How To Save A Life
20 Your Home Is Where Your Heart Is
Notas iniciais
Quinn despertou com o barulho do celular tocando, pensando seriamente em jogá-lo na parede. Sua cabeça latejava insistentemente. Virou-se na cama e sentiu o cheiro de Rachel lhe assaltar os sentidos. Não saberia dizer se ele estava impregnado nos travesseiros ou nela mesma. Sua vontade de jogar o celular na parede lhe parecia estúpida agora, queria jogar a cama inteira. Sabendo que não teria forças, se forçou a levantar e entrar no banheiro para um banho gelado. Rachel e Lima. Mal podia esperar.
Rachel entrou na cozinha e encontrou Quinn e Santana tomando café. Devia ser algum tipo de recorde Santana estar acordada naquele horário. Sua cabeça doía. Nenhuma das duas pareceu perceber sua presença. Já esperava por isso.
"Alguém me explica porque compramos passagens pra esse horário?" A latina disse à guisa de bom dia assim que a morena sentou na mesa.
Ninguém se deu ao trabalho de responder.
"Vou chamar o táxi." Quinn avisou, dobrando o jornal e levantando da mesa.
Rachel olhou para Quinn e seus olhares se cruzaram por alguns milésimos antes que Quinn o desviasse. Tentou afastar a sensação de vazio que sentia. Não queria pensar. Havia tomado sua decisão. Nunca tivera muito mais a oferecer.
Foi nesse clima que viajaram para Lima. Rachel e Santana pareciam estar no mesmo clima melancólico no aeroporto, ou talvez fosse só o efeito da ressaca. Kurt e Blaine estavam animados, enquanto Quinn se encontrava em um péssimo humor.
"Hey, sem-teto!" Santana chamou pela loira na fila de embarque.
"O que foi?" A loira respondeu irritada.
"Você vai lá pra casa, certo?" A latina abaixou o tom ao ver a irritação da loira.
"Vou?" Ela perguntou, desconcertada.
"Estava pensando em ir para onde?"
Na verdade, Quinn fora convidada por Brittany para ficar na casa da dançarina. Não tinha respondido à amiga, mas sabia que não poderia ficar na casa de Rachel como de costume e muito menos voltar para casa. Santana visivelmente estava preocupada com isso e por essa Quinn não esperava.
"Eu... não sei." A advogada coçou a nuca, desconfortável.
Santana revirou os olhos, impaciente.
"E você ia viajar sem saber? Você vai lá pra casa." A amiga afirmou.
Quinn não contestou. Era bom saber que a queriam em algum lugar, ainda mais em um lugar familiar onde ela não se sentia uma estranha. Rachel estava inerte ao lado das duas durante toda a conversa, fitando o nada. Kurt e Blaine disseram que a loira também podia ficar na casa deles se quisesse, fazendo piadas sobre o martírio que deveria ser conviver com Santana por alguns dias. Quinn esboçou um sorriso para eles, sinceramente agradecida. Ela morava com a latina afinal.
Já no avião, Quinn ficou em uma poltrona afastada, enquanto Kurt viajava ao lado de Blaine e Santana ao lado de Rachel. A morena dormiu no ombro da latina durante toda a viagem, retardando assim as sensações que sempre tinha ao voltar para Lima. Acordou extremamente mal-humorada e ficou mais ainda ao não alcançar a própria bagagem de mão. Sentiu a presença do corpo em suas costas e identificou a mão pálida acima de si. Quinn pegou e entregou a ela, sem olhá-la nos olhos nenhuma vez e logo lhe dando as costas.
Rachel paralisou por alguns segundos, respirando fundo. As mais variadas sensações dominando o seu corpo sem o seu consentimento. Quinn não entendia e não tinha a obrigação de entender. A morena não parecia perceber que a loira queria somente o seu bem. E não perceberia até que parasse de machucar os outros e a si mesma de propósito...
Enfim, Lima. Despediram-se no aeroporto, dividindo-se. Santana e Quinn em um táxi e o resto em outro. Rachel desceu primeiro. Parou em frente à casa familiar enquanto Blaine deixava sua mala na porta.
"Obrigada." Ela sorriu para ele, recebendo um beijo no rosto de volta.
"Até mais tarde..."
