How To Save A Life
32 ... And I Say Hello
Notas iniciais
Rachel entrou no bar do Tom e logo avistou Samuel acenando para ela por detrás do balcão e apontando para uma das mesas mais ao fundo, de onde Quinn também acenava para ela. Um sorriso fácil adornou seus lábios ao avistarem a loira depois de um dia tão exaustivo no teatro. Ao se aproximar, contudo, ela viu que Quinn não estava sozinha. Alex e Victoria faziam companhia à loira, ambos portando expressões simpáticas no rosto ao cumprimentarem-na.
“Já nos conhecemos no dia da sua estreia, mas entendo completamente se você não se lembrar de mim.” Victoria brincou, logo quebrando o gelo. “Você provavelmente deve ter sido apresentada há tantas pessoas aquele dia.”
“De fato.” Rachel riu. “Mas claro que eu me lembro de você, Victoria. Além de trabalhar com a Quinn, você é irmã da Melanie, certo?”
Victoria confirmou. “Daqui a pouco ela deve passar por aqui.” Ela comentou.
“Bom, eu tenho certeza que a Rachel não se esqueceu de mim.” Alex disse do outro lado da mesa. “Com certeza eu deixei uma impressão inesquecível quando nos conhecemos.” Ele disse em um tom convencido, ganhando um tapa tanto de Quinn quanto de Victoria.
Rachel se limitou a rir, percebendo que o loiro estava apenas brincando.
“Eu só não vou alertar a Rach sobre o seu comportamento porque tanto eu quanto ela já conhecemos tantos caras iguais a você que já deixou de ser irritante, agora é só patético mesmo.” Quinn disse, arqueando a sobrancelha.
Isso fez com que Rachel risse involuntariamente pelo nariz e Victoria soltasse uma bela gargalhada.
“Ouch. Essa doeu.” Alex disse. “Você é má, doutora Fabray.”
Assim que avistou Quinn acompanhada dos colegas de trabalho, Rachel imaginou que se sentiria deslocada, mas ela logo percebeu que se tratava de um temor infundado. Victoria a todo momento comentava sobre a peça, fazendo diversas perguntas para a morena e parecendo realmente interessada em tudo que Rachel dizia. Por ter uma irmã que trabalhava no teatro, Rachel imaginou que ela possuía um interesse maior no assunto e era realmente bom conversar com alguém que conhecia um pouco mais do que as pessoas normalmente conheciam de um universo que ela amava.
Alex, por outro lado, era definitivamente o alívio cômico entre elas e a fazia lembrar estranhamente de Puck, de uma maneira positiva. Uma versão mais responsável do velho amigo, para ser mais exata. Rachel suspeitava fortemente que talvez por isso ele e Quinn tivessem virado amigos e ela parecia mais confortável na presença dele do que a morena poderia supor. Rachel poderia estar completamente enganada, mas ao contrário da primeira impressão que tivera, ele não parecia nutrir qualquer interesse a mais em Quinn.
“Então, Rachel... a Vic me disse que você e a Quinn são amigas desde o colégio.” Alex começou, ganhando um aceno positivo da morena. “Me desculpe a indiscrição, mas a pergunta que realmente não quer calar é: como você aguentou a Quinn por todos esses anos?”
A loira revirou os olhos enquanto a morena ria. “Eu me pergunto isso até hoje, Alex.” Rachel entrou na brincadeira, fingindo uma cara de sofrimento e ganhando um olhar indignado de Quinn.
“Nada disso. Queremos detalhes! Um manual de instruções, se possível.” O loiro insistiu, enquanto Quinn balançava a cabeça.
“Ignorando completamente o Alex, eu sinceramente não sei como vocês conseguiram manter uma amizade de colégio.” Victoria comentou. “Eu acho que não converso com mais ninguém com quem eu estudei. Eles nem me reconheceriam, provavelmente.”
Quinn e Rachel trocaram um olhar cúmplice. “Essa definitivamente é uma conversa para um outro dia, Victoria. É uma longa, longa história.” Rachel disse.
“Bem longa.” Quinn enfatizou.
