How To Save A Life
33 How Many Times Will It Take?
Notas iniciais
Capítulo 33 – How Many Times Will It Take?
Quinn olhou para a tela do notebook e suspirou, se recostando na cadeira. Estava difícil se concentrar no trabalho da forma como deveria se o seu pensamento sempre estava em outro lugar. Provavelmente ela teria que passar outro final de semana trabalhando. Ela se perguntava se Victoria, que trabalhava no mesmo setor que ela, estava assim também. Provavelmente não, uma vez que a morena havia proposto para elas irem a uma boate aquele final de semana porque ela e Melanie estavam com vontade de sair para dançar.
Quinn daria tudo para sair para dançar e se divertir. Que ela se lembrasse, a última vez que ela fizera isso tinha sido em Lima. Mas não era só o trabalho que estava pesando. Aliás, Quinn estaria feliz se fosse apenas o trabalho. Trabalhar não era um problema pra ela. Ao contrário, com o trabalho ela conseguia lidar. Advogar havia sido natural para ela desde a faculdade. Era instigante, desafiador. Pelo menos havia sido. Naquele momento, estava mais para a mesma coisa de sempre. Um grande acúmulo de casos repetidos, praticamente iguais e que ela não havia demorado a pegar o jeito.
Talvez aquele fosse o preço a se pagar pelo seu orgulho, pois ela bem sabia que seus pais tinham plenas condições de ajudá-la abrir o próprio escritório de advocacia. Não, não era uma questão de orgulho. Era uma questão de dignidade, de ter a liberdade de ser quem ela realmente era. E isso não tinha preço. Por isso, ela não se arrependia das escolhas que fizera. Ela era outra pessoa agora, uma pessoa que a sua família sequer reconheceria. Pensar nisso fazia seu interior se encher de um prazer secreto, talvez até mesmo egoísta. Ela havia seguido em frente e sua família ainda estava presa naquela mentalidade pequena e infeliz de família tradicional, incapaz de criar laços de verdade entre si. Ela não, ela havia criado laços verdadeiros em sua vida, verdadeiros até demais...
Quinn entrou na sala do coral, diminuindo levemente os passos ao perceber que apenas Rachel estava na sala, lendo algumas partituras no piano. Ela olhou para o relógio pendurado na parede. Ela realmente estava adiantada.
“Você chegou cedo hoje.” Rachel disse, sem desviar os olhos para ela.
“Não sei o que deu em mim.” Quinn respondeu.
Rachel olhou para ela divertida e ambas riram. A loira continuou o caminho e se sentou em sua cadeira usual, logo pegando um dos livros que havia levado para escola aquele dia e abrindo na página que havia parado na noite anterior. Ela já estava perdida em meio as páginas que lia quando a voz da morena ecoou pela sala vazia.
“Posso interromper a sua leitura?” Rachel perguntou, sentada na fileira de cadeiras abaixo dela, seu corpo todo virado para trás.
Quinn levou um pequeno susto ao ouvir a voz da morena tão perto, sem ter percebido que Rachel havia saído de onde estava e sentado na sua frente. “Claro.” Ela disse, fechando o livro e deixando ele de lado.
“Eu nunca te agradeci por ter trazido a Mercedes, Santana e Brittany de volta para o coral depois das Sectionals.” A morena disse.
“Você não precisa me agradecer, Rach.” Quinn disse. “Na verdade, eu que tenho que agradecer você mais uma vez, por me fazer enxergar que eu estava agindo completamente errado. Trazer as meninas de volta foi a forma que eu encontrei de me redimir com vocês.” Confessou.
“Você não tem pelo o que se redimir, Quinn. Sei que a Beth, a Shelby, toda essa história é muito dolorosa pra você. Seria impossível você não se sentir afetada por tudo isso. Até eu no seu lugar ir-” Rachel continuaria falando, se não fosse interrompida pela loira.
“Na verdade, Rach, eu tenho sim muito o que me redimir.” A loira a interrompeu. “Primeiro, por ter abandonado vocês no início do ano. Você foi atrás de mim, mas eu só voltei para o coral porque a Shelby apareceu me oferecendo conhecer a Beth caso eu mudasse minha atitude. Por mais que eu quisesse voltar, não foi uma volta sincera. Eu só queria chegar no meu objetivo.” Quinn suspirou, receosa. O que ela diria a seguir talvez alterasse tudo entre ela e a morena. “E no momento que vocês mais estavam precisando de mim, eu fui até a Shelby e pedi para que ela me aceitasse nas Troubletones.” Ela confessou.
“Eu sei.” Rachel disse, desviando o olhar de Quinn.
“Você sabia?” A loira se surpreendeu por um momento, e depois sorriu, triste. “A Shelby contou isso pra você, não foi?”
“Sim.” A morena confirmou. “Depois do que você me disse sobre ela e o Puck, eu fui conversar com ela. Ela não ficou nem um pouco feliz de ter que confirmar para mim que era verdade o que você tinha me dito e de ter que ouvir o quanto ela estava sendo irresponsável com a Beth.” Rachel sorriu de lado. “Então ela começou a falar de você e isso acabou escapando no meio.”
“Imagino que não deve ter sido a pior coisa que ela falou de mim.” A expressão de Quinn ficou ainda mais triste.
“Não, não foi.” Rachel foi sincera. “Mas eu deixei muito claro que ela, ao contrário de você, era uma adulta. Que você ainda é uma pessoa em desenvolvimento e que ainda está aprendendo com os seus próprios erros, depois de ter sido criada em um ambiente completamente não-saudável para uma criança ou adolescente. E que, portanto, ela não deveria ser tão cruel com você e sim agir como uma pessoa adulta, te orientando para se tornar uma pessoa melhor e não te julgando como uma pessoa completamente formada.”
“Nossa. Você realmente falou isso?” Quinn tinha arregalado os olhos diante do discurso da morena.
“Oh, eu disse bem mais do que isso. Se ela já não estava tão feliz antes, ela estava praticamente espumando na hora em que eu saí da sala dela.” A morena disse.
Quinn sorriu incrédula, balançando a cabeça. Ela não duvidava nem por um segundo que a morena havia deixado as orelhas de Shelby vermelhas de tanto falar. Ela só não esperava que justo a morena fosse defendê-la daquela forma diante de Shelby, ainda mais depois do que ela havia feito.
“Eu não sei nem como te agradecer por isso, Rach. Eu definitivamente não mereço.” Quinn realmente estava tocada pelo gesto da morena. “Obrigada. Por me defender, mas, principalmente, por pensar na Beth quando nem eu, nem a Shelby estávamos.” Os olhos avelãs miraram de forma expressiva a morena, em um agradecimento sincero.
Rachel corou, ainda sem estar acostumada ao olhar intenso da loira quando vinculado a um sentimento que fosse bom. O rosto de Quinn parecia bem mais jovial e muito mais bonito daquela forma.
“Por razões óbvias, eu me identifico bastante com a Beth.” Rachel disse. “E, talvez por isso, eu tenha que perguntar.” Sua expressão se alterou para uma mais séria. “Quinn... o que você realmente sente pelo Puck?”
A loira definitivamente não esperava por essa. “Por que a pergunta?” Quinn não pôde deixar de querer saber.
“Eu não sei mais o que eu posso fazer para você se convencer de que eu me importo com você, Quinn, que você pode ter em mim uma amiga. E por me importar com você e me considerar sua amiga, eu me preocupo. Me preocupo com o que pode acontecer nessa história envolvendo você, o Puck e a Shelby.” Rachel esclareceu.
Depois de tudo que a morena havia dito, Quinn não conseguiu tomar uma atitude defensiva.
“Primeiro, eu não vou mais me intrometer na vida da Shelby e da Beth. Já causei estrago o suficiente. Um dia, quem sabe, eu vou estar preparada para entrar na vida delas novamente. Até lá, eu só quero o melhor para a Beth e o melhor pra ela é a Shelby, não sou eu.” Por mais doído que fosse admitir, aquela era a verdade. Ela ainda tinha muito o que mudar se quisesse merecer outra chance de estar na vida de Beth.
“Quinn...” Rachel sussurrou, o coração apertado pela loira. Ela sabia que não devia ser fácil para a ex-líder de torcida aquilo.
“Em segundo lugar...” A loira emendou, evitando que a morena se alongasse no assunto sobre Beth. “Eu sempre vou sentir algo pelo Puck. Nós fizemos algo maravilhoso juntos. Mas o que eu sentia por ele não existe mais. Por muito tempo eu quis sentir, porque isso justificaria tudo o que aconteceu. E quando a Beth apareceu novamente, essa vontade veio de novo. Só que ela é uma ilusão, é uma parte de mim que pensa o que teria sido se eu tivesse deixado ele entrar, ao invés de repelir todas as tentativas dele de fazer parte da minha vida quando eu estava grávida. Mas eu não consegui. Às vezes eu acho que eu estava me punindo pelo o que eu fiz ao Finn, às vezes eu penso que eu só sou muito boa em me autosabotar mesmo.” Quinn desabafou, a expressão chorosa. “Seja uma coisa ou outra, o que eu sinto por ele é apenas carinho e afeto, misturados com uma certa tristeza e uma certa raiva." Ela concluiu. "Espero conseguir me livrar dos dois últimos um dia.” Acrescentou, em um sussurro.
Por um momento, houve silêncio entre elas e Quinn temeu ter falado demais.
“Eu nunca achei que fosse possível deixar Rachel Berry sem palavras.” A loira quebrou o silêncio, tentando não deixar transparecer o seu temor.
Rachel riu. “Eu só... é muito para processar.” Ela disse. “Eu acho que nunca senti algo tão complexo em toda minha vida. E se sentisse, não sei se seria capaz de analisar da forma objetiva como você acabou de fazer.” Impressionou-se.
Quinn respirou aliviada. A morena poderia ter julgado o que ela dissera, mas ela apenas estava procurando entender. “Quando você comete muitos erros, você passa muito tempo pensando neles.” A loira deu de ombros.
“Eu ia dizer que isso denota o quanto você amadureceu.” Rachel disse. “Não seja tão negativa sobre você mesma, Quinn. Isso também é um erro e se você continuar assim, vai passar muito tempo pensando sobre ele.” A morena piscou-lhe.
Quinn riu. “Esperta você, Berry.”
Rachel seguiu a loira e riu também, assumindo uma expressão perdida logo em seguida. Quinn esperou pacientemente enquanto a morena tentava traduzir o que passava em sua cabeça.
“Eu queria ser capaz de analisar minha vida dessa forma. Eu sou tão impulsiva que na maioria das vezes eu não sei dizer o porquê de ter tomado certas atitudes.” A morena disse.
“Eu sei, Berry. Namorar o Finn é meio sem explicação mesmo.” Quinn disse, ironicamente. “Eu realmente passei muito tempo pensando sobre esse erro, ainda mais porque cometi ele duas vezes.”
Por sorte, a morena entendeu que Quinn estava apenas brincando. “Estou falando sério, Quinn!” Ela disse, quando viu que a loira estava rindo dela. “Nós definitivamente ainda temos muito o que crescer no nosso relacionamento.”
