Notas iniciais
Olá, meus caros leitores! (Caso vocês ainda existam!) E aí? Antes de vocês se deliciarem (ou não) com este capítulo, tenho alguns comunicados a fazer... Primeiro, rolou uma revisão completa da fic, o que ocasionou inclusive um atraso maior na atualização (como se não houvesse atraso maior rs). A revisão foi mais estrutural do que de conteúdo, então não tem necessidade de vocês relerem a história. Contudo, FOI ACRESCENTADA UMA PARTE NO CAPÍTULO 28 - DO YOU WANNA DANCE e eu sugiro que vocês leiam então pelo menos deste capítulo até aqui. Mil desculpas por isso, mas aconteceram revisões também do que estamos escrevendo e pensamos que ali melhor se encaixava aquela parte, até porque ela não altera os eventos, só acrescenta. Segundo, queria agradecer de coração a todas as pessoas que ainda nos mandam mensagens sobre a fic, perguntando das atualizações, nos incentivando a continuar com a história. Isso mostra que vocês se importam com esses personagens e querem continuar vendo até onde a história deles vai e nada poderia deixar uma escritora mais feliz do que isso! Terceiro, fiquei extremamente feliz que a autora Effy voltou a postar na história As If We Never Say Goodbye! Rs Era uma das histórias que eu mais queria ver terminada e de repente surge uma atualização! Me deu ainda mais inspiração para continuar escrevendo. Só queria compartilhar isso com vocês! Caso ainda não conheçam a história, leiam, vale a pena! Quarto, alguém sabe o que aconteceu com a LuizaBerry? Sei que ela sofreu um acidente e que estava se recuperando, mais já faz um tempão isso e queria saber se alguém sabe se ela abandonou as fics ou se ainda pretende voltar a postar... Acho que é “só” isso! Rs Enfim, boa leitura!

Rachel não podia acreditar no quanto ela havia sido ingênua por imaginar que sua vida não poderia ficar mais bagunçada do que nas semanas que antecederam sua estreia. Ela tinha se enganado docemente. Não tinha sido surpresa alguma que Spring Awakening tinha sido um sucesso desde a noite de abertura e que todas as críticas, pelo menos as que importavam, não tinham poupado elogios à estrela Rachel Berry, a pequena diva judia que havia impressionado a todos os amantes e não amantes dos palcos da Broadway como em muitos anos não se via.

Por mais que as peças estreladas off-Broadway e principalmente Funny Girl tivessem lhe rendido um certo reconhecimento, nada se comparava ao que ela estava vivendo agora. Ela já tinha sido algumas vezes reconhecida pelas ruas de NY, distribuindo alguns autógrafos e tirando fotos com os mais diversos tipos de fãs, concedera algumas entrevistas e, na maioria das vezes, atuava com ingressos esgotados e aplausos de pé não só quando as cortinas se fechavam.

No meio de tudo isso, parecia difícil conseguir um tempo até para registrar e aproveitar tudo o que estava acontecendo. Ela tinha pouquíssimos dias de folga, o que tinha causado uma mudança radical em toda sua rotina. Por outro lado, agora ela tinha tempo de pelo menos acordar um pouco mais tarde pela manhã e almoçar tranquilamente em casa.

“Quando foi que você aprendeu a cozinhar, Rachel?” Santana questionou.

A latina, Rachel e Brody estavam no apartamento compartilhando um delicioso almoço preparado pela própria morena.

“Não sei o que te fez pensar que eu não soubesse.” Ela respondeu, sentando à mesa.

“Não sei. Deixa eu ver...” A latina enrugou a testa, ironicamente. “Talvez as milhões de vezes que eu, Kurt, a Quinn e até mesmo o Brody foi para cozinha preparar algo e você nunca se incomodou de coçar a bunda para ajudar a ferver uma merda de água?”

“Sempre me pareceu que vocês estavam indo muito bem para precisar da minha ajuda.” Rachel respondeu de forma simples.

“Só para deixar claro, isso então quer dizer que você só estava fazendo corpo mole todo esse tempo?” Brody perguntou.

Rachel se concentrou no próprio prato.

“Você está tão fodida comigo, Berry.” Santana se limitou a dizer.

Rachel ainda se lembrava de cozinhar animadamente na casa de seus pais, enquanto cantava alguma de suas músicas preferidas a plenos pulmões e, na maioria das vezes, tinha a companhia de um dos seus pais, quando não dos dois. Mas depois, em NY, manter aquele costume não pareceu tão importante.

“Que bom que você reencontrou suas habilidades culinárias, Berry, porque eu não vou fazer mais porra nenhuma nessa casa por um bom tempo.” A latina ainda disparou. “Falando nisso, cadê a loira?”

“Ela disse que ia almoçar lá pelo escritório mesmo.” Rachel respondeu. “De novo”. Era impossível não perceber uma certa decepção em sua voz.

Brody logo mudou de assunto, comentando o que alguns amigos seus tinham dito depois de assistir a Spring Awakening. Mas não passou despercebido pela latina a perceptível mudança que aquele assunto tinha causado em Rachel.

Era muito difícil para Santana, mas ela estava tentando respeitar o espaço das duas amigas, mais uma vez. O que Rachel não lhe dizia em palavras, ela conseguia ver pela forma com que às vezes ela via a morena olhar para Quinn. A latina sabia, contudo, que aquilo ia muito além de algo que ela pudesse fazer, da mesma forma que ninguém nunca seria capaz de consertar o que havia acontecido entre ela e Brittany...

Fazia algumas semanas que Quinn havia desenvolvido o hábito de sair na companhia dos “projetos de advogado” do escritório dela, como Santana gostava de se referir a eles, e a latina não conseguia deixar de reparar o quanto aquilo parecia fora do lugar. Primeiro, pelo fato daquela mudança ter ocorrido de uma hora para outra, quando a latina pensava que ela não tinha qualquer proximidade maior com os colegas de trabalho, se todos aqueles meses morando em NY fossem um indicativo. Segundo, porque ela nunca havia comentado sobre eles até o loiro, Alex, aparecer no apartamento um dia e elas terem esbarrado com uma tal de Victoria na estreia de Rachel.

