Humanoid Chronicles
13 Capítulo 13
Não quero continuar a estar a seu comando
Não quero continuar a voltar
Não quero engolir todas as tuas mentiras
Quero sentir-me viva
(Dogs Unleashed – Tokio Hotel)
28 de Agosto de 2109
Em meu quarto arquitetando um plano
15h02min PM
Agora eu realmente preciso dar um jeito no Bill. Não posso, de forma nenhuma, deixar que ele fique furioso comigo, mesmo que seja o meu novo esporte favorito. Tenho que encontrar um jeito de me infiltrar naquela barreira que ele colocou em forma de si e para isso, precisarei atuar de verdade. Não posso usar o meu jeito de durona para lidar com ele, isso não dá certo.
Depois do acidente na sala de Gustav, passo a maior parte do tempo me olhando no espelho, principalmente os meus olhos. Outra coisa que lembro, é que ele disse que havia algo no meu braço, por isso, fico olhando para o meu punho como se algo inusitado fosse sair dele. Eu estava começando a desconfiar que meu corpo robótico escondesse muita coisa que eu não sabia.
Ainda bem que ninguém entrou no meu quarto do nada, porque eu sacudia meu braço no ar para ver se algo saía dele. E também ficava horas no espelho tentando tornar meus olhos vermelhos ou quem sabe, esperava que saísse fogo dos meus pés e eu começasse a voar. Nunca tinha encarado a realidade de que talvez eu tivesse algum poder especial e super legal, ou talvez eu estivesse apenas fazendo papel de idiota.
Foi em um acesso de raiva que consegui descobrir o que havia no meu braço e o que Gustav tinha descoberto parcialmente. Também descobri que tenho que tomar cuidado com meus acessos de raiva. Eu acabei batendo meu braço na pia do banheiro por não ter descoberto nada, acabei quebrando a cerâmica e meu pulso abriu.
– Merda! – exclamei olhando para o meu pulso rasgado – Quebrei meu braço! Não acredito nisso!
Quando movi minha mão para trás, para dar uma olhada no corte, percebi que saiu uma espécie de cano prateado de dentro. Conforme fui movendo minha mão robótica, o cano cada vez saía mais para fora. Aquilo era uma arma, não um revólver removível, aquilo estava no meu braço e eu sentia que ao menor movimento eu podia disparar. Realmente queria testar a potência daquilo – segure-se, Wilhelmine, não use em certa pessoa – mas tinha medo dos estragos que podia causar. Voltei a arranjar minha mão na posição normal e o cano da arma foi entrando no meu pulso como se nunca tivesse saído. Logo não conseguia nem mais ver onde minha pele se abria.
Não sabia o efeito dessa novidade em mim. Primeiro eu me senti feliz, por ter algo para me proteger e talvez, por acreditar, que eu tinha mais coisas legais. E depois a verdade realmente me atingiu: por que meu pai colocou uma arma em mim? Pensei que ele quisesse apenas salvar minha vida! Será que era o único braço robótico que ele tinha, ou decidiu me usar como cobaia também? E isso retorna também ao assunto da guerra. Meu pai devia estar realmente construindo robôs para esse objetivo... ou talvez, ele apenas quisesse me proteger.
Mas que diabos! Wilhelmine, você vai acreditar em um cara que trata mal ou no seu pai? Não importa o que meu pai está fazendo, estou do lado dele e sempre vou estar e nenhum anti-humanoid vai mudar minha opinião. Na verdade, seria uma boa eu começar o meu plano de vez. Bill, se prepare, não vou deixar você se safar.
28 de Agosto de 2109
Tentando achar Bill
17h33min PM
– Você sabe onde está Bill? – essa foi a pergunta que mais fiz e nenhuma pessoa conseguia me informar, até finalmente eu achar Tom, seu irmão gêmeo.
– O que você quer com ele? – Tom perguntou, levantando a sobrancelha e esperando uma boa resposta que eu não tinha.
– Assuntos confidenciais – eu consegui falar, ao me lembrar do dia de ontem.
– Ou você descobriu uma nova forma de matar o meu irmão – ele disse, rindo de mim ao ver que fiquei rubra.
Eu realmente não queria atrapalhar o que Tom estava fazendo, ele estava com uma daqueles revólveres que se disparassem, causavam o maior estrago. Percebi que ele estava colocando munição em vários deles, enquanto colocava em uma caixa preta sem dar a mínima de que eu poderia pegar. Não que eu estivesse pensando em pegar alguma daquelas armas, ainda mais com as grandes chances de ele dar um tiro em mim caso pensasse em me mover de maneira brusca. É nessas horas que eu ficava embasbacada com toda a preparação dos Dogs Unleashed, eu estava notando algo no ar.