“Claro que vocês têm o que crescer, Rach. Vocês têm dezesseis anos, pelo amor de Deus. Nenhum relacionamento é um exemplo de maturidade nessa idade.” A loira disse, revirando os olhos. “Ainda mais quando metade desse relacionamento é o Finn.”
“É só que... eu não sei.” Rachel pausou.
“O que você não sabe?” Quinn pressionou.
“Eu achei que depois de tudo o que eu e ele passamos, que as coisas estariam mais... avançadas. Sentimentalmente falando. Futuramente falando.” A morena confessou, desviando o olhar para baixo.
“Hey. Eu brinco em relação ao Finn, mas isso tem uma razão. Ele é um garoto de dezesseis anos. E garotos de dezesseis anos como o Finn não passam muito tempo pensando sobre sentimentos ou sobre o futuro ou quando ele e a namorada vão casar e ter filhos. Eles não pensam nem o que vão comer nos próximos cinco minutos. E garotas como você...” A loira parou por um instante.
“Garotas como eu?” Rachel a incentivou a continuar.
“Ok. Vamos por assim. O Finn é um garoto de dezesseis anos padrão. Ele se interessa por futebol, games, ser atleta, sair com os amigos, namorar. Mesmo tendo as peculiaridades que ele tem, como cantar no coral do colégio e ser relativamente decente, ela é um garoto como qualquer outro. Mas você não é uma garota de dezesseis anos padrão. Você é diferente.” Quinn tentou explicar.
“Normalmente eu consideraria isso um elogio, mas eu não gosto de onde parece que você quer chegar.” Rachel temeu.
“Eu não quero chegar a lugar nenhum, Rach. Eu só estou querendo dizer que o seu tempo e o dele são diferentes, que ele ainda tem muito o que andar até chegar aonde você está. Isso pode ser um problema ou pode não ser. Tudo depende de como você e ele lidam com isso.” A loira esclareceu.
Rachel ainda estava considerando o que a loira dissera quando Finn entrou na sala, acompanhado por Puck e Artie. Ele cumprimentou a loira e se sentou ao lado de Rachel, dando um selinho na namorada e começando a falar animado sobre a nova loja de jogos que abrira, onde ele e os garotos tinham ido na hora do almoço. Artie acenou para ela e Puck piscou-lhe, como sempre fazia, se dirigindo para a última fileira. Quinn se limitou a pegar mais uma vez seu livro e voltar a ler, sem notar os olhares que Rachel lhe lançava de tempos em tempos, até Santana chegar junto com Brittany e tomar o livro dela, fechando e jogando em seu colo.
“Enquanto eu estiver aqui, loira, quero toda a atenção voltada para mim.” A latina disse.
Quinn revirou os olhos, enquanto Mr. Schue entrava na sala do coral para mais uma aula...
A lembrança veio e foi embora, como se fosse um flash, como se pertencesse a outra vida. Estava sendo assim nos últimos tempos. Sua mente sempre a transportava para o passado, para esses momentos vividos entre ela e Rachel, para momentos que ela havia presenciado entre Santana e Brittany, talvez tentando encontrar respostas para perguntas que ela ainda não tinha coragem de perguntar ou para atitudes que ela ainda hesitava em tomar.
Ela ouviu uma batida na porta do quarto e sorriu de forma automática. Ela sabia que era Rachel. Santana não batia, ela escancarava a porta e entrava como se fosse a dona do quarto. Como previsto, o rosto da morena surgiu na fresta que ela tinha aberto. Rachel sorriu-lhe de forma doce. “Posso entrar?”
“Claro que pode, Rach.” Quinn respondeu, virando a cadeira para a cama, onde a morena sempre se sentava quando ela estava na mesa.
“Primeiro, eu queria perguntar se você já viu o convite de formatura do Kurt. Está maravilhoso!” A morena disse, animada.
“Eu vi sim.” A loira sorriu. “Ele foi no escritório me entregar pessoalmente hoje, disse que seria de mau tom apenas deixar os convites aqui no apartamento, já que os nossos horários são completamente diferentes.” Quinn revirou os olhos, rindo.
“É a cara do Kurt fazer isso.” Rachel balançou a cabeça. “Ele também passou lá no teatro, viu minha apresentação e me levou flores no camarim. Ele é um doce.”
“Ele realmente é.” A loira concordou “E o convite ficou lindo!”
“Eu só não entendi porque ele optou por um jantar ao invés de uma festa.” A morena disse. “Mas não comentei nada com ele.”
“Você conhece o Kurt, provavelmente acha que se for uma festa nós vamos beber e dançar a noite toda ao invés de passar a noite com ele.” A loira disse. “O que não está errado.” Completou, fazendo ambas rirem.
“Bom, eu também queria falar com você sobre outra coisa. Sobre o que nós conversamos mais cedo.” Rachel mudou o assunto.
“Eu também queria conversar com você sobre isso.” A loira falou.
A morena fez um gesto para que ela começasse.
“Eu queria te pedir para não comentar nada com a Santana sobre isso. Sobre a possibilidade de me mudar e sobre o fato da Brittany não estar bem.” A loira pediu.
Rachel respirou fundo. Ela tinha ido até ali para convencer a loira a não se mudar e ela tinha toda a intenção de pedir a ajuda de Santana caso ela não conseguisse. O lado positivo era que até o momento Quinn nada tinha dito sobre já ter se decidido. “Se você prefere assim, é claro que eu vou respeitar, Q.” Ela disse.
“Eu vou falar com a Santana, mas não agora. Eu ainda estou amadurecendo essa ideia e eu também posso estar enganada. Além disso, a Brittany pode ficar magoada. Você conhece a Santana, ainda mais se tratando da Brittany. Ela não iria conseguir agir como se eu não tivesse contado algo pra ela.” Quinn disse, parecendo dividida.
Ela realmente não queria se meter entre as amigas, principalmente sem ter certeza de que isso poderia fazer algum bem. Ela sabia que uma atitude equivocada de sua parte e tudo poderia ser perdido entre elas, ainda mais naquele momento, em que as coisas ainda estavam frágeis.
“Então você ainda não decidiu se vai?” Rachel perguntou, mordendo os lábios.
“Eu te disse que ainda não sabia, Rach. Eu estava falando de verdade.” A loira disse.
“Isso é... bom, muito bom. Porque eu vim aqui com toda a intenção do mundo de te convencer a ficar.” A morena disse, determinada.
Quinn sorriu diante da expressão determinada de morena. “Toda a intenção do mundo de me convencer a ficar?” A loira repetiu, rindo. “Estou impressionada.” Ela arqueou a sobrancelha.
“Não seja irônica comigo, Fabray! Eu estou falando sério.” A morena disse, sem conseguir não rir também.
“Ok, ok.” A loira assumiu uma expressão mais séria. “Me convença, Berry.” Quinn ordenou, em um tom que arrepiou gostosamente toda a pele morena.
Isso fez com que Rachel parasse por um momento, tentando reorganizar suas ideias. Ela não sabia se a loira tinha ciência do que ainda causava nela, mas, se soubesse, ela definitivamente não jogava limpo. A morena então respirou fundo. Ultimamente, parecia que ela só sabia derramar seus sentimentos diante de Quinn Fabray. A vantagem é que ela estava ficando boa nisso.
“Eu sei que tudo também está frágil entre nós, como se estivéssemos de volta ao ensino médio.” A morena iniciou e Quinn se perguntou se Rachel estaria tendo os mesmos pensamentos que ela, mas não interrompeu a diva. “Mas, diferente daquela época, eu posso afirmar com toda a certeza que o seu lugar é aqui, comigo. Comigo e com a Santana.” Ela emendou. “Eu sei que não tem sido fácil pra você e eu sei que você se preocupa bastante com a Brittany, mas eu prometo que eu vou ajudar você a cuidar dela e da Santana e que eu vou respeitar o seu espaço.”
Era difícil ouvir a morena dizer aquelas palavras e não se convencer de que a ideia de sair dali era um equívoco, uma bobagem. Mas ela sabia que não era. “Não é tão simples assim, Rach. Você sabe disso.”
“Por que não pode ser simples assim? Por que você tem que ir para longe de mim para podermos ficar bem? Isso não faz sentido.” A morena argumentou, parecendo frustrada.
Quinn então se levantou, sentando ao lado da morena. “Rachel, olha pra mim.” Quinn pediu.
“Eu estou olhando.” A morena disse, contrariada.
“Não, eu quero que você realmente olhe pra mim, de verdade.”
Rachel então fitou o rosto alvo, percorrendo todos os seus detalhes antes de focar nos olhos avelãs. Então ela percebeu que Quinn fazia o mesmo, que seu olhar percorreu todo o seu rosto antes de se fixar em seus olhos. O tempo então pareceu congelar entre elas. Só existia aquele momento e antes dele apenas existia o que as tinham levado até ali, todos os grandes e pequenos detalhes que faziam daquela troca de olhares algo único, algo maravilhoso e, ao mesmo tempo, algo que poderia mudar suas vidas para sempre.
“Você sente?” A loira perguntou, em um sussurro, sem desviar o olhar.
Se tinha uma coisa que Rachel fazia naquele momento, era sentir. Ela sentia a loira em todos os lugares, envolvendo e tomando-a para si. “Eu sinto.” Ela sussurrou de volta.
O olhar de Quinn era quase demais para Rachel, que sentia uma vontade enorme de continuar presa neles e uma outra vontade igualmente forte de desviar o seu olhar. Dividida entre esses dois sentimentos, ela fechou os olhos, completamente inebriada pelo momento. E então ela ouviu o suspiro quase inaudível da loira, arrependendo-se no mesmo instante de ter quebrado aquele contato.
“É por isso que nós precisamos nos afastar.” Quinn disse, só então desviando o olhar.
Rachel abriu os olhos, sem entender. A loira tinha uma expressão perdida no rosto, como uma grande tristeza. Ela olhou para a morena e viu a confusão em seu olhar.
“Eu sou o que te atrai, ao mesmo tempo que sou o que te repele.” Quinn disse, de forma simples. “Nós vamos nos aproximando uma da outra, mas quando eu chego perto demais, você se afasta. Então eu não posso chegar perto demais de você, porque eu não sei se a nossa relação sobreviveria a você se afastando mais uma vez de mim.” A loira confessou.
Rachel estava, mais uma vez, sem palavras. A sinceridade de Quinn sempre a deixava assim, com medo de dizer a coisa errada, de fazer com que a loira se afastasse. Mas ela já não estava assim? Talvez a loira não estivesse esperando que ela dissesse a coisa certa, mas apenas a verdade.
“Eu tenho um medo enorme de me entregar a isso que eu sinto por você.” Rachel confessou. “Sim, grande parte disso era relacionado a tudo o que eu passei depois que o Finn terminou comigo. Mas a parte mais importante é que você me faz sentir coisas que eu nunca senti, que eu não sei explicar! E que eu definitivamente não estava preparada para sentir. Você é Quinn Fabray! Você faz alguma ideia do que isso significa pra mim? Do que sentir isso implicaria na minha vida, em tudo o que vivemos até aqui? Você é a pessoa que eu mais admiro em todo o mundo, você é uma das minhas melhores amigas, você é como se fosse... não sei, algo sagrado. Algo bom demais para ser verdade. Algo bom demais para mim!” A morena disse, finalmente expondo algumas verdades que talvez a loira precisasse ouvir.