“Mas não desanime, Alex.” Rachel brincou com o loiro. “A Quinn é difícil no começo, ninguém sabe disso mais do que eu, te garanto.” Ela completou. “Mas vale muito a pena no final.” Ela sussurrou depois, para que só a loira ao seu lado pudesse ouvir, lançando um sorriso doce em sua direção.
Rachel pôde testemunhar o exato momento em que a loira corou com o que havia dito. Tinha sido algo tão espontâneo e despretensioso, assim como a timidez de Quinn naquele momento. Era uma sensação tão boa, saber que ainda era capaz de provocar aquele tipo de reação, tão rara quando se tratava de Quinn.
Isso fez com que o sorriso singelo que havia se apossado do rosto moreno ainda estivesse presente quando Santana chegou acompanhada de Brody, avisando que Kurt e Blaine não demorariam a chegar. Brody e Alex se entenderam logo de cara, para a irritação da latina.
“Já vou avisando que o Brody é o único hétero de estimação que estamos dispostas a aceitar desse lado do arco-íris, Bishop.” Santana disse para Alex.
“Espera aí! E a Victoria?” O loiro questionou.
“E quem disse pra você que eu sou hétero, Alex?” A advogada questionou, causando um pequeno rebuliço na mesa.
“Gostei dela.” Santana comentou com Quinn.
A loira, entretanto, estava levemente distraída, testemunhando uma discussão acalorada entre Kurt e Rachel sobre alguma atriz famosa da Broadway que a morena tinha conhecido. Ela ia responder a latina quando seu celular vibrou. Quinn o tirou do bolso e assim que viu do que se tratava, rapidamente se dirigiu para fora do bar.
Ela olhava de forma preocupada para o que lia na tela do aparelho, suspirando pesadamente ao final, o ar se condensando a sua frente diante do frio que fazia. Então um rosto familiar se aproximando chamou sua atenção.
“Mel! Como você está?” Ela sorriu ao cumprimentar carinhosamente a irmã de Victoria, compartilhando um rápido abraço.
“Acho que tirando um estresse ou dois com o meu chefe, infelizmente nada mudou da última vez que nos vimos.” A morena respondeu, brincando. “E você?”
“O mesmo.” Quinn respondeu, dando de ombros, fazendo a morena rir. “Nós estamos na última mesa à esquerda. Se você não reconhecer alguém, não se preocupe, são meus amigos. E já avisando, o Alex está aí.”
Melanie revirou os olhos antes de fixá-los novamente na loira. “Não vai entrar?”
“Só vou fazer uma ligação e já vou.” Quinn respondeu.
Melanie assentiu e sorriu de lado antes de entrar no bar. A loira então voltou ao celular, o nome de Brittany brilhando na tela.
Rachel olhou pelo que parecia a centésima vez para a porta do bar, por onde Quinn havia saído fazia alguns minutos com o celular em mãos e uma expressão preocupada no rosto. Então ela sentiu Santana estalar os dedos na sua frente, a fazendo voltar o rosto para a mesa. Melanie tinha acabado de chegar, sentando ao lado da irmã e cumprimentando a todos.
“Melanie! Que bom te encontrar aqui, fora do teatro!” Ela disse animadamente.
“Eu e a Rachel já viramos melhores amigas, Mel.” Victoria brincou. “Mas prometo que não contei todas as suas histórias embaraçosas, deixei algumas pra você mesma contar.” Ela riu.
“Vic, diz pra mim que você não me envergonhou na frente da Rachel Berry!” Melanie apontou o dedo para a irmã.
“Não se preocupe, Melanie. Sua irmã só falou bem de você.” Rachel a tranquilizou. “Já que a Quinn não está aqui, deixa eu te apresentar os nossos amigos. A Santana você já conheceu na estreia, esse é o Kurt, Blaine e Brody.” A morena esclareceu.
Melanie cumprimentou a todos de forma simpática.
“Estava mesmo perguntando a sua irmã se você tinha se esquecido de nós.” Alex disse, fazendo uma expressão de abandono.
Melanie balançou a cabeça. “Não seja dramático, Alex. Eu encontrei com vocês não faz nem uma semana.”
“Ainda assim senti saudades, Mel.” O loiro disse, piscando para ela e ganhando um revirar de olhos como resposta.