– Não vou matá-lo, preciso apenas conversar – eu retorqui, tentando ser convincente, mas meu olhar parou nas armas – O que vocês estão fazendo?
– Salvando algumas almas.
– Não entendi. Como que armas vão salvar almas?
– Seu pai está mandando um novo carregamento de robôs para Chemnitz. Eles serão usados em guerra e iremos evitar que isso aconteça – ele disse tranquilamente, me deixando pálida. Será que ele estava brincando? Eu só podia esperar isso de alguém que tinha uma expressão tão brincalhona.
– Onde vocês conseguem tantas armas? Como que esse lugar existe? Vocês deviam ser apenas um grupinho anarquista, mas isso é uma tremenda de uma organização – eu prossegui, tentando tirar o maior proveito daquela conversa.
– Patrocínio. A World Behind My Wall Corporation que é uma tremenda de uma organização e tem muitas pessoas que não estão satisfeitas com o que está acontecendo. Várias ONGs estão tentando acabar com a guerra e concertar os problemas sociais que estão explodindo em todo o mundo. Somos uma espécie de CIA do que sobrou da Alemanha, um pouco despreparados, vamos dizer, mas vamos melhorar muito.
– Por que está nessa? Por que decidiu arriscar sua vida dessa forma? – eu realmente precisava ouvir tudo que fosse necessário para entender o que estava acontecendo. Tom finalmente parou de lidar com as armas e se virou para me encarar, pensei que ia ficar zangado por eu estar fazendo um interrogatório, mas se manteve impassível.
– Porque fui atingido por toda essa situação que está acontecendo e da pior forma possível.
– Como? – eu disse, ficando pálida.
– Tom – disse uma voz atrás de mim – Preciso de mais armas carregadas... o que você está fazendo aqui?
Virei e dei de cara com a versão ruim dos gêmeos. Bill estava me olhando de forma incisiva e com desprezo, como sempre fazia, sem nenhuma surpresa. Juro que novamente, meu plano quase foi água a baixo, queria xingar até a décima geração daquele idiota, mas tinha que manter a minha pose.
– Estava conversando com Tom, até você atrapalhar – eu falei calmamente, não notando que a última frase foi bem arrogante. Tudo bem, estou melhorando – Mas eu precisava falar com você.
– Estou ocupado agora e pare de atrapalhar Tom, ele tem que fazer um trabalho importante – ele disse arrogantemente, se encaminhando até uma das caixas com armas – Preciso de três.
– Ela não está atrapalhando, Bill – Tom riu e depois olhou para mim com uma cara não muito boa. Estou começando a achar que não existe gêmeo bom nessa história toda – Estávamos “apenas” conversando.
– Que seja, só não se atrase com o trabalho, precisamos disso para depois de amanhã – Bill falou, se encaminhando para a porta, mas parou e se virou – E Tom, cuidado com ela, por mais que pareça dócil, ela só está atrás de informações e quando tem mulher em jogo, você acaba se exibindo demais.
– Que eu saiba Bill, a única pessoa que age de forma estranha perto das mulheres é você, eu ajo naturalmente – ele falou de forma zombeteira, pegando uma mecha do meu cabelo e a balançando entre seus dedos – E Wilhelmine é dócil, você que não quer aceitar só porque ela é uma Humanoid.
Pela primeira vez, Bill estava lançando um olhar bravo para Tom e não para mim – já que eu era o ímã de olhares nada legais – e depois saiu. Tom estava do meu lado? Não acredito que ele me protegeu! Senti sua mão quente em meu ombro o que me fez voltar à realidade em que o cara, em questão, estava me xavecando.
– Preciso ir – eu disse rapidamente, ficando rubra – Obrigada por me proteger, você não tem ideia do quanto o seu irmão pode ser insuportável.
– Você vai atrás dele, não é? – ele disse, fingindo fazer uma cara triste.
– Vou, mas para na verdade torturá-lo – eu falei a verdade, afinal, era a coisa que eu mais queria fazer mesmo.
– Ei! – Tom me chamou, quando eu estava quase saindo da sua sala – Bill odeia ver pessoas chorando. Atue um pouco e você verá o quanto ele fica desesperado.
Eu pisquei várias vezes até entender o que Tom estava dizendo. Ele estava me entregando o ponto fraco do Bill de bandeja? Com certeza não, havia algo por detrás daquele sorriso que me deixava extremamente sem-graça. E eu sabia que podia tirar proveito daquilo, afinal, no mesmo momento que descobri a fraqueza de Bill, descobri a de Tom: mulheres.
Fale com o autor