Contudo, a morena viu a expressão de Quinn endurecer, como se ela realmente tivesse acabado de falar a coisa errada.
“Eu não sou nada, Rachel. Está mais do que na hora de você me tirar desse pedestal que você me coloca, ok? Eu entendo o seu medo, eu entendo tudo o que você passou, Deus, eu entendo até mesmo todas as coisas que você fez e que me magoaram, mas eu não entendo essa insistência que todo mundo tem de me colocar como algo intocável, como algo inalcançável. Eu sou uma pessoa, Rachel! Uma pessoa de verdade! Eu tenho milhões de defeitos, você mais do que qualquer pessoa deveria saber! Eu não quero ser esse exemplo de perfeição pra você. Eu quero que você abra os seus olhos e me enxergue como eu realmente sou! Como a pessoa que fez da sua vida um inferno por muito tempo, como a pessoa que batalhou para ser quem é hoje, como a pessoa que cometeu milhares de erros e teve que pagar por cada um deles, como a pessoa que teve todos os relacionamentos fracassados que é possível ter...”
Quinn tinha a respiração alterada e Rachel uma expressão completamente atônita no rosto. Em um piscar de olhos, a situação tinha saído completamente do seu controle. Ela deu suas verdades e, pelo visto, estava recebendo as verdades de Quinn em troca.
“Talvez quando você enxergar isso de uma vez por todas, você perceba que o meu medo era tão grande quanto o seu.” A loira completou. “Eu entendo, Rachel. Eu juro que eu entendo. As apostas às vezes são altas demais e nem sempre a gente está disposta a pagar o preço. Poderia ter sido maravilhoso, realmente poderia ter sido. E também poderia ter sido a pior escolha das nossas vidas. Eu apostei e você não e eu não posso viver esperando que um dia você aposte. Não seria justo comigo, não seria justo com você.” A loira suspirou. “E é exatamente por isso que eu preciso me mudar.”
Rachel realmente não sabia explicar como aquela conversa tinha ido parar ali. Ela achava que estava convencendo a loira a ficar, mas tudo que ela fizera fora convencer ainda mais Quinn de que ela deveria partir.
“Quinn, eu vejo você, eu te enxergo exatamente como você é. Eu...” A morena olhou para a loira, se sentindo mais frustrada do que nunca.
Quinn balançou a cabeça, respirando fundo. Quando ela voltou a falar, sua voz estava calma, controlada, como se ela estivesse atestando nada mais do que o óbvio.
“Você o quê, Rach?” Ela deu de ombros. “Você é capaz de me dizer agora, nesse exato momento, que eu estou errada?” Desafiou, calmamente. “Que você vai assumir o que quer que seja que você sente por mim e que vamos lidar juntas com isso, sem que alguns dias depois você comece a duvidar e vá embora outra vez? Você mesma acabou de dizer que ainda tem um medo enorme de se entregar a isso. Foi justamente esse medo que fez você tomar as atitudes que tomou. Como eu posso confiar em você? Como eu posso saber que você não vai me deixar na primeira dúvida que aparecer na sua cabeça? E pior, de forma cruel ainda, sem qualquer explicação, como se os meus sentimentos não fossem nada pra você.”
Quinn estava jogando na morena todas as perguntas que ela mesma se fazia todos os dias, perguntas para as quais ela não tinha resposta. E ela não fazia aquilo de forma raivosa, ela apenas estava também botando para fora todos os seus medos, todas as suas dúvidas.
“Eu jamais agiria daquela forma novamente com você, Quinn. Eu me arrependo todos os dias pelo que eu fiz, da forma como eu fiz.” Rachel sentiu a necessidade de dizer.
“Eu sei disso. Eu sei disso.” A loira afirmou, olhando para Rachel. “Mas eu não sei de todo o resto e eu acho que você também não sabe. Eu só estou pedindo pra você não fazer isso comigo, não me por de novo em uma posição em que eu tenha que me entregar sem receber o mesmo de volta.” Quinn pediu, sua voz quebrando ao final.
Rachel se sentia completamente derrotada, como se ela estivesse em um jogo em que não importava o movimento que ela fizesse, ela perderia de qualquer forma. Ela tinha tanto de si para dar a Quinn! Ela queria dizer isso, mas ela sabia que, naquele momento, não importava o que ela dissesse, pois aquela conversa havia reaberto as feridas da loira e ela não se dobraria. Rachel também sabia que ainda tinha medo, medo de falhar novamente com a loira... Não, aquele ainda não era o momento certo.
“Eu não faria isso com você de novo, Q. Acredite em mim.” A morena disse então, com um nó na garganta. Sua vontade agora era sair dali depressa e chorar. “Sinto muito que tudo tenha ficado dessa forma entre nós. Eu... eu só vim aqui para pedir você para não se mudar. Talvez eu não tenha nem o direito de pedir isso.” Ela se levantou.
“Rach...” Quinn pareceu se desmanchar ao perceber o que as suas palavras haviam causado na morena.
“Tudo bem, Q. Eu entendi. Eu entendi de verdade. Não precisa falar mais nada.” Ela se virou para a loira ainda sentada na cama. “Eu só... eu só preciso ir agora, ok?”
A morena lançou um último olhar para Quinn, antes de sair do quarto rapidamente, fechando a porta.
“Ahhhhhhh!” Quinn gritou para o nada, apertando os dedos na beirada da cama, extremamente frustrada. “Por quê, Quinn Fabray?”
Rachel entrou e trancou a porta do próprio quarto, sem ter escutado o grito frustrado que a loira havia dado. Seu corpo escorregou pela porta e o choro então veio. Era um choro doído, imbuído de todos os arrependimentos guardados dentro de si.
What can you do when your good isn't good enough
And all that you touch tumbles down?
Cause my best intentions keep making a mess of things
I just wanna fix it somehow!
But, how many times will it take?
How many times will it take for me?
To get it right
To get it right
A letra da música que ela mesma havia composto anos atrás a atingiu como um soco no estômago, repetindo sem parar em sua cabeça. A sua vida inteira parecia um círculo diante dos seus olhos, um círculo que ela percorria sem descanso, sempre chegando ao mesmo lugar em que havia partido. Ela não sabia dizer em que momento aquilo havia acontecido, mas, de repente, todos os momentos importantes dos quais ela se lembrava se conectavam a uma só pessoa: Quinn Fabray.
“Você está atrasada.” Quinn disse, sentada no piano.
“Nós somos amigas, certo?” A morena perguntou, se aproximando.
“Eu acho que sim.”
“Eu quero dizer, com tudo o que houve ano passado. Você deu a sua filha para a minha mãe. Isso criou um laço entre nós, certo?”
“Aonde você quer chegar?” Quinn perguntou, sempre direta.
“O que eu quero dizer é que... eu sei que não passamos muito tempo juntas esse ano, mas eu achei que nós éramos próximas o bastante para sermos honestas uma com a outra.”
“Vá em frente. Me pergunte.”
“Ok. Você e o Finn estão juntos?”
“Sim. Já tem algumas semanas.” Quinn revelou. “É como o dia da marmota com você, Rachel. Quantas vezes você precisa cometer o mesmo erro para perceber que não vai dar certo?”
O que a loira disse lhe doeu, mas ela precisava se manter forte. “Obrigada por ser honesta comigo, Quinn, e eu estou feliz por você e o Finn, só não tente reescrever a história, ok? O que aconteceu entre nós foi real, ele me escolheu ao invés de você.”
“E quanto tempo isso durou?” A loira perguntou, calmamente.
Ver o Finn voltar para Quinn fazia realmente parecer como se tudo vivido entre eles não tivesse tido a menor importância. No fim, ele havia voltado para a líder de torcida. “Por que você está sendo tão má?” Ela perguntou, os olhos marejados.
A loira se levantou, ficando de frente a ela no piano. “Você quer saber como a história acontece? Eu fico com o Finn e você fica com o seu coração partido. E então Finn e eu vamos ficar por aqui e começar uma família. Eu vou me tornar uma corretora de sucesso e o Finn vai assumir a oficina do pai do Kurt. Você não pertence a essa cidade, Rachel, e você não pode me odiar por te ajudar a seguir o seu caminho.” Quinn disse, a voz rouca, chorosa.
“Não, eu não vou desistir do Finn.” Rachel insistiu. “Não acabou entre nós.”
“Sim, acabou!” A loira gritou. “Você é tão frustrante! E é por isso que você não consegue escrever uma música que seja boa. Porque você vive nessa fantasia de menina do colegial. Rachel, se você continuar procurando por esse final feliz, você nunca vai acertar. Então acabamos essa conversa por aqui. Por que nós não voltamos ao nosso trabalho, ok?” Ela finalizou, sentando novamente no piano, respirando fundo.
“Não, eu vou escrever essa música sozinha.” A morena disse, virando rapidamente de costas e indo embora do palco, antes que Quinn a visse chorar...
Até aquela música, que Rachel pensara ter escrito para consertar sua história com Finn, tinha sido, na verdade, para lidar com tudo o que Quinn havia dito naquele dia. Ela dissera todas as coisas certas sobre a morena. Ela apenas tinha errado no que dissera sobre ela mesma. Quinn, assim como Rachel, também não pertencia a Lima, não pertencia a um garoto como Finn. A vida era realmente cheia de ironias e a maior era aquela. Porque talvez, só talvez, elas pertencessem uma a outra...
“Muito obrigada, meninas, por terem vindo comigo hoje ajudar a escolher o meu vestido e provar o de vocês.” Rachel disse para todas as meninas do Glee ali reunidas na loja.
“Eu e a cor rosa temos brigado pelos últimos dezessete anos. Eu não acredito que eu vou ter que fazer as pazes com ela.” Santana disse, enquanto todas provavam os vestidos de madrinha.
“Que legal, parece que eu estou usando a mesma cor que eu sou internamente do lado de fora.” Brittany disse, se olhando no espelho.
“Eu encontrei, parece que eu encontrei o certo.” Rachel gritou do provador.
“Finn realmente tem que ser a pessoa certa, porque eu não vou fazer isso duas vezes.” Santana respondeu.
Quinn apenas revirou os olhos, parecendo entediada.
“Não o Finn, o vestido!” Rachel disse. “Eu acho que é esse.” A morena saiu do provador, desfilando pela sala.
“Oh, meu Deus, Rachel, você está tão bonita que eu poderia chorar!” Mercedes disse. Tina realmente parecia prestes a chorar.
A morena foi para a frente do espelho, parecendo extremamente satisfeita. “Vocês realmente gostaram?” Ela perguntou.
“Sim, você parece uma noiva em cima do bolo de casamento.” Sugar disse.
“Se ela fosse uma minúscula adolescente judia...” Quinn comentou, ironicamente.
“Isso é maravilhoso! Eu não posso acreditar que você vai se casar!” Sugar continuou.
“Eu odeio ser a estraga-prazeres, mas, Rachel, você tem certeza que está realmente preparada para isso?” Quinn perguntou.
