Humanidade.

1 Manutenção.


Notas iniciais
Parabéns, pp!
(Não disse em qual dia de agosto era, não pode me culpar por deixar para o último)
Espero que goste!

Oliver andava alegremente de um canto ao outro da cozinha, passos rápidos e uma melodia alegre assobiada enquanto trabalhava. Ele raramente usava a cozinha e, em geral, as vezes que cozinhava eram por necessidade, não por prazer (com raras exceções), então havia um intervalo de meses ou mesmo anos nos quais a cozinha era inutilizada.

Seja como for, ele estava bem contente. Cozinha era divertido de certa forma, principalmente quando ele se lembrava do motivo de precisar de doces hoje.

Ezekiel, quando viu Oliver cantarolando na cozinha e sentiu o aroma enjoativo e doce tomar conta do ambiente, soube imediatamente que coisa boa não era. Ele sabia que aquele dia estava chegando. Que este dia estava chegando. Que este dia chegou.

Dia de manutenção.

Oliver havia avisado que estava próximo, mas passou tão rápido. O que era irônico, já que o tempo naquele mundo passava ridiculamente devagar. Talvez o tempo simplesmente o odiasse e por isso adiantou as coisas dessa vez...

Ezekiel detestava manutenção. Era um dia simplesmente horrível. Ponto.

"Manutenção" era o eufemismo de Oliver para "o dia no qual ele iria dilacerar todos os membros de Ezekiel para substitui-los ou limpá-los". E não, Ezekiel não estava sendo dramático (talvez estivesse um pouco, mas ele não via as coisas dessa forma). Já era a quarta vez que ele passaria por essa tortura e, com certeza, não seria mais agradável que as três anteriores.

Talvez fosse até pior.

Não pior por causa da dor, mas justamente pela falta dela.

Cada "manutenção" (tortura) doía menos que a anterior. Parece bom, não? Não. Nem um pouco. Pelo menos a dor era humana, era normal sentir dor quando se está sendo dilacerado vivo e se tem o corpo aberto e exposto sem perder a consciência. Dor era normal, humana, esperada. Não sentir dor era antinatural, aberrante, inumano.

Inumano.

Ezekiel ainda era humano, certo? Quer dizer... Ele nasceu humano, e isso não mudaria não importa o que acontecesse... Certo? Mesmo que sua pele fosse madeira, que seu sangue fosse melado, que seus órgãos não estivessem mais ali. Ele ainda era humano, não era?

Essa questão era perturbadora. Oliver não via Ezekiel como humano e ele sabia disso, Oliver o via como uma marionete, como a marionete dele. Ele também já fez Ezekiel repetir isso de novo e de novo a seu bel prazer, cada "eu sou uma marionete" proferido mexia mais e mais com a cabeça de Ezekiel. Às vezes, ele negava para si mesmo a veracidade da frase, a repetia mecanicamente apenas para cumprir a ordem, mas, outras vezes, ela parecia tão verdadeira. Ele era uma marionete. Essas vezes eram as piores de todas, era como se uma parte de si desistisse da própria humanidade.

Por sorte, Oliver não o forçava a dizer a maldita frase quando estava de bom humor, o que vinha acontecendo com bastante frequência.

O cantarolar feliz de Oliver na cozinha lembrou Ezekiel de que a hora estava chegando. O tempo, se esgotando.

Manutenção era horrível.

A primeira foi a mais desagradável de todas, a mais dolorosa, a mais suja e bagunçada. A mais humana. Oliver disse na época que aquela seria a mais fora do padrão, que as próximas seriam mais fáceis. Não que isso tivesse consolado Ezekiel na época ou o impedido de gritar até ser amordaçado.

Oliver não mentiu, as próximas foram menos dolorosas e Ezekiel já estava mais acostumado com o processo, mas isso não significava que era mais fácil. Não importava a dor ou se o processo era habitual, era sempre humilhante, desconfortável, vergonhoso, desagradável, ruim em geral.

A primeira vez, a mais bagunçada e fora do padrão, foi também a que marcou Ezekiel como o fim de... Algo. Apenas o fim. Além de ser sua primeira experiência com manutenção, foi quando ele descobriu que Oliver não havia acabado de "fazê-lo" ainda. Foi mais uma finalização que uma manutenção.

Quando Oliver "fez" Ezekiel, ele esfaqueou o garoto e o deixou morrer e apodrecer diante de seus olhos enquanto a mente, de alguma forma, continuava ali. Foi torturante, cruel e absurdamente lento. Ele substituiu sua pele por madeira macia, seu sangue por melado, seus cabelos por fibras sintéticas da exata cor natural. E foi isso.

Ezekiel não pensou na época nos detalhes, ele só sabia que foi transformado em marionete e isso por si só já era muito para assimilar.

Quando Oliver o amarrou a uma mesa, Ezekiel pensou que seria mais uma tortura, uma punição. Ele já havia recebido algumas pelas tentativas de fuga ou pelo que Oliver chamava de "má-educação" (Ezekiel não considerava gritar e xingar a pessoa que o matou como falta de educação, mas duas ou três visitas ao quarto de tortura o fizeram mudar de ideia bem rápido), então a única diferença aparente era Oliver prendê-lo deitado em uma mesa em vez de em pé contra uma parede.

Era uma grande diferença.

Oliver se pôs ao lado de Ezekiel e, exibindo um a um seus instrumentos de "restauração" (que eram absurdamente parecidos com os de tortura), explicou que o corpo de Ezekiel precisaria de manutenção de tempos e tempos. Então pegou um bisturi e, sem grandes cerimônias, fez quatro cortes grandes no tronco de Ezekiel, formando um quadrado perfeito, e o abriu como se fosse uma tampa. O pedaço de madeira saiu pingando um líquido viscoso cor de mel com traços de vermelho e de odor desagradável. Era uma mistura de doce enjoativo e decomposição.

Aliás, era exatamente isso.

Ezekiel nunca pensou em seus órgãos internos ou no que aconteceria com eles, já que seus pensamentos estavam mais focados na nova aparência e nas tentativas frustradas de fuga, mas, nesse momento, lembrou a existência deles. Oliver os deixou dentro dele e, obviamente, eles apodreceram. O melado doce até ajudou a conservá-los, mas meses se passaram e a decomposição era inevitável.

Oliver não pareceu minimamente perturbado pela visão de órgãos semi-aprodrecidos cobertos por melado, ele apenas sorriu e começou a retirá-los um por um, fazendo questão de conversar com Ezekiel durante todo o agoniante processo. Em certo momento ele amordaçou Ezekiel porque "era difícil manter uma conversa se ele não parasse de gritar". Ezekiel não sabia o que era pior, a dor de ter seus órgãos arrancados ou o sentimento de vazio quando acabou. Ele ficou oco, vazio, apenas isso.

Oliver o preencheu novamente depois, o que levou mais algumas boas horas, mas não era a mesma coisa. Os órgãos macios foram trocados por madeira maciça com vários pequenos sulcos que permitiam a passagem do "sangue" doce.

Era inumano.