Kurt acenou de dentro do táxi antes dele se colocar em movimento e sumir pela rua. A morena respirou fundo e abriu a porta, encontrando o silêncio. Não durou muito tempo. Logo passos apressados se fizeram ouvir e o homem magro e alto apareceu na escada, limpando os óculos para ter certeza do que estava vendo.
"Filha?" Hiram abriu um largo sorriso emocionado, provocando um igual em Rachel.
O homem desceu as escadas correndo e envolveu Rachel em um abraço apertado, sentindo os olhos lacrimejarem e a saudade se manifestar.
"Minha estrela!" Ele disse sobre os cabelos escuros. "Nunca mais suma todo esse tempo, me entendeu? Nunca mais!" Dizia com a voz embargada. "Você está linda filha, linda!"
Rachel também sentiu os olhos queimarem. Talvez não devesse ter ficado mais de um ano inteiro sem visitar Lima. Envergonhava-se só de se lembrar do motivo.
"Rachel Barbra Berry." Ouviu a voz de seu outro pai.
A morena se afastou de Hiram, limpando o rosto das lágrimas que já haviam caído e olhou para Leroy com uma expressão séria no alto da escada.
"O combinado não era brilhar na Broadway e esquecer de nós!" Ele ralhou.
Rachel sorriu docemente para o homem de expressão falsamente irritada, abrindo os braços para ele.
"Pai, me dá um abraço..." Ela pediu com a voz trêmula.
Leroy desceu as escadas e o coração da morena se apertou ao ver seus lábios estremecerem, segurando o choro antes de abraçar a filha. Hiram se juntou aos dois. Rachel achava incrível como os dois homens de expressões tão severas eram tão doces e sensíveis. Estava morrendo de saudade deles e não tinha notado a imensidão disso até aquele momento.
"Me perdoem..."
Eles não responderam. Apenas a abraçaram mais apertado. Ao se soltarem, Leroy reforçou o comentário de Hiram:
"Você está linda..." Ele beijou-lhe a testa.
"E tem muita coisa para nos contar!" Hiram colocou os braços na cintura.
"Querido, ela acabou de chegar..."
"Nada disso! Você pode ir abrir alguma coisa para bebermos que eu vou estar no piano com o pequeno cometa aqui."
"Cometa?" Rachel questionou, rindo.
"Para aparecer, sumir e reaparecer assim só pode ser um cometa!"
Rachel gargalhou, enquanto Leroy balançou a cabeça, levando a mala de sua filha para o quarto.
...
Santana não estava mentindo quando dizia que era de Lima Heights Adjacent. Sua avó sempre morara lá. E, depois de se formarem e ganharem dinheiro como médicos, seus pais não quiseram se mudar da região. Construíram uma suntuosa casa que se destacava das demais, mas eram pessoas muito simples e continuaram por ali. Eram famosos por atenderem a todos do bairro de graça e, por isso, a família Lopez era respeitada. Santana e Ricardo eram extremamente vivos e espertos por terem convivido com todo o tipo de gente desde pequenos. Nada do que Santana dizia no colégio era mentira...
"Mamá, cheguei!" Ela gritou, depois de praticamente esmurrar a campainha.
A mulher morena e idêntica à filha, exceto pelos olhos muito verdes, abriu o portão, analisando-a de cima a baixo debochadamente e depois virando-se para Quinn com um sorriso doce.
"Sinta-se em casa, querida! Está cansada?"
"Um pouco Naomi, obrigada..." A loira a seguiu pelo jardim.
"Também estou com saudades, a viagem foi boa, obrigada por perguntar, sim, estou com fome." Santana disse entediada, entrando na casa com elas.
"Não coloque essa mala no tapete!" Naomi alertou.
"Enfim, em casa!" A latina abriu os braços, sarcástica e sumiu no corredor.
Naomi riu para Quinn, revirando os olhos.
"Ela maltrata muito vocês?"
"Um pouco." A loira riu também.
"Vem, eu estou fazendo o almoço." A mãe de Santana chamou, seguindo o caminho da Lopez mais nova.
"Cadê o papá? E o Ricardito?" Santana perguntou, sentada à mesa da cozinha.
"Está de plantão no hospital e não chame o seu irmão assim. Ele odeia."
Santana estreitou os olhos, sorrindo maliciosamente para a mãe.
"Me dá um abraço..." Naomi sorriu, com saudades do temperamento da filha.