“Eu nunca tive tanta certeza sobre algo em toda a minha vida.” A morena respondeu. “Além disso, você não pode soletrar infinito sem Finn.” Ela completou, dando uma espécie de uivo de felicidade.
Aquilo, aparentemente, foi o estopim para a loira.
“Ok, eu tentei ser racional com você e eu tenho tentado ser legal sobre isso, mas eu não vou ficar sentada vendo você arruinar sua vida se casando com Finn Hudson!” Quinn finalmente falou, se levantando da cadeira onde estava sentada por todo aquele tempo.
“Eu não vou arruinar a minha vida, eu vou começar a minha vida com ele.” Rachel defendeu-se.
“Tem mais alguém que concorda comigo sobre isso?” Quinn perguntou, se virando para o restante das meninas, mas ninguém disse nada e isso irritou ainda mais a loira. “Parece que eu sou a única aqui que tem coragem para dizer isso. Rachel, a coisa que eu mais admirava em você era o fato de você ser uma garota que nunca se desculpou pela sua ambição. Você era a estrela mais brilhante entre todos nós.” Ela se virou para as outras meninas novamente. “Gostando ou não, essa é a verdade.” Ela disse, voltando novamente sua atenção para a morena. “E nós estamos cada vez mais perto de nos graduar e você fica escondendo a sua luz atrás dessa coisa estúpida que é casar com o Finn? Eu nunca pensei em Rachel Berry como a garota com medo demais de conquistar o mundo.”
Então um silêncio pairou entre elas.
“Ok.” Rachel disse. “Bem, se é assim que você se sente, eu prefiro que você não vá ao casamento.”
“Tudo bem, eu não vou.” A loira afirmou, saindo logo em seguida, deixando um silêncio constrangedor para trás.
Rachel respirou fundo. “Bom, eu amei esse.” Ela sorriu, como se nada tivesse acontecido.
Naquele momento, realmente parecia que nada poderia impedir que ela se casasse com Finn...
Mais uma vez, Quinn tinha estado completamente certa sobre tudo o que dissera sobre ela. E, daquela vez, a sua teimosia quase havia custado a vida de Quinn. Deus, como ela odiava pensar sobre aquilo! Sobre o casamento, sobre o acidente, sobre o que Quinn tivera que passar por conta dele. E tudo porque, no fim das contas, a loira decidiu, mesmo contra sua vontade, apoiá-la. Se tinha um assunto sobre o qual ela ainda não conseguia falar sem sentir uma vontade enorme de chorar era aquele. Ela sabia que Quinn se sentia da mesma forma. Por isso, elas não falavam sobre ele. Era passado. O único problema era que, naquele momento, o passado parecia mais presente do que nunca.
Rachel se levantou, entrando no banheiro. Ela lavou o rosto, encarando-se no espelho. Impulsivamente, ela disparou para fora do quarto, parando em frente a porta do quarto de Quinn. Alguma música tocava ao fundo, mas ela não conseguia se concentrar para identificar qual. Todas as fibras do seu corpo queriam abrir a porta daquele quarto e tomar a loira para si. Ela precisava apenas de um beijo, de um único beijo para sentir que tudo poderia ficar bem entre elas um dia. Ela não aguentava mais! Ao mesmo tempo, sua mente lhe dizia que ela poderia pôr tudo a perder agindo daquela forma.
Ela precisava sair daquele apartamento, ela precisa sair de perto da loira, antes que ela tomasse mais uma atitude que faria ela se arrepender amargamente depois.
Ela pegou suas chaves e saiu de casa. Ela poderia ter ligado para Santana, mas não o fez. Ela poderia ter ido para o apartamento de Kurt ou para o loft de Brody, mas não foi. Ela poderia até mesmo ter ligado para algum colega de NYADA, mas ela também não fez isso. Ela refez seus velhos passos até o bar do Tom. Mas ela não entrou. Ela só queria extravasar tudo o que ela estava sentindo bem longe da pessoa com quem ela mais queria estar.
Então ela lembrou que o pessoal do teatro havia combinado de sair aquele dia, aproveitando que no dia seguinte não haveria show. Algumas mensagens trocadas com Mark depois e ela estava dentro de uma pequena boate. Não era um local badalado ou reconhecido, havia um clima bem diferente dos lugares em que ela costumava frequentar. E ela gostou disso. Rachel não parecia perceber que seguia um padrão, uma constante, ela apenas pensava no momento, em calar temporariamente os sentimentos ruins que tomavam conta de si. E era esse comportamento autodestrutivo que a impedia de curar verdadeiramente...
Uma mulher se aproximou dela, chamando sua atenção. Ela era um pouco mais alta e deveria ter a mesma idade que ela. Os seus cabelos eram castanhos e estavam soltos, se mexendo conforme ela dançava com leveza. Quando seus olhares se cruzaram ela piscou e sorriu. Geralmente seria esse momento em que a morena usaria para esquecer momentaneamente todas as coisas pelas quais estava passando. Ela flertaria de volta, elas trocariam algumas palavras e olhares, Rachel tomaria a iniciativa de beijá-la e depois de algum tempo elas estariam na sua cama, fazendo um sexo que a morena não faria questão de lembrar no dia seguinte.
Mas Rachel nada fez. Isso instigou a mulher a tomar a atitude de chegar mais perto da morena, ainda respeitando seu espaço.
A mulher pendeu a cabeça na sua direção, para que Rachel pudesse ouvir o que ela falava. “Posso saber seu nome?”
Rachel negou com a cabeça, mas a mulher não pareceu se afetar, sorrindo.
O que a morena também deixava de perceber era que algo estava mudando dentro de si. Chegar até ali fora fácil, quase que automático. Mas agir do mesmo modo que ela estava acostumada não. A bebida parecia estranha em sua boca, descendo quase que de forma intragável. Então ela logo tinha desistido de se embriagar. Seus movimentos enquanto dançava pareciam forçados, sem fluidez, sem conseguir se conectar com a música que ecoava no ambiente. E a presença daquela mulher na sua frente, flertando com ela, não fazia nada além de irritá-la. O que estava acontecendo com ela?
A mulher se aproximou mais uma vez de seu ouvido. “Você dança muito bem.” Tentou novamente.
“Olha, me desculpa, não é nada com você, mas eu não estou no clima, ok?” Rachel cortou, de forma direta.
A morena ouviu a mulher sussurrar um “ok” e encolher os ombros, se afastando.
Rachel então se dirigiu para a área não coberta que tinha ali, destinada aos fumantes, mais frustrada do que nunca. A boate funcionava no último andar de um prédio, então a morena se deparou com uma vista linda da cidade de Nova Iorque. Aquilo pareceu acalmar seu coração revolto. Ela se aproximou da grade e olhou para o céu que iluminava a cidade que nunca dormia. A lua brilhava sob as estrelas, roubando toda a atenção para si. Ela permaneceu por muito tempo daquela forma, apenas fitando o luar.
A música de repente surgiu na sua cabeça e no mesmo instante seus lábios cantarolaram de forma automática, como ela sempre fazia...
When you get caught between the moon and New York City
I know it's crazy, but it's true
If you get caught between the moon and New York City
The best that you can do
The best that you can do is fall in love...
A verdade é que ela estava apaixonada, ela estava irremediavelmente apaixonada por Quinn Fabray. Um sorriso tomou-lhe as feições e ela riu para os céus de forma espontânea. Ela estava apaixonada! Era por isso que desde que ela e Quinn tinham se envolvido ela vivia como se estivesse com o coração na mão, como se ela estivesse prestes a cometer a maior das loucuras e ela realmente cometera algumas loucuras ao longo do caminho. Era maravilhoso e era aterrorizante! Depois de tantos anos, depois de tanto tempo, ela se sentia viva novamente...
“Rachel?”
“Hm...”
“Como você consegue? Quer dizer, você e a Santana... eu não sei...
“Não entendi.” Sorriu.
“Eu não sei como te perguntar... como vocês duas conseguem não se importar?”
“Não nos importar...?”
“Sentimentalmente falando.” Quinn concluiu.
“A Santana eu não sei, mas eu simplesmente não consigo.”
“Como assim?”
“Eu não sinto nada Quinn, por ninguém. Só vazio, o tempo todo. Você não se sente vazia?”
“Não o tempo todo...”
“Eu não sei... eu gosto de sexo. Bastante.” A morena frisou. “Mas é só isso. Não faz sentido depois eu dormir abraçada com alguém ou sussurrar coisas em seu ouvido. Eu não sei mais como é me sentir assim.” Rachel desabafou, suspirando em seguida. “Eu não sinto atração depois, nem arrependimento.”
“Talvez se você conhecesse ou conversasse com a pessoa...”
“Faz cinco anos, Quinn. Em cinco anos ninguém me interessou, ninguém me fez sentir nada. E, sinceramente, eu não quero sentir, eu já sei como a história acaba.”
“Nem todo mundo é como o Finn.”
“Eu estou bem, de verdade.” A morena sorriu, afetada. “Não tenho que quebrar a cara com ninguém para descobrir se é como ele ou não. Por que você está me perguntando essas coisas?”
“Eu não sei. Eu estou meio que cansada de tudo isso. De nada dar certo.”
“Você não precisa ser como a gente, Q. Você vai acabar encontrando alguém. E eu quero muito que esse alguém não ferre com você e que você seja feliz. Não existe só gente assim nesse mundo, o problema é que algumas pessoas simplesmente não têm sorte.” Rachel terminou com um sorriso triste. “Eu vou deixar você dormir.” Disse ao ver Quinn fazer uma careta de dor.
Rachel se inclinou para beijar a testa de Quinn antes de sair do quarto....
Aquela lembrança parecia extremamente adequada ao momento. Não havia mais vazio, não havia mais apatia. Ela sentia, Deus, como ela sentia! Ela sentia o sangue correr por suas veias, ela sentia o pulsar do seu coração, ela sentia o arrepio da pele, ela sentia a felicidade estampada no rosto ao pensar em Quinn... Mas não era o mesmo sentimento do qual ela se lembrava e talvez por isso tenha lhe custado tanto reconhecer. O que ela sentira antes agora lhe parecia infantil, imaturo, como um encantamento ou um capricho. Isso... isso que ela sentia agora parecia inteiro, parecia virar seu mundo de cabeça para baixo, parecia um novo olhar sobre todas as coisas.
Era, de fato, um novo olhar sobre todas as coisas.
“Rachel?”
A morena virou o rosto e lá estava Mark, com um sorriso no rosto.
“Você está bem?” Ele perguntou, sempre atencioso.
“Estou sim.” Ela respondeu, devolvendo o sorriso.
Ele então se aproximou dela. “Eu percebi que você sumiu e fiquei preocupado. Mas quando eu cheguei eu não quis interromper.”
“Como assim? Interromper o quê?” A morena estranhou.
“Bom, você estava cantando e rindo para o céu. Achei melhor deixar você ter o seu momento.” Ele disse, segurando o riso.
“Oh, Deus.” Rachel gemeu. “Deve ser o álcool...”
“Você mal bebeu, Rachel.” Mark disse. “Não precisa se justificar.” Ele riu. “Só queria deixar você ciente do que estava fazendo.” Deu de ombros.