Claro que era inumano.

Na prática, não havia diferença entre carregar dentro de si órgão não funcionais ou madeira maciça, Ezekiel não sentia nenhum dos dois, mas ver a troca sendo feita e saber que aconteceu era ruim por si só. Era outra parte de sua humanidade que foi arrancada.

A segunda manutenção foi mais rápida e menos suja. Não envolveu órgãos em decomposição sendo espalhados pelo chão ou uma poça de melado com traços de sangue encharcando a mesa.

Quer dizer, ainda havia uma poça de melado encharcando a mesa, mas sem os traços vermelhos de sangue. Oliver explicou que, na primeira vez, o sangue que sobrou dentro dos órgãos se misturou ao outro parecido com mel, mas que ele não precisava se preocupar porque não aconteceria de novo.

Ezekiel não se sentiu aliviado com a informação.

Sem os órgãos, a parte mais desagradável foram os nervos, com toda certeza. Afinal, Oliver foi "gentil" o bastante para manter a maior parte dos nervos de Ezekiel no corpo de madeira, mas eles ainda eram orgânicos, o que significa que Oliver abria cada membro de Ezekiel nas manutenções e verificava o estado deles, retirando os que dessem algum sinal de apodrecimento. Era um processo torturante porque, além de ter cada centímetro de seu corpo aberto, cortado ou cutucado, Oliver ainda tocava cada um de seus nervos expostos para checar a sensibilidade e remover os insensíveis.

Ele costumava manusear gentilmente os nervos, nenhum toque mais bruto que o necessário. Mas era Oliver, e Ezekiel nunca sabia quando a gentileza daria lugar ao sadismo. A tensão doía mais que o toque em si.

A terceira vez foi muito parecida com a segunda. O principal objeto de trabalho de Oliver eram os nervos e , ocasionalmente, uma ou outra parte da madeira que ele considerava inadequada, mas principalmente os nervos. Foi desconfortável e humilhante como de praxe, mas doeu menos que a anterior. Foi também a primeira vez que Ezekiel não foi amordaçado no meio do processo.

Esse foi um detalhe gritante, afinal, o processo era o mesmo e, mesmo que Oliver fosse cuidadoso ao manusear Ezekiel, era simplesmente impossível algo que o fazia gritar se tornasse, de repente, tolerável. Ezekiel conseguiu coragem para perguntar a Oliver o motivo e este, parecendo achar um excelente tópico de conversa, explicou que era impossível manter os nervos para sempre, porque eles eram orgânicos e se decompunham mesmo que o melado os conservasse um pouco.

Em resumo, todos desapareceriam eventualmente. Oliver tentava manter o que podia, mas nervos humanos e madeira simplesmente não eram uma boa combinação. Além do mais, mesmo os nervos não apodrecidos perdiam um pouco da sensibilidade no processo.

Ezekiel nunca achou que sentiria falta da dor.

Talvez pela sutileza da mudança, talvez por ele não prestar atenção nos detalhes, Ezekiel não tinha se tocado dessa mudança na sensibilidade até comparar as duas situações: ele gritando de dor amordaçado a uma mesa, ele desconfortável, mas perfeitamente capaz de manter uma conversa enquanto via seu corpo ser fatiado.

Aquilo não era normal.

Ou talvez fosse.

O que era normal quando se é uma marionete viva?

Mas ele não era uma marionete, era uma pessoa. Uma pessoa.

Ezekiel voltou à realidade quando Oliver apareceu com um sorriso e uma bandeja de bolinhos e disse que ele podia provar alguns antes "da hora", já que estava se comportando bem. Ezekiel não queria um bolinho, ele não aguentava sequer o pensamento de açúcar no momento, mas Oliver sequer o deixou responder antes de deixar a bandeja a seu lado e voltar à cozinha, sempre cantarolando uma melodia feliz.

Era quase patético, ele apenas ficava lá, sentado, esperando o destino, esperando a tortura.

Era patético.

Ezekiel apertou o próprio braço e sentiu a pressão do toque. Era uma sensação fraca, mas era dele. Ele não queria perdê-la.

Por que ficar sentado esperando Oliver acabar? Por que se submeter à manutenção? Ele podia apenas... Fugir. De novo.

Não... Fugir nunca dava certo. Ele sempre era trazido de volta a Oliver dentro de poucas horas no máximo. Fugir era uma má ideia.

Mas talvez ele pudesse se esconder? A mansão de Oliver era enorme, muitos quartos, a maioria desconhecida por Ezekiel mesmo que ele vivesse lá há muito tempo. Se Oliver não o encontrasse, não podia "consertá-lo", não podia arrancar seus últimos vestígios de humanidade.

E o que ele tinha a perder? Mesmo se Oliver decidisse torturá-lo, que tortura podia ser pior que a própria manutenção? Ele não achava que Oliver o mataria, então por que não arriscar?

Ezekiel pôs o plano em prática antes de pensar demais nele, assim como ele fazia tudo na vida. Simplesmente se levantou e foi discretamente até os confins da mansão, no quarto mais remoto que pôde encontrar.

No fundo, Ezekiel sabia que era uma tentativa vulgar, inútil, mas isso não quer dizer que ele não podia tentar.

*

Oliver sorriu satisfeito para si mesmo e contemplou a bancada da cozinha lotada de doces: cupcakes, biscoitos macios cobertos de geleia, brownies, um festival de açúcar. Depois de admirar sua obra de arte, ele foi atrás de Ezekiel para começar a manutenção. Oliver estaria mentindo se dissesse que não gostava do processo, mas achava desnecessário ter que repeti-lo com tanta frequência. Se Ezekiel não tivesse tantos componentes orgânicos, as manutenções poderiam ocorrer em um intervalo de anos, não de meses.

Bem, se sua marionete fazia tanta questão de manter as partes orgânicas, era um capricho que ele podia permitir. Ou ao menos fazer durar ao máximo. Afinal, ele não era uma marionete qualquer, era especial, então merecia tratamento especial.

Ezekiel não estava sentado à mesa e os bolinhos jaziam intocados, que desperdício. Oliver se sentou na cadeira que antes era de Ezekiel e, tranquilamente, pegou um bolinho e o saboreou. Estava delicioso. Ele caprichou nessa fornada, é uma pena que Ezekiel não estivesse no clima para apreciar esse fato.

Uma bandeja de bolinhos extremamente doces depois, Oliver cogitou que talvez Ezekiel não tivesse fugido. Afinal, nenhuma de suas fugas durava tanto tempo assim, então talvez ele finalmente aprendeu que não valia a pena tentar, que sair correndo em meio às árvores era um esforço inútil.

Entretanto, se Ezekiel não fugiu, ele ainda estava dentro de casa. Escondido. Quando a percepção atingiu Oliver, ele colocou a bandeja vazia sobre a pia e, desistindo de comer alguns dos biscoitos enquanto esperava, decidiu procurá-lo. Ele acreditava que mais cedo ou mais tarde o outro apareceria, era uma questão de tempo, mas tempo era algo que Oliver não queria arriscar. Afinal, quanto mais tempo Ezekiel passasse perambulando sozinho pelos quartos, maior a chance de achar o que não devia.