Rachel observava a interação entre os dois. Pelo visto, o interesse de Alex realmente não era em Quinn, mas sim na morena que acabava de chegar. O loiro não parecia ser correspondido, contudo, levando em consideração a reação de Melanie. Não deixava de ser engraçado assistir às investidas bem-humoradas do loiro, ainda mais ao perceber que ele definitivamente não fazia o tipo de Quinn. Não mesmo.
“Ao contrário da Victoria, eu não tenho nenhuma obrigação moral como sua irmã, Rach.” Santana comentou para toda a mesa ouvir. “Tenho certeza que o pessoal do teatro vai amar saber como você era no colégio.” A latina provocou.
“Oh, Deus.” Rachel disse. “Por favor, não.” A morena pediu, enquanto Kurt e Blaine trocavam risinhos.
A latina continuou a brincadeira, mas a atenção de Rachel foi desviada novamente para a entrada do bar, de onde Quinn retornava, a expressão ainda preocupada. Rachel viu as suas feições suavizarem ao chegar até eles, a loira sentando novamente ao seu lado. Antes que ela pudesse falar alguma coisa, Melanie chamou a atenção da loira e as duas iniciaram uma conversa. Sem querer interrompê-las, Rachel desviou o olhar, percebendo que Victoria também estava observando as duas.
“Você e a sua irmã costumam sair muito juntas?” Rachel perguntou, curiosa. Aquilo definitivamente não era algo que a morena costumava ver com frequência, da mesma forma que a amizade desde o colégio entre eles não era comum para Victoria.
“Mais do que o comum, eu acho.” Victoria respondeu. “Nós sempre fomos muito unidas, mas não tanto de sair com os amigos uma da outra. Ultimamente que tem sido assim. Coincidentemente, desde que eu comecei a sair com a Quinn.” Ela sorriu divertidamente, lançando um olhar para a irmã e Quinn, que ainda conversavam.
Rachel correspondeu ao sorriso por fora, enquanto por dentro seu estômago pareceu congelar, fazendo ela engolir seco.
“O que você está falando de mim, Vic? Rachel, não acredite em nada que minha irmã disser ao meu respeito.” Melanie disse, ao perceber o olhar das duas sobre ela.
Foi difícil para a morena manter o sorriso, mas ela o fez, desejando mais do que tudo que a frase de Melanie se aplicasse literalmente ao caso. Quinn lançou um olhar indagador sobre si, certamente percebendo o sorriso forçado que parecia perfeitamente genuíno para quem não a conhecia. Não era o caso de Quinn Fabray. Rachel se forçou a ignorar os olhos avelãs, contudo, querendo evitar que a loira confirmasse que algo estava errado, se virando para Santana e Kurt, fingindo entrar animadamente na conversa, ainda que sua mente não estivesse registrando uma palavra sequer do que estava sendo dito.
Quinn sabia que algo estava fora do lugar ao presenciar a atitude da morena. Ela também sabia que normalmente sua atitude seria pressionar Rachel até que ela lhe dissesse o que tinha acontecido. Naquele dia, contudo, Quinn não o fez. Naquele dia, ela estava tentando se distrair das suas próprias preocupações. Ela então deixou com que Rachel fizesse o mesmo, voltando sua atenção para Melanie e Victoria, que ainda riam, implicando uma com a outra.
Por um momento, Quinn desejou que todos os outros aspectos da sua vida pudessem ser leves como esse.
...
Santana ria despreocupadamente de algo dito por Brody quando ouviu leves batidas na porta. Era mais um dia normal na Hart e os dois aproveitavam uma folga por entre as aulas e ensaios para descontraírem um pouco na sala da latina.
“Pode entrar.” Ela disse, ainda com um sorriso no rosto.
Surpreendentemente, a porta aberta revelou uma loirinha de olhos azuis, sorrindo timidamente. Santana detectou imediatamente o sobretudo que ela emprestara a Brittany pendurado em um de seus braços. Ela observou a dançarina entrar na sala e cumprimentar Brody.
O moreno rapidamente se levantou. “Vou deixar vocês a sós.”
“Não precisa.” Brittany disse. “Eu só vim devolver esse sobretudo para a Santana.” Ela gesticulou.