“Eu estou bem ciente agora, obrigada, Mark.” Ela riu.
O moreno então foi até a grade, parando ao lado de Rachel e também fitando o céu. “Lindo, né?” Comentou. “Você devia estar pensando em algo igualmente lindo para estar sorrindo daquela forma...” Ele disse, sorrindo de lado.
“Mark...” A morena avisou. Ela sabia que ele estava provocando-a, para ver se ela dizia algo.
“É a loira, não é? Qual o nome dela mesmo? Quinn? Lindo nome.”
Rachel revirou os olhos. Mark definitivamente não desistia. Como a morena nada disse, ele continuou.
“Eu lembro de ver ela na nossa estreia. Estava deslumbrante! E deslumbrada também... com você. Aposto que ela não deve ter nem piscado durante o show. Ela não tirou os olhos de você por toda a festa...”
“Mark, onde você quer chegar com isso?”
“Eu só quero que você confie em mim, Rach.” Ele disse, fitando a morena. “Eu sinto essa conexão entre nós, de amizade, carinho, respeito. Mas toda vez que eu tento saber um pouquinho mais de você, você se afasta.” O moreno desabafou.
“Não é a primeira vez que alguém fala isso comigo hoje.” Rachel disse, abaixando o olhar. “Desculpa, Mark. Eu me tornei uma pessoa muito reservada com o tempo.”
“E eu respeito isso. É só que... durante muito tempo eu pensei que, para realizar o meu sonho, eu tivesse que passar o resto da minha vida interpretando um papel. O cara que faz o ator principal e que finge se interessar pela atriz principal, só para chamar a atenção. Eu tive que fazer isso algumas vezes, acredite.” Ele disse. “E então veio você. Algo completamente diferente, algo novo. Você não é uma atriz esperando pelo ator principal que irá te completar. Você simplesmente é. E deixou com que eu simplesmente fosse. E é maravilhoso trabalhar com alguém que valoriza em primeiro lugar o seu talento e comprometimento. E você faz isso sem nem perceber o quanto isso te diferencia das outras pessoas. Você realmente acredita que apenas o seu talento vai te levar aos lugares que você deseja ir e você me fez voltar a acreditar nisso também. Você me inspira, Rachel.”
A morena estava extremamente emocionada com o que Mark tinha acabado de dizer. Fazia muito tempo que ela tinha deixado de acreditar que podia inspirar alguém.
“E é por isso que eu sempre quero estar perto de você. Porque você é especial, além de absurdamente talentosa. E eu amo estar perto de pessoas verdadeiramente especiais e talentosas, o que é raro de se encontrar hoje em dia. Além disso, você anda com as mesmas pessoas com quem você estudou no colégio, em Lima, Ohio. Quem faz isso?” O moreno disse, tentando descontrair o momento.
Rachel riu gostosamente em meio as lágrimas. “Você também é especial, Mark. Eu também achei que fosse passar a minha vida inteira tendo que lidar com esse tipo de coisa. O que eu conseguir fazer graciosamente até aqui, diga-se de passagem. Mas é um alívio e um privilégio poder trabalhar com alguém como você, que aprecia o talento tanto quanto eu e sempre quer dar o seu melhor. Você traz leveza quando percebe que eu estou muito fissurada, você me pressiona quando sabe que eu posso fazer melhor, você me anima quando eu estou mal, me mantém focada quando eu estou distraída. Eu não poderia pedir por um parceiro melhor do que você.”
“Qualquer um pensaria que este é o começo de uma bela amizade, não?” Mark comentou, sorrindo.
“Ok. Você me venceu. Este é o começo de uma bela amizade.” Rachel disse.
Mark então a abraçou, surpreendendo a morena. Mas ela logo devolveu o afeto.
Eles ainda ficaram por um tempo ali, conversando, mas o frio logo fez com que ambos começassem a tremer ligeiramente, mesmo agasalhados.
“Vamos voltar?” Mark propôs.
“Eu acho que vou pra casa. Não estou muito no clima hoje. Nem sei porque eu vim, pra falar a verdade.” Rachel disse.
O moreno assentiu, acompanhando a morena para dentro.
Ao passar mais uma vez pela pista de dança ao sair, ela se deparou com Melanie e Victoria, que cumprimentaram ela animadamente. Ela cumprimentou as irmãs de volta e trocou mais algumas palavras com Mark. Melanie parecia querer lhe dizer algo, mas ela logo acenou em despedida para todo mundo, indo em direção à saída.
Diferente de quando ela chegara ali, agora tudo o que ela mais queria era ir para casa.
...
Quinn tocou a campainha e em questão de segundos a porta se abriu, revelando uma loirinha sorridente do outro lado. Brittany logo pegou sua mão e a trouxe para dentro do apartamento, fechando a porta.
“Não repara na bagunça, ok?” Ela disse, indo para a cozinha com Quinn em seu encalço. “Está tudo de pernas para o ar! Você acredita que ainda tem caixas da mudança que eu ainda não esvaziei? O meu quarto parece uma zona de guerra, há dias que eu não consigo arrumar a sala e eu não vou nem começar a falar da cozinha porque eu pos-”
“Brittany!” Quinn chamou sua atenção. “Respira.”
A loirinha a obedeceu, respirando fundo.
“Sua casa está ótima! Não tem uma coisa sequer fora do lugar.” A advogada disse, gesticulando em torno da cozinha impecável para provar o seu ponto. “Então... qual é o verdadeiro problema que fez você me ligar a essa hora da noite e vir correndo pra cá?”
“A Carter está vindo para Nova Iorque.” Brittany disse.
“Isso era supostamente para ser bom, não? Ela é sua namorada, você provavelmente deve estar morrendo de saudades dela, eu finalmente vou poder conhecê-la...” Quinn falou.
“É, é bom, é ótimo...” A amiga concordou, sorrindo. E então desabou em uma das cadeiras da bancada que tinha na cozinha.
“Britt?” Quinn percebeu então que a amiga chorava. “Hey... o que houve?” Ela se sentou ao lado da amiga, pegando em seu rosto. Os olhos azuis estavam extremamente claros por conta do choro. “Fala comigo.”
“A Carter está vindo para Nova Iorque me visitar. Minha namorada. A pessoa que eu amo. Então porque tudo que eu consigo sentir é um aperto no peito? Como se tudo pudesse desmoronar em um instante?”
“Por que você está se sentindo assim, Britt? Quando você chegou aqui você não via a hora dela vir pra cá, dela conhecer a cidade, de você me apresentar a ela. O que mudou?”
“Tudo mudou. Ou nada mudou.” A loirinha disse.
“Ok. Você sabe que eu sou sua amiga e que eu só quero o melhor pra você, certo?” Brittany acenou que sim. “Então seja sincera comigo. Você não precisa fingir ou esconder o que está passando com você. Eu não vou te julgar, você sabe disso. Eu só quero te ajudar, sempre.”
“Eu sei disso, Q.” A loira sussurrou, limpando as lágrimas que ainda escorriam.
“É por causa da Santana, não é?”
“Por que a presença dela me afeta tanto?” Brittany disse, com uma certa raiva. “Eu estava bem até começarmos a nos aproximar! Agora tudo o que eu sei fazer é brigar com a Carter.”
“Por que vocês estão brigando assim?” Quinn perguntou.
“Eu não sei! Segundo ela, eu estou extremamente impaciente e fechada, sempre distraída, cada vez dando menos atenção a ela, cada vez falando menos dos meus dias, esquecendo os horários que a gente combina de passarmos juntas...” Brittany começou a enumerar as reclamações da namorada.
“E ela tem razão? Você realmente está agindo dessa forma?”
“Às vezes eu acho que é só exagero da parte dela, que ela não entende que eu estou do outro lado do país, trabalhando sem parar, em uma cidade nova, com pessoas novas, tudo completamente desconhecido. E às vezes eu acho que ela tem razão, que eu realmente poderia estar me esforçando mais pelo nosso relacionamento.” Brittany confessou, balançando a cabeça. “Eu só estou tão perdida! E eu não posso dizer isso pra ela, porque eu nunca fui realmente sincera com ela sobre todas as coisas da minha vida, sobre o meu passado. Ela conhece quem eu me tornei em Los Angeles. A Brittany que eu fui um dia é algo praticamente desconhecido pra ela.”
“Você nunca contou pra ela o que aconteceu antes de vocês se conhecerem?” Quinn surpreendeu-se.
“Algumas histórias aqui e ali. Que eu era líder de torcida, que eu fiz parte do clube do coral, que todos vocês são meus amigos, que a Santana era minha melhor amiga e que nós namoramos até ela formar e ir embora de Lima. Eu nunca gostei de falar muito sobre o meu passado e ela sempre respeitou isso.” A loirinha suspirou. “E agora eu tenho medo de falar sobre todas essas coisas sobre as quais eu nunca falei e ela pensar que eu sou uma pessoa completamente diferente de quem ela achava que eu era.”
“Britt...”
“É, eu sei.” Ela riu pelo nariz. “Eu deveria ter sido verdadeira com ela desde o início. Só que era tão bom, Q! Tão bom conhecer alguém que não faz ideia das coisas pelas quais eu havia passado. Era leve e divertido. Era libertador. E então eu fui me envolvendo e as coisas foram ficando cada vez mais sérias e quando eu vi já era tarde. Eu estava tão feliz! Por que eu me incomodaria em contar pra ela quem a Santana realmente foi na minha vida? Ela era apenas um namoro de colégio e, como a maioria deles, tinha acabado não muito tempo depois da formatura.”
“Então para ela a Santana é apenas aquela ex-namorada que você sente ciúmes quando sabe que elas vão se encontrar nas reuniões entre os amigos ou que elas vão trabalhar juntas?” Quinn resumiu.
“É, quase isso.” Brittany deu de ombros.
“Quase isso...?”
“Às vezes eu tenho a impressão de que ela sabe que a Santana foi mais pra mim do que eu digo. Mas ela evita me confrontar sobre isso porque tem medo do que eu possa dizer.” Ela revelou.
“Às vezes as coisas não ditas pesam muito mais do que as que a gente diz.” Quinn disse, fitando a amiga.
Brittany devolveu o olhar. “O que eu faço?”
“Você tem duas opções. Ser sincera ou continuar escondendo o que realmente está acontecendo com você. As duas tem suas consequências. Eu não posso escolher por você. Mas eu posso te dizer uma coisa: não deixe a Carter se encontrar com a Santana.” A advogada aconselhou.
“E como eu vou fazer isso, Quinn? E a formatura do Kurt, esqueceu?” A loirinha choramingou. “Sem contar que a Carter está toda animada pra finalmente conhecer todo mundo de quem eu sempre falei. Ela vai desconfiar se a única pessoa que eu apresentar a ela for você.”
“Eu não estava pensando nisso.” Quinn disse. Brittany estava realmente em um beco sem saída.
“Agora você entende o meu estado de nervos?”