Santana não sabia o que pensar daquilo e se ela se preocupava com a morena, ela também não deixava de se preocupar com Quinn. Ela conhecia a amiga e sabia que a loira tinha uma tendência a tomar atitudes precipitadas quando as coisas não estavam bem, se arrependendo amargamente depois. Aquilo definitivamente era algo que todas elas tinham em comum. O maior mistério para a latina era que em um momento tudo estava aparentemente bem e depois alguma coisa parecia ter desandado no meio do caminho, como se algo tivesse acontecido e ela não soubesse o quê. Ela definitivamente odiava se sentir assim. Talvez ela realmente tivesse que ir direto à fonte se quisesse entender o que estava acontecendo...

A latina voltou à realidade quando Brody perguntou o que eles iam fazer aquele final de semana. Santana deu de ombros, o que surpreendeu tanto Brody quanto Rachel, já que ela sempre era a primeira a já ter alguma coisa em mente.

“Sem planos para esse final de semana, Santana?” O moreno perguntou, a sobrancelha erguida.

Ela viu Brody e Rachel trocarem um olhar surpreso.

“Como se fosse da sua conta.” A latina respondeu rispidamente, só pelo costume.

Brody levantou os braços em rendição e levantou da mesa, dizendo que eles tinham que ir se quisessem chegar no horário. Rachel olhou para o relógio e também se levantou, levando seu prato para a cozinha. Ela ainda tinha um bom tempo antes de ter que ir para o teatro.

“O que você tem, Rachel?” A voz de Santana soou atrás dela.

“Eu? Eu não tenho nada.” Rachel se virou para ela e tentou disfarçar com uma expressão confusa, sem sucesso.

A latina estava encostada no portal, os braços cruzados e uma expressão que indicava que ela não havia acreditado nem um pouco na resposta da morena. “É a Quinn, não é?”

Rachel suspirou, assentindo. “Ela só... parece tão inalcançável às vezes.” A diva confessou, se apoiando na pia atrás de si.

“Ela está fazendo o que acha melhor, Rach. Você sabe disso.” A latina tentou argumentar, não querendo ver a amiga daquele jeito.

“Nós nos beijamos aquela noite na praia.” A morena soltou de repente.

“Vocês o quê?” Santana arregalou os olhos, completamente surpresa.

Então Rachel contou tudo o que havia acontecido aquele dia entre Quinn e ela.

“No outro dia eu tentei criar coragem o dia inteiro para dizer alguma coisa, mas meus pais ainda estavam aqui e ela estava agindo tão... eu não sei... como se nada de especial tivesse acontecido entre nós?” A morena tentou explicar.

“Então vocês nem sequer conversaram sobre isso?” Santana quis saber.

Rachel balançou a cabeça em negativa, para depois perguntar. “O que eu faço?”

Ela queria se aproximar cada vez mais de Quinn, enquanto a loira parecia querer impor uma certa distância entre elas, principalmente depois do beijo que haviam trocado. Rachel não parava de se martirizar pela atitude que tivera. O momento tinha sido tão bom! De certa forma, até mesmo mágico. Tinha sido um balde de água fria acordar no outro dia e perceber que talvez aquele momento tivesse sido um erro para a loira.

“Vamos fazer o seguinte... por que não marcamos de encontrar todo mundo? Pode ser aqui, ou no bar do Tom, em qualquer lugar.” A latina propôs.

“Em que isso vai me ajudar, Santana?” Rachel questionou.

“Com a sua estreia a gente mal teve tempo de fazer alguma coisa. A gente reúne todo mundo, deixa a Fabray de porre e você aproveita o momento pra tocar no assunto e ver o que ela diz.”

“Essa é a sua ideia? Embebedar a Quinn? Sério?” A morena revirou os olhos, exasperada. “Isso nunca dá certo! Qualquer coisa entre a Quinn e eu só acontece quando a gente está alcoolizada de alguma forma, por menos que seja. Eu não quero mais isso, San. Eu não quero mais me esconder atrás desse tipo de coisa, eu não quero mais me esconder atrás de nada! E nem quero que ela faça isso.” Rachel desabafou, aflita.

“Ok. Você quer ouvir um conselho muito louco, então?” A latina propôs novamente.

“Manda.”

“Tem certeza? Ele é, tipo, muito louco mesmo. Tipo a última coisa que a gente pensaria em fazer.”

“Fala logo, Santana.” Rachel demandou, impaciente.

“Vira mulher e conversa com ela, Rachel. Manda a real.” A latina disse.

Havia um tempo em que aquele conselho teria feito a morena correr o mais rápido possível na direção oposta. Felizmente, a latina percebeu que não era mais o caso, vendo Rachel parecer considerar aquela ideia por um momento. “E se ela não quiser conversar comigo?” A morena perguntou.

“Então você faz a sua parte. Fala o que você tiver pra falar e pronto. Depois é com ela.”

Rachel assentiu. “Parece uma boa ideia.”

“Claro que é uma boa ideia. Fui eu que dei. Agora deixa eu ir que aquela companhia não funciona sem mim.” Santana disse.

“Não, espera aí.” Rachel segurou a latina. “Você fala de mim, mas não pense que eu não percebi que alguma coisa está acontecendo com você. E nem tente negar.” Ela completou, antes que Santana pudesse dizer alguma coisa.

Então Brody gritou o nome da latina, dizendo que eles estavam muito atrasados.

“Depois falamos disso, ok?” A latina prometeu à amiga antes de deixar um beijo em sua testa e ir embora.

...

“Do início, pessoal!” Brittany comandava seus alunos, ignorando o fato de que a poucos passos de distância, uma latina a observava através de uma das entradas laterais da enorme sala de dança.

Santana reconhecia a coreografia. Era a mesma que Brittany lhe havia mostrado há alguns dias atrás. Pelo visto os alunos da Hart tinham dado boas ideias à loira, pois ela havia conseguido seu intento de torná-la mais longa e ainda mais provocante. Mal sabia Santana que Brittany havia conseguido aquilo sem qualquer ajuda, talvez inspirada pelo momento vivido entre elas naquela fatídica noite...