Não, era melhor Oliver procurá-lo.

E talvez puni-lo depois, mas era preciso encontrá-lo primeiro.

*

Ezekiel não tinha mais certeza de onde estava, mas também não se importava muito. Desde que estivesse longe de Oliver, estaria bem. A mansão não era tão grande assim, mas foi construída como um labirinto, vários corredores se conectavam a outros corredores que se conectavam a outros corredores que se conectavam aos mesmos corredores do começo. Era fácil andar em círculos. As portas eram todas parecidas.

Piorando a situação, Ezekiel se aventurou pelos corredores menos usados, os que nunca conheceu antes. Ele evitou todos os quartos conhecidos e passou direto pelo "quarto de tortura" sem se atrever a olhar para ele, imaginando que acabaria ali mais cedo ou mais tarde para pagar pelo pequeno atrevimento quando fosse pego.

Depois de tantas voltas, ele desistiu de tentar descobrir onde estava e decidiu entrar em qualquer porta. Para o azar dele, todos os quartos que abria estavam vazios, completamente vazios, apenas paredes, chão e teto, sem móveis, sem esconderijos, a maioria não tinha sequer janelas. Ele precisava de um quarto com móveis, com esconderijos.

Várias tentativas depois, algo estranho aconteceu. Ezekiel tentou abrir outra porta desconhecida, mas a maçaneta não girou. Estava trancada. Aquilo era estranho, depois de um corredor de quartos vazios, uma porta trancada não fazia sentido, não se encaixava.

Obviamente, um súbito desejo de abrir a porta se apoderou de Ezekiel. Era tentador demais para deixar passar. Ele nunca viu Oliver trancar nada, nenhum dos quartos, nenhum dos seus "estojos de facas" que ora eram instrumentos de tortura, ora de reparação e às vezes apenas utensílios de cozinha. Nem a porta da frente ele trancava, o que Ezekiel tomava como um convite para fugir nos primeiros meses que morava ali.

Então por que trancar um quarto?

E, mais importante, como Ezekiel podia abri-lo?

Ele sequer imaginava onde Oliver guardaria uma chave, afinal, nunca o viu trancando nada... E procurar numa casa daquele tamanho seria inútil, muitos possíveis lugares para checar e, se ele fizesse barulho, poderia ser pego por Oliver. Devia haver outro jeito.

E talvez houvesse.

Não era o melhor dos planos, mas podia funcionar.

Com isso em mente, Ezekiel se dirigiu a passos cautelosos pelo caminho que julgava o certo (ele tinha vindo dali, certo? Ou talvez fosse o outro corredor?) para voltar à sala de tortura. Por mais que aquele lugar fosse desagradável e que Ezekiel tivesse algumas lembranças bem ruins de lá, ele precisava de algo que sabia só encontrar nela.

*

Depois de algumas voltas, de se perder um pouco e de andar em círculos, Ezekiel achou a sala que queria. Ele nunca imaginou que um dia procuraria a sala que tanto o marcou, a que ele precisava ser literalmente arrastado nos primeiros meses por se recusar a entrar. Como o mundo dá voltas, não? Ou ao menos ele achava que dava, mas não tinha certeza. É difícil diferenciar dias e noites quando o movimento do sol é irregular e não se precisa dormir.

A porta estava aberta, então Ezekiel não precisou se preocupar com o barulho. apenas entrou devagar e andou diretamente até a "mesa de instrumentos" de Oliver. Ele conhecia cada um dos instrumentos bem mais do que gostaria, a maioria deles já passou diversas vezes por sua pele ou mesmo por seu interior, dependendo do humor de Oliver no momento. Sem pensar muito nas sensações desagradáveis que vieram à mente, Ezekiel agarrou a faca mais fina e afiada. Era pequena, mas fazia incisões muito precisas e, talvez, fosse fina o bastante para caber no buraco da fechadura e forçá-la. Ele já ia embora quando, pensando melhor, decidiu pegar também uma faca um pouco mais comprida e grossa, só para o caso de a outra ser fina demais para encaixar. Melhor prevenir que remediar, não? E ele não podia se arriscar a voltar ali sem necessidade.

Foi nessa hora que ouviu passos.

Passos lentos e ritmados subindo a escada. Oliver.

Ezekiel entrou em pânico, por que Oliver o estava procurando? Não era costume dele. Ele nunca foi atrás de Ezekiel antes, em nenhuma das inúmeras fugas anteriores, então por que procurá-lo agora? Ele agarrou as facas com força e se encolheu contra a parede, esperando que isso fosse o bastante para se esconder. Ele poderia se esconder debaixo da mesa de instrumentos, mas ela estava cheia de objetos metálicos e o menor esbarrão produziria ruído. Ele fechou os olhos com força e esperou.

Os passos se aproximaram, tranquilos e constantes como se Oliver não tivesse a menor pressa para encontrá-lo.

E se aproximaram, ressoando no corredor.

E passaram direto, como se Oliver sequer considerasse checar aquela sala.

Ezekiel não se sentiu aliviado até o som de passos deixar o corredor, o que pareceu demorar uma eternidade. Vários minutos de silêncio e ele tomou coragem para deixar a sala, os passos muito mais cautelosos que antes. Era como ser caçado em um labirinto e, é claro, Oliver tinha a vantagem de conhecer bem cada um dos corredores.

Falando em labirinto, de onde ele veio mesmo?

Ezekiel escolheu a direção que parecia a certa e, conforme a sensação de perigo passava, percebeu que ainda apertava as facas com força. Ao aliviar o aperto, viu que cortou a palma da mão com a faca mais afiada. Ele não sabia o que era mais frustrante, ter se cortado ou precisar ver o corte para saber que ele existia.

O corte não foi profundo o bastante para que seu "sangue" escorresse, mas ele achou melhor manter a mão junto às roupas para, caso alguma gota saísse, fosse absorvida pelo tecido. Tudo que ele não precisava era deixar uma trilha doce para Oliver seguir.

Como ele acharia a porta trancada quando todas as portas são parecidas?

Ezekiel se recriminou por não pensar nisso antes, por não marcar a porta ou o caminho ou algo assim. Bem, o jeito agora era tentativa e erro. Tentar abrir cada uma das portas fechadas até encontrar a certa.

E, é claro, não ser pego por Oliver no meio do processo.

Como ele acabou nessa situação mesmo?

Foi tenso. Passos cautelosos, girar maçanetas devagar, tomar cuidado para não tropeçar em nada ou derrubar as facas, o mínimo deslize produziria ruído e o delataria. Quando ouvia os passos de Oliver, mesmo que a distância, parava os seus completamente (e se escondia o melhor possível). Não importa o quanto você tente, não dá para andar sem fazer barulho, especialmente se o piso é de madeira. E, se ele podia ouvir Oliver, Oliver podia ouvi-lo. Tantas paradas tornaram encontrar a sala um processo muito mais lento que o da primeira vez. E muito mais assustador também.