"Até que enfim!" Santana exclamou um pouco indignada, abraçando a mulher. "Cadê o moleque?"
"Está na rua também, só volta à noite."
"Quanta consideração." A latina voltou a sentar.
"Está carente, San?" Quinn debochou.
"Não enche."
"Ela finge que não, mas morre de saudades..." A mãe comentou.
Quinn riu, antes de se sentar ao lado da latina, que tinha a expressão entediada.
"Querem dormir um pouco antes do almoço? Ainda vai demorar um pouco..."
Quinn e Santana assentiram, antes de se levantarem e subirem as escadas.
...
"Seus pais não vão ficar chateados se souberem que você veio na minha casa antes de ir para a sua?" Kurt perguntou.
"Eu os vi tem pouco tempo, Kurt. Quero ficar com você. Não vou te deixar sozinho para contar ao seu pai." Blaine respondeu, pegando as malas.
"Que estamos noivos?" Ele sorriu bobamente para Blaine, os olhos brilhando.
O moreno também sorriu, aplicando um selinho nos lábios de Kurt.
Burt abriu a porta com um sorriso para ambos. Não imaginava que o filho voltasse para Lima com tanta frequência e, mesmo com Carole, sentia muito a falta dele.
"Pai!" Ele jogou-se no pescoço do Hummel mais velho, abraçando-o.
"Hey, calma! Eu estou velho, você não pode mais se jogar em mim assim." O pai brincou, recebendo um aperto mais forte em troca.
Burt abraçou Blaine, pegando as malas ao lado do rapaz e carregando-as para dentro da casa.
"Carole, eles chegaram!"
A mulher apareceu na porta da sala adiantando-se para abraçar os dois e dizer que estava com saudades. Finn também apareceu, sorridente e praticamente girando Kurt no ar.
"Como vocês estão?" O moreno alto perguntou, animado.
"Ótimos..." Kurt sorriu sincero.
"E o McKinley?" Blaine quis saber.
"Está tudo bem por lá... Acabei de ganhar as Sectionals com os meninos do New Directions!"
Kurt e Blaine se olharam, sorrindo nostálgicos, lembrando-se da época do coral.
"Eles são bons?"
"São. Não tanto quanto o New Directions original, mas são."
"Estão com fome meninos?" Carole interrompeu a conversa.
"Estou." Finn respondeu.
"Não falei com você, engraçadinho. Eles acabaram de chegar de viagem!"
"E eu não almocei!" O mais alto argumentou.
Os três riram, seguindo Carole e Burt para dentro da cozinha.
...
Rachel tinha o olhar distante enquanto seus pais tiravam alguma música do piano. Ela apenas bebericava sua taça de vinho e sorria para as brincadeiras dos dois. Não importava quanto tempo passava, eles seriam sempre assim. Isso a fascinava um pouco.
"O seu pai está errando a música desde ontem, acho que é a velhice..." Leroy alfinetou, desistindo de tocar.
Rachel gargalhou com a expressão indignada de Hiram.
"Não sou eu que fico te perguntando o dia inteiro onde deixei minhas coisas porque esqueci onde as coloquei!"
"E nem eu que fico desesperado procurando meus óculos por tudo quanto é canto com ele pendurado no meu pescoço!"
Hiram começou a rir, lembrando-se do infeliz episódio. Rachel apenas balançava a cabeça e ria.
"Eu ia comentar sobre essa falha enorme que está aparecendo atrás da sua cabeça, mas não quero levar a discussão adiante..." Hiram ainda comentou, disfarçando o riso enquanto tomava um gole de vinho ao ver o marido procurar a falha com as mãos, visivelmente afetado.
"Vocês ainda tocam piano todo dia?" Rachel sorriu para eles.
"Todo dia não. Perdeu um pouco a graça sem você cantando para a gente." Leroy disse.
O sorriso doce de Rachel se transformou em um sorriso sentido.
"Não fique assim estrela, você sabe que o clima nesta casa nunca é melancólico e que eu amo ficar sozinho com o seu pai. Só morremos de saudades de você!" Hiram esclareceu.
"Criar você e te ver crescendo e se tornando essa mulher maravilhosa foi a maior alegria de nossas vidas. Você é mais perfeita do que jamais poderíamos ter sonhado." Leroy completou.