Santana sentia seu corpo se arrepiar pela mera lembrança daquele dia, o que ocorria com uma frequência maior do que gostaria. Havia noites em que aquilo era tudo o que a latina conseguia pensar.

Não ajudava o fato de que naquele momento ela estava assistindo Brittany executar a coreografia de forma perfeita. Os alunos eram bons, muito bons, mas ninguém chegava à perfeição que era Brittany. Ela era muito superior a qualquer um ali e Santana sabia que sua impressão não estava sendo tendenciosa, era apenas um fato consumado. Brittany esbanjava talento e Santana sempre se veria hipnotizada por qualquer movimento que seu corpo fizesse...

“Vejo que você conseguiu terminar a coreografia.” Santana comentou.

Já era fim do dia e elas estavam mais uma vez naquela mesma sala de dança. Brittany parecia estar pensando exatamente nisso, pois seu corpo tensionou um pouco. Não era algo que poderia ser percebido por qualquer pessoa, porque o sorriso em seu rosto parecia indicar uma aparente tranquilidade. Mas Santana conhecia cada centímetro daquele corpo como se fosse uma extensão do seu próprio...

“Não foi muito difícil. Algumas ideias acabaram surgindo...” A loirinha respondeu, sorrindo para alguns alunos que se despediam dela ao saírem da sala.

Santana assentiu. “O Brody deve estar me esperando para ir embora. Só passei mesmo para dizer que a coreografia ficou ótima, de verdade.” Ela disse, botando as duas mãos nos bolsos traseiros da sua calça, em um claro sinal de nervosismo.

“Obrigada.” Brittany se limitou a dizer, um sorriso suave adornando seus lábios.

A latina assentiu e se virou para sair. Ao alcançar à saída, a voz de Brittany ecoou pela sala...

“Como você sabe que a coreografia ficou ótima? Eu não te mostrei o final.” A loira questionou, curiosa.

Ainda que Santana estivesse completamente de costas para ela, Brittany pôde sentir a latina corar. Ela apenas virou o rosto para a dançarina, um sorriso de lado adornando suas feições ruborizadas.

“Eu apenas sei.” Santana se limitou a dizer antes de ir embora.

...

Rachel estava saindo do banho quando ouviu um barulho na cozinha, estranhando. Ela rapidamente vestiu uma roupa e saiu a passos leves do quarto, só para flagrar uma Quinn cantarolando na cozinha enquanto parecia preparar um sanduíche.

“Hey.” A morena disse, se recostando no batente da porta.

Quinn lhe sorriu afetuosamente. “Você já não deveria estar no teatro?” Ela perguntou, abrindo a geladeira.

“Hoje não tem show. Passei mais cedo por lá porque o Mark queria ensaiar algumas cenas pela milésima vez.” A morena disse, revirando os olhos.

“Quem diria, Rachel Berry reclamando de ensaiar.” Quinn riu, recebendo um tapa no ombro por isso.

Rachel passou por trás da loira e se inclinou contra a bancada, olhando para os ingredientes que a loira estava preparando. “Esses são os meus legumes orgânicos?” Ela questionou.

“Tenho quase certeza que sim.” Quinn disse, mordendo parte de uma mini-cenoura. “Quer um também?”

“Eu quero é que você pare de comer os ingredientes da minha salada, Quinn Fabray!” Rachel ralhou com a loira, tentando manter uma expressão séria no rosto.

“Você deveria me agradecer, isso sim. Você sempre compra muito e eles acabam estragando na geladeira se eu não como.” A advogada se defendeu. “Tem certeza de que não quer um?” Ela lhe sorriu, mordendo um pedaço do sanduíche e oferecendo para a morena.

Rachel revirou os olhos e negou, admitindo a derrota na discussão. “Você também não costuma estar a essa hora em casa. Aconteceu alguma coisa?” Ela perguntou, começando a preparar um café enquanto a loira devorava o sanduíche.

“Tive uma audiência agora no final do dia e vim direto pra casa. Não valia a pena voltar para o escritório.” Quinn respondeu. “Você não vai acreditar no que aconteceu quando eu estava saindo do tribunal hoje...”

E então elas começaram a conversar animadamente, a loira contando sobre o ocorrido, enquanto Rachel terminava de preparar o café, servindo a ambas. Aquilo inevitavelmente remeteu a morena aos dias em que ela e Quinn costumavam ficar somente daquele jeito, conversando por horas e horas. Rachel perdera a conta das vezes em que aquilo havia acontecido.

Podia não parecer e por muito tempo tinha sido negado à morena esse lado de Quinn, mas a verdade era que a loira era surpreendentemente uma boa ouvinte e uma ótima pessoa para se conversar, sempre com alguma história ou algum comentário inteligente na ponta da língua. Quinn sabia ser doce e sarcástica como poucas pessoas conseguiriam um dia na vida e Rachel amava aquilo sobre a loira.

No colégio, Rachel nunca havia imaginado que ela e Quinn seriam amigas assim um dia, por mais que tivesse desejado que sim. Claro, elas tinham desenvolvido uma amizade no último ano, mas a morena nunca tinha esperado algo além daquilo. Talvez algumas visitas no primeiro ano de faculdade, mais por causa da amizade da loira com Santana, mas nem em seus sonhos mais ambiciosos ela tinha imaginado o que Quinn se tornaria em sua vida...

Era uma sexta-feira e Rachel deveria estar animada. Ela tinha contado as horas para aquela sexta-feira durante toda a semana, durante todo o mês. Era o plano perfeito! Santana e Kurt iriam para Lima aquele final de semana e o loft ficaria livre para ela e Finn. A passagem já havia sido comprada e o moreno tinha dito que sua mala já estava arrumada.