Várias tentativas depois, Ezekiel milagrosamente acertou o caminho. A porta trancada. O mistério. Ele encaixou a menor faca e tentou girá-la, encontrando resistência. Tentou forçá-la mais e arranhou bastante a fechadura por dentro, mas não abriu. Ele tentou puxar a faca de volta e, quando ela não voltou, entrou em pânico com a possibilidade de a ter prendido lá. Puxou com mais força e conseguiu arrancá-la, mas cortou a ponta de um dos dedos no processo. Talvez escolher a faca mais afiada de todas tivesse sido um erro afinal...

Dando de ombros, ele inverteu e testou a faca mais grossa na fechadura. Ele teve que encaixá-la com cuidado para caber e, uma vez encaixada, tentou girar. Pareceu ter mais sucesso que a anterior, mas ainda não era o bastante. Ezekiel forçou a faca mais fina e afiada entre a porta e o batente e, enquando girava uma na fechadura, tentava forçar a outra. Várias tentativas depois, ele conseguiu. A porta foi forçada aberta.

Um alto som metálico indicou o destravamento forçado. Ezekiel sabia que não tinha chance de Oliver não ter ouvido aquilo e, num impulso, entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Com a tranca estragada, não havia sequer a chance de trancá-la por dentro e, mesmo se houvesse, Ezekiel não achava que conseguiria.

Era uma questão de tempo até ser encontrado, mas ele podia usar esse tempo para explorar. Oliver podia chegar a qualquer segundo, então Ezekiel largou as facas, já não se importando mais com o ruído, e se pôs a investigar seus arredores.

Afinal, se Oliver iria torturá-lo quando o encontrasse, ele tinha que fazer valer a pena.

A sala não era tão diferente das outras. Sem janelas, sem muitos móveis e absolutamente sem esconderijos, não que Ezekiel tivesse esperanças de se esconder a essa altura. As únicas coisas na sala que a diferenciavam das outras era um quadro com o lado da pintura encostado à parede e um baú grande em um dos cantos. Ezekiel foi até o baú apenas para encontrá-lo trancado por um elegante cadeado. Isso era muito estranho, muito suspeito. Um baú trancado num quarto trancado na casa de alguém que não tranca nem a porta da frente? Aí tinha coisa.

Ezekiel se voltou para o quadro antes de pensar no baú. Ele tinha que ser rápido. Entretanto, o pensamento sumiu de sua mente assim que ele virou o quadro para sua direção, ele ficou em choque. Para começar, o quadro era humano, quer dizer, veio do mundo humano, disso Ezekiel tinha certeza. A moldura, a tinta, a pintura... Eram coisas que ele nunca viu naquele mundo, eram coisas humanas.

E o quadro era de Oliver. Ou melhor, de um Oliver mais jovem ao lado de um homem e uma mulher, provavelmente seus pais, mas o que chocou Ezekiel era que o Oliver na pintura era inegavelmente humano. Pele branca e corada, com aquele aspecto saudável e, principalmente, vivo; um sorriso inocente nos lábios, realmente inocente, não o levemente sádico que ele conhecia; e ambos os olhos de um azul bonito e natural.

Ele parecia só mais um garotinho humano inocente. As roupas delatavam que a época era antiga, assim como o fato de ser uma pintura, não uma fotografia, mas ainda assim... Era humano. Era indiscutivelmente humano, e isso era confuso, frustrante, chocante e, de certa forma, enraivecedor. Ezekiel não sentia raiva há muito tempo, mas reconheceu o sentimento. Por que Oliver estava pintado como humano num quadro? Por que o escondeu? Por que o trancou? Por que o manteve? Por que a pessoa que parecia desprezar toda a humanidade em Ezekiel mantinha isso em um dos quartos?

Passos.

Passos ressoando pelo corredor, cada vez mais próximos. Mais próximos. Mais próximos. Ezekiel saiu do transe e pegou a faca mais fina do chão, ele precisava descobrir mais coisas antes de ser pego, ele precisava entender aquilo. Ele andou a passos rápidos até o baú, pouco se importando com o som dos próprios passos, e enfiou a faca no cadeado. Seja lá o que estivesse naquele baú, era importante.

A porta se abriu.

Ezekiel não deu a mínima e continuou tentando girar a faca, forçar aquele maldito cadeado que o separa de segredos e explicações. Os passos agora iam em sua direção, mas ele permaneceu forçando a faca, o gesto era inútil, mas ele tentaria até o fim.

Os passos cessaram, uma mão segurou seu ombro gentilmente enquanto a outra arrancou a pequena faca de sua mão.

"Você estragou minha fechadura... E não devia estar aqui" Oliver disse tranquilamente. Ezekiel, mesmo sem olhar para ele, podia ver o brilho vermelho com o canto do olho. Ele estava muito encrencado.

Ele estava muito encrencado, mas não conseguia se importar, não agora.

"O que é tudo isso?" Ezekiel fez um gesto indicando o quarto em geral e encarou Oliver sem medo, não se deixando intimidar.

"Nada que você precise saber" A resposta foi curta e ácida, e a mão de Oliver deixou seu ombro para se encaixar em sua cintura "Agora vamos voltar lá pra baixo, sim? Vou cozinhar mais um pouco e você pode esperar na sala" Não era uma sugestão.

Ezekiel não deu a mínima.

"Não"

"Você não pode fugir da manutenção pra sempre, sabe disso, não? E já nem deve doer tanto" Ele o segurou um pouco mais forte e tentou guiá-lo até a porta. Ezekiel bateu o pé e permaneceu firme.

"Eu não estou fugindo da manutenção, eu quero saber que quarto é esse e por que você deixou trancado" Ele tentou se esquivar do abraço de Oliver e, surpreendentemente, Oliver permitiu.

Ou ao menos Ezekiel pensou que Oliver permitiu, mas ele apenas o largou para recolher a faca maior, ainda caída no chão. Agora Oliver estava em posse das duas facas e Ezekiel sabia que essa visão seria o bastante para calá-lo em qualquer outra dia, mas não hoje. Hoje ele queria respostas. Queria saber quanta hipocrisia havia no desdém de Oliver à humanidade.

"Eu vou pra onde você quiser depois que me responder, mas não saio daqui antes disso" Ele cruzou os braços. Oliver o observava com curiosidade e seus olhos passaram de Ezekiel às facas em suas mãos. "Vá em frente, me corte, me fatie, me arraste para o quarto de tortura, me acorrente à parede, arranque meus membros, meus olhos, meus nervos, faça o que quiser. Eu quero essa resposta" Ezekiel falava com muito mais convicção do que realmente sentia.

Oliver subitamente perdeu o interesse nas facas e voltou toda a atenção a Ezekiel, que pensou ter visto uma ponta de tristeza em seu olhar, mas uma ponta de orgulho em seu sorriso. Oliver era estranho, mas isso não vinha ao caso agora.

"Então?" Ezekiel pressionou enquanto ainda tinha coragem para tal.