“Ok. Primeiro, não vamos nos preocupar antecipadamente. A Carter está vindo aí e você precisa receber a sua namorada com uma cara melhor do que essa que você está agora. Se não ela definitivamente vai desconfiar de alguma coisa. Segundo, é só uma formatura e um jantar. Eu prometo ficar junto de vocês o tempo inteiro e caso alguma coisa aconteça, eu posso fingir estar passando mal e nós vamos embora no mesmo instante. Terceiro, você conhece a Santana. A última coisa que ela vai querer fazer é bancar a simpática com a Carter, ela não vai trocar duas palavras com ela. Então nada de constrangedor vai ser dito. É só uma noite. A Carter vai conhecer todo mundo, vai ficar feliz de estar fazendo parte da sua vida aqui e o resto do tempo vai ser só vocês duas matando a saudade uma da outra.”
“É, você tem razão. Eu não posso me deixar afetar dessa forma ou vai ser a primeira coisa que a Carter vai perceber. Eu só preciso de tempo, tempo pra botar as coisas de volta no lugar entre nós.” Brittany disse, parecendo mais calma e mais determinada.
“E para decidir o que você vai fazer com tudo isso que você nunca deixou de sentir pela Santana.” Quinn completou.
“Quinn... eu não sinto mais nada pela Santana, ok? Ela só me confunde, só isso. Nós fomos melhores amigas durante a vida inteira e agora eu não sei como agir perto dela. Só isso.” A loira disse, incontestável.
“Nem me fale sobre melhores amigas que não sabem mais como agir perto uma da outra.” Quinn disse, balançando a cabeça. “Alguma chance de ter alguma tequila no seu armário?”
“Não. Mas eu tenho um vinho ou dois. Vou pegar as taças que devem estar em alguma caixa no quarto de hóspedes e aí você me conta sobre o que você e a Rachel brigaram dessa vez.” Brittany levantou. “Ou vocês andaram se beijando de novo?” A loirinha disse já perto da porta, levantando as sobrancelhas em um gesto provocativo.
“Brittany Susan Pierce!” Quinn esbravejou, ouvindo os risos da amiga ecoarem pelo corredor.
...
Naquele mesmo momento, Rachel chegava em casa. Assim que ela acendeu a luz da sala, pendurando suas chaves, Santana apareceu.
“Posso saber onde a senhorita estava a essa hora da noite?” A latina disse, cruzando os braços.
“Desculpe por não avisar, mamãe.” Rachel disse de forma irônica, retirando seu sobretudo.
“Ha ha ha. Você não é simplesmente hilária, Berry?” Santana revirou os olhos.
Rachel riu da amiga. “Estava com o pessoal do teatro, espairecendo um pouco. Eu e a Quinn acabamos nos desentendendo mais cedo e eu não estava a fim de ficar em casa.” Ela contou.
“Entendo. É por isso que a Fabray foi correndo para a casa da Brittany?” Santana perguntou.
“Ela não está em casa?” Rachel franziu a sobrancelha.
“Não. Acabou de me mandar mensagem dizendo que ia dormir por lá hoje, para eu não me preocupar.” Informou. “Parece que hoje somos só nós duas nesse apartamento.” A latina comentou, sentando no sofá confortavelmente.
Rachel assentiu com a cabeça, sentando ao lado da latina. “Que dia!” Ela exclamou. Estava esgotada física e emocionalmente.
“O que rolou entre vocês? Por que vocês só não se comem logo?” Santana comentou.
“Se fosse assim tão fácil...” A morena divagou, uma expressão sonhadora no rosto.
“Pelo amor de Deus, não me diz que você está pensando na Fabray nua...” A latina viu o rosto da amiga ruborizar e gargalhou. “Não te culpo, Rach. É realmente uma imagem difícil de esquecer...” Provocou.
“Você pode, por favor, não me lembrar que você e a Quinn... que vocês...” A cara da morena estava simplesmente impagável.
“Vocês deviam é me agradecer. Fui eu quem apresentei o lado colorido da força para aquela loira azeda. Mal-agradecida as duas, você e ela.” Santana reclamou. “Aliás, que eu me lembre, você também não ficou muito feliz com isso na época...”
Rachel, Santana e Kurt tinham acabado de chegar em casa. O voo de Lima até Nova Iorque parecia ter demorado mais do que o normal aquele dia e eles estavam extremamente cansados. Rachel não havia parado para respirar nem por um minuto desde que havia pisado os pés em Lima. Finn estava completamente envolvido na preparação do casamento do Mr. Schue e por isso a morena havia seguido o namorado para cima e para baixo, para que tudo ocorresse na mais perfeita ordem.
Infelizmente, tudo tinha dado errado. Mr. Schue havia sido deixado no altar. Kurt e Blaine estavam brigados. Santana e Brittany não estavam encarando o término no melhor dos termos. Quinn havia acabado de terminar seu complicado relacionamento com o tal professor de Yale e também não estava no seu melhor momento. A festa havia sido uma confusão. Santana havia cismado que Sam estava dando em cima de Brittany enquanto os dois dançavam e havia quase agredido o loiro. Tina havia tomado as dores de Blaine e brigado com Kurt por causa do amigo. Finn tinha iniciado um ataque de ciúmes por uma mensagem que ela recebera de um colega de turma que apenas queria marcar um dia para eles ensaiarem uma apresentação que eles tinham sido designados para fazer em dupla. E, para coroar, Quinn e Santana tinham decidido beber todo o álcool disponível no bar e depois haviam sumido da festa, deixando Rachel lidar com tudo aquilo sozinha.
O único lado positivo é que ela tinha conseguido fazer as pazes com Finn antes mesmo do fim da festa e tudo havia ficado bem entre eles mais uma vez.
“O dia que o Mr. Schue decidir se casar de verdade, eu dispenso o convite.” Santana disse assim que eles fecharam a porta do loft.
“Eu, sinceramente, não estou com a menor vontade de reviver esse casamento e aquela festa.” Kurt disse. “Eu preciso de um banho e de um sono que ultrapasse doze horas.”
O amigo então se dirigiu para o seu quarto. Ele e Blaine ainda não tinham feito as pazes.
Santana se jogou no sofá, enquanto Rachel levava suas coisas para o quarto. Ela desfez a mala e voltou para a sala, esperando Kurt terminar o banho para que ela pudesse tomar o dela.
“Você não vai deixar sua mala jogada pela sala o mês inteiro, vai?” Ela disse para Santana.
“Silêncio, Berry. Sua voz está começando a me dar dor de cabeça.” A latina respondeu.
“A sua bagunça me dá dor de cabeça, Santana.” Rachel rebateu.
Santana revirou os olhos. “Vamos falar do que interessa. Afinal, o que aconteceu entre você e o Finnocente?”
“Ciúmes sem sentido.” Foi a vez da morena revirar os olhos. “Só porque o Derek me mandou uma mensagem querendo marcar aquele ensaio.”
“Ele ficou com ciúmes por causa de uma mensagem? Do Derek, ainda? Seu namorado está cada dia mais patético, Berry.” A latina disse.
“Não tem necessidade de falar assim dele, Santana.” Rachel cruzou os braços.
Santana levantou as mãos, em rendição. “Tanto faz, Berry. Eu estou de ressaca e realmente não poderia me importar menos.”
“Falando em ressaca, onde você e a Quinn se enfiaram ontem?” Rachel perguntou, estreitando os olhos, desconfiada.
“Na cama, Berry.” A latina respondeu, na lata, ligando a tv.
“Estou falando sério, Santana.”
“Eu também. Eu e a Quinn realmente fomos pra cama ontem.”
“Aham. Conta outra.” Rachel balançou a cabeça, descrente.
“Por que, em nome de Santa Cher, eu mentiria sobre isso?” Santana se exasperou.
“Ok. Você quer dizer que vocês beberam tanto na festa que desmaiaram na cama, é isso?”
A latina parecia não acreditar. “Eu quero dizer sexo, Berry. Eu e a Quinn fizemos sexo, transamos, dormimos juntas, demos prazer uma a outra, goz-”
“Ok! Ok! Ok! Já entendi!” A morena interrompeu, levantando a mão. E então arregalou os olhos.
A expressão no rosto de Rachel era memorável, como se ela tivesse acabado de descobrir o maior dos segredos, a maior fofoca já inventada pela humanidade. Santana desejava ter gravado a cena.
“Você... e a Quinn... transaram? Quinn Fabray? A rainha da heterossexualidade?”
A latina gargalhou com gosto. “Se tem uma coisa que Quinn Fabray descobriu ontem, é que ela está muito, muito longe de ser a rainha da heterossexualidade.”
Rachel parecia sem palavras. Até que sua expressão mudou completamente. “Santana, me diz que você não fez isso.”
“Ah, mas eu fiz. E vou fazer de novo, se você quer saber.” A latina sorriu de forma provocante.
“Santana! Você por acaso se esqueceu que a Quinn acabou de sair de um relacionamento nada saudável?”
“Não, eu não me esqueci, Berry. E que bom que ela saiu dele. Agora que ela tem todo um novo mundo para explorar, eu tenho certeza que ela não vai mais sequer lembrar da existência daquele professorzinho de merda. Você devia estar me agradecendo e não me dando sermão.” A latina disse. Rachel estava começando a irritá-la de verdade.
“E a Brittany?” Rachel questionou.
“O que tem a Brittany?” Santana deu os ombros. “Ela provavelmente deve estar aproveitando bastante o tempo dela com o boca de truta. E eu estou aproveitando o meu.”
“Você sabe que não rolou nada entre ela e o Sam, não sabe?” Rachel disse.
Santana respirou fundo. “Berry, eu aceito você dar um ataque porque eu e a Quinn dormimos juntas, mesmo que isso não seja da sua conta, eu engulo até mesmo o seu teatro de amiga preocupada, mas a Brittany é assunto meu e não está aberto para discussões. Fui clara?” A latina disse, a expressão extremamente séria no rosto.
“Teatro de amiga preocupada?” Rachel indignou-se.
“Eu fui clara?” Santana repetiu, extremamente grossa.
“Sim. Super clara. Não só em relação a Brittany, mas também em relação ao que eu não sou pra você.” A morena disse, parecendo realmente magoada.
Santana não tivera a intenção de falar daquele jeito com a morena, mas era só tocar no nome de Brittany e seus nervos pareciam à flor da pele. Mas antes que ela pudesse se desculpar ou dizer qualquer coisa, Rachel saiu andando a passos firmes de volta para o quarto.
Felizmente, aquela tinha sido a última vez que elas tinham brigado pra valer...
Mas agora Santana ria da lembrança, acompanhada de uma Rachel relutante.
“Você ficou uma semana inteira sem falar comigo, lembra?” Ela continuou rindo. “Se eu soubesse na época que você apenas estava com ciúmes da Quinn, a gente não tinha nem brigado.”
“Muito engraçado, Santana, realmente.” A morena cruzou os braços. “Acabou?”
“Não, não acabou. Você ainda foi até New Haven visitar a Quinn! E quando chegou lá, ela estava fazendo o quê? Se agarrando com uma menina na frente da porta do dormitório.” Se antes Santana estava rindo, agora ela gargalhava a plenos pulmões.
Rachel não conseguiu se manter séria. Tinha sido realmente uma história engraçada e que ela e Quinn riam todas as vezes em que se lembravam do que havia acontecido.