As lágrimas simplesmente caíam do rosto de Rachel. Seus pais nunca falhavam em fazê-la se sentir amada.
"Eu preciso que vocês saibam que é o meu maior orgulho ter vocês como pais." Ela soluçou fracamente. "E que eu morro de saudades e preciso que me perdoem por não ser mais tão presente!"
"Nós entendemos, é a Broadway..." Hiram disse.
"Não! Não tem desculpa..." A morena negou, tentando limpar as lágrimas.
"Filha, quer conversar?" Leroy perguntou, cauteloso.
Hiram e Leroy sabiam o quanto o término de seu noivado doera e afetara Rachel, mas tinha sido há tantos anos... Eles não faziam ideia de como estava a vida afetiva de sua filha. Apenas sabiam que ela demonstrara interesse em mulheres e que não namorara ninguém durante esse tempo todo. Isso preocupava, mas eles pensavam que era só uma fase, que uma hora com certeza apareceria alguém que traria de volta o brilho apaixonado que um dia eles viram no olhar de Rachel. Alguém que o merecesse, desta vez.
"Não, não é momento para isso, me desculpem..." Ela viu o olhar preocupado dos dois, mas negou com a cabeça, abrindo um largo sorriso em seguida. "Toquem uma música para mim."
Hiram pareceu pensar por um momento antes de se sentar em frente ao elegante piano de cauda, iniciando a melodia. Rachel reconheceu a canção e ela lhe acertou em cheio. Seus pais não faziam a menor ideia.
"I dreamed a dream? Vocês querem me ver afogar em lágrimas?" Ela perguntou, dramática.
Leroy apenas sorriu, incentivando-a a cantar. Ela respirou fundo, e começou:
Houve um tempo em que os homens eram gentis
Em que suas vozes eram macias
E suas palavras eram convidativas
Houve um tempo em que o amor era cego
E o mundo era uma canção
E a canção era emocionante
Houve um tempo... Então tudo deu errado
Eu sonhei um sonho num tempo que se foi
Quando as esperanças eram grandes e a vida valia a pena
Eu sonhei que o amor nunca morreria
Eu sonhei que Deus seria misericordioso
Então eu era jovem e sem medo
Quando os sonhos eram feitos e usados e desperdiçados
Não havia resgate a ser pago
Nenhuma canção não cantada, nenhum vinho não provado
Mas os tigres vêm à noite
Com suas vozes suaves como trovões
Enquanto eles despedaçam sua esperança
Enquanto eles transformam seus sonhos em vergonha
Ele dormiu durante um verão ao meu lado
Ele preencheu meus dias com maravilhas sem fim
Ele levou minha inocência com sua pressa
Mas ele se foi quando o outono chegou
E eu ainda sonho que ele virá até mim
E viveríamos os anos juntos
Mas existem sonhos que simplesmente não podem ser
E há tempestades que não podemos prever
Rachel colocava tanta alma na canção, que era difícil saber se estava apenas interpretando ou se realmente sentia aquilo. Os dois homens escutavam maravilhados a evolução de Rachel. Se possível, sua voz estava ainda mais lapidada e perfeita.
Eu tive um sonho que minha vida seria
Tão diferente deste inferno que estou vivendo!
Tão diferente agora do que parecia...
Agora a vida matou o sonho
Que eu sonhei
Rachel limpou as lágrimas que estavam acumuladas no canto dos olhos e tentou disfarçar a sensação triste com um sorriso.
"Alguma vez na vida deixaremos de nos emocionar com você cantando?" Hiram disse, a voz embargada.
"Como eu fui?" Rachel ainda perguntou incerta, sem conseguir conter as lágrimas. Era inútil, seu coração parecia chorar incansavelmente.
"Perfeita." Leroy afirmou.
"Sem nenhuma crítica?" Ela insistiu ansiosa.
"Nenhuma." Ele sorriu orgulhoso.
Rachel abriu um enorme sorriso para os dois. Um sorriso familiar e que ela sentia que não dava há muito tempo...
...
Santana abriu a porta do próprio quarto, deparando-se com ele completamente arrumado. Sorriu internamente ao constatar que mesmo não dormindo mais ali sua mãe ainda se preocupava em mantê-lo limpo. Ouviu o barulho de uma mala sendo jogada no chão e olhou inquisidoramente para Quinn.
"O que você está fazendo aqui, Fabray?"
