Humanidade.
2 Desfecho
Notas iniciais
Oliver sorriu.
"Só precisamos de nervos frescos." Explicou "Eu posso colocá-los em você e sua sensibilidade vai ser como a de um ser humano. Seria trabalhoso, mas não complicado."
Nervos frescos? Ezekiel hesitou. Parecia simples demais, se era assim tão fácil, por que Oliver nunca sugeriu antes? E onde ele... Oh.
"Onde você conseguiria nervos?" Ezekiel vocalizou a pergunta, mesmo já tendo um bom palpite de qual seria a resposta, na vã esperança de estar errado.
"Em um ser humano, é claro" Oliver explicou com naturalidade. "Apenas um deve bastar, se eu retirar os nervos com cuidado, os danos serão mínimos"
Os danos serão mínimos aos nervos, Ezekiel completou mentalmente.
"Mas... E a pessoa?"
"A pessoa?" Oliver ponderou por um instante, como se só agora pensasse nesse detalhe "Bem, morreria eu acho. Eu poderia transformá-la em marionete, mas não vejo um motivo. Afinal, já tenho a única marionete que preciso" Sorriu e olhou intensamente para Ezekiel.
Se não fosse tão perturbador, seria fofo.
"Nós a mataríamos?" Ezekiel sabia a resposta.
"Eu a mataria" Oliver o tranquilizou. "E nós só vamos ao mundo humano uma vez por ano, é impossível alguém descobrir. E, mesmo se descobrissem, o que a polícia faria?" Ele sorriu sádico ao imaginar policiais o seguindo até sua casa, seu domínio, para prendê-lo. Eles não teriam a sorte de virar marionetes.
Ezekiel ficou quieto. Oliver estava mesmo propondo sequestrar e assassinar alguém apenas para que ele pudesse sentir?
"Então, o que acha?" Oliver sorriu amável.
Uma parte de Ezekiel queria exclamar "não!" assim que a pergunta foi feita. Matar alguém? Por causa dele? Para ele sentir? Uma vida inteira em troca de uma sensação? Claro que não. Era injusto. Era errado.
A outra parte dele apertou os dedos com força contra a palma da mão e não sentiu quase nada.
Logo o quase nada se tornaria nada.
Nada.
Não sentir.
Inumano.
"Não precisa responder agora" Oliver o confortou "Pode pensar, afinal, temos bastante tempo até o próximo Halloween. Enfim, me ajuda com a louça?"
"...Claro" Ezekiel concordou surpreso, era a primeira vez que Oliver dividiria uma das tarefas da casa com ele. Em geral, Oliver fazia tudo sozinho, de cozinhar a limpar, e Ezekiel apenas ficava em um canto esperando ele acabar (ou, mais no passado, tentava fugir, o que resultava em tortura e punição).
Ezekiel nunca gostou de lavar a louça. Quando era humano, era sua tarefa mais detestada, afinal, era maçante, longa e repetitiva. Mas ele nem se lembrava da última vez que fez algo útil. Incrível como o tempo pode mudar opiniões.
No fundo, havia a suspeita de que Oliver planejou aquilo para influenciar sua decisão. Ele não conseguia sentir a água escorrendo por seus dedos ou sua temperatura. A própria sensação de "molhado" estava... Abstrata. Perdida.
Mesmo assim, foi agradável limpar cada prato e xícara de porcelana um a um. O sentimento de dever cumprido era algo que Ezekiel não tinha há muito tempo. Na verdade, ele não se lembrava se já o teve antes ou não... Era cada vez mais difícil recordar detalhes de antes de conhecer Oliver.
Ezekiel não sabia onde Oliver conseguiu os utensílios de cozinha, mas eram bonitos. Garfos, facas e colheres de prata; xícaras e pratos de porcelana; taças e copos de cristal. Pareciam antigos, imponentes, hipnotizantes. Era bom vê-los limpos e organizados.