Oliver o estudou por alguns segundos, o olho vermelho estranhamente opaco, sem o brilho afiado, e o sorriso discreto, quase inexistente, dava espaço a uma feição mais triste. Era uma expressão que Ezekiel nunca viu antes.

"Vamos para a sala" Antes que Ezekiel protestasse, ele o segurou pela mão e completou: "Eu vou te explicar, mas não aqui. Vamos"

Ezekiel sabia que alegou 'não sair dali até ter uma resposta', mas se deixou ser guiado sem resistência. Uma promessa de resposta já era mais do que ele esperava conseguir, e não havia sentido em resistir a uma proposta razoável, especialmente considerando que Oliver raramente era razoável. Além do mais, não seria a primeira vez que ele não cumpre algo que afirmou mesmo.

*

Oliver passou o caminho todo estranhamente quieto e Ezekiel não sabia ao certo como se sentir. Oliver raramente calava a boca e, quando fazia, em geral era sinal que a tortura ia ficar um pouco mais dolorosa. Essa era a primeira vez que Ezekiel o via realmente pensativo. A primeira vez que ele tinha que lidar com uma situação dessas. A primeira vez que ele sentia ter algum controle (o que era irônico com Oliver o guiando pela mão como sempre, mas ele estava contente por ter alguém que mostrasse o caminho. Ele não precisava se perder pela milésima vez hoje).

Quando chegaram à sala, Oliver se sentou em uma das confortáveis poltronas e Ezekiel ocupou a que ficava logo em frente. Uma boa posição para discutir. Frente a frente. Quase como iguais.

Ezekiel o encarou e Oliver retribuiu o olhar desafiador, mas nenhum deles disse uma palavra.

"Então?" Ezekiel provocou.

"...O que quer saber?" Oliver pareceu pesar bem as palavras antes de proferi-las.

"De onde veio aquele quadro?" Ezekiel escolheu uma das inúmeras perguntas que rondavam sua mente.

"Do mundo humano" Oliver não via sentido em negar o óbvio.

Mais silêncio. Ezekiel percebeu que Oliver não iria elaborar a resposta, apenas dizer o mínimo para o que foi perguntado. Nenhum deles quebrou o contato visual.

"E por que estava trancado num quarto?"

"Eu não queria queimar, mas não queria ter por perto também, então tranquei" Ezekiel já estava se frustrando com as respostas objetivas demais e Oliver sorriu provocador, mesmo no meio da discussão.

"Por que você está na pintura? Daquele jeito?" Ezekiel fez a pergunta que mais o incomodava (ou a segunda... "O que tem no baú" ganhava como primeira). Oliver levou alguns segundos para responder.

"É uma longa história..." Antes que Ezekiel pudesse reclamar da resposta evasiva, ele prosseguiu: "Eu era humano".

E, para uma longa história, Oliver a resumiu bem em três palavras.

*

"Você o quê?!" Ezekiel não acreditava no que ouviu.

"Eu era humano" Oliver repetiu, uma expressão amarga, como se as palavras em si tivessem gosto ruim. "Mas isso foi há muito tempo"

Ezekiel observou atentamente Oliver, tentou imaginar uma versão humana dele. Pele macia e rosada, não dura e de madeira; olhos azuis comuns, em vez de duas cores contrastantes e brilhantes; talvez mais inocência e menos... Sadismo? Crueldade? Inconstância? Era difícil achar uma palavra para descrever Oliver. Era difícil imaginar uma versão de Oliver que não fosse a que estava sentada a sua frente.

"E o que aconteceu?"

"Ah, eu morri, voltei e era eu" Oliver deu de ombros "Eu não tenho certeza realmente. Não me lembro de muita coisa."

"Então você morreu como humano e voltou como marionete?" Ezekiel repetiu confuso "Isso não faz sentido".

"Tem razão, não faz" O sorriso doce de Oliver voltou "Pronto para a manutenção agora?"

Ezekiel não caiu nessa.

"Não até você me explicar essa história direito"

Oliver sorriu e se aproximou, levantando-se da poltrona e tocando gentilmente a bochecha de Ezekiel. O sorriso era predatório e a posição o permitia olhar Ezekiel de cima.

"Sabe, quando você fala assim, até parece que tem alguma escolha" Comentou divertido "Vamos fazer assim: eu te conto essa história chata e antiga durante a manutenção, parece bom pra você?"

Ezekiel sabia que a pergunta era praticamente retórica, ou ao menos achava que sabia. Era difícil dizer quando Oliver iria ignorar completamente sua resposta, quando iria levá-la em consideração e quando iria puni-lo por ela.

"Claro"

De qualquer forma, ele deu a resposta certa. Era um acordo justo, já que Oliver faria a manutenção de qualquer jeito, então por que não tirar algum proveito disso?

"Excelente! Vamos então?" Oliver foi em direção à mesa que usava para a ocasião e Ezekiel o seguiu. O humor de Oliver era realmente estranho... Ezekiel não sabia como algo podia variar tanto em tão pouco tempo, mas ao menos ele parecia mais alegre agora, o que significava que ou a manutenção seria tranquila e até gentil ou coisas horríveis e dolorosas aconteceriam.

Qual dos dois extremos ele teria que aguentar?

Uma vez deitado na superfície de madeira, porque era sempre madeira, Ezekiel observou Oliver arrumar diante de si vários instrumentos como lâminas variadas, pinças, frascos com substâncias viscosas ou líquidas. Normal. Oliver sorriu enquanto exibia uma faca fina como um bisturi e muito brilhante, era a sua favorita para incisões.

"Pode estender o braço pra mim?" Os olhos de Oliver brilhavam, Ezekiel fez como foi dito e logo viu o corte uniforme que ia de seu antebraço à palma de sua mão. O desconforto o fez contrair os dedos da mão enquanto a faca deslizava por seu braço, mas os relaxou assim que a lâmina se foi. Logo seu sangue âmbar escorreu lentamente pelo corte.

"Você disse que ia contar a história" Ezekiel o lembrou enquanto Oliver pegava uma fina pinça prateada.

"Tudo bem..." Oliver não estava nem um pouco ansioso por essa parte "Tudo começou há muito tempo. Não sei bem como os humanos chamam, mas foi bem antes do Halloween ser um feriado popular. Quando eu era menor, praticantes de paganismo iam para a fogueira, e o Dia das Bruxas é pagão..."

Ele encontrou e puxou um dos nervos de Ezekiel, a dor do contato direto o fez gemer de agonia e um leve sorriso voltou ao rosto de Oliver. Ele largou o nervo e, o deixando no lugar, buscou outro.

"Meu 'pai' " O termo parecia estranho na boca de Oliver, e ele mesmo franziu o cenho ao dizê-lo "morreu, ele ficou doente, fraco, não conseguia sair da cama e tossia tanto que uma hora começou a cuspir sangue. Minha mãe sabia que ele não ia viver, mas tentou cuidar dele mesmo assim. Ela ficou ao lado dele e rezou dia e noite, mas ele morreu" Ele não parecia triste ou feliz com a frase, era totalmente indiferente, apenas constatando um fato.