“Ok. Parei. Parei.” Santana disse, tentando se manter séria. “Agora falando sério... o que aconteceu? Achei que tudo estava melhorando depois daquela conversa de vocês.”
“É, eu também achei. Eu e a Quinn somos assim agora, damos um passo pra frente e dois pra trás...” Rachel lamentou, narrando rapidamente o que tinha acontecido entre elas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela até poderia ter se alongado mais com a amiga, mas temia dizer algo sem querer e quebrar a promessa feita a loira.
“Bom, o lado positivo é que vocês têm até a formatura do Kurt pra ficarem bem uma com a outra. Eu não quero nem imaginar o que ele vai fazer com vocês duas se vocês trouxerem aquela já conhecida torta de climão para o jantar dele...” Santana disse.
Rachel estremeceu só de pensar. Entretanto, apesar da discussão, ela sabia que dessa vez não tinha feito nada de errado. Nem Quinn. Era apenas uma daquelas situações em que cada uma tinha a sua razão e não havia nada a ser feito a não ser deixar o tempo passar...
Pelo menos, ela esperava que fosse assim.
...
Os dias que se seguiram provaram à morena de que ela estava certa. Quinn pareceu voltar para casa determinada a não deixar que a discussão que tiveram tivesse um peso maior na relação entre elas. Rachel tinha o mesmo em mente. Então, elas não tocaram mais no assunto, deixando com que a rotina da casa e Santana fizessem o trabalho de preencher o que parecia faltar entre elas. Não era o ideal, Rachel sabia, mas também não era o pior que poderia ter acontecido, levando em consideração todas as coisas.
Até que ela foi surpreendida.
Voltando ao camarim depois do Primeiro Ato, Rachel percebeu que um bouquet de gardênias a aguardavam, elegantemente deixados em frente ao espelho. Não havia qualquer bilhete, mas havia um familiar laço verde-claro em volta dos ramos.
“Então, eu ouvi um rumor de que Jesse St. James está de volta e eu também ouvi que ele vai ser o seu par.” Finn disse, a interceptando no meio do corredor.
“Não.” Rachel negou. “Ele se juntou a Mercedes, Sam e eu no nosso baile sob orçamento. Contudo, ele vai ficar em Lima por um tempo, então eu não tenho certeza do que vai acontecer.” Ela sentiu a necessidade de acrescentar.
“Eu só... eu não confio nele. Você não se lembra do que ele fez com você? O quanto ele foi horrível?”
Aquela foi a gota d’água para a morena. Finn estava namorando Quinn e concorrendo a Rei e Rainha do Baile com ela e ainda achava que tinha algum direito de se intrometer em sua vida?
“Você não pode mais me dizer o que fazer, ok?” Ela disse, parando no meio do corredor para encará-lo. “Se eu estou saindo com o Jesse ou com qualquer outra pessoa, parou de ser da sua conta quando você terminou comigo.”
“Eu... eu ainda me importo com você.” Finn declarou.
“Olha, tudo o que eu peço é que quem quer que seja que eu escolha que você me apoie como eu tenho feito em relação a você e a Quinn, mesmo que eu esteja morrendo todos os dias por dentro por causa disso.” Ela confessou.
Rachel então virou para ir embora, indo em direção ao seu armário. Ela mal tinha dado dois passos quando a voz do moreno soou atrás de si, seguindo-a.
“Sabe, eu nem quero mais ir nesse baile estúpido.” Finn disse, se aproximando dela. “Quinn me fez distribuir canetas com os nossos nomes gravados. Quero dizer, onde está a dignidade?”
Rachel não disse nada, apenas abriu seu armário. Isso não impediu o moreno.
“E eu odeio alugar aqueles ternos e, claro, ainda tem o corsage. Eu sei que eu vou escolher o errado e a Quinn vai ficar com raiva de mim e a mãe dela vai olhar pra mim como-”
“Hey, só...” Rachel interrompeu o rapaz. “Só dê a ela algo simples. Um corsage de pulso. Garotas como a Quinn... você não quer dar algo que tire o foco do seu rosto, então peça gardênias, com um... com um laço verde-claro em volta para combinar com os olhos dela.”
Finn sorriu-lhe. Rachel sinceramente não fazia a mínima ideia do porquê ela estava ajudando o seu ex-namorado a fazer algo por Quinn.
“Ok?” Ela disse, finalmente indo embora para salvar o resto de dignidade que ainda lhe restava...
Mais uma vez, Rachel foi pega de surpresa pela memória. Uma memória que sempre esteve ligada a Finn e que, para ela, sempre demonstrou o quanto ela o amava, mesmo que ele estivesse com outra pessoa. Porém, naquele momento, essa memória parecia ter Quinn como estrela principal. Finn era um mero coadjuvante do seu desejo de fazer algo especial pela loira, que ela sabia que a loira iria gostar, mesmo que lhe machucasse, mesmo que Quinn jamais soubesse que havia sido ela a responsável.
Mais tarde, ela havia descoberto. Não por ela, mas pelo próprio Finn. Na época, elas já eram amigas. Quinn não havia se importado, até porque ela já havia há muito superado o moreno, caso algum dia ela tivesse verdadeiramente gostado dele, o que Rachel duvidava. Ao contrário, ela tinha se mostrado feliz, como se finalmente a última peça do quebra-cabeça tivesse se encaixado em sua cabeça. Ela havia dito que Finn, de fato, jamais teria a capacidade de fazer algo especial assim por ela. Algo que ela, Rachel, havia tido...
“Rachel, cinco minutos.” Owen, seu assistente de palco, avisou.
A morena apressou-se, não querendo atrasar o andamento da peça. Mesmo que sua mente estivesse longe dali, ela não era nada além de profissional e não poderia deixar com que nada influenciasse na sua performance. Ela tinha que ser perfeita. Não, ela tinha que ser mais do que perfeita. Impecável. Até porque, havia uma certa loira na plateia....
O restante da apresentação realmente transcorrera de forma impecável. Quando as cortinas fecharam, Rachel estava eufórica. A imagem de Quinn, de pé, a aplaudindo, gravada em sua mente.
“Eu diria que foi, sem dúvida, uma das nossas melhores apresentações.” Mark disse, também parecendo eufórico, enquanto eles caminhavam em direção ao camarim.
“Eu concordo.” A morena disse, sorrindo.
Virando o corredor, ambos se depararam com Quinn em frente à porta do camarim de Rachel, conversando com Melanie.
“E agora eu sei o porquê.” Mark disse, piscando-lhe.
Rachel ruborizou fortemente, mas tentou disfarçar, acotovelando o amigo. “Nem uma gracinha, Mark, por favor.” Ela pediu.
O moreno levantou os braços em rendição no mesmo momento em que eles se aproximavam da dupla. Assim que Quinn viu a morena se aproximar, seu rosto se iluminou e seu corpo automaticamente se virou na direção da morena, abraçando-lhe no momento em que seus braços puderam alcançá-la.
“E eu achando que seria impossível você estar mais perfeita do que no dia da estreia. Você realmente deve amar provar que eu estou errada, Rach.” A loira disse, desfazendo o abraço. “Você estava absolutamente maravilhosa naquele palco.”
Rachel sorriu timidamente, o que não era do seu feitio, o que acabou chamando a atenção de Mark e Melanie, que presenciavam a cena entre as duas amigas.
“E você deve amar me deixar sem palavras, Q.” A morena disse. “Obrigada pelas flores.”
Elas então trocaram um olhar significativo. A conexão foi interrompida pelo pigarrear de Mark, que não poderia estar mais fascinado com a interação entre elas.
“Mark...” Quinn sorriu-lhe, parecendo notar sua presença apenas naquele momento. “Você também estava perfeito hoje, a Rachel definitivamente não poderia ter encontrado um parceiro melhor.” Ela disse, sincera, também abraçando o rapaz.
Quinn tinha visto Mark apenas duas vezes, uma na fatídica festa que o moreno havia dado em sua casa, na qual eles tinham sido apresentados, e outra na estreia da peça, quando ela havia conversado com ele por um breve momento, apenas para parabenizá-lo pela atuação. Mesmo assim, ela sentia uma simpatia pelo ator, por todas as coisas que Rachel já havia lhe dito sobre ele e, principalmente, pela amizade sincera que ele parecia nutrir pela morena.
Ele devolveu o abraço, agradavelmente surpreso. Quinn realmente parecia transmitir tudo o que Rachel já havia dito sobre ela.
“A Quinn está certa, vocês se superaram hoje.” Melanie afirmou, sorrindo para ambos. Então alguma coisa pareceu ter sido dita a ela pelo ponto que ela usava no ouvido. “Eu tenho que correr. Quinn, fala com a Vic e depois me confirma, ok?” Ela sorriu docemente para a loira. “Vejo vocês amanhã.” Ela disse para Rachel e Mark.
Ela então dirigiu um último olhar para Quinn antes de ir embora pelo corredor que Rachel tinha vindo.
“Você já conhecia a Melanie?” Mark perguntou para a loira, curioso.
“Eu e a irmã dela trabalhamos juntas e saímos às vezes.” Quinn disse, de forma vaga.
“Que coincidência!” Ele disse, percebendo uma ligeira mudança no clima entre as duas. “Bom, eu não sei vocês, mas eu estou exausto e não vejo a hora de ir para casa. Rachel, meu bem, até amanhã.” Ele disse, dando um beijo no rosto da diva. “Quinn, sempre um prazer ver você, espero que venha nos prestigiar mais vezes.” Ele sorriu e se despediu, indo em direção ao próprio camarim.
Rachel se virou para a loira. “Você me espera trocar de roupa?”
“Claro.” Quinn disse. E então a morena a guiou para dentro do seu camarim.
A loira já havia entrado lá no dia da estreia e agora que estavam só ela e Rachel, ele parecia bem maior do que antes, quando todo mundo havia entrado. Ela sentou no pequeno sofá que havia do lado direito da porta, na parede contrária de onde ficava a maior penteadeira que ela já havia visto. As flores que ela havia comprado para a morena estavam lá. A bancada era repleta das mais variadas maquiagens e acessórios. Ela havia entregado o bouquet para Owen e ele o tinha trazido para o camarim sob a ordem de que a morena não o visse antes de começar a peça. Também fora ele quem havia deixado ela entrar no backstage depois da apresentação, assim como no dia da estreia ele havia deixado todos eles entrarem no camarim da morena. Naquele dia, Santana havia dado a ele um gostinho do seu estilo Lima Heights, com uma pequena ajuda de Quinn. Aparentemente, ele não havia esquecido.
Dando uma olhada ao redor, foi impossível continuar sentada. Na parede à sua direita estava a porta que levava ao banheiro, onde Rachel estava naquele momento. Ao lado, havia uma enorme estante, que cobria toda a parede, ocupada por uma infinidade de perucas, máscaras, acessórios, tudo o que se podia imaginar. O restante do cômodo era ocupado por diversos figurinos, alguns dispostos em fileira por biombos, outros em cabides pregados nas paredes, ao lado de vários cartazes de peças antigas emoldurados e autografados. Na frente do sofá em que ela antes sentara, uma mesa baixa estava repleta de revistas e jornais e partes do roteiro da peça, completamente grifados e rabiscados. Do lado esquerdo da porta de entrada, havia um frigobar e uma bancada com um pequeno buffet e bem na porta de entrada, cobrindo quase toda a sua extensão, estava o cartaz de Spring Awakening. Todo aquele cômodo exalava Rachel Berry.