Prata devia ser fria ao toque, como todo metal.
Porcelana devia ser lisa e frágil ao toque, dar aquela apreensão de quebrá-la com qualquer movimento brusco.
Cristal provavelmente era frio também... Ou não? Era liso ou tinha alguma textura?
Ezekiel queria sentir, não depender da visão e da memória para saber como é a sensação de algo.
Ele só queria sentir água entre os dedos ou saber se estava fria ou quente. Queria ter medo de manusear porcelana e reconhecer texturas sem olhá-las.
E era só uma pessoa...
Tem tanta gente no mundo.
Um ser humano faria realmente tanta falta?
E era só uma vez... Os nervos durariam bastante, ele não precisava trocar todo ano.
Só um ser humano.
Uma vida.
Uma vida.
Ele estava mesmo considerando sacrificar uma vida por algo tão fútil?
Era ridículo.
A vida é preciosa, certo? Não pode ser desperdiçada assim. Seria injusto.
Injusto?
Mas a vida foi injusta com ele quando o transformou em uma marionete, quando o matou. Ele só iria reparar essa injustiça, não? Só iria ficar mais humano, mais natural, normal.
Quando foi para a cama com Oliver, Ezekiel só conseguia pensar nos lençóis de seda que não sentia. Na maciez da cama que não percebia. Mesmo quando Oliver passava um braço por sua cintura para mantê-lo por perto, a pressão era fraca, difícil de distinguir.
E era só uma pessoa...
Uma pessoa por toda uma gama de sensações.
Mas ainda era errado.
...Não era?
Mas o que é certo e errado quando se é uma marionete?
*
"Eu decidi" Ezekiel anunciou em um dia qualquer, à véspera do Halloween. Oliver não precisou de uma explicação ou se incomodou com a frase súbita e sem contexto, apenas sorriu de modo atencioso.
"E o que vai ser?"
“Eu...” Hesitação. O último resquício de dúvida. Ezekiel cerrou os punhos e os apertou com força, mas não sentiu quase nada. Um eterno lembrete do que ele estava perdendo. "Eu..." Os olhos de Oliver brilhavam em expectativa. “Eu quero que você retire os nervos que sobraram. Todos eles”.
"Tem certeza?" Oliver se surpreendeu com a escolha. "Eles ainda podem durar um bom tempo, mal fizemos a última manutenção... E amanhã é Halloween, não seria difícil conseguir substitutos funcionais..."
"Não" Ezekiel foi firme. "Eu tenho certeza."
E ele tinha. Depois de pensar muito e muito nas opções disponíveis, Ezekiel percebeu que não conseguiria matar alguém. Não dava. Apenas não dava. A mera ideia de matar uma pessoa o enjoava e ele não conseguiria ficar parado e ver Oliver fazer o trabalho sujo. Ver seria horrível. Saber que estava acontecendo seria horrível. Consentir com uma morte seria horrível. Seria assassinato. Seria matança. Seria cruel.
Não valia a pena recuperar o tato e passar o resto da existência sentindo as mãos sujas de sangue.
Oliver parecia um pouco desapontado, a ideia de "colher nervos frescos" era mesmo tentadora... Seria tão divertido. Ele arrancaria a pele da pessoa ainda viva para danificar o mínimo possível os nervos. Descascar camada por camada. Mas ele não o faria sem permissão, e Ezekiel foi bem claro.... Uma pena.
"Se é o que minha marionete deseja..." Oliver sorriu e se aproximou, seu rosto muito perto do de Ezekiel. Não que fosse algo incomum, Ezekiel perdeu a noção de espaço pessoal há muito tempo. "Então que seja." Completou e, na ponta dos pés, o beijou brevemente "Prefere ir para a mesa de reparos antes ou depois do café da manhã?"
"Antes" Ele queria tudo acabado logo. Quanto mais rápido, melhor.