“Eu já estou atrasado para uma reunião, na verdade.” Brody disse a ela, sorrindo de lado. “Vejo vocês depois.” Ele se despediu, piscando para a latina e indo embora.
Santana sabia que Brody não tinha reunião nenhuma naquele horário. Ela não sabia se agradecia ou amaldiçoava o amigo pelo gesto.
“Ele é sempre assim tão simpático?” Brittany comentou, se aproximando de onde a latina estava, sentada em sua mesa.
Santana fez um gesto para a loira ocupar a cadeira que havia acabado de ser desocupada por Brody e Brittany aceitou, sentando-se de frente para latina.
“Brody é uma boa pessoa.” Santana disse, um sorriso afetuoso adornando seus lábios. “Provavelmente o melhor amigo que eu fiz aqui em Nova Iorque.”
Brittany sabia que a latina não era dada a elogios, surpreendendo-se um pouco. Isso a convenceu de que Santana falava a verdade sobre o moreno. “Vocês sempre trabalharam juntos?”
“Não.” A latina negou. “Nós fizemos faculdade juntos. Ele era nosso veterano e acabou se tornando amigo da Rachel e por consequência meu também.” A latina explicou. “Quer um café? Acabei de fazer.”
Brittany assentiu e a latina se levantou, preenchendo uma caneca com o líquido fumegante e adicionando bastante açúcar, entregando para a loira.
“Está perfeito, obrigada.” A dançarina disse, depois de experimentar.
Santana sorriu de lado. Ela sabia que a dançarina gostava de tudo muito doce. Pelo menos naquilo ela parecia não ter mudado. Ainda saber aquele pequeno fato sobre a loira fez com que a latina relaxasse visivelmente. A Brittany que conhecia ainda estava ali, por mais que tudo parecesse diferente agora. E ela e Brittany nunca tinham sido menos do que melhores amigas, desde o primeiro momento em que haviam se conhecido.
“Ele foi quem te indicou a Hart?” A dançarina perguntou, ainda falando de Brody.
“Fui eu quem trouxe ele pra cá, na verdade. Ele é um dos melhores profissionais que eu conheço, mas passou por alguns problemas pessoais e acabou perdendo algumas oportunidades por isso. Então assim que surgiu uma oportunidade, eu indiquei ele.” Santana disse.
“Você sempre teve um coração bom.” Brittany sorriu de forma suave.
“Eu não fiz nada.” A latina deu os ombros. “Eu só dei a oportunidade. O mérito é inteiramente dele.”
“O que não retira o seu gesto.” A loira concluiu.
Santana nada disse. Brittany sempre via o melhor dela, mesmo quando nem ela mesma enxergava. Mais uma coisa que parecia não ter mudado com o tempo.
“E você?” A latina questionou, antes que pudesse se arrepender.
“Eu, o quê?” Brittany a fitou, confusa.
“Me fala alguma coisa sobre você, sobre Los Angeles, sobre a sua faculdade.” Santana pediu.
Brittany pareceu hesitar por um momento. “Los Angeles foi uma surpresa boa, pra falar a verdade. Eu sempre dava um jeito de encontrar com a Mercedes e com o Artie, mas não era muito frequente. Mas não posso reclamar, eu fiz amigos especiais na faculdade.” A dançarina disse, dando um sorriso que parecia nostálgico aos olhos da latina.
Amigos especiais. No plural, Santana pensou. “E o Mike? Ele foi de Chicago pra lá, não foi?” Ela perguntou, tentando desviar um pouco daquele assunto, percebendo que não estava preparada para ouvir a loira falar sobre as amizades especiais que fizera.
Brittany confirmou. “Eu amava ir para o estúdio dele.” Ela sorriu. “Ele me ajudou bastante quando eu fui chamada para fazer a entrevista pra cá, pra falar a verdade. E eu também acabei ajudando um pouco ele a montar o estúdio. Lá é incrível!” Ela contou, animada. “Você iria gostar de lá.”
Santana sorriu. “Tenho certeza que sim. Um estúdio de dança montado pelos dois melhores dançarinos que eu já conheci? Eu acho que gostaria de ver isso.” Ela elogiou.
