Olá, eu sou de uma galáxia vizinha

Onde não há horizonte nem limites

Os dias nunca terminam

As noites são infinitas

(Hey Du – Tokio Hotel)

27 de Agosto de 2109

Na sala de Gustav, quase morrendo

16h26min PM

– O que? – eu exclamei, tentando entender o que Bill estava falando.

Ele se afastou de mim e foi em direção a uma porta que ficava no final da sala de Gustav. Bill entrou ali e depois voltou com um espelho em suas mãos para onde eu estava e colocando o objeto na minha frente. Não interessava se meu cabelo estava bagunçado e o quanto meu rosto estava péssimo, a única coisa que realmente chamou minha atenção foram os meus olhos, com pupilas totalmente vermelhas. Minhas mãos ainda tremiam quando toquei o espelho, para ter certeza de que era real.

– Por quê? – eu perguntei, secando as minhas lágrimas, mas na verdade era uma tentativa de que meus olhos voltassem à cor normal.

– Não sei – Gustav disse, olhando de mim para a tela holográfica, como se buscasse respostas – Desculpe-me, eu não sabia...

– Tudo bem, já entendi – eu exclamei, tentando me levantar da cama, mas senti uma tontura tremenda e voltei a cair na cama.

– Melhor levá-la a enfermaria – Gustav disse a Bill.

– Ah, não... mal eu saí de lá, vou ter que voltar? – eu reclamei, tentando me levantar de novo.

Dessa vez consegui, mas continuei apoiada na cama, com medo de que caísse a qualquer momento novamente. A verdade é que eu não podia permitir que esse súbito acontecimento ferrasse com todo o plano que eu tinha. Eu precisava realmente mandar uma mensagem para o meu pai, tentar avisá-lo do que estava acontecendo antes que fosse tarde demais.

– Preciso ir ao banheiro – eu falei, deixando de apoiar e tentando ficar em pé.

– Quer ajuda? – Gustav perguntou, se aproximando de mim, mas eu apenas peguei minha mochila do chão e me encaminhei para longe deles tentando não cair.

Fechei a porta do banheiro antes que algum deles perguntasse por que diabos eu pegara minha mochila. Deixei-me cair no chão e segurei minha cabeça que pesava demais e estava dolorida. Eu não podia desmaiar, não agora. Ignorei a dor e peguei meu Idiary da mochila e me pus a escrever uma mensagem para o meu pai, alterando algumas coisas que tinha escrito antes.

Papai,

Estou na base secreta dos Dogs Unleashed, é uma organização e não um grupinho de anarquistas. Creio que você corra perigo. Quanto a mim, está tudo bem, apesar de alguns dias torturantes, a situação não está mais tão ruim, estou conseguindo conquistar a confiança de algumas pessoas. Existe uma pessoa em especial, muito perigosa, é a pessoa que eu mais preciso enganar caso queira sair daqui.

Eles fizeram algumas pesquisas em meu corpo (não me abriram, nem nada) e um dispositivo deles acabou interferindo no funcionamento de algo que há próximo ao meu cérebro. Minhas pupilas estão vermelhas e não sei como alterar isso, sem falar que estou totalmente fraca depois daquela pane.

Quero muito sair daqui, mas sei que não posso. Vou coletar informações para a World Behind my Wall, não vou deixá-los vencer dessa maneira, não sem tentar. Gostaria realmente de falar com você, há muita coisa a ser dita, mas se essa mensagem chegar até você, já vai ser um tremendo avanço.

Sinto sua falta,

Wilhelmina

Guardei meu Idiary novamente na mochila e me levantei. Havia mais dois espelhos naquele banheiro, e um buraco onde faltava o terceiro que Bill havia tirado. Minhas pupilas ainda estavam vermelhas, mostrando o quão artificial os meus olhos eram, a verdade é que nunca aceitei realmente o fato de ter perdido meus olhos verdadeiros. Sempre que eu me encarava no espelho, não via aquele brilho que as pessoas têm, aquela coisa inexplicável que mostra que estamos vivos, que temos uma alma. Eu realmente era um ser quase sem vida, uma máquina.

Fechei meus olhos e tentei me acalmar, talvez eu pudesse mudar a cor dos meus olhos. Às vezes quando eu ficava brava, meus olhos ficavam mais acinzentados, talvez isso tenha a ver com sentimentos incontroláveis. Quando os abri, continuavam tão vermelhos quanto antes, então simplesmente desisti, eu tinha que lidar com outras coisas importantes.

Quando abri a porta, Bill e Gustav estavam discutindo baixinho, enquanto olhavam para as telas holográficas, mas se calaram imediatamente quando viram que eu saí do banheiro. Aproximei-me deles para poder checar o que tinha nas telas, mas Gustav as desligou nos deixando quase no escuro, se não fosse aquela sua cadeira brilhante.