"Tudo bem" Oliver o pegou pela mão "Vamos então".
*
Assim, pela segunda vez em poucos dias (ou meses, Ezekiel não tinha realmente certeza) ele estava sobre a fria e dura mesa de manutenção. Desta vez, por vontade própria.
Será que ele tinha enlouquecido?
Mas o que é enlouquecer mesmo?
"Prontinho" Oliver dobrou meticulosamente suas roupas, quase como um ritual, e as deixou de lado "Podemos começar. Tem certeza disso?" Era sua última chance de voltar atrás. Sua última chance de preservar seu tato por mais tempo. De preservar sua humanidade.
"Tenho"
"Tudo certo então" Oliver sorriu e pegou sua faca brilhante e fina como um bisturi "Vai doer dessa vez. Os nervos ainda estão meio sensíveis" Avisou e, sem esperar uma resposta, cravou um corte profundo que ia do peito ao abdômen de Ezekiel.
Isso foi inesperado. Rápido. O corte era perfeitamente reto, como sempre, e sangue doce escorria por ele. Ezekiel arfou pela surpresa e pela dor, geralmente Oliver era mais suave com os cortes, os fazia menos profundos e vários cortes pequenos por vez, não um único corte que praticamente cortava seu corpo ao meio.
"Algum problema?" Oliver perguntou gentilmente enquanto fazia mais três cortes perpendiculares ao primeiro, igualmente profundos, que dividiam seu tronco em oito seções.
"Nada, só... Doeu" Ezekiel admitiu. Oliver deixou a faca de lado por um segundo.
"Eu sei" Ele aproximou seu rosto do de Ezekiel e beijou brevemente sua bochecha "Vai passar. Fiz os cortes bem fundos para garantir que nenhum nervo fique, só isso"
"Tá" Ezekiel assentiu de leve. Loucura ou não, ele teve essa ideia e iria até o fim.
Oliver pegou a pinça.
"Além do mais" Continuou casualmente "É sua última vez sentindo dor. Não quer que seja especial?" Seu olho vermelho brilhou levemente e um sorriso indecifrável surgiu em seus lábios.
Ezekiel sabia que, um dia, isso o teria assustado, mas agora parecia só... Normal. Oliver sendo o Oliver. E, por mais estranho que fosse, ele confiava que Oliver não faria a última manutenção pior que o necessário.
A última manutenção.
A última.
Isso ressoava em sua mente.
Era uma ideia tão estranha.
Ele detestava manutenção, detestava desde a primeira, mas... Agora que tinha a última, sentia algo estranho. Não era alívio como achou que sentiria, era mais... Melancolia.
Quando isso acabasse, ele não teria mais nenhuma parte orgânica. Nenhuma humanidade. Ele seria tão inorgânico quanto um objeto qualquer. Apenas madeira e açúcar.
Seus pensamentos foram cortados por uma dor intensa, mas rápida. Um nervo saudável subitamente arrancado.
Oliver sorria docemente.
"Em que estava pensando?"
"Quê?"
"Você parecia... Longe. Em que estava pensando?" Repetiu enquanto voltava a roçar a pinça pelos cortes, mas sempre mantendo o contato visual.
Oliver era capaz de esculpir, cortar, cozinhar, enfim, fazer praticamente qualquer coisa que requira coordenação, sem olhar. Ezekiel sabia que já achou essa habilidade assustadora, era como se Oliver o estivesse sempre observando, não importava o que estava fazendo. Mas agora não o incomodava tanto, afinal, era o modo de Oliver mostrar que prestava atenção, que se importava. E os olhos bicolores dele não eram desagradáveis de se olhar também... O contraste de vermelho e azul era interessante.
"Nada" Ezekiel desconversou e se corrigiu um segundo depois. Era sempre uma má ideia esconder coisas de Oliver, por mais idiota que fosse. "Quer dizer... Eu só... É a última manutenção e..." Pensando bem, talvez ele devesse ter ficado com o 'nada'. Pra que tentar explicar algo que não tem sentido?