"Er... Me preparando para descansar antes do almoço?"
"O quarto do meu irmão está vago."
"Nem pensar, você sabe que ele é doido comigo. Eu não quero acordar e dar de cara com ele me olhando."
"Sei..." Santana olhou-a maliciosamente. "Você quer é me agarrar." Ela acusou, fazendo Quinn revirar os olhos.
"O tempo todo! Como você não percebeu isso antes?" A loira ironizou.
Santana começou a rir, fazendo Quinn lhe dar as costas para procurar algo na bolsa.
"Eu sei que você gostou, Q." A latina soltou e a loira corou levemente.
"Vamos mesmo ter essa conversa?" Quinn arqueou a sobrancelha.
"Se você quiser não precisamos nem conversar..."
Quinn até teria acreditado nas palavras da latina se ela não estivesse tão obviamente se segurando para não rir.
"Ridícula." A loira pegou uma almofada que estava em cima da poltrona ao lado da janela e jogou na amiga, deitando-se em seguida.
Não demorou muito e sentiu a almofada voltando.
"Você me ama." Santana disse.
"Se você diz..." Quinn colocou o braço na frente dos olhos, se ajeitando melhor na cama de casal espaçosa e sentindo uma elevação lhe incomodar a coluna. "Não acredito que você esqueceu um casaco aqui e faz um ano que ele está jogado na cama?" Ela pegou a peça de roupa, chamando a atenção da latina.
"Esse casaco não é meu..." Santana respondeu baixo, tendo uma sensação familiar. "Espera..." Aproximou-se, finalmente se lembrando.
Santana pegou o casaco da mão de Quinn, aproximando-o para sentir seu cheiro. Perdeu-se na mesma hora no perfume conhecido, sendo invadida por uma profusão de sentimentos e lembranças. Não estava mais em casa. Não estava mais em lugar nenhum. Estava com ela.
"San, você está bem?" Quinn chamou e viu a latina parecer voltar de um devaneio.
"Esse casaco..." A latina piscou várias vezes. "É da Brittany."
"Brittany?" A loira olhou-a confusa.
Na mesma hora Santana saiu pela porta em disparada, sendo seguida por uma Quinn perplexa.
"Por que não me falou que a Pierce esteve aqui?!" Santana exclamou irritada, jogando o casaco na mesa.
Naomi não respondeu de imediato, o que só irritou mais a latina mais nova. Calmamente ela desligou o fogo e limpou as mãos na toalha pendurada na parede antes de encarar a filha de forma cortante.
"Primeiro: abaixe o seu tom comigo." Ela sibilou, fazendo a outra cruzar os braços em desafio. "Segundo: a Brittany esteve aqui ontem para ver a mim, seu pai e seu irmão. Eu não sabia que era tão relevante para você, levando em consideração o fato de você não conversar com ela direito há mais de quatro anos."
"É claro que é relevante!" Santana exclamou.
"Por que seria? O que isso mudou na sua vida, Santana?" Naomi questionou a filha.
"Eu não quero ela aqui! Acabou! Acabamos. Não tem mais nada a ver." A latina argumentou fracamente.
Quinn olhava de uma para a outra, sentindo-se completamente deslocada. Era como assistir duas Santanas discutindo e, apesar de ter visto Naomi poucas vezes e sempre ter sido tratada de forma doce por ela, tinha certo medo. A mulher era assustadora irritada.
"Essa casa é minha. Você tem inteligência para entender e lidar com isso, certo?" Naomi disse firme, sem se importar com a raiva que via nos olhos da filha. "No seu apartamento em NY você manda no que quiser, mas aqui mando eu. E sou eu quem decide quem entra aqui ou deixa de entrar. Pare de fazer esse show ridículo sem sentido nenhum. Claro que tem tudo a ver a Britt vir aqui. Ela frequenta essa casa desde criança, ela cresceu aqui praticamente e todos aqui a amam e ela será sempre bem-vinda. Eu não tenho nada a ver com o que aconteceu entre vocês ou com qualquer estupidez que você tenha feito."
Santana estava espumando de raiva. Naomi também cruzou os braços para ela, levantando as sobrancelhas. Quinn estava prestes a falar alguma coisa baixinho para Santana quando ela saiu da cozinha, pisando forte.
"Me perdoe por isso, Quinn." A mais velha suspirou ao ouvir a porta no andar de cima ser fechada com força.