Brittany corou levemente. “Eu só ajudei. O Mike até queria que eu...” Ela começou a dizer, mas pausou.
“Que você...?” A latina insistiu, intrigada.
“Nada. Ele só queria que tudo desse certo pra mim.” Brittany tentou despistar, parecendo arrependida do comentário que quase fizera.
Santana não insistiu, sem querer deixar a loira nervosa ou desconfortável na sua presença, não quando a conversa parecia finalmente fluir entre elas. “E deu, não foi? Você está aqui.” Fitou-lhe.
“É. Eu estou aqui.” A dançarina repetiu, aérea, o olhar levemente desfocado.
Santana estava a um segundo de questionar se tudo estava bem quando a loira pareceu despertar do torpor, os olhos azuis finalmente repousando sobre ela.
“Eu tenho que ir.” Brittany disse. “Tenho um ensaio daqui a cinco minutos, os meninos já devem estar na sala.” Ela complementou, levantando-se. “Obrigada pelo café.”
A dançarina já ia sair pela porta quando ouviu Santana lhe chamar, virando-se.
“Você não está esquecendo de nada?” Os olhos negros lhe encararam, divertidos, olhando para o sobretudo que ainda estava pendurado em um dos braços da loira.
Brittany seguiu o olhar da latina, se dando conta de que havia esquecido a única coisa que viera fazer ali. “Parece que estou.” Ela riu sem jeito, se aproximando novamente da latina e lhe estendendo o sobretudo. “Obrigada pelo empréstimo e desculpa a demora em devolver, eu tinha quase esquecido que estava com ele.”
Santana assentiu, um leve sorriso ainda nos lábios. “Sem problemas.”
“Até mais tarde.” A loira disse, antes de finalmente sair pela porta.
Brittany percorreu os corredores até a sua sala se amaldiçoando mentalmente, completamente desconsertada. Conversar com Santana a havia feito esquecer o propósito pelo qual ela havia ido à sala da latina. Tinha sido simples em sua cabeça. Entrar. Entregar o sobretudo. Agradecer. Ir embora. Mas como tudo em relação a latina, nada saíra como o previsto. Ela não havia planejado trocar mais de duas frases com Santana, ela não havia planejado mentir, mas ela havia feito, porque de todas as coisas que ela poderia ter dito, dizer que havia se esquecido de que estava com o sobretudo da latina era uma completa inverdade...
Brittany subiu as escadas do prédio, ainda atordoada. Era exatamente aquele tipo de situação que ela prometera a si mesma evitar. Ao invés disso, ela havia não só incentivado como tomado a iniciativa para que acontecesse. Ela precisava permanecer no controle, não podia se perder daquela forma.
Ela entrou em seu apartamento, retirando o seu sobretudo. Só então ela percebeu que não era seu sobretudo, era dela...
Brittany permaneceu com ele em mãos, sentindo todo o seu corpo vibrar, talvez em antecipação, talvez de nervoso. Antes que se arrependesse, ela o pendurou ao lado da porta, saindo em passos largos para o quarto. Ela se despiu calmamente e entrou no banheiro, ligando a água quente. O banho havia sido propositalmente rápido, tentando evitar que sua mente reprisasse os momentos vividos aquela noite.
Ela até tentou permanecer no Skype com Carter, mas sua cabeça não estava ali. Ver a namorada não havia servido de conforto como ela esperava e uma certa angústia já começava a lhe dominar. Ela se despediu da morena, alegando uma forte dor de cabeça e apagou todas as luzes antes de ir para debaixo das cobertas. Talvez o seu corpo cansado fosse o suficiente para que o sono lhe viesse de forma fácil.
Mais de uma hora depois e Brittany soube que havia se enganado. Ela não conseguia fechar os olhos ou tentar relaxar sem que flashes daquela noite aparecem por detrás dos seus olhos, sua mente agitada demais para conseguir focar em uma coisa só. Ela lembrava do olhar de Santana a assistindo dançar e sua mente já a transportava para o seu toque ao segurá-la de forma firme, ela lembrava da sensação de ter o corpo da latina colado ao seu e o seu corpo todo formigava, chegando a arder na região em que Santana havia repousado seus lábios em seu pescoço.