"E?" Oliver o encorajou.
"Sei lá. Eu só..."
"Assustado?"
Hesitação.
Será que era isso? Medo?
"Talvez" Admitiu por fim.
"Ok" Oliver sorriu e arrancou mais um nervo, não tão bruscamente quanto o outro, mas ainda doloroso. Claro que não se comparava a dor de ser morto ou torturado, mas, ainda assim, dor. Ezekiel pensou que talvez estivesse sensível demais... Ele passou tanto tempo com as sensações fracas e vagas que era estranho realmente sentir algo de novo.
A pinça voltou a roçar seus nervos semi-sensíveis lentamente, como que aproveitando o momento. Oliver sorriu.
"Como quer que eu arranque?"
"...O quê?"
"Ora, é sua última vez sentindo dor" Oliver parecia, de certa forma, satisfeito "Achei que gostaria de escolher como quer que seja. Quanta dor quer sentir antes de não sentir mais"
Antes de não sentir mais.
Não sentir mais.
Não sentir não sentir não sentir.
De alguma forma, não parecia real até Oliver falar com todas as letras.
Era sua última vez.
Sua última sensação seria a dor.
E Oliver podia ser gentil ou cruel. Poupá-lo do sofrimento ou fazê-lo gritar. Tudo dependia dele.
Foi aí que Ezekiel teve certeza que enlouqueceu, mas ele já não se importava tanto assim.
"Faça doer" Disse. "Sem piedade"
Se era sua última vez sentindo dor, ele queria algo que o marcaria. Algo que ele se lembraria após séculos e séculos. Uma sensação marcada em sua mente mesmo depois que todos os nervos se fossem.
"Eu estava torcendo pra você dizer isso" O olho vermelho cintilou empolgado e o sorriso se tornou mais afiado.
Então ele pressionou o nervo com a pinça até estourá-lo.
Um breve som de fibras rasgadas e das pontas metálicas da pinça se chocando pôde ser ouvido.
Ezekiel instintivamente dobrou o corpo e moveu as mãos para mais perto do tronco.
Oliver sorriu.
"Sabe, posso te amarrar se quiser"
"Não..." Mesmo não precisando respirar, ele fez uma pausa. Talvez pela memória associar dor e falta de ar, talvez só para processar o que houve. "Não precisa" Concluiu e voltou a se deitar na mesa de madeira com os braços ao lado do corpo, completamente exposto.
Oliver estourou outro nervo com um audível poc, Ezekiel se contorceu por mais que tentasse evitar.
"Certo, só vai demorar um pouco mais" Ele esperou Ezekiel consertar a postura e estourou outro nervo, reiniciando o ciclo "Mas temos bastante tempo" Constatou e arrancou os nervos estourados abruptamente, fazendo questão de apertar as fibras que os compunham. Ezekiel sentiu uma espécie de ardência e uma dor fantasma mesmo após a remoção dos nervos danificados.
Era horrível, mas bom. Ele não se lembrava da última vez que teve reações instintivas, reações humanas.
Oliver pegou um frasco que Ezekiel não se lembrava de já ter visto.
"Você me pediu pra não ter piedade" Lembrou, seu sorriso quase ofuscado pelo brilho vermelho de seu olho.
Ele derramou o líquido desconhecido no dorso de Ezekiel e apreciou enquanto ele escorria para dentro dos cortes profundos.
Ezekiel gritou.
"É meu brinquedinho especial" Oliver explicou "Corrói carne como um animal devorando uma presa, mas faz pouco estrago em ossos, vidro e, é claro, madeira." Depois de uma pausa, acrescentou "Eu posso te amordaçar".
Ezekiel cerrou os lábios para cessar os gritos, mas foi apenas parcialmente bem-sucedido. Ao menos os reduziu a um mínimo.