Seria o plano perfeito... se ela e Finn não tivessem brigado no dia anterior e se o moreno não tivesse dito, antes de desligar o telefone e não atender mais suas ligações, que não iria para NY. Rachel não entendia como uma briga poderia ser mais importante do que eles finalmente se encontrarem depois de mais de um mês sem se verem. Para ela, o moreno só estava de cabeça quente na hora da briga e certamente voltaria atrás...

Rachel havia ido esperar por ele no aeroporto. Ela tinha visto o avião chegar e ela havia esperado ver Finn sair pela porta de desembarque até a última pessoa. Mas ele não tinha ido. O orgulho do moreno havia, mais uma vez, falado mais alto. Era uma sexta-feira e Rachel deveria estar animada, mas ela não estava. Ela estava no sofá, ainda com a mesma roupa que havia ido para o aeroporto, olhando para a tv desligada, o rosto agora seco das lágrimas que ela já havia cansado de derramar.

Algumas batidas na porta chamaram sua atenção. Ela sabia que não era ele. Kurt havia ligado para ela pouco tempo antes, quando se surpreendeu ao chegar em casa e ver que o irmão estava lá. Ela se levantou a contragosto, andando vagarosamente até a porta, sendo surpreendida por uma Quinn com um sorriso inocente do lado de fora e com uma mochila nas costas.

A loira não conseguiu falar nada, ela apenas se sentiu engolfada por um abraço apertado da morena, que se segurava nela como se sua vida dependesse disso. Rachel sentiu Quinn corresponder ao seu abraço, envolvendo-a em uma redoma acolhedora. A loira nada disse, apenas permaneceu ali, carinhando o topo da sua cabeça com uma das mãos enquanto a outra a segurava firmemente, demonstrando seu apoio. Rachel então se soltou da loira, trazendo-a para dentro, se sentindo um pouco mais calma ao fitar o olhar sereno que Quinn lhe direcionava. Ambas se sentaram no sofá, Rachel virada para frente, fitando o teto e a loira virada para ela, sua mão continuando o carinho dado nos cabelos castanhos.

“A Santana não está aqui. Ela e o Kurt foram para Lima ontem, só voltam no domingo.” Rachel disse.

“Eu sei.” Quinn acenou com a cabeça. “Eu não vim aqui para ver a Santana ou o Kurt. Eu vim aqui para ver você.”

“Claro. Algum dos dois te disse o que o Finn fez e você foi obrigada a largar seus planos em New Haven e vir cuidar da pobre Rachel.” A morena falou, talvez em um tom mais agressivo do que pretendia.

“A Santana só me disse que você e o Finn tinham brigado e que ele tinha ficado em Lima. Você é minha amiga, Rachel. Eu não preciso que os outros me obriguem para eu vir te ver.” A loira respondeu calmamente, como se estivesse explicando a mais simples das coisas.

“Desculpa.” Rachel disse ao olhar para a loira, envergonhada de ter falado com a amiga daquela forma.

“Não tem do que você se desculpar, Rach. Eu sei que você não está bem.” Quinn fez questão de dizer, segurando a mão direita da morena com a sua.

Rachel sentiu o aperto da mão de Quinn, sabendo que a loira queria transmitir com aquele pequeno gesto que estava ao seu lado. A loira estava se tornando uma pessoa tão gentil e carinhosa, era impossível não se contagiar com aquilo.

“É que você só vem pra cá quando a Santana está. Quero dizer, eu sei que somos amigas, mas não sei se...” A morena começou a falar, sendo interrompida por mais um aperto da mão da loira na sua.

“Eu não venho pra cá só quando a Santana está. Eu venho pra cá visitar meus amigos que, coincidentemente, moram juntos.”

Rachel lhe sorriu, brincando com os seus dedos. “Obrigada, Q. Por ter vindo. Significa muito pra mim você estar aqui.

“Você acha mesmo que eu iria deixar você se arrastando triste por esse loft o final de semana inteiro por causa do Finn?” A loira arqueou a sobrancelha. “Você vai levantar nesse exato minuto, tomar um banho, se arrumar e nós só vamos voltar pra casa quando o dia amanhecer.” Quinn disse.

A morena balançou a cabeça, incrédula. “Você acha mesmo que eu tenho ânimo para sair? Olha pra mim, Quinn.” Ela apontou para as roupas amassadas e para o rosto inchado.

“Rachel, não me leve a mal porque eu não estou tentando de forma alguma diminuir como você está se sentindo, mas nós vamos sair. Amanhã você pode desabafar e chorar o quanto você quiser e eu prometo que vou escutar cada palavra, caso seja isso que você queira fazer. Mas hoje você não vai ficar nesse loft chorando por um cara, hoje você vai sair comigo e, acredite, nós vamos nos divertir.”

Depois disso a morena não tinha muito mais argumentos. Por um dia ela podia esquecer que era a Rachel lutando para manter um namoro à distância e ser a Rachel em seu primeiro ano de faculdade em NY curtindo a noite com ninguém menos do que Quinn Fabray. E foi isso que ela fez naquela noite. Ela e Quinn foram para um dos bares que seus amigos de NYADA costumavam frequentar, depois foram levadas por alguns deles para uma boate, onde dançaram até seus corpos não aguentarem mais. Depois elas foram parar em um café logo do outro lado da rua e, como prometido, chegaram em casa só depois que o sol havia nascido.

Rachel sinceramente não se lembrava da última vez que havia se divertido tanto...

No outro dia, Quinn também havia cumprido sua promessa de escutar o que a morena quisesse dizer, indo embora somente no domingo à tarde, depois que Kurt e a Santana já haviam chegado. Na segunda, o celular de Rachel amanheceu recheado com várias mensagens de desculpas e outras tantas promessas de Finn e eles finalmente conversaram à noite, o moreno parecendo realmente arrependido do que havia feito e disposto a se esforçar mais para que o relacionamento desse certo. Rachel foi dormir com o coração leve, tendo feito às pazes com o namorado e feliz pela promessa feita de que eles se veriam em breve...