Oliver terminou de cutucar e puxar os nervos no primeiro corte e abriu mais um em outro ponto do braço de Ezekiel. O sangue ainda escorria, mas ele não pareceu se importar muito. Ezekiel percebeu vários nervos escuros e semiapodrecidos empilhados ao lado dos instrumentos de Oliver, alguns ele sentiu o puxão como um toque leve e alguns ele sequer percebeu que foram arrancados.

A pinça voltou a pressionar e puxar nervos enquanto Oliver falava. O processo em si era monótono, mas necessário.

"Minha mãe teve que nos sustentar. Uma viúva não podia casar de novo e uma mulher quase não podia trabalhar e, quando trabalhava, era mal vista e não ganhava o bastante. Ela realmente tentou, mas não havia comida o bastante, o inverno era muito frio e a vida era quase insustentável"

"Com o que ela trabalhava?" Ezekiel o interrompeu por curiosidade. Oliver não pareceu se importar com a interrupção e sorriu enquanto seus olhos brilhavam.

"Marionetes" Ele parou seu trabalho para olhar Ezekiel nos olhos "Acho que é de família. Ela fazia marionetes, bonecos e miniaturas, tudo em madeira. Ela fazia cavalinhos de madeira que balançavam, bonecas e bonecos pintados a mão, pequenas esculturas e entalhava praticamente qualquer item decorativo. Mas a paixão dela eram as marionetes."

"Deve ter sido uma mulher incrível" Ezekiel imaginou uma artesã talentosa marginalizada e lutando para sustentar a família. Será que ela era tão boa quanto Oliver?

"Não o bastante" Oliver afirmou e apertou um dos nervos bons de Ezekiel com mais força que o necessário, fazendo-o retrair o braço por instinto. Oliver segurou seu braço no lugar e continuou a história. "Ela ficava cada vez mais magra e mais fraca por me dar a maior parte da comida, e não era tanta comida assim, então eu também não estava muito melhor. Eu fiquei mais fraco e, um dia, fiquei doente. Minha garganta doía tanto que eu não podia falar, eu queimava em febre e minha pele ficou cheia de manchas vermelhas e dolorosas. Minha mãe passou alguns dias sem trabalhar para cuidar de mim. Ela tentava me dar água e comida, mas minha garganta doía e fechava e eu só queria dormir. Ela rezou ao meu lado na cama todo dia e toda noite. Um dia eu morri" Ezekiel não soube dizer o que Oliver sentia ao contar essa parte, mas achou melhor ficar calado.

Oliver usou a substância viscosa de um dos potes para fechar os cortes no braço de Ezekiel e analisou também o pequeno corte na palma de sua mão.

"Como conseguiu esse?" Indagou curioso.

"Me cortei quando peguei as facas para abrir a porta" Admitiu. Sinceramente, ele nem se lembrava desse corte, parecia feito há tanto tempo...

Ezekiel jogou um pouco da substância reparadora nele também.

"Tente segurar as facas pelo cabo, não pela lâmina" Sorriu irônico. Após alguns segundos, pegou uma lixa pequena, parecida com uma lixa de unha, e retirou o excesso da substância endurecida, aproveitando para polir a madeira. "O resto da história foi contada pela minha mãe e por um amigo estranho dela. Eu não me lembro muito do que aconteceu depois, até porque eu estava morto por uma parte considerável dessa história"

"Tudo bem" Ezekiel disse apenas por sentir que precisava dizer algo.

"O outro braço" Oliver andou até o lado oposto da mesa para repetir o processo tedioso. Ezekiel o estendeu de bom grado, ansioso pela continuação da narrativa.

Outro corte linear, mais movimentos constantes da pinça.

"Depois que eu morri, minha mãe ficou sozinha. Acho que foi demais pra ela..." Oliver não parecia empático, apenas neutro, indiferente "Como rezar dia e noite não adiantou, ela rejeitou Deus, a Igreja, a religião e decidiu apelar para algo menos... Ortodoxo. Ela vendeu a alma para um demônio." Mais alguns nervos arrancados ou deixados em paz. Ezekiel quase não se importava com a ardência ocasional quando um ponto sensível era atingido, muito focado na história que Oliver contava de modo tão analítico.

"Essa parte quem me contou foi o novo amigo estranho dela. Ela o conheceu depois que eu morri, não me lembro dele antes... Ela fez um acordo com ele. Minha vida pela alma dela. Não sei se foi um acordo inteligente, mas ela aceitou... Acho que ela queria ter algo para se agarrar, para não ficar sozinha. Eu não entendia na época, mas acho que entendo agora" Um nervo arrancado com violência, Ezekiel estremeceu pela ação súbita.

"Eu já tinha morrido há alguns dias quando ela fez o acordo, então o novo amigo dela disse que não tinha jeito de me fazer voltar naquele corpo, mas ele podia pôr minha alma em outro idêntico. Minha mãe passou um mês fazendo uma marionete perfeita... Me fazendo. Tamanho perfeito, feições perfeitas, proporção perfeita, só os melhores materiais. Ela passou tanto tempo obcecada nesse projeto que deixou os trabalhos remunerados de lado. Ela esquecia de comer e dormir só para me fazer. Meio patético na verdade..." Cortes fechados, lixados e polidos.

"Pode tirar a camisa? Acabei com os braços, agora o tórax" Oliver o encarou com seus olhos muito brilhantes e Ezekiel, hesitante, se sentou na mesa e tirou a camisa. Era a primeira vez que Oliver o pedia para tirar em vez de fazê-lo ele mesmo ou apenas cortar fora o tecido, então Ezekiel a segurou incerto do que fazer em seguida, até que Oliver a pegou de suas mãos e a dobrou caprichosamente, deixando-a de lado logo em seguida.

"Pode deitar" Sorriu e segurou a faca rente ao peito de Ezekiel, bem no centro. "Como eu estava dizendo, minha mãe passou um mês esquecendo de cuidar de si mesma para construir a marionete perfeita. Quando terminou, a levou até seu novo amigo e ele forçou a alma do filho dela a entrar nesse novo corpo." Três cortes profundos perfeitamente paralelos uns aos outros. O trabalho com a pinça ainda era minucioso. "Mas, como eu te disse uma vez, almas são teimosas... Principalmente almas inteiras. Mesmo que o corpo fosse praticamente idêntico ao original, não era humano, não era natural. Então ele precisou... Forçar um pouco a alma, por assim dizer" Oliver fez uma pausa para lamber os dedos encharcados com o sangue alheio. Doce e delicioso.

"Como ele... 'forçou' a alma?" Ezekiel manteve o olhar fixo no teto. Era sempre desconfortável ver o sorriso de Oliver e seus olhos brilhantes enquanto ele provava seu sangue.

"Do mesmo modo que se anima uma marionete. Rasgando. Claro que, para as marionetes, eu rasgava em tiras. Ele só partiu ao meio e a forçou no corpo enquanto estava fraca demais para resistir. Bem menos estrago" Ele reparou os cortes novamente. A lixa fazia um som constante enquanto desgastava a madeira. O movimento de vai-vém e o som de madeira lixada preencheram o espaço por algum tempo, até que Oliver decidiu continuar.