Ele sequer notou quando começou a gritar.
Ter seus nervos corroídos ainda dentro de si queimava. Pior que fogo. Era difícil descrever. Era dor.
E lento.
Parecia que cada segundo se arrastava enquanto a substância desconhecida desmanchava seus nervos e continuava penetrando.
Até que parou.
E então não havia nada.
Sem dor. Sem nervos. Sem sensações. Sem nada.
Oliver esperou alguns segundos para que Ezekiel processasse a perda e, por fim, pediu:
"Pode estender o braço?" Sorriu docemente e Ezekiel, debilmente, obedeceu.
Oliver cravou uma linha profunda que ia do ombro à mão. Perfeitamente reta.
Cantarolando uma melodia para si mesmo, ele deixou o frasco de lado e pegou de volta a pinça. Não seria divertido simplesmente dissolver todos os nervos de Ezekiel, afinal, era a última vez. Tinha que ser especial.
Ele cuidadosamente puxou a ponta de cada um dos nervos para fora do corte, tomando o cuidado de não puxá-los o bastante para arrancá-los. Quando conseguiu uma fileira perfeitamente alinhada de extremidades expostas, Oliver sorriu e passou lentamente sua língua de madeira macia por elas.
O sabor do melado que os recobria era delicioso e a pressão exercida pela língua de Oliver forçava os nervos contra a pele de Ezekiel, também de madeira.
Ezekiel arfou e segurou com firmeza as bordas da mesa para se impedir de arquear o corpo. Era um tipo diferente de dor, ter as extremidades nervosas arrastadas pela madeira, pelo seu corpo.
Era dor.
Mas também era prazer.
Ele gemeu pela mistura de prazer e agonia.
Oliver sorriu satisfeito e, quando sua língua alcançou o fim do corte, rente ao ombro de Ezekiel, ele arrancou a última das terminações nervosas com os próprios dentes.
O misto de prazer e dor foi substituído por uma súbita onda de dor pura e simples.
Ezekiel largou a mesa e levou uma das mãos ao local de onde o nervo foi arrancado, erguendo levemente o corpo da mesa. Oliver sorriu com a cena.
"Algum problema?"
"...Não" Ezekiel fechou os olhos e respirou fundo em vão para se acalmar. "Pode continuar" Disse e voltou a se deitar, as mãos ao lado do corpo.
"Claro que vou" Oliver concordou e olhou malicioso a fileira de nervos expostos a sua mercê.
Talvez ele devesse estourá-los um a um como plástico bolha.
Ou esmagá-los com a pinça.
Ou derretê-los.
Tantas opções.
(Ele também podia simplesmente cortá-los com uma faca bem afiada, mas isso não doeria tanto)
Por fim, ele se decidiu por algo completamente diferente.
"Um segundo, sim? Volto logo" Anunciou e afagou os cabelos de Ezekiel antes de sair, sem realmente esperar uma resposta.
Ezekiel assentiu mesmo sabendo que Oliver não veria e permaneceu deitado. Houve uma época na qual ele se aproveitaria dessa mínima brecha para fugir, mesmo amarrado. Já agora parecia tão fútil. Pra que fugir de casa?
Ele passava os dedos suavemente sobre os nervos expostos, sentindo uma espécie de formigamento com o toque, quando Oliver voltou.
E trouxe consigo um punhado de areia.
"Pronto?" Sorriu e Ezekiel apenas lhe estendeu o braço, sabendo que não ganharia explicações mesmo se pedisse.
Era parte da tortura de Oliver. Criar tensão.
Oliver pareceu satisfeito com a reação e jogou uma porção generosa de areia sobre os nervos e a área a seu redor. Então começou a esfregar.
E esfregar.
E esfregar.
A sensação que no começo era apenas desagradável se tornou insuportável. O atrito da areia contra as extremidades sensíveis queimava. Seus nervos estavam sendo esfolados.