Tanta coisa havia acontecido daquele momento até ali, com ela e Quinn conversando despreocupadamente na cozinha do apartamento que dividiam. Mas Rachel não estava tão despreocupada quanto fazia parecer. Ainda era difícil para a morena olhar para a loira e conseguir enxergar apenas a Quinn que era sua amiga. Na verdade, era impossível. A todo o momento martelava em sua cabeça o fato de que ela e Quinn haviam trocado um beijo a apenas alguns dias atrás...

“...e então o advogado da empresa me ligou implorando por um acordo...”

Quinn continuava contando sua história, a voz rouca característica da loira ecoando pela cozinha e aquecendo a morena por dentro. Rachel sabia que não haveria momento certo para tocar no assunto, ela simplesmente teria que criar coragem. E a coragem veio do fato de que depois de dias a loira finalmente estava agindo normalmente com ela. A diva então esperou com que a loira terminasse de falar e respirou fundo, fixando seus olhos castanhos em Quinn.

“Quinn...” Rachel interrompeu a loira, hesitante. “Aproveitando que estamos a sós...” Ela começou. “Tem algo que eu estou querendo conversar com você há algum tempo.”

A loira se calou, arqueando a sobrancelha, questionadora.

“Na noite da minha estreia...” Rachel disse, ao mesmo tempo em que um barulho de porta foi ouvido, fazendo com que a morena parasse de falar.

Ela olhou para Quinn, que tinha uma expressão estoica no rosto. Antes que alguma das duas pudesse dizer alguma coisa, Santana apareceu, botando seu capacete na mesa da cozinha e abrindo a geladeira, alheia ao que tinha acabado de interromper.

“Pelo visto sou a única que trabalho por aqui.” A latina se limitou a comentar, pegando uma cerveja da geladeira e sentando ao lado de Quinn. “O que vocês estavam fazendo enquanto eu ralava a bunda no trabalho?”

Quinn bufou, inconformada, mas logo ela e a latina começaram a conversar e então Rachel percebeu que o momento de falar havia, infelizmente, passado.

...

Brittany abriu a porta de casa, entrando no ambiente silencioso e indo direto para o quarto. Ela precisava de um banho. Havia sido um dia exaustivo e os músculos do seu corpo doíam, implorando por descanso. Ela se despiu e ligou o chuveiro, entrando debaixo da água quente e deixando escapar um suspiro de satisfação.

Aquele era para ser apenas mais um dia de trabalho. Como todos os outros eram para ser apenas mais um dia de trabalho. Mas eles nunca eram. Nunca eram porque eles também eram os dias em que ela e Santana estavam no mesmo lugar, andando pelos mesmos corredores e convivendo com as mesmas pessoas.

Brittany saiu do banheiro ainda enrolada na toalha, procurando uma roupa confortável para vestir. O banho tinha sido o suficiente para curar seus músculos doloridos, mas ela ainda não tinha encontrado a cura para o que Santana representava em sua vida. No início, tinha sido fácil. Faziam anos que ela e a latina se evitavam mutuamente e foi exatamente isso que ela fez quando soube que a ex-namorada trabalhava na Hart. Ela simplesmente agiu como se aquilo não estivesse acontecendo com ela e continuou normalmente com a sua vida e com o seu relacionamento.

Carter e ela tinham sido capazes de permanecerem felizes mesmo com a distância. Desde que ela se mudara, ligações, mensagens e Skype tinham sido suficientes. Mas entre ela e Santana não existiam apenas lembranças, existia todo um universo em comum que ficava cada vez mais evidente quanto mais o tempo passava. Era fácil ignorar a latina quando elas se viam uma vez por ano. Mas não era tão fácil quando a sua melhor amiga morava com Santana ou quando todos os seus amigos em NY eram também amigos de Santana. E então todos os momentos em que ela tinha evitado falar do seu passado com Carter estavam começando, sorrateiramente, a pesar toneladas entre elas. Havia uma parte de Brittany que a morena de olhos claros jamais havia conseguido acessar e que estava formando um abismo crescente entre elas, por mais que Brittany tentasse diminuí-lo.

Como se estivesse lendo seus pensamentos, a tela do seu celular acendeu na cama, indicando uma ligação.

“Hey, baby.” Brittany atendeu, uma certa hesitação na voz.

Ela e Carter haviam brigado no dia anterior e por mais que a morena dissesse que estava tudo bem entre elas, Brittany permanecia com a sensação de que nada de fato estava bem. Talvez não entre elas, mas com si mesma.

“Brittany, você sabe que horas são?” Carter perguntou do outro lado da linha. A loira podia ver que a namorada não estava nem um pouco feliz.

“Acho que oito horas da noite?” Ela respondeu, confusa com o tom da namorada.

“Oito horas da noite em um dia que você tinha combinado de me encontrar pelo Skype às sete horas da noite?” A morena perguntou.

Birttany fechou os olhos, se xingando mentalmente. “Carter, eu... me desculpa, amor.”

“Você esqueceu, não foi?” A voz chateada da namorada quebrando o coração de Brittany.

“Hoje foi tão corrido na Hart! Eu tinha que fechar uma coreografia e acho que acabei perdendo a noção do tempo. Eu estou tão cansada que só pensei em chegar em casa, tomar um banho e comer alguma coisa. Depois eu ia ligar pra você... ” Brittany tentou se explicar.

“Tudo bem, Britt. Era só ter me avisado. Já não é a primeira vez...”

“Me perdoa.” A loira pediu num fio de voz.

A linha ficou muda por alguns segundos e a loira soube que a namorada estava mais uma vez passando por cima dos próprios sentimentos para que elas não brigassem. Brittany insistiu para que elas fossem para o Skype e enquanto preparava algo para comer, a loira escutava a namorada contar tudo sobre o seu dia, mesmo que não com a mesma animação que lhe era tão característica. Ela sabia que Carter ainda estava chateada, mesmo que tentasse não transparecer, mas a loira queria mais que tudo evitar outra discussão.

Então elas nada mais disseram sobre o assunto e tentaram durante toda a noite manter as coisas normais entre elas. Carter propôs um filme e a loirinha prontamente aceitou, sabendo que aquela era a forma da namorada dizer que tudo ficaria bem entre elas. Brittany deixou com que ela escolhesse o filme enquanto se ajeitava confortavelmente no sofá.

