havia acontecido.

Já era tarde e eu fiquei a maior parte do tempo lendo o diário dele. Tirei a sua memória do meu Idiary e devolvi ao seu devido lugar, guardando depois na gaveta junto com as fotos. A porta do quarto estava aberta, sem precisar de nenhuma digital para abrir, olhei para o corredor vazio e caí fora dali o mais rápido que podia em direção ao meu quarto.

Havia muita coisa para minha cabeça absorver, se eu não fosse humana e sim um robô, com certeza já estaria entrando em pane. Agora eu entendia quase completamente o mundo de Bill, eu conseguira atravessar sua muralha sem que ele percebesse e agora eu não só sabia uma boa parte do seu passado como entendia sua forma de pensar. Ele realmente foi brutalmente atingido de diversas formas, ele perdeu não só o amor da sua vida, como sua mãe adotiva e um grande amigo. E quem sabe se tudo para por aí. Bill perdeu parte da sua humanidade, não porque se transformou em um Humanoid, mas simplesmente porque agora é guiado pelo ódio, vingança e a promessa que fizera a minha mãe. Quando todos seus objetivos estiverem finalizados, gostaria de saber o que aconteceria, qual seria o próximo passo? E eu tinha medo dessa resposta.

Mas o destino dele era tão impreciso quanto o meu. Eu não sabia o que fazer, o que planejar, o que sonhar. Eu estava presa aqui, sem saber ao certo que lado tomar, sem poder abandonar tudo isso e recomeçar mais uma vez. Decididamente estava no meio de uma guerra onde só saberia que caminho seguir quando tudo terminasse. Se eu não acabasse morrendo no meio de tudo isso.

31 de Agosto de 2109

Em meu quarto

13h55min PM

Depois de tomar banho e relaxar o mínimo que eu poderia com tudo que me atormentava, eu tinha que sair do meu quarto, afinal havia mais uma coisa que precisava lidar. Havia certo irmão gêmeo que devia já ter acordado, sem saber direito o que tinha acontecido ontem à noite e eu precisava dar as devidas explicações. Do mesmo jeito que Bill passou uma parte pequena da sua infância comigo, Tom também.

Provavelmente Tom não estava em seu quarto àquela hora, por isso, eu precisaria dar uma olhada na base inteira até achá-lo. O que não era muito difícil, levando em consideração que o encontrei no saguão, apoiado nas grades, dando uma olhada em Bill treinando seus pupilos, junto de Georg.

– Olá, pessoal – eu disse, engolindo seco e tentando parecer o mais amigável possível.

– Hey – Georg respondeu com uma cara meio estranha, como se quisesse dizer algo, mas estivesse segurando. Então, inexplicavelmente, ele começou a rir igual a um louco – Não acredito que você dopou o Tom! Sabia que algo desse tipo ia acontecer quando ele disse “Ah, Bill, eu cuido dela!”.

– Cala boca babacão, e você que apanhou dela? – Tom rebateu, também segurando a risada enquanto eu ficava parada, sem saber o que dizer ou fazer.

– Ela é uma Humanoid, quanto a você, a única melhor explicação é que você é um mulherengo facilmente enganado pelas mulheres.

– Desculpa! – eu exclamei, cortando a discussão – Eu dopei você, pensando em fugir, mas acabei descobrindo toda a verdade...

– O Gustav está puto com você – Georg cortou-me, não dando a mínima para o texto que eu ensaiei – Você entrou na sala dele e se infiltrou no computador, mas acho que o verdadeiro motivo de estar bravo é porque feriu o orgulho dele.

– Eu precisava de informações e o único lugar que eu poderia encontrar era lá, agora eu sei de tudo. Agora confio em vocês.

– Preciso falar que também fez Bill perder toda a diversão? – Georg continuo falando e rindo – Destruímos todo o carregamento, acabamos com aqueles robôs!

– Você está fazendo-me sentir ótima – falei brava para ele e depois virei-me para Tom – Sinto muito por ontem, de verdade. Você sempre me defendeu e não queria ter feito aquilo com você.

– Tudo bem – Tom deu de ombros – Aposto que se fosse com o Georg, você o doparia sem arrependimento. Eu faria a mesma coisa.

– Como se você fosse capaz de me dopar – Georg disse, dando um soco de brincadeira no ombro de Tom, que deu uma vacilada – Agora tenho que ir, trabalho a fazer. Vou deixar os dois pombinhos conversando.

Georg saiu, deixando-me totalmente rubra enquanto Tom sorria de forma marota para mim. Que Deus não permita que eu acabe me envolvendo demais com esses gêmeos, tenho certeza que só acarretará problemas. Aproximei-me mais da grade fria e pude ver Bill lá embaixo, gritando com seus pupilos e derrubando outros despreparados. Como se sentisse minha presença, ele olhou para trás e me fitou. Não sei o porquê, mas algo me impulsionou a chegar mais perto de Tom.