Ela sabia que ia se arrepender, mas seu corpo parecia não mais obedecer aos seus comandos, pois quando se deu conta ela já estava em frente a porta, fitando o sobretudo da latina, sentindo seu corpo praticamente implorar pelo que ela faria a seguir. Abandonando qualquer tipo de resistência que ainda lhe restava, a loira aproximou-se da peça, repousando sua cabeça no tecido e aspirando o cheiro que ela jamais havia esquecido. Brittany foi surpreendida pela intensidade do que sentiu, todo o seu corpo vibrando em reconhecimento. Nenhuma memória se comparava ao sentir verdadeiro. Ela se permitiu deleitar-se por um longo tempo, o cheiro da latina invadindo por completo todos os seus sentidos, nublando tudo o mais.
Rendida ao que lhe fora despertado, Brittany pegou o sobretudo e o levou para o seu quarto. Ela deitou na cama, abraçando a peça de roupa como se fosse a própria latina, inalando o cheiro que se desprendia do tecido como se fosse uma droga. Ela não saberia dizer por quanto tempo permaneceu daquela forma, mas em algum momento da noite o sono lhe veio e ela dormiu em overdose.
A luz do dia seguinte, contudo, lhe trouxe a ressaca. Ela acordou sentindo-se suja, como se tivesse cometido o pior dos pecados. Ela retirou o sobretudo de sua cama e o dobrou com cuidado, guardando na última gaveta da cômoda, ao fundo. Ela poderia simplesmente ter levado consigo para a Hart e devolvido para a latina. Mas não o fez. E por todos aqueles dias, o sobretudo ali permaneceu, sem que ela se esquecesse um dia sequer da sua presença. Entretanto, ela não voltou a pegá-lo. Toda vez que uma crescente vontade parecia querer se apossar dela, ela mandava qualquer mensagem para Carter ou Quinn. Quando a vontade se tornava quase que insuportável, ela ligava para Quinn. Ela não poderia ligar para Carter, pois sabia que a morena perceberia em sua voz que algo estava errado.
As noites eram as piores, principalmente as que ela não conseguia dormir, revirando-se de um lado para o outro. Ela já havia acordado Quinn mais vezes do que gostaria de admitir. Falar com a amiga lhe acalmava de certa forma, principalmente porque ela sabia quando pressioná-la ou quando simplesmente deixar ser...
A noite anterior tinha sido mais uma em que ela havia ligado para a loira. Quinn não tinha atendido de primeira e quando retornara a ligação, Brittany havia percebido que ela não estava em casa e não queria incomodar a amiga mais do que já estava fazendo. Ela então não havia se demorado muito ao telefone, desligando. Por toda a noite, ela não tinha conseguido dormir. Quanto mais vontade ela sentia, mais a culpa lhe corroía por dentro. Ela definitivamente não poderia continuar daquela forma.
Ao acordar aquela manhã, ela estava sentada em sua cama, terminando de se arrumar para o trabalho, quando seu olhar estancou na gaveta pelo o que parecia a milésima vez. Respirando fundo, ela simplesmente tomou coragem e abriu a gaveta, pegando o sobretudo sem nem mesmo um olhar em sua direção e guardando em sua mochila.
Brittany voltou ao presente ao entrar na sala, percebendo que alguns alunos já estavam ali, alongando-se. Ela sorriu para eles. “Mais cinco minutos e eu começo, pessoal.”
Por um lado, parecia que um peso havia saído de suas costas, uma sensação de alívio tomando conta de si. Por outro, contudo, um crescente vazio parecia ter se instalado em seu coração...
...
Quinn entrou em casa, sentindo um cheiro delicioso imediatamente invadir seus sentidos. Deixando sua pasta no sofá, ela logo encontrou Rachel e Santana na cozinha.
“Olha quem resolveu nos dar a honra da sua presença no almoço de hoje.” Santana logo disparou. “Cansada dos seus novos amiguinhos, Fabray?”
Quinn resolveu ignorar a latina, indo lavar as mãos. “Está precisando de alguma ajuda, Rach?”
“Não, já estou quase acabando. Você trouxe o que eu te pedi?” A morena perguntou.