O filme parecia interessante, mas a mente de Brittany estava, mais uma vez, longe dali.

Esses eram os dias mais difíceis. Dias em que ela e Santana compartilhavam algum momento, por mais breve que fosse. Elas não se evitavam mais. Não, elas não se evitavam. Elas tinham esses pequenos momentos entre elas, momentos que mexiam com Brittany mais do que ela jamais admitiria.

Talvez o problema entre ela e Carter não estava sendo a distância. Talvez o problema entre ela e Carter fosse a proximidade. Uma proximidade que mal existia, mas que já a afetava. Não por fora, onde Carter pudesse ver. Mas por dentro, onde só Brittany conseguia enxergar...

...

Quinn estava sentada em sua mesa de estudo, concentrada em seu notebook, quando uma leve batida na porta no quarto chamou sua atenção.

“Hey...” Rachel disse. “Posso entrar?”

“Claro, Rach.” Quinn respondeu, virando sua cadeira para a cama, onde a morena havia acabado de sentar.

A advogada viu a morena respirar fundo, passando as mãos nervosamente sobre a calça. “Eu tentei conversar com você mais cedo e não consegui, então antes que eu perca a coragem, eu vou tentar ser o mais direta e sincera possível, ok?”

“Ok...” Quinn assentiu, um leve temor pelo que a morena pudesse dizer se instalando em seu peito. A loira sabia sobre o que a morena ia falar, ela só não sabia se estava preparada para ouvir o que Rachel tivesse para dizer.

Ao que tudo indicava, ela descobriria isso em breve.

“Eu não quero repetir os erros que cometi no passado e eu também não quero mais passar os dias me perguntando o que teria acontecido se eu tivesse tido a coragem de agir de forma diferente. Talvez se aquele beijo tivesse acontecido alguns meses atrás eu conseguiria fingir pelo resto da minha vida que ele não significou nada demais, que foi apenas uma coisa de momento. Mas agora eu sei que tudo entre nós sempre teve um significado e, sinceramente, eu não quero mais fingir que não.” Rachel declarou em um fôlego só.

A morena tinha sido direta e sincera, de fato. E isso fez com que todo o ar fosse expulso dos pulmões de Quinn. Ela não podia... não, ela não conseguia lidar com aquela Rachel. Alguns meses atrás a morena a tinha deixado louca com atitudes tortas e ambíguas e agora as atitudes da morena a deixavam nada menos do que completamente paralisada, incapaz de esboçar qualquer reação. Por fora, alguém poderia pensar que se tratava de mera apatia, pois Quinn podia jurar que desde que a morena tinha começado a falar ela não tinha mexido um músculo sequer, mas a verdadeira batalha que a loira travava era por dentro, era de fundo, era na alma...

“O que eu estou querendo dizer...” A morena balançou a cabeça. “Na verdade, o que eu quero saber é se pra você aquele beijo também significou algo ou se, como eu disse, foi apenas algo de momento.” A morena finalizou, cravando seus olhos castanhos sobre a loira.

Quinn sentia a firmeza do olhar de Rachel sobre si, mas também percebia o mesmo nervosismo de quando ela entrara em seu quarto, o antigo costume de morder o lábio inferior voltando à tona. E talvez aquilo tenha feito com que ela mesma se acalmasse um pouco. Quinn sabia que não deveria ser fácil para a morena dizer tudo aquilo, assim como não era fácil para ela responder o que Rachel havia questionado.

“Rach...” Quinn hesitou, desviando o olhar da morena. “Eu não sei se eu tenho a resposta que você quer ouvir ou a resposta que você espera.”

“Eu não estou esperando nada, Q. Eu só quero a verdade.” A morena disse.

A loira permaneceu hesitante, respirando fundo.

“Tudo bem, Quinn. Você não precisa me responder se esse assunto te deixa desconfortável.” Rachel então disse, seus ombros caindo em um claro sinal de derrota. “Eu devo estar ficando realmente louca pra ter vindo falar disso com você.” Ela riu sem emoção.

“Eu quero ser sincera com você.” Quinn finalmente declarou. “Mas a verdade talvez não seja tão simples assim. Entende o que eu quero dizer?”

“Eu acho que não.” Rachel franziu a testa.

Quinn respirou fundo. “Eu estaria mentindo se eu dissesse que aquele beijo não significou nada.” A loira confessou. “Mas isso não quer dizer que nós vamos... que eu e você...” Ela pausou, em uma clara dificuldade de se expressar.

Mas ela não precisava, a morena podia ver claramente através das orbes avelãs o que era tão difícil para a loira dizer. “Eu entendi o recado.” Rachel disse, sorrindo fraco. “Está tudo bem. De verdade. Eu não vim aqui esperando nada, como eu disse. Eu só não queria que isso ficasse entre nós como algo ruim e desde aquela noite, e isso pode ser coisa da minha cabeça, você parecia um tanto distante.”

“Não, não é coisa da sua cabeça.” Quinn sentiu a necessidade de esclarecer para a morena. “Eu só não sabia como agir. Eu achei que talvez você pudesse não se lembrar do que tinha acontecido.”

“Eu não tinha bebido tanto assim.” Rachel franziu a sobrancelha.

“Ok. Sinceramente? Eu achei que você fosse fingir que não tinha acontecido. Acho que eu só quis facilitar as coisas...” A loira confessou.

Rachel sabia que o fato de Quinn esperar o pior dela naquela situação era completamente justificável, mas isso não significava que doía menos. “Eu entendo o porquê de você ter pensado isso.” A morena falou. “Mas acredite em mim quando eu digo que você se afastar não é uma opção pra mim, não me facilita em absolutamente nada. Nunca facilitou, na verdade, por mais que eu tentasse transparecer que sim.” Ela disse, a voz um pouco falha.

Quinn via os olhos castanhos da morena sobre si, firmes, via a urgência com que a morena falava, tentando convencê-la de que as suas palavras eram genuínas. E mais que isso. Quinn sentia tudo aquilo, absorvia. Rachel havia aberto suas represas e agora tudo o que ela falava ou expressava fluía quase que com perfeição, diretamente para si. A loira então se viu pegando nas mãos da morena, segurando-as em um aperto firme, porém carinhoso.