"Mas meia alma não é o bastante para animar um corpo, e foi tudo que ele conseguiu prender no corpo falso. Ele resolveu o problema cedendo um pouco do próprio espírito demoníaco e o costurando junto à metade da alma. Foi um processo difícil, mas o resultado era equivalente a uma alma inteira, então o corpo foi animado. Então eu abri meus olhos pela primeira vez naquele mundo deplorável" Oliver encarou Ezekiel intensamente e sorriu. "Minha primeira visão do mundo foi uma mulher estranha chorando e me abraçando, um homem estranho sorrindo encostado num canto e um galpão antigo e sujo que minha mãe usava para guardar materiais e obras inacabadas. Não foi um nascimento glamuroso, mas eu estava confuso demais para me importar na época." Ele terminou de lixar e polir "Pode virar de costas?"

"Claro" Ezekiel se deitou de bruços, as costas nuas expostas e o olhar voltado para o chão. Era estranho estar assim tão vulnerável a Oliver, mas não ruim. Pelo menos seria mais rápido sem a complicação de correntes e mordaças.

"Ótimo" E o tedioso processo de cortar, testar e arrancar continuou. "Eu não me lembrava de praticamente nada. Uma alma mutilada e um espírito demoníaco não são exatamente uma boa combinação, e levou um bom tempo para aceitarem que estavam presos juntos. Até lá, era uma guerra interna constante e uma confusão de pensamentos. Minha mãe ficou... Triste, eu acho, talvez agoniada, mas o amigo dela pareceu achar bem divertido" Ezekiel percebeu que Oliver não disse como ele próprio se sentia, mas ficou calado. "Eu passei a viver escondido. Nunca saía de casa. Não podia falar com ninguém. Minha mãe era muito paranoica com isso, até trancava as janelas com tábuas. Eu não entendia bem o motivo, mas eu não entendia muita coisa."

"Um dia, quando eu já tinha consciência o bastante para me sentir preso, eu quis sair. Não sei de onde veio a ideia, mas eu me sentia queimando de raiva por ter tantas regras e restrições. Então eu saí"

O som de madeira cortada e polida reinou por vários minutos.

E reinou.

E reinou.

"O que aconteceu depois?" Ezekiel não conseguiu se segurar. Oliver sorriu.

"Queimaram minha mãe como bruxa" Disse simplesmente. "Se importa de tirar a calça agora?"

Ezekiel não sabia dizer qual frase o deixou mais sem reação.

A mãe de Oliver foi queimada viva. E ele dizia isso com muita naturalidade.

A hora mais vergonhosa da manutenção chegou e, dessa vez, não havia correntes ou cordas que o imobilizassem. Ele teria que se expôr, não ser exposto como nas outras vezes.

Pode chamá-lo de egoísta se quiser, mas a segunda parte o incomodava bem mais.

"Vamos, não é tão difícil" Oliver o encorajou quando ele hesitou.

Ezekiel não se sentiu muito encorajado, e o olhar voraz de Olive não ajudava nem um pouco.

Lentamente, ele se levantou e levou as mãos ao cós da calça. Desviando o olhar, a abaixou à altura dos tornozelos e, depois de tirá-la, entregou a Oliver, que a dobrou juntamente com a camisa. Ezekiel fez questão de evitar contato visual a todo custo e, por instinto, usou as mãos para se cobrir quando voltou a deitar.

Oliver riu.

"Eu sei que já tivemos essa conversa, mas eu já vi e toquei cada centímetro do seu corpo. Eu mesmo o fiz" Ele segurou o queixo de Ezekiel e o virou para si, Ezekiel se viu encarando seus olhos brilhantes e seu sorriso de certa forma divertido. "Por que a vergonha?"

Em vez de responder, Ezekiel levou as mãos para o lado do corpo e desviou o olhar novamente. Não importa quantas vezes passasse por aquilo, ainda era desconfortável e embaraçoso. Oliver não o forçou a responder, apenas sorriu de um modo mais amável e se inclinou para beijá-lo na bocheca antes de continuar seu trabalho.

"Certo... Eu fui dar uma volta, me viram, bonecos de madeira vivos eram considerados coisa demoníaca, o que, pensando agora, não era exatamente errado, minha mãe tentou impedir que me quebrassem e foi acusada de bruxaria. Não sei se ela queria me proteger ou só evitar que estragassem seu melhor trabalho... Tantos traumas seguidos mais essa história de vender a alma não fizeram bem a ela, ela não era mais tão... Sã. Era como se algo tivesse quebrado. Ela ainda cuidava de mim, mas faltava algo. Talvez faltasse isso em mim também"

Cortes, nervos arrancados, sangue doce escorrendo. Ezekiel tentou se focar na história e esquecer a posição constrangedora na qual se encontrava. Totalmente à mercê de Oliver. Vulnerável. Exposto.

"Eu fugi e me escondi, a execução dela foi marcada, a queimaram ao meio dia, sol a pino. Uma grande fogueira, pessoas comemorando com olhares sádicos ou temerosos, gritos de dor e agonia que logo viraram cinzas. Morte normal de bruxa. Eu consegui ver o brilho da fogueira pelas frestas das janelas, a execução foi bem perto da casa, e ouvi os gritos dela até pararem."

O som constante e repetitivo da lixa indicava um corte reparado e quase finalizado, mas vários outros ainda estavam a ser feitos. O processo era longo e maçante.

"Acho que eu devia ter ficado triste... Talvez eu tenha em algum ponto, mas foi vencido pela raiva. Muita raiva. Eu queimava mais de raiva do que queimei de febre antes de morrer. O amigo estranho da minha mãe apareceu nessa hora e pôs a mão no meu ombro. Eu não o vi entrar, mas não acho que ele precise usar uma porta mesmo... Ele se esgueirou comigo à noite para ver o que sobrou da fogueira. Toda a madeira queimada, cinzas e restos carbonizados. Senti toda aquela queimação da raiva se concentrar em um único lugar" Ele sorriu de canto e fez um gesto vago em direção a seu olho vermelho, que, assim como o outro, se concentrava nos cortes meticulosos, na pinça e na lixa. "Meu olho esquerdo brilhava com força. Ele nunca tinha feito isso antes... Eu estava furioso, mas muito calmo.

"Os olhos do homem também brilhavam, ambos de um vermelho vivo como sangue fresco. Diferente do meu, o olhar dele não parecia irritado, parecia entretido. Ele sorriu para mim de um modo estranho, era provocador, mas meio paterno. Ele me perguntou o que eu ia fazer, como vingaria a morte da minha mãe" A pilha de nervos necrosados aumentava. "Então eu queimei aquela maldita vila inteira"

"Você o quê?" Ezekiel não sabia até que ponto ficava chocado. Por um lado, ele conseguia imaginar muito bem Oliver ateando fogo a uma cidade inteira, por outro, queria ter certeza. Oliver matou pessoas inocentes por uma vingança?