Ezekiel se contorceu, mas Oliver segurou seu braço com firmeza e aumentou a velocidade, o atrito gerando calor contra as fibras nervosas já maltratadas.
Só quando os nervos esfolados já começavam a se desfazer em fibras, Oliver decidiu parar e simplesmente os arrancou. Ezekiel sentiu o puxão, mas não a dor. Talvez seus nervos já estivessem mortos demais para processá-la.
Afinal, eles foram praticamente assassinados. Reduzidos de fibras funcionais a cadáveres de si mesmos.
"Prontinho." Oliver sorriu amável. "Estamos quase acabando. Mas antes vou pegar uma toalha. Pode ficar sentado se quiser" Anunciou.
"...Ok"
*
Ezekiel não entendeu o motivo da toalha até sentar em posição ereta. Quando o fez, um líquido viscoso de um vermelho escuro quase preto começou a escorrer pelos cortes profundos em seu abdômen.
Os restos liquefeitos de seus nervos.
Aquela substância estranha de Oliver os derreteu e agora a mistura orgânica escorria livremente para fora de seu corpo.
Oliver secou seu dorso com uma toalha felpuda e prestou especial atenção aos cortes profundos, garantindo que ficassem completamente secos. Afinal, umidade podia apodrecer a madeira com o tempo.
Ezekiel sabia que o toque era suave e a toalha, macia, mas não conseguia realmente sentir nenhuma dessas coisas.
E logo seria assim em todo o seu corpo.
"Tudo bem com você?" Oliver tocou a ponta de seu nariz com a toalha felpuda.
"...Tudo" Ezekiel tentou disfarçar a expressão ambígua de seu rosto. Talvez ele pensasse demais... Afinal, foi ele quem escolheu isso, não? E era inevitável. Ele era um boneco de madeira, não um ser humano.
Não um ser humano.
Oliver não pareceu muito convencido, mas voltou ao trabalho de destruir os nervos alheios antes de retirá-los. De causar tanta dor quanto possível antes que tudo acabasse.
*
Ezekiel já não sentia quase nada na maior parte de seu corpo, exceto, é claro, na parte que Oliver torturava impiedosamente. No momento, era sua perna, a qual já estava fatiada e com as terminações nervosas expostas ou arrancadas.
Era também a última parte de seu corpo com ainda alguma sensibilidade.
Há quanto tempo eles estavam ali? Horas? Dias? Difícil dizer. Ezekiel só sabia que Oliver foi particularmente criativo dessa vez, inventando sempre um método mais agoniante e doloroso que o anterior.
Se bem que Ezekiel já nem sentia mais tanto assim.
Mesmo com seus nervos torturados e castigados, de alguma forma parecia que o entorpecimento do resto de seu corpo se sobrepujava à dor. Talvez ele tivesse se acostumado à dor da tortura... O quão irônico seria isso? Ou talvez ele realmente só pensasse demais e por isso se focasse na desagradável falta de sensação.
Ezekiel nem percebeu quando Oliver parou de arrancar seus nervos até que este o chamou.
"Pega" Oliver disse simplista e colocou a pinça nas mãos de Ezekiel, que o lançou um olhar confuso em retorno.
"Pra quê?"
"Bem, só faltam alguns nervos" Explicou "Achei que devia arrancá-los você mesmo"
Ezekiel olhou incerto da pinça em suas mãos para Oliver e de Oliver para as extremidades nervosas que saíam dos cortes. Era tão estranho ver um instrumento em suas mãos em vez das de Oliver.
"Eu... Acho melhor não" Declarou incerto.
"Ora, vamos, você consegue" Oliver pôs sua própria mão sobre a de Ezekiel e guiou seus movimentos, levando-a até o nervo e o apertando com força antes de arrancá-lo "Viu? Não é tão difícil".
