How To Save A Life
2 You Are My Person
Notas iniciais
A segunda-feira havia chegado e Rachel já estava de pé. Tinha uma rotina matinal bem rígida durante a semana, que não permitia atrasos. Fez seus exercícios físicos e vocais e, como de costume, foi preparar o café da manhã. Surpreendeu-se ao encontrar a mesa já arrumada.
"Sabe Quinn, acho que você ter se mudado pra cá pode ter sido a melhor coisa que já aconteceu para este apartamento" Ela falou, sentando-se. "Não consigo me lembrar de uma única vez que a Santana tenha acordado mais cedo que eu, muito menos de ter feito o café..."
A loira, já completamente arrumada, olhou pra ela, abaixando o jornal que lia. Rachel reparou que ela estava com uma cara meio abatida.
"Quero chegar cedo no escritório. Ainda tem uns papéis que preciso assinar, além de conhecer com quem vou trabalhar e organizar minha sala." A loira respondeu. "Mas não se preocupe, amanhã eu deixo o café por sua conta." Ela sorriu. "Os ensaios começam hoje?"
"Tenho uma reunião à tarde, mas quero passar em NYADA agora de manhã... Você está bem?"
"Eu não sei... Estou meio enjoada, vou ver se compro um remédio na rua." Quinn fez uma careta. "Bom, eu já estou indo." Levantou-se. "Quer uma carona?"
"Prefiro sair com o meu carro hoje. Disse que ia dar uma carona para o Kurt e Blaine e vou almoçar com o Brody." A morena explicou.
"Eu também não vou almoçar em casa. Vou deixar para você avisar para a Santana que hoje ela está sozinha." Quinn pegou suas coisas e saiu em direção à porta, parando logo em seguida e olhando-se de cima a baixo, como se analisasse a própria roupa e mordendo o lábio inferior pensativa.
"Você está gostosa Fabray, relaxe..." Rachel falou em tom de brincadeira, observando a saia justa até os joelhos que a amiga usava e que realçava suas curvas.
"Está vulgar?" A loira perguntou preocupada.
"Vulgar é uma coisa que você nunca será, Q." Rachel disse outra vez em tom de brincadeira, confundindo a loira, então tentou fazer uma cara séria. "Está ótimo, não se preocupe."
"Ok..." Quinn respondeu, acreditando na morena. "De noite você me conta como foi a reunião." Disse, fechando a porta do apartamento. "Qualquer coisa estou no celular!" Ela gritou já no corredor.
Rachel terminou o café, se arrumando rapidamente. Preferiu deixar um bilhete para Santana na geladeira, acordar a latina nunca tinha sido uma tarefa prazerosa. Minutos depois e estava em frente ao prédio dos amigos, buzinando impacientemente.
"Bom dia pra você também!" Kurt falou, entrando no banco do carona, enquanto Blaine entrava atrás.
"Bom dia, Rach. Desculpe o atraso." Blaine cumprimentou.
"Sem problemas. Faço isso só pra irritar o Kurt." Ela brincou, arrancando com o carro, enquanto o amigo revirava os olhos.
O trânsito estava completamente caótico.
"COMPROU SUA CARTEIRA AONDE, FILHO DA PUTA?" Gritou Rachel para o cara que dirigia o carro ao lado, cantando pneu logo em seguida. Já era a quinta vez que ela brigava com alguém em menos de 10 minutos e Kurt olhava horrorizado para a pequena.
"Rachel Berry! Quero me formar em NYADA ainda! Diminua essa velocidade agora!" Ele ordenou.
"Sem estresse, Kurt. Quem está dirigindo sou eu." Rachel respondeu, sem dar atenção ao amigo.
"Você chama isso de dirigir? Mas quando foi que você ficou assim? Até hoje eu não me lembro..." Kurt virou-se indignado para a janela.
"Acho que ter essa discussão pela milésima vez não vai adiantar, amor." Blaine falou de forma tranquila.
Podia-se dizer que como motoristas nem Rachel nem Santana conheciam a palavra direção defensiva, muito menos a palavra paciência, mas ambas dirigiam muito bem.
Rachel finalmente entrou em NYADA. Não sabia por que tinha adiado aquilo, deveria estar feliz e ansiosa... Essa seria a Rachel de seus primeiros meses na faculdade, mas agora ela simplesmente desconhecia como era ficar ansiosa por alguma coisa. Só não sabia se isso era amadurecimento ou um certo tipo de desinteresse. Não podia ser desinteresse, simplesmente porque se tratava de seu sonho, mas mesmo assim se sentia estranhamente vazia.
Sentia um enorme carinho por aquele lugar e já estava com saudades daqueles corredores. Não demorou para os olhares se voltarem para ela. Rachel Berry tinha sido, sem sombra de dúvida, um marco naquele lugar. Todos sabiam que ela conseguiria. E conseguiu. Depois de vários papéis off-Broadway e, o mais comentado e admirado, seu papel como Fanny Brice, ia finalmente estrear nos palcos da Broadway, e como atriz principal.