Quinn estava tão inebriada pelo ambiente que sequer percebeu que a morena havia saído do banheiro, apenas caindo em si quando ela a chamou, sentada na cadeira em frente ao espelho, enquanto botava os sapatos.
“Q? Você está bem?” A morena perguntou, arqueando a sobrancelha.
Quinn se virou. “Estou sim. Só me distrai com tudo isso...” Quinn gesticulou.
Rachel riu. “Eu sei. Nos primeiros dias de ensaio, quando eles me deram esse camarim, eu fiquei completamente deslumbrada. No dia em que eles botaram esse cartaz, eu não conseguia parar de olhar para ele.” A morena recordou.
Quinn fitou a morena, sorrindo orgulhosamente. Elas trocaram um olhar cúmplice, pois a loira sabia o quanto aquilo significava para Rachel.
A morena então se levantou e pegou sua bolsa e as flores, cheirando-as mais uma vez. “Gardênias?” Ela disse, sorrindo de lado.
Quinn também pegou sua bolsa e abriu a porta para a morena. “Achei apropriado.” Ela se limitou a dizer, um singelo sorriso no rosto, seguindo Rachel para fora do camarim.
A morena logo se despediu de todos que estavam ali. Alguns poucos fãs ainda estavam na saída do teatro e Rachel deliciou-se com a atenção recebida, distribuindo alguns autógrafos e fotos. Rachel estava, definitivamente, em seu elemento, Quinn observou. Seus olhos brilhavam, aquele familiar sorriso de mil watts não deixava seu rosto e ela respondia e atendia com entusiasmo tudo que lhe era perguntado ou pedido. Quinn podia ver que as pessoas estavam maravilhadas com a forma atenciosa com que Rachel estava se dirigindo a elas, algumas com uma expressão que beirava a incredulidade.
Quinn não apressou a morena, deixando que ela tomasse o tempo que fosse. Como era uma apresentação no meio da semana, não havia muitas pessoas e então não houve demora. Rachel se despediu do último fã e se dirigiu a ela com um sorriso contagiante no rosto.
Elas passaram a caminhar tranquilamente pelas ruas, enquanto leves risadas dominavam a conversa. Quinn não havia ido de carro e elas tinham decidido voltar a pé, aproveitando o clima agradável daquela noite. Quinn havia imaginado vários cenários sobre como ela e Rachel ficariam depois da conversa sincera que haviam tido e, ainda assim, tinha sido surpreendida. Rachel realmente não havia se afastado ou tomado qualquer das atitudes que Quinn havia esperado que ela tomasse. Na verdade, a morena tinha assumido uma postura muito parecida com a que ela tomara todas as vezes que elas haviam brigado no colégio. Ela tinha permanecido ali, como que para lembrar a Quinn que nada do que acontecesse a faria se afastar.
Talvez Quinn realmente tivesse subestimado a importância que a amizade delas tinha para Rachel. E, mais uma vez, estava surpresa com o rumo que as coisas estavam tomando. Elas tinham passado por muitas coisas juntas, tinham construído uma amizade de onde só havia restado ressentimento e mágoa, mas Quinn tinha a sensação de que estava tendo uma experiência completamente nova dessa vez.
Ela não saberia dizer se era devido à mudança de atitude da morena desde então, se era por causa de tudo que estava acontecendo desde que Brittany mudara para NY, se era pela sua estreia na Broadway, mas Rachel e Santana haviam parado de viver em torno de boates, bares e mulheres sem nome. E agora, de fato, parecia que elas tinham uma casa. Que agora mais do que nunca vivia cheia de conversas perdidas pelo sofá, de risadas estridentes na cozinha, de filmes e séries vistas debaixo das cobertas...
E pensar nessa nova velha Rachel era uma coisa que Quinn sabia que não devia estar fazendo.
“No que você está pensando?” A morena perguntou.
“Como você sabe que eu estou pensando em alguma coisa, Berry?” Quinn arqueou a sobrancelha.
“Eu te conheço, Q. Fala logo.”
Quinn suspirou, optando por um caminho mais seguro. “Só que as coisas realmente mudaram. Você. Santana. Nossas vidas.” Aquilo era realmente parte do que estava pensando.
“Talvez porque eu e a Santana resolvemos finalmente amadurecer?” Rachel disse, o tom não era completamente de brincadeira.
Quinn cutucou a morena com os ombros, rindo. “Não era isso que eu ia dizer.”
“Mas foi isso o que você pensou.” Rachel disse. Um silêncio então pairou entre elas. “Quinn, não que eu não tenha gostado de você ter ido ver a peça mais uma vez e ter me trazido essas flores lindas, mas.. quero dizer, nós discutimos outro dia, mas tudo ficou bem depois e eu...”
“Você está certa. Eu decidi roubar a ideia do Kurt e ir te ver porque eu não queria deixar nada por dizer entre nós.” Quinn admitiu. “Aquela discussão... eu não devia ter falado com você da forma com que eu falei.”
“Você só estava sendo sincera, Quinn. Eu não posso pedir mais do que isso de você.” Rachel disse, balançando a cabeça.
“Eu sei. E você também estava sendo sincera. Só que não é justo eu dizer que perdoo você e depois jogar na sua cara o que você fez no primeiro desentendimento. Não é assim que eu quero agir com você.” A loira declarou.
Quinn se lembrava de todas as brigas entre elas. Rachel nunca havia usado o que a loira lhe fizera no passado contra ela. Pelo contrário, ela sempre esperava o seu melhor, mesmo quando nem a própria Quinn acreditava nisso.
Rachel não sabia o porquê, mas parecia que elas haviam inconscientemente diminuído o ritmo dos seus passos. A morena então parou de andar, se virando para a loira. “Eu estava sendo sincera em todas às vezes que eu disse que sentia muito por tudo que eu fiz, Q. Eu...” Os olhos castanhos se fixaram em Quinn, quase suplicantes.
“Rach... eu não quero mais que você me peça desculpas por isso, ok? É justamente isso que eu estou querendo dizer. Eu não quero que você sinta a necessidade de dizer isso toda vez que tocamos nesse assunto. Vamos deixar isso pra trás de uma vez por todas?” Quinn propôs, os olhos avelãs faiscando em sua direção.
Rachel sorriu-lhe docemente. Ela não cansava de se surpreender com Quinn. A presença inesperada, as gardênias, o encantamento impresso em seu rosto no fechar das cortinas, o abraço aconchegante, a troca de olhares, as palavras sinceras. Tudo aquilo era demais! Era quase impossível manter o foco apenas na amizade entre elas, pensar que Quinn faria todas aquelas coisas pensando apenas na amizade entre elas... mas ela precisava! Ela não queria dar mais motivos para a loira pensar que ela deveria se mudar.
Ela se limitou a acenar levemente com a cabeça. “Vamos.” Ela disse, um peso enorme saindo de seu coração.
Elas então retomaram a caminhada. Ambas de coração leve. Rachel sentia, pela primeira vez, que poderia voltar a ser quem era com Quinn, sem medo de dizer ou fazer algo que pudesse magoá-la. Levada por esse sentimento, ela enganchou seu braço em volta do de Quinn, trazendo-a pra perto. Seu coração pulou uma batida assim que a loira se aconchegou melhor, sem repelir o gesto, querendo mostrar que tudo estava realmente bem.
“Rach... eu preciso da sua ajuda.” A loira disse depois de um tempo caminhando em silêncio.
“Aconteceu alguma coisa?” A morena preocupou-se.
“Ainda não. Mas vai.” Quinn disse, como se estivesse muito certa de alguma coisa.
“O que é?”
“A Carter está vindo para NY no final de semana da formatura do Kurt.” A loira falou, resumindo todas as possibilidades de algo acontecer em uma frase apenas.
Rachel parou por uns instantes, tentando absorver a informação. “Ok. Há algo que podemos fazer além do inevitável?” Ela perguntou, referindo-se ao encontro entre Carter e Santana.
“Bom, eu estou tentando manter a Brittany o mais tranquila possível e prometi que ficaria ao lado dela o tempo inteiro. Acho que não tem mais o que fazer sem deixá-la ainda mais nervosa. Por outro lado, a Santana...” Quinn descontinuou.
Rachel concordou com a cabeça. Ela sabia que com Santana o buraco era definitivamente mais embaixo.
“Eu queria conversar com ela, deixá-la de sobreaviso. Seria muito cruel fazer ela chegar lá e dar de cara com a Carter. Ela tem que ir preparada. Mas eu não sei se eu seria a pessoa mais indicada pra essa conversa. Talvez você poderia fazer isso? Você tem uma abertura maior com ela quando o assunto é a Brittany.” Quinn pediu.
“Claro, Q. Claro. Eu vou conversar com ela.” Rachel assegurou. Ela daria todo o suporte necessário para a latina.
“Eu queria ser a pessoa a conversar com ela, mas... fico com medo de como ela vai encarar essa informação vinda de mim.” Quinn disse.
“Ela vai saber que essa informação veio de você. E talvez fique chateada por você mesma não ir falar com ela.” Rachel conjecturou. “Nós duas podemos ir falar com ela.” A morena propôs.
“Aí ela vai pensar que estamos formando uma dupla contra ela, não sei.” A loira disse. “Você conhece a Santana. Ela não gosta de ser posta contra a parede e ter nós duas conversando com ela vai parecer exatamente isso.”
A morena sabia que aquilo também era uma possibilidade.
“Ok. Eu converso com ela. E digo que você queria conversar, mas eu achei melhor não. O que você acha?” A morena olhou para Quinn.
“Perfeito.” A loira sorriu.
“Que Santa Cher nos ajude.” Rachel brincou.
“Deus, você soou exatamente como a Santana agora!” Quinn riu, balançando a cabeça.
Assim que chegaram em casa, elas repararam em Santana dormindo sonoramente no sofá, a televisão ligada em um canal qualquer.
“É seguro acordá-la?” A morena perguntou.
“Não.” Quinn respondeu prontamente. “Por isso vou deixar isso pra você.” Ela disse, indo em direção ao seu quarto.
“Quinn! Você não vai deixar o trabalho pesado todo pra mim, vai?” Rachel a chamou de volta.
Quinn se limitou a rir. “Eu acordo cedo amanhã, Rach. Boa sorte.” Ela piscou-lhe, entrando no quarto em seguida.
Rachel encarou a latina no sofá e suspirou profundamente, sentando no espaço que ainda restava entre os pés da amiga e o descanso do sofá. Ela retirou com cuidado o controle da tv de suas mãos e o depositou na mesinha. Santana estava com a expressão serena no rosto, de quem dormia tranquilamente. Seu coração então se apertou pela latina e pelo que ela teria que encarar pela frente. Deus, como ela esperava que a amiga não estragasse tudo ao ver Brittany ao lado da namorada.
Mas, como ela bem sabia, todas as apostas apontavam na direção contrária.
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