– Quando isso aconteceu? – Tom perguntou de repente, fazendo-me dar um pulo.

– O que?

– Quando que você se apaixonou pelo Bill? – ele perguntou de uma forma inesperada, até divertida e não brava ou com ciúmes.

– Não estou apaixonada por ele – eu ri nervosamente – De forma nenhuma.

– Como não? Ele olhou para cá, você chegou mais perto de mim, apertou a grade fortemente e ficou vermelha. Não adianta negar, já conheci garotas duronas como você que evitam se apaixonar. Aqui, por exemplo, tem um monte.

– Não sou durona – eu olhei feio para ele – Sou uma Humanoid que não consegue controlar sua força ainda. Antes eu não sabia matar nem uma mosca.

– O que importa é que você gosta dele e ele gosta de você também – ele falou aquilo me deixando surpresa.

– Não, ele não gosta de mim, nem eu dele. Bill está muito preso ao seu passado e há coisas mais importantes para lidar.

– A última coisa que você falou é verdade, aconteceram muitas coisas ruins com ele. Por isso ele te trata mal, Bill quer que você o odeie, não quer ter mais laços afetivos com nenhuma pessoa por medo de perdê-la. Sou o único que ele permite tal coisa, porque praticamente somos a mesma pessoa, estamos juntos nessas.

– Tom, não sei se você entendeu, mas eu não gosto do Bill, eu simplesmente tolero a presença dele. Sou muito agradecida por ter me salvado, afinal já sei de tudo, porém, o único sentimento que tenho por ele é gratidão.

– Amanhã é nosso aniversário, sabia? – ele me cortou. Ultimamente as pessoas andam fazendo um bocado disso comigo – Geralmente fazemos uma festinha pequena, entre os mais próximos, sabe? Georg, Gustav, David, Natalie e mais alguns alunos de Bill e outros Dogs Unleashed.

– Eu sei, mas não entendo aonde você quer chegar – eu respondi, já esperando algo não muito bom.

– Vem comigo – Tom fez sinal para que o seguisse.

Não fazia ideia do que ele planejava e nem queria, mas decidi segui-lo. Tom levou-me ao andar acima do saguão, no mesmo andar onde ficava meu quarto. Ele abriu uma das portas que se encontrava ali com suas digitais e nós adentramos uma espécie de depósito onde havia as coisas mais variadas: perucas coloridas, fantasias, skates voadores, araras com diversas roupas, caixas fechadas e até esquis. Era um depósito muito mais variado do que aquele que Bill levou-me para pegar as mesmas roupas que os Dogs Unleashed usavam.

– Esse depósito tem tudo que precisamos para nossos disfarces. Também tem roupas comuns para se usar no dia-a-dia, afinal há pessoas que ajudam os Dogs Unleashed, mas tem uma vida fora dessa base. Vamos achar uma roupa para você...

– O que? O que está planejando?

– Wilhelmine, você é bastante bonita, mesmo usando calças de ganga um pouco largas e esse suéter preto, mas nada como alguns atrativos para chamar a atenção de Bill.

– Não quero participar desse seu plano absurdo! – eu exclamei, mas ele nem deu ouvidos, começou a dar uma olhada nas caixas.

– Olha! Um óculos da Dior – olhei para o que ele me mostrou e me lembrei que era o mesmo óculos que Bill usara na primeira vez que o conheci – o Bill ama esse tipo de coisa. Quem vê, pensa que ele não dá à mínima para isso, mas antes da guerra, nós dois usávamos muitas roupas caras.

– Então antes da guerra vocês dois eram como eu, só que eu preferia roupas recicláveis. Eu passava um bocado de tempo em feirinhas hippies.

– Aposto que não era só pelas roupas – Tom comentou rindo e eu joguei uma bolsa nele.

– Ai! Eu estava só brincando... ou você se incomodou com a verdade? Eu sei um pouco sobre seu passado.

– Passado é passado – eu disse emburrada – Pare de fazer-me lembrar de algo que não me orgulho.

– Dê uma olhada nisso, acho que ficaria perfeito em você – Tom falou, tirando uma das peças das araras.

Meu olhar se prendeu em um vestido balonê creme, com alças de rendas brancas e um laço na cintura. Era simples e bastante feminino, do jeito que eu gostava. Quando você abraça a causa de usar roupas sintéticas para salvar o planeta, a maioria das cores é verde, marrom, bege, creme e branco. Claro que há as outras cores, mas são essas que predominam. A cor e o jeito estavam dentro do padrão que eu costumava usar.

– Agora só falta algum sapato e maquiagem – Tom falou, vasculhando outras caixas – Vai ficar aí parada, admirando o vestido? Temos muito a procurar!