Quinn foi e voltou da sala rapidamente, entregando um saquinho que parecia conter uma espécie de tempero dentro para a morena. “Quase tive que matar um cara por ele. Era o último.” Ela comentou.
“Você não pode matar ninguém, Fabray. A advogada aqui é você. Apenas se certifique de estar disponível quando eu precisar dos seus serviços.” A latina disse, fazendo as amigas rirem.
Logo elas estavam almoçando e Rachel não podia deixar de se sentir feliz por ter a loira ali com elas naquele momento. Ela havia se certificado de mandar mensagem para a loira logo cedo, listando as várias vantagens de se ter uma refeição caseira equilibrada ao invés de um lanche qualquer às pressas no escritório.
Infelizmente, a relação dela com a loira ainda parecia se equilibrar em uma corda bamba, sempre envolta de altos e baixos. Na maioria dos dias Quinn agia normalmente, parecendo estar completamente relaxada e à vontade ao seu lado. Mas tinha dias que Rachel podia praticamente sentir um certo desconforto emanando da loira, como se ela realmente estivesse pouco à vontade na sua presença, fazendo com que Rachel se perguntasse se elas estavam realmente bem.
Então ela estava seguindo o próprio conselho que havia dado para Santana, aproveitando os momentos bons que lhe eram dados. Depois da sua noite de estreia e da empolgação momentânea que tinha tomado conta de si, ela percebeu que era mais fácil simplesmente agir da forma que seu coração mandasse do que passar os dias pensando e repensando cada atitude. Por enquanto, ela estava determinada a apreciar as pequenas coisas e a valorizar o que realmente importava. Quando algo ruim acontecia ou era lembrado, ela não voltava mais para o quarto para chorar. Ela não ia mais para um bar para acabar na cama com alguma desconhecida e esquecer. Ela não fingia que o que havia acontecido entre ela e Finn não fizera parte da sua história. E ela estava feliz com isso.
“Quer uma carona para o teatro, Rach?” A voz suave de Quinn invadiu os seus sentidos, a fazendo voltar rapidamente para a realidade.
A morena olhou para o relógio e assentiu. “Só vou pegar minhas coisas e a gente pode ir.” Ela disse, deixando a loira e a latina na cozinha.
“Bom, eu já vou indo.” Santana aproveitou o ensejo, pegando o capacete da bancada. “Até mais tarde, vadia.”
Quinn se limitou a acenar, o olhar concentrado enquanto mexia no celular. Logo Rachel estava de volta e elas desceram, entrando no carro de Quinn. A loira dirigia em silêncio, parecendo distraída.
“Eu estou preocupada com a Brittany.” Quinn comentou de repente.
Rachel desviou os olhos da janela, encarando o semblante sério de Quinn, imaginando de onde tinha surgido aquele assunto. “Aconteceu alguma coisa?”
“Quase todos os dias ela tem me ligado à noite. Na maioria das vezes ela parece bem, só querendo mesmo conversar, mas eu percebo que tem algo a mais, sabe? Algo que ela ainda não quer me dizer ou não sabe como dizer.”
“Como o quê?”
“Eu acho... e isso, por favor, fica entre nós... que a distância está começando a atrapalhar o relacionamento dela com a Carter. Estar perto da Santana mexe muito com ela, pra falar a verdade. Tem dias que ela me lembra aquela Brittany que entrou em depressão, sabe? Isso me preocupa.” Quinn disse.
“Às vezes eu fico pensando no que você me contou aquele dia. Até hoje não consigo imaginar a Brittany daquela forma que você descreveu. Ela sempre foi tão alegre e expressiva. É essa a imagem que eu tenho dela no colégio. Mas agora... ela realmente me parece mais reservada, mais guardada.” Rachel comentou.
Quinn olhou de relance para a morena, como se fosse dizer algo, mas permaneceu calada.
“O que foi, Q?”
“Nada.” Quinn apressou a responder. “Eu só estive pensando...”
“Fala, Quinn.” Rachel encorajou, vendo a apreensão da loira.
“A Brittany comentou comigo que queria alguém para dividir o apartamento com ela e perguntou se eu não estava interessada. Foi logo quando ela se mudou pra cá e eu não levei muito a sério. Mas agora ela voltou a falar disso e eu sinto que ela está precisando de alguém por perto, sabe? Quero dizer, nós três sempre estamos juntas e ela acaba ficando realmente sozinha, por mais que a gente se encontre às vezes.”