"Não tem problema." A loira sorriu, pegando o casaco. "Como a Brittany está?"
"Me pareceu um pouco abatida." A latina franziu o cenho. "Na verdade, ela tem estado um pouco... diferente."
"Eu sei. Mas vocês conversaram sobre..." Quinn hesitou.
"Sobre Santana? Claro. É sempre bom reforçar o conselho de que ela fique bem longe da minha filha, para o seu próprio bem." Naomi voltou a ligar o fogo. "Santana não entende de relacionamentos. Eu pensei que as duas dariam certo, mas a San não aprende com o erro. E mesmo agora sendo tarde ela continua não aprendendo."
Quinn nada disse, pensando nas palavras de Naomi. Talvez agora ela entendesse um pouco da mágoa da latina em relação à mãe. Doía nunca ser boa o suficiente aos olhos de seus próprios pais. Ela deu meia-volta e subiu para o quarto, atrás da amiga.
"O que você está fazendo?!" Ela exclamou ao trombar com Santana e sua mala ao entrar no cômodo.
"Estou indo embora daqui." A latina passou reto por ela.
"Você não pode fazer isso!" Quinn segurou o braço da latina. "Eu estou aqui, lembra?"
Santana ficou parada, respirando fundo. Por fim, jogou a mala no chão e voltou ao quarto, se jogando na cama e puxando o cobertor. Brittany tinha deitado ali, pois também estava com seu cheiro. Santana nunca admitiria, mas era tudo o que queria e precisava sentir. Quinn também se deitou, sussurrando um obrigada antes de se deixar relaxar. Conversar com a latina naquele momento não adiantaria.
...
"Não mastigue de boca aberta." Carole apontou o garfo ameaçadoramente para Finn.
"Ele está fazendo para te irritar, Carole." Blaine disse, rindo.
Finn sorriu de lado para a mãe, que apenas estreitou os olhos para ele.
"Se continuar fazendo isso pode ir aprendendo a preparar a própria comida no seu apartamento que aqui você não almoça mais." Ela ameaçou.
"Apartamento?" Kurt levantou as sobrancelhas.
"Eu me mudei." Finn falou com a boca cheia de comida, mas engolindo diante do olhar assassino da mãe. "Para um apartamento perto do McKinley. Tem quase duas semanas."
"E eu fiquei sem meu ajudante." Burt suspirou.
"Mentira. Na semana seguinte você arrumou outro." O moreno alto disse falsamente ofendido, fazendo Burt rir.
O resto do almoço correu normalmente. Logo Burt e Carole se levantaram, deixando os três na mesa, conversando.
"Como estão as coisas em NY?" Finn perguntou casualmente.
"O de sempre. Uma loucura." Kurt respondeu.
"Vocês estão bem?" Abriu um sorriso.
Kurt reconhecia aquele sorriso do irmão e estreitou os olhos para ele.
"Eu vi. O anel." Ele apontou com a cabeça, fazendo Kurt sorrir.
"Não conte para o Burt ainda, por favor." Blaine pediu num sussurro.
"Pode deixar. Eu estou feliz por vocês." Ele disse, sincero.
Kurt sorriu agradecido, mas sentiu o celular vibrar. Deixou Blaine conversar com Finn enquanto lia as mensagens.
"Quem é?" Blaine perguntou um tempo depois, curioso.
"Rachel." Kurt sorriu. "Parece que os pais dela estão fazendo um encontro musical agora e ela queria que eu estivesse lá." Ele comentou antes de se dar conta que Finn também estava ali.
"Típico de Hiram e Leroy." Blaine riu. "Ela só poderia estar na Broadway mesmo."
Kurt guardou o celular. Um silêncio estranho pairou sobre a mesa. Finn encarava o irmão com uma expressão séria no rosto.
"Como ela está?" Finn perguntou, quebrando a tensão.
"Ela quem?"
"Você saber de quem estou falando." O irmão sorriu suavemente.
"Está ótima." Kurt respondeu prontamente.
"Ela está na Broadway, então?" O mais alto perguntou.
"Sim, papel principal." Ele respondeu orgulhoso, vendo Finn levantar as sobrancelhas, surpreso.
"Qual musical?"
"É um roteiro original. Você não conhece."
"Ela merece." Finn sorriu fraco.