“Eu acredito em você, Rach. E prometo que não vou mais supor suas atitudes nem me afastar de você ao invés de resolver qualquer coisa que aconteça entre nós.”

Quinn sabia que havia pegado Rachel completamente de surpresa pelo gesto, mas logo sentiu as pequenas mãos da morena corresponderem ao seu aperto e assentir para o que ela havia acabado de dizer, uma expressão de alívio em suas feições.

“Isso é bom, é realmente bom.” A morena lhe sorriu. “Eu estou gostando de poder ser sincera com você e ter isso de volta.”

Quinn desfez o toque entre elas e riu. “Quem diria, uh? Quem vê poderia até pensar que estamos começando a agir como pessoas adultas.” A loira brincou, tentando quebrar um pouco do clima pesado que havia se instalado entre elas.

“Acho que eu posso me acostumar com isso de ser adulto.” Rachel brincou também.

O ar então pareceu ficar um pouco mais leve entre elas. Algo importante parecia ter sido resolvido, mesmo que Quinn não conseguisse dizer exatamente o quê. Rachel parecia ter naturalmente deixado aquele assunto para trás, permanecendo no quarto como costumava fazer, falando sobre outras coisas. Até Santana enfiar a cabeça na porta e anunciar que ia começar a ver um seriado novo, caso elas quisessem se juntar a elas na sala.

“Eu topo.” Quinn disse, sabendo que não ia conseguir terminar mais nada do escritório aquela noite.

Rachel foi um pouco mais relutante, alegando que já era tarde para começar a ver qualquer coisa e que deveria aproveitar o dia de folga para dormir mais cedo e renovar suas forças para o show no dia seguinte.

“Vamos, Rach. Não me deixe assistir algo indicado pela Santana sozinha com a própria Santana. Depois a gente não vai nem poder concordar que é péssimo e obrigar ela a ver outra coisa.” Quinn disse, tentando convencer a morena. “E você nem precisa acordar cedo amanhã.” Ela acrescentou.

Rachel sorriu de lado, balançando a cabeça. “Ok, Fabray. Eu topo.” Ela disse em um tom arrastado, como se estivesse fazendo um grande sacrifício. “Mas fala com a Santana que vou tomar um banho primeiro, pra ela me esperar.” Avisou, levantando e indo para o próprio quarto.

Santana já estava mais do que impaciente quando Rachel finalmente apareceu na sala, vestindo um confortável pijama.

“Pronto, pode começar.” A diva disse, se sentando ao lado de Quinn e ignorando as facadas que a latina lhe lançava com o olhar.

A loira riu e ofereceu metade do cobertor que usava para a morena, que lhe sorriu em agradecimento, o barulho da televisão desviando a atenção de ambas para o início do episódio.

Surpreendentemente, a série era realmente interessante. Alguns episódios depois e Quinn mal registrou o fato quando Rachel apoiou os pés em seu colo, a loira naturalmente ajustando as pernas da morena para que ela ficasse mais confortável. A própria Rachel parecia não ter se dado conta do que havia feito, sorrindo levemente ao sentir o carinho singelo da loira, seus olhos grudados no que acontecia na tela.

“Alguém quer um chocolate quente?” Santana perguntou ao fim de um episódio, levantando.

Tanto Quinn como Rachel assentiram, permanecendo na mesma posição. Estava bastante frio naquela noite e qualquer bebida quente era bem-vinda.

“O meu é com leite de soja.” Rachel gritou para a latina, que nada respondeu.

“Acho que a Santana já sabe disso, Rach.” Quinn comentou.

“Não custa lembrar.” A morena disse, se levantando e indo atrás da latina.

Quinn balançou a cabeça, rindo sozinha ao escutar as duas amigas discutindo na cozinha. Não muito tempo depois Rachel voltou com duas canecas em mãos, oferecendo uma para a loira e sentando novamente ao seu lado.

“Obrigada, S.” Quinn disse para a latina que acabava de sentar do seu outro lado.

“De nada, Fabray. Agora cala a boca vocês duas que eu vou botar o próximo episódio.” Santana disse.

“A Quinn estava apenas agradecendo e eu não disse nada!” Rachel disse em tom de indignação.

“Não pense que eu não escuto vocês duas comentando as cenas toda hora. Não quero uma palavra dessa vez.” Santana rebateu.

Rachel revirou os olhos e cruzou os braços e Quinn se limitou a rir enquanto a latina dava início ao episódio. Era apenas Santana sendo Santana e Rachel Berry sendo Rachel Berry. E disso Quinn jamais iria reclamar...

Algum tempo depois e Quinn já tinha perdido completamente a noção de quanto tempo elas estavam vendo a série. Devia ser realmente tarde, porque seus olhos pesavam e mesmo nas cenas mais interessantes ela estava começando a ter uma certa dificuldade em se manter atenta. Ela estava quase dizendo que elas deveriam continuar no dia seguinte quando sentiu uma movimentação ao seu lado e alguma coisa se apoiar em suas pernas. O formigamento que se espalhou pelo seu corpo veio antes da confirmação visual de que sim, Rachel tinha acabado de deitar em seu colo. O corpo de Quinn endureceu imediatamente, parecendo entrar em algum tipo de estado de alerta, o sono que antes ameaçava lhe dominar simplesmente desaparecendo. Completamente alheia àquela reação, Rachel se remexeu, parecendo procurar a posição mais confortável por alguns momentos e então soltando um suspiro de satisfação ao encontrá-la.

Quinn realmente não sabia o que fazer, principalmente com o braço que queria tão desesperadamente se envolver na cintura da morena, a puxando para mais perto, quase como se tivesse vontade própria. Mas a loira resistiu bravamente, concentrando todas as suas forças em manter a respiração normal e a atenção voltada para a televisão, não para o perfil do rosto moreno que parecia brilhar com o reflexo da luz, tão belo, tão perto de si...