Rachel sentiu como se tivesse levado um balde de água fria. Ela não podia acreditar que Quinn estava falando de se mudar...
“Esse é realmente o motivo pelo qual você quer ir morar com a Brittany?” A morena perguntou corajosamente.
Quinn pareceu atordoada por um momento. Ela vivia se esquecendo de que a morena estava voltando a falar tudo o que pensava e ela ainda era pega de surpresa às vezes. “Sinceramente? Acho que também seria bom para nós. Eu e você. Quero dizer, para a nossa amizade. Às vezes eu simplesmente não sei como agir com você.” Quinn confessou.
“Eu sei.” Rachel suspirou, voltando a olhar para a janela. “E sei também que a culpa disso é minha.”
“Não estou falando isso pra você se sentir culpada, Rach. Só estou tentando ser sincera.” A loira deu de ombros “Talvez a gente realmente esteja precisando disso, de uma distância saudável. Um milhão de coisas aconteceram e a gente nunca teve o nosso próprio espaço. A gente teve que continuar convivendo todos os dias, vinte e quatro horas por dia. Às vezes eu penso se não seria mais fácil a gente separar as coisas um pouco. E eu estou pensando principalmente na Brittany. O que pode acabar acontecendo com ela e a Carter, ela e a Santana...”
“Mais cedo ou mais tarde ela e a Santana vão ter que enfrentar tudo isso que ainda existe entre elas.” A morena disse.
Aquilo parecia mais familiar do que a loira gostaria. “Eu realmente queria ter gravado isso.” Quinn comentou, surpresa.
“Isso o quê?” Rachel perguntou, sem entender a reação da loira.
“Mais cedo ou mais tarde ela e a Santana vão ter que enfrentar tudo isso que ainda existe entre elas?” Quinn repetiu o que a morena havia dito. “O que aconteceu com o vamos esquecer de tudo e viva à tequila?” A loira ironizou, estacionando o carro em frente ao teatro.
A morena riu. “As coisas mudam, Fabray. Já está mais do que na hora de você se convencer disso.” Rachel soltou no ar. “Bom, terminamos essa conversa depois? Não quero atrapalhar seu horário.”
Quinn assentiu. “Claro. Bom show hoje à noite.” A loira desejou docemente.
“Obrigada, Q.” Ela sorriu de forma suave. “Pela carona também.” Complementou.
Por um momento, Quinn teve a impressão de que a morena diria algo mais, seu olhar se demorando um pouco mais sobre ela, como se quisesse transmitir algo. Mas Rachel nada disse, saindo do carro em seguida, deixando a loira sem saber se aquilo realmente havia acontecido ou se tinha sido algo da sua imaginação.
Rachel observou a loira acenar em despedida e voltar ao trânsito, sem saber o que pensar sobre aquela conversa. Uma buzina a trouxe de volta para realidade e ela balançou a cabeça, sentindo um aperto no peito. Quinn se mudar era a última coisa que ela queria, mas no fundo Rachel sentia que a loira já tinha tomado sua decisão, mesmo que tivessem combinado de terminar aquela conversa depois. E ela tinha ficado ali, escutando Quinn listar todos os motivos pelos quais deveria ir para longe dela, sem dizer uma palavra para convencer a loira do contrário.
“Mandou bem, Rachel.” Ela disse para si, amarga, antes de abrir a porta do teatro.
Estava cedo e poucos funcionários estavam por ali. Em vez de ir para o seu camarim, ela se sentou na beirada do palco, como tantas outras vezes. Seus pensamentos estavam longe dali e a melodia veio aos seus lábios sem que ela percebesse...
You say yes, I say no
You say stop, but I say go, go, go
Oh, no
You say goodbye and I say hello, hello, hello
I don't know why you say goodbye, I say hello, hello, hello
I don't know why you say goodbye, I say hello
I say high, you say low
You say why and I say I don't know...
Ela não sabia. Ela realmente não sabia o que fazer para mudar aquela situação.
You say goodbye, and I say hello...
Fale com o autor