O silêncio voltou. Rachel nunca era um assunto que Kurt se preocupava em prolongar com Finn. E ele não estava gostando nada da expressão no rosto do irmão.
"Santana e Quinn?" Finn continuou a conversa.
"Estão bem também. Santana é treinadora vocal de uma companhia de música e dança e Quinn trabalha em um escritório de advocacia na Wall Street."
"Isso que eu chamo de sucesso profissional." O irmão arregalou os olhos. "Eu estava pensando... Eu nunca visitei você em NY."
"Não se preocupe. Eu sei que papai não queria muito viajar por causa das complicações de saúde que teve e você estava muito ocupado e eu vinha sempre aqui e..." Kurt se apressou a dizer.
"Não é questão disso. Eu quero visitar vocês. Quero rever NY." Finn insistiu.
"Acho que... Tudo bem, não é Blaine?" Kurt franziu o cenho.
"Sim, claro. Sem problemas." Blaine fitou o rosto preocupado do noivo. "O sofá vira uma cama mais confortável que a do quarto de hóspedes." Ele virou-se para Finn, que sorria satisfeito.
"Ótimo. Eu aviso quando for." Ele levantou-se, indo até a geladeira. "NFL está passando, quem me acompanha?" Pegou duas cervejas.
Blaine olhou inseguro para Kurt.
"Pode ir..." Kurt revirou os olhos em tédio.
Blaine deu um selinho no noivo antes de pegar uma cerveja e seguir Finn para a sala, onde Burt já estava sentado. Carole olhou solidária para a expressão entediada de Kurt.
"Homens." Carole disse apenas.
"Vou te reapresentar a Santana, Rachel e Quinn." Kurt comentou.
...
"Bom... e agora o assunto mais esperado do dia: Broadway! Pode ir contando tudo." Hiram disse.
"Eu não acredito que você sequer nos ligou na hora em que conseguiu o papel!" Leroy censurou a filha.
"É que eu já tinha feito tantos off-Broadway..."
"Você quer comparar, Rachel Barbra?" Hiram arqueou uma sobrancelha.
"Tudo bem." A morena suspirou. "Bom... eu fiz os testes e foi isso."
"Não foi só isso, você nos disse que foi convidada para fazer os testes." Leroy lembrou.
"Eu fui. Vocês se lembram do Jesse St. James?"
"O babaca que te trocou por mais um campeonato de coral? Lembro." Hiram disse, sarcástico.
"Ele não é um babaca. Não mais, pelo menos. Ele foi quem me indicou para a direção. Ele ia interpretar um dos protagonistas junto comigo, mas foi chamado para a remontagem de Os Miseráveis em Londres e largou o papel. Não sem conversar comigo antes, claro. Eu o deixei ir. Mas quem ficou com o papel no lugar dele é ótimo!"
"Ainda não gosto muito dele." Hiram atestou.
"Vamos lá, Hiram, ele ajudou a nossa filha entrar para NYADA, não lembra? Em NY?" Leroy disse.
Hiram suavizou a expressão, mas não deu o braço a torcer.
"Só peço que não se esqueça de reservar nossos bilhetes na primeira fila."
"Primeira fila?" Rachel repetiu, encabulada.
"Qual o problema?" Hiram estreitou os olhos.
"Nenhum. Só acho que apreciariam melhor o show um pouco mais afastados."
"Nos poupe, Rachel. Não podemos mais te ver seminua?" Leroy logo disse.
Rachel abaixou a cabeça, completamente envergonhada.
"Olhe, Leroy!" O marido gargalhou. "Ela está com vergonha!"
Os dois homens começaram a rir de Rachel, que se levantou irritada e foi pisando forte até o sofá.
"Estrela!" Hiram puxou o ar para respirar enquanto ria. "Volta aqui!"
Hiram e Leroy foram até ela, sentando-se um em cada sofá.
"Terceira fileira, que tal?" Leroy debochou.
Rachel se moveu para pegar uma almofada e tampar em Leroy, mas foi interrompida por Hiram. Os três continuaram conversando até a morena reclamar que estava com fome. Depois de um almoço rápido, ela foi para o quarto descansar, estava exausta.
Abriu um largo sorriso ao notar que ele estava do mesmo jeito que sempre foi. Os adesivos, cartazes, a disposição dos móveis, a foto de Barbra Streisand e inúmeras referências à Broadway. Tinha conseguido. O sonho se tornara realidade. A pequena garota de Lima conseguira brilhar em NY.