...De novo, parecia sim algo que ele faria.

"Eu queimei tudo. A igreja, as casas, as barracas da feira, tudinho. A cidade ficou vermelha e laranja, puro fogo, incandescente. Todos arderam com as chamas. Uma vila feita basicamente de madeira e palha ajudou bastante meu serviço. Eu me afastei de lá e admirei enquanto todos ardiam. O amigo da minha mãe apareceu de novo e me parabenizou pelo bom trabalho, os olhos vermelhos e o sorriso afiado como sempre. Eu me senti bem com o elogio" Oliver parecia ter boas memórias dele considerando tudo. "Ele me mandou correr na direção da floresta, me deu um tapinha nas costas e desapareceu.Foi a última vez que nos vimos"

"E depois?"

"Ah... Nada demais. Acho que era 31 de outubro. Difícil dizer quando não se comemorava o Halloween... Corri através da neblina densa e acabei aqui. Uma marionete viva não chama tanta atenção num mundo cheio de criaturas diversas. As que decidiram entrar no meu caminho, bem, digamos que ensinei boas maneiras a elas. Depois disso raramente mexiam comigo. Com o tempo, construí essa casa, mobilhei, fiz marionetes... Me mantive entretido. Um dia conheci você e estamos aqui agora"

Ezekiel não comentou que Oliver omitiu a parte de o prender, matar e torturar. "Conheci você" não parecia a descrição mais acurada do que aconteceu, mas Ezekiel percebeu que não se importava muito mais. Ele conheceu Oliver, fim. Parecia um modo tão bom quanto qualquer outro de dizer o que aconteceu.

Alguns minutos em silêncio e Ezekiel ficou entediado. A história não foi longa o bastante para durar por todo o processo de manutenção.

"Está acabando?"

"Quase" Oliver sequer desviou o olhar de seu trabalho "Se você não fizesse questão de manter os nervos, não teríamos que fazer tanta manutenção" Provocou. Ezekiel ficou calado. "Mas tudo bem. De um jeito ou de outro, está acabando. Acho que a próxima manutenção vai ser a última com esse detalhe. Não sobraram muitos nervos e duvido que durem muito mais"

Essa informação foi preocupante, por mais que o tom de voz de Oliver sugerisse que ele comentou como algo positivo. Ezekiel apertou os dedos contra a palma da mão e sentiu a pressão. Leve, mas ali. Dele.

"E se eu disser que não quero fazer a próxima manutenção?"

Oliver olhou para ele e sorriu tranquilamente.

"Eu diria que tudo bem, se é o que prefere".

...Aquilo parecia bom demais para ser verdade.

"Sério?"

"Claro. Então eu esperaria. E esperaria. E esperaria. Tempo não é problema, sabe? Seus nervos eventualmente apodreceriam e ficariam completamente insensíveis, como se nem estivessem ali. Então a madeira começaria a apodrecer de dentro para fora, um processo muito lento, mas constante. Uma hora ou outra, você iria implorar por uma manutenção e então passaríamos muito, muito, muito tempo arrumando a bagunça que você deixou acontecer. Várias peças teriam que ser substituídas em vez de apenas limpas e isso daria muito mais trabalho, mas eu faria. E você passaria muitos dias em cima daquela mesa sem se mover" O sorriso de Oliver se alargava a cada descrição. "Por que a pergunta, não quer fazer a próxima manutenção?"

"...Só curiosidade" Ezekiel baixou o olhar, desanimado. Logo ele não teria nenhuma sensibilidade restante. Nada. E, aparentemente, não havia o que fazer quanto a isso.

"Prontinho" Oliver terminou de reparar o último corte e, com um pano, limpou o sangue doce que se espalhou sobre a pele de Ezekiel. "Já pode se levantar e se vestir" Sorriu e o entregou as roupas perfeitamente dobradas. "Eu vou me livrar dos nervos inúteis, mas te encontro na cozinha, certo? Então podemos comer juntos" Completou amável.

Ezekiel sabia que não era um convite ou uma sugestão. Comer depois da manutenção era obrigatório.

"Claro"

*

Oliver serviu alegremente toda uma miscelânea de doces na mesa. Bandejas de bolinhos, biscoitos doces, bolachas, cookies, tortas, geleias, bolos, cupcakes, cremes doces. Havia açúcar em todas as formas e para todos os gostos.

"Eu devia te dar uma tigela de xarope pela sua fuga mais cedo" Oliver comentou, fazendo referência a uma de suas 'punições', e pegou um bolinho. "Mas você tem se comportado bem, então acho que podemos ignorar isso dessa vez." Sorriu e lambeu a cobertura muito açucarada antes de morder a sobremesa.

Ezekiel analisou as opções que tinha e, no fim, se decidiu por uma das bolachas cobertas de açúcar. Depois de mordê-la, resolveu acrescentar geleia no topo. Muito melhor. E estava deliciosa.

Oliver pareceu satisfeito em vê-lo comer.

"Bom, não é?" Comentou enquanto devorava um pedaço da torta bem recheada.

"É sim" Ezekiel concordou com sinceridade "Você cozinha bem".

Silêncio.

Oliver o encarou com surpresa no olhar e Ezekiel percebeu que essa foi a primeira vez que ele o elogiou.

"Obrigado" Disse por fim, mesmo que a palavra soasse estranha em sua boca "Bom saber que você gosta".

"Gosto sim" E era verdade. No começo, Ezekiel achava tudo que Oliver fazia absurdamente doce, enjoativo e exagerado, mas em algum ponto isso se tornou apenas... Normal. Bom até. Oliver já não precisava mais forçá-lo a comer e ele já não sentia ânsia de vômito após ingerir todo aquele açúcar. Ele nem se lembrava da sensação de vomitar.

Uma colherada a mais de bolo, um pedaço de torta, um pote de geleia com creme, biscoitos enfiados na fatia de torta e cobertos com geleia e creme. Oliver não o censurava por nenhuma das combinações estranhas ou pela quantidade que comia. Pelo contrário, parecia apreciar bastante o momento.

O que parecia um banquete foi devorado por apenas eles dois. Ezekiel não sabia quanto tempo passaram ali, minutos ou horas, mas ele não se importava muito. Eles já estavam nos últimos biscoitos e nas fatias finais de torta e bolo quando Oliver comentou casualmente:

"Sabe, se o problema é perder a sensibilidade, existe sim um modo de te manter com nervos pelo tempo que você quiser" Sorriu e devorou um cookie como se a afirmação não fosse nada demais. "É bem simples até".

Ezekiel o encarou com um misto de esperança e medo. Oliver estava oferecendo uma solução para uma questão que o consumia... Mas, no fundo, Ezekiel sabia que coisa boa não era.

Afinal, o olho vermelho de Oliver brilhava provocativo.

"E qual seria?" Indagou cauteloso.

Oliver sorriu.

Notas finais
Como eu abandonei o perfil, prefiro postar one-shots. Completas, sem compromisso.
Mas dessa vez não deu, então um dia eu posto o final.

:)