Ezekiel observou descrente a pinça em suas mãos, o que ele acabou de fazer. Oliver queria que ele terminasse o serviço? Que ele arrancasse os próprios nervos? Que ele arrancasse a própria humanidade?
O brilho vermelho do olho de Oliver foi o bastante para que ele soubesse a resposta: sim.
Ele teria que terminar.
Com mãos trêmulas, ele roçou a pinça em outro nervo, sem a ajuda de Oliver, e o segurou. A falta de firmeza fez com que ele escorregasse no último momento e Ezekiel precisou tentar de novo.
Algumas tentativas depois e ele conseguiu alguma confiança. Alguma firmeza.
Cada puxão doía, mas, mesmo assim, ele continuou. O movimento se tornando quase automático com o passar das tentativas.
Um erro em um deles, muita pressão aplicada sobre a pinça, e um dos nervos estourou. Ezekiel derrubou a pinça no susto, na súbita onda de dor, mas Oliver a entregou de volta com um sorriso satisfeito nos lábios.
Quando Ezekiel extirpou o último nervo, Oliver recolheu a pinça e a guardou com os demais instrumentos, substituindo-a por sua substância reparadora. Agora só faltava fechar os cortes e tudo estaria acabado.
Oliver cantarolava feliz enquanto o fazia.
Agora, Ezekiel era igual a ele. Exatamente igual. Nenhuma parte orgânica. Uma perfeita marionete.
E isso era tão perfeito.
*
Oliver estava preocupado. Ou intrigado. Ele não tinha certeza da diferença.
Enfim, Ezekiel estava estranho.
Ele estava estranho desde a manutenção na verdade, mas Oliver achou que, se esperasse o bastante, ele acabaria se adaptando e voltando ao normal. Afinal, o tempo é o melhor remédio, não?
Aparentemente não.
Ele estava... Quieto.
Um pouco melancólico.
Um pouco vazio.
Oliver não gostava disso.
Ele não gostava disso nem um pouco.
"Qual o problema?" Perguntou num dia qualquer.
Era uma pergunta que ele vinha fazendo muito ultimamente.
Não que o incomodasse.
"Nada" Ezekiel respondeu em um tom nada convincente "Eu só..."
Oliver esperou o resto da resposta.
Após alguma hesitação, Ezekiel prosseguiu:
"Só... Eu não sou mais humano" As palavras pareciam doer de alguma forma. Isso era inadmissível. Só Oliver podia causar dor a ele, ninguém mais, nada mais. "Eu sei que eu não era humano antes, mas... Sei lá. Parece real agora. Não que não parecesse antes, eu só..." De certa forma, Oliver achava as tentativas de explicação adoráveis "Perdi o que eu ainda tinha, eu acho" Concluiu.
Oliver o analisou pensativo por algum tempo.
"Tudo isso porque perdeu alguns nervos?"
"Não eram os nervos, era... eu não sei, algo mais" Oliver não gostava da expressão angustiada nem um pouco.
E então ele percebeu algo.
"Você não é como eu" Disse sério.
Ezekiel o olhou intrigado, confuso. Era uma expressão que ficava melhor nele que a tristeza.
"Se o problema é ser humano" Disse "Não acho que isso possa ser tirado de você. Você não é como eu. Você se importa, você prefere arrancar os próprios nervos a matar alguém, você é... Humano. Sua alma ainda é humana, e isso é algo seu."
E era verdade.
Eles não eram iguais.
Podiam ter a mesma composição, mas não eram iguais.
Ezekiel jamais entenderia o prazer de Oliver em torturar e matar.
Oliver jamas entenderia a angústia de Ezekiel com essa tal humanidade.
Mas, quer saber, tudo bem.
Ezekiel pareceu um pouco melhor depois de ouvir isso.
"Acha mesmo?" Perguntou com certa esperança.
Oliver sorriu.
"Acho sim."
Ezekiel sorriu de volta.
Eles ficariam bem.
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