Olhou os porta-retratos que a mostravam mais nova, sentindo uma enorme nostalgia. Tinha até um com duas fotos do New Directions. Uma era a primeira foto que eles tiraram para o anuário da escola e a outra depois de ganharem as Nationals, com o troféu na sala do coral. Era gritante a diferença de uma foto para a outra. E, estranhamente, não era Finn que ocupava seu lado nas duas. Era Quinn. Na primeira elas não eram exatamente amigas, mas na segunda Rachel se lembrava de sorrirem uma para a outra, felizes de terem conseguido, de terem feito algo bom juntas, de fazerem parte de algo especial. Era um momento que ficara profundamente marcado e também era extremamente confortável e familiar estar perto das pessoas da foto.
Rachel nunca vinha nos encontros apenas por Finn.
Suspirou, olhando novamente para Quinn. Quando tudo tinha mudado tanto? Logo a lembrança da garota foi varrida de sua mente. O olhar de Rachel se voltou para a própria cama. Ela apertou os lábios, sentindo um tremendo mal-estar. Sentou-se ali, deitando-se devagar. O lençol desprendia apenas um cheiro suave de lavanda...
"Olha para mim, Rach." Finn pediu com a voz baixa.
Rachel se forçou a abrir os olhos. Seu corpo era uma confusão de sensações. Ela o sentia dentro de si.
"Você está bem?" Ele perguntou preocupado, colocando uma mecha escura atrás da orelha da morena.
Rachel acenou com a cabeça, ofegante, o coração acelerado ao ver o sorriso de Finn. A mão dele que acariciava seu rosto desceu até seu seio, massageando-o levemente. A morena voltou a fechar os olhos, sentindo seus lábios serem tomados pelos dele enquanto o movimento se reiniciava.
"O seu cheiro me enlouquece, sabia?" Quinn descolou os lábios dos dela, acariciando seu rosto e a região do pescoço com o nariz, inspirando profundamente.
Rachel arregalou os olhos. Estava acontecendo novamente. Não era mais o corpo de Finn que estava sobre si e sim o corpo leve e esguio de Quinn. Não era ele que a penetrava, eram os dedos da loira...
"Quinn!" Ela gemeu, sentindo a intensidade dos movimentos e procurando desesperadamente por ar.
"Respira..." A loira sussurrou em seu ouvido.
O coração de Rachel falhou algumas batidas ao sentir a ausência dos movimentos dos dedos de Quinn, para depois sentir eles voltando em um outro ritmo, mais suave. Respirava com dificuldade, sentindo o suor escorrer pelo rosto.
"Quinn..." Ela ofegou. "Eu... vou..."
"Vem... pode vir..." A loira disse intensamente sobre os lábios carnudos, antes de beijá-la carinhosamente.
O interior de Rachel latejava e ela começava a se entregar a sensação conhecida. Bastou aquele beijo, seguido de uma leve mordida no lábio para estremecer incontrolavelmente sob Quinn.
Levantou-se assustada, suando frio. Olhou para todos os cantos do quarto, procurando por Quinn. Então a compreensão dos acontecimentos lhe atingiu. Tinha cochilado. Cochilado demais até, já começava a escurecer. Levantou-se de um pulo só, sentindo as pernas bambearem. Tivera um orgasmo dormindo? Sentou-se novamente. Se não se arrumasse logo ia se atrasar, mas como se preocupar com isso tendo o sonho que acabara de ter? Novamente sonhava com uma lembrança de Finn e ela se transformava. Só que dessa vez sua mente não inventara nada, apenas colocara uma lembrança de Quinn. Uma lembrança recente e que a fazia se arrepiar.
Estava profundamente irritada. Nem sonhar podia mais? Toda vez que estivesse mal com Quinn seria assim?
"Que inferno!" Ela se levantou, em uma fúria sem motivo.
Era pedir muito ter uma vida sem tanta bagagem emocional? Quando mais fugia do drama, mais ele dava um jeito de estragar as coisas. Não queria mais sentir tanto, esconder tanto! Mas Quinn parecia ter o dom de transbordá-la, de tirá-la do sério.
"Eu não vou mudar." Disse a si mesma, tentando se convencer.
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