Então o seu celular vibrou na mesinha à frente, indicando uma ligação e ela praticamente pulou do sofá, atendendo a chamada.

“Hey, Britt... espera só um momento.” Ela falou, gesticulando para que Santana pausasse o episódio, saindo da sala logo em seguida.

“Sutil, Berry. Como a caminhoneira que você é.” Santana disse do outro lado do sofá.

“Eu não sei do que você está falando.” Rachel disse, virando de barriga para cima e fitando o teto enquanto tentava ignorar as risadinhas de Santana.

“É bem tarde para a Brittany ligar, não? Será que aconteceu alguma coisa?” A latina mudou de assunto de repente, a voz mais séria.

“Eu já vi ela ligando para a Quinn mais tarde do que isso.” A morena disse, dando de ombros.

De canto de olho, entretanto, Rachel observava atentamente a amiga. Santana parecia realmente preocupada e apesar dela nada dizer, a morena vinha percebendo uma crescente mudança no comportamento da amiga sempre que Brittany era citada. Se antes a latina tentava agir como se não se importasse ou ficava extremamente irritada, recentemente Rachel vinha notando uma ansiedade cada vez mais evidente em seu comportamento.

“Aproveitando que a Quinn não está aqui, talvez você queira me dizer o que está rolando entre você e a Brittany.” A pequena diva soltou, sem olhar para a latina.

“Bateu com a cabeça, Berry?” Rachel ouviu Santana dizer, o que lhe fez revirar os olhos.

“Se você não quer falar, você sabe que eu sou a última pessoa que vou obrigar você a fazer isso. Mas você também sabe que eu sou a última pessoa que vai te julgar por qualquer coisa que você me disser.” A morena se limitou a dizer.

A sala permaneceu em silêncio depois do que fora dito pela morena. Rachel também não julgava o silêncio de Santana, não depois de ela mesma ter se refugiado nele por tantas e tantas vezes. Ela só desejava reafirmar para a latina que estava ali, ao seu lado, para o que quer que ela precisasse.

Rachel nem sabia quanto tempo havia passado quando ouviu a voz da latina, baixa e suave, tão diferente do que costumava soar.

“Tem acontecido... momentos... entre a Brittany e eu.”

“Momentos?” A morena franziu a testa.

“Eles não são nada demais. Só conversas aqui e ali.” A latina tentou explicar.

Por mais que ela quisesse contar a Rachel sobre a dança que haviam compartilhado, ela não o fez. Parte porque ela queria preservar Brittany e parte porque ela queria que aquele momento ficasse só para ela, guardado em sua memória.

“Conversas sobre vocês?”

“Não... conversas normais, sobre a Hart, sobre as coreografias dela, sobre qualquer coisa.” A latina esclareceu.

“E como você se sente conversando com ela?” Rachel perguntou, lançando um olhar para a amiga.

Santana abraçava as pernas no sofá, o olhar vidrado em frente, como se todos os momentos entre Brittany e ela estivessem passando pela sua cabeça naquele exato momento. “Não é a conversa em si, é mais o fato de que... de que a gente não se evita mais. Eu não sei quando ou como isso aconteceu, mas antes ela era algo que eu tentava ignorar com todas as minhas forças e eu sentia que ela fazia o mesmo e agora...”

“E agora...?” Rachel incentivou a latina a continuar.

“E agora nós temos momentos. Momentos em que a gente não se ignora mais.”

“Isso é bom, não?” A morena sorriu. Mas tudo o que ela ouviu foi a latina suspirar pesadamente. “Não?”

“Eu não sei, Rachel.” Santana balançou a cabeça. “Você sabe como eu me sinto. É difícil ter ela por perto, ao mesmo tempo em que é maravilhoso...” A latina confessou.

“Quer ouvir um conselho muito louco?” Rachel propôs, fazendo a latina rir.

“Qual conselho ridículo você tem pra mim, Berry?” Santana olhou para a morena, arqueando a sobrancelha.

A latina observou Rachel levantar e se sentar de frente para ela, o olhar sério sobre si. “Não fuja disso. Aproveite todo e cada momento que você tiver ao lado dela.”

“Mesmo que isso me machuque?”

“O que te machuca não é a Brittany, San. O que te machuca é o fato de você ainda não ter conseguido se perdoar pelos erros que você cometeu com ela. Eu lembro de como você era com ela e eu vejo como ela te afeta só por estar perto. A Brittany não é a ferida, San, a Brittany é a sua cura. E curar às vezes pode doer.” Rachel disse, vendo uma lágrima escapar dos olhos da latina.

“Eu odeio quando você acha que tem razão.” A latina rebateu, jogando uma almofada na cara da morena.

“Você odeia quando sabe que eu tenho razão.” Rachel retrucou, jogando a almofada de volta.

Inevitavelmente, uma pequena guerra de almofadas se iniciou entre elas, culminando com a morena ao chão e uma latina ofegante, porém triunfante no sofá.

“Eu saio por um minuto e vocês viram a sala do avesso?” Quinn disse exasperada ao adentrar na sala, sem se surpreender.

“Só senta a bunda no sofá e dá o play, Fabray.” Santana retrucou enquanto amarrava os cabelos. “Quero terminar de ver essa porra de episódio e ir dormir.” E então uma almofada a atingiu com toda a força na cara, fazendo a latina soltar os cabelos ao mesmo tempo em que Rachel soltava uma gargalhada.

“Apenas corra.” A latina anunciou para a loira de rosto impassível antes de mais uma guerra se iniciar, a televisão esquecida enquanto as três amigas travavam uma guerra épica de travesseiros em plena madrugada.

Notas finais
Essa era apenas uma parte de um capítulo, mas ele ficou muito grande (mais do que o normal) e então dividi em dois. Então esperem uma atualização em breve! Aproveitando o assunto, vocês acham os capítulos que a gente posta muito grandes? Eles ficam cansativos? Pessoalmente, eu amo capítulos longos, mas entendo que talvez quebre um pouco o ritmo da história. Me diz o que vocês acham! Até a próxima!