– O que vocês estavam falando? – eu exclamei – Descobriram o que aconteceu comigo?

– Assuntos confidenciais – Bill respondeu secamente como sempre.

– Vocês dois quase explodiram meu cérebro e não vão me dizer nada? – eu gritei em plenos pulmões – Vou dizer a você onde enfiar esses assuntos confidenciais.

– Não sabemos ainda de droga nenhuma sobre o que aconteceu, além disso, não temos a mínima obrigação de dar alguma informação a você, que eu saiba, ainda é nossa prisioneira.

Eu não podia perder a calma com Bill, lembre-se, eu devia me socializar com ele, tinha que conseguir sua confiança. O que era quase impossível, porque sempre que eu estava em qualquer lugar tão próximo da sua existência, me dava vontade de quebrar sua cara. Respirei fundo, nada podia dar errado agora, mais do que já deu.

– Seus olhos voltaram ao normal – Gustav exclamou, me olhando atentamente – Estão azuis novamente.

– Ótimo! – eu exclamei aliviada – Não vou mais parecer um demônio, quando na verdade sabemos quem nessa sala realmente é.

Tudo bem, precisei dar essa indireta para Bill. As palavras sempre saíam acidentalmente da minha boca quando eu estava perto dele, são como mísseis incontroláveis prontos para explodir um alvo.

– Você pode ir embora novamente – eu disse a ele – Agora vou jogar Chronos Stardate, sinto falta desse jogo.

– E vai continuar sentindo, porque não vai jogar – Bill retorquiu, agarrando meu braço – Está na hora de voltar para o seu quarto.

– Não vou para o meu quarto, não tenho mais nada para fazer aqui. Vou ficar com Gustav e jogar Chronos Stardate, pelo menos assim passa o tempo – eu tentei arrancar meu braço do aperto dele, mas não conseguia – Gustav! Por favor, deixe-me ficar, não vou te matar pelo que aconteceu, só quero jogar!

– Bill, deixe-a ficar – Gustav disse com a maior cara de pau que eu já vi, realmente com interesse de que eu o ajudasse a subir de nível – Ela não vai causar problemas. Sei como ela se sente, quando fico muito tempo sem jogar Chronos Stardate, sofro com abstinência.

– Não acredito que vai cair na dela tão facilmente – Bill olhou feio para Gustav – Ela está enganando você, essa garota é mais esperta do que parece.

– Claro, vou tirar o cérebro dele com aquelas pinças gigantes. O que vou ganhar com isso? Se você não se tocou, a única informação que eu realmente preciso é de como sair desse maldito local, não aguento mais olhar para você – eu disse puxando meu braço até que ele me soltou e eu caí estatelada no chão – Filho da puta!

– Se divirtam – Bill falou, furioso, caindo fora da sala de Gustav e batendo a porta fortemente pela segunda vez ao dia.

– Ganhei meu dia! – exclamei feliz, me levantando do chão sem me importar com a queda – Deixei-o furioso e sem opções. Adoro irritá-lo, acho que vou fazer isso para passar o tempo.

– Você pode pegar as botas e as luvas ali – Gustav disse, se sentando em sua cadeira e ligando as telas holográficas – Você sabe como fazer isso, não é?

– Você está falando com a LadyMine_Chronos, meu chapa.

Encaminhei-me para as botas e luvas que eram usadas no jogo, pelo visto, Gustav gostava mais de usar as telas holográficas do que os óculos especiais que eu usava, ficava mais real. A verdade é que eu não estava dando a mínima para o jogo, claro que eu ia jogá-lo, mas não era a minha real preferência. Olhei para Gustav e ele estava de olho na sua tela holográfica, interessado em algo que devia ser mais importante do que descobrir realmente se eu estava jogando.

Coloquei minha mochila na frente do meu corpo para que ele não visse e retirei meu Idiary o mais rápido que pude. Tirei o cabo que conectava as botas e o conectei realmente satisfeita por tudo está dando certo. Em menos de segundos eu tinha conexão e consegui enviar a mensagem para o meu pai. Guardei tudo tão rápido antes que Gustav percebesse que ainda não tinha vestido as botas e as luvas.

Joguei de verdade Chronos Stardate, e enviei itens ótimos para Gustav aumentar seus níveis. Fiz o meu papel de jogadora viciada e ele não desconfiou de nada, mesmo quando eu parecia mais analisar a sala dele do que realmente me empenhando em matar ogros. Eu teria que voltar aqui e descobrir o que era aquele dispositivo na minha cabeça, tenho certeza que aqui há muita informação, só preciso descobrir um jeito de me infiltrar.