Mas não era só o seu talento que chamava atenção ali. Ela percebia a cobiça e o desejo estampado na cara de homens e mulheres por aqueles corredores, e muitos já tinham ido além daquilo, abordando-a das formas mais inusitadas. Ela e Santana tinham somente mais uma regra além de não se comprometerem: não ficarem com ninguém de NYADA. Então, sempre que alguém era mais direto, ela não pensava duas vezes em dispensar a pessoa.
Ela tinha que admitir que eles tinham sido insistentes, contudo. Flores tinham sido deixadas em seus pertences junto a números de telefone e elas já tinham recebido até cestas de café da manhã com cartões de “encontre-me em NYADA”, além de várias outras tentativas de conquista. Santana não poderia achar mais entediante, mas de vez em quando era bom tomar um café da manhã diferente...
O fato de andar por NYADA com Brody, que era veterano, ser amiga de Santana, o que falava por si só, e de pessoas mais velhas também contribuía para sua fama, além, é claro, de ser a “protegida de Carmen Tibideaux” e, apesar do inferno que tinha sido sua vida quando conheceu Cassandra July, elas tinham se tornado amigas a sua maneira. O atrevimento e o talento de Rachel havia causado uma profunda admiração por parte da professora.
"Posso entrar?" Rachel perguntou parada na porta.
A mulher loira alongando no meio da sala analisou Rachel com um meio sorriso.
"Claro."
A morena hesitou antes de entrar, mas caminhou até Cassandra, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
"Eu acho que você já deve estar sabendo... Mas eu não pude evitar vir aqui te contar. Eu consegui o papel principal em Spring Awakening na..."
"Broadway." Cassandra completou assentindo.
Rachel analisou cuidadosamente a expressão da professora. Conhecia seu passado e a amargura guardada por ele.
"Schwimmer... Eu não vou pedir desculpas por tudo o que eu te fiz, porque eu acho que isso te fez crescer. Estou feliz por ter conseguido o papel. A Broadway ganhou uma ótima atriz..."
Rachel achou que as palavras tinham sido proferidas pela professora sem nenhum tipo de emoção, mas então Cassandra se adiantou para abraçá-la, surpreendendo a morena completamente. Elas ainda ficaram conversando, de igual para igual, por um bom tempo antes de Rachel dizer que precisava sair e ela lançou um último olhar à garota pedindo baixinho para que ela se cuidasse.
Pela primeira vez, Cassandra July estava realmente feliz por um aluno. Rachel era grande, isso ela sabia, e merecia o papel. Suspirou, se preparando para mais um dia entediante de aulas...
Rachel saiu de NYADA, não sem antes visitar cada lugar que a marcou ali. Continuava com a aquela estranha sensação, como se seu sentimento de realização não estivesse completo. Sua garganta ardeu incomodamente, mas ela se recusou a dar atenção ao vazio em seu peito, empurrando mais uma vez qualquer emoção para longe da superfície.
Encontrou o homem de rosto másculo bem marcado e olhos claros encostado na parede ao lado da porta. Ele tinha deixado o cabelo crescer, mas a barba continuava impecavelmente bem feita. Assim como seu corpo bem trabalhado. Brody sorriu ao ver a morena. O sorriso com certeza continuava perfeito.
"Você demorou." O moreno estendeu o braço para Rachel segurar e começou a caminhar com ela.
"Estava matando a saudade..." Rachel sorriu.
Brody olhou atentamente para o rosto dela, vendo as olheiras ali.
"Café ou balada?"
"Os dois?" A morena disse com uma cara falsamente culpada.
"Você tem que parar com isso, praticamente não dorme mais." Brody falou em tom de aviso.
"A Quinn está aqui, você sabe, a gente saiu para comemorar." Ela justificou.
"Eu esqueci que ela chegava ontem. Caramba, vocês três são as mulheres mais lindas que eu conheço e estão morando juntas..." Brody parou de andar. "O quão sexy é isso?"
"Bobo!" A morena apertou seu braço, forçando a andar novamente. "Como está o meu loft? Sinto falta de lá..."
"Você está nostálgica hoje... Não se preocupe. Estou cuidando bem dele." O moreno soltou uma risada.
"Eu amo aquele lugar!" Rachel suspirou. "Representa tanta coisa! Foi muito mais do que um lar pra mim.
"É difícil deixar ir as coisas que amamos..."
"Às vezes eu me pergunto se elas realmente vão embora." A morena disse mais para si do que para Brody.
Eles entraram no carro da morena, indo em direção ao restaurante escolhido. Rachel até que entendia a ansiedade de Santana em querer se mudar. Não era bem que ela não gostava do loft... Mas as lembranças amargas que tinha superavam qualquer coisa. A mudança foi pra deixar para trás de vez tudo isso, além de arrumarem um lugar maior pra morar. Para Rachel, também foi uma forma de ficar mais perto da Broadway. Elas tinham conseguido alugar um ótimo apartamento em Manhattan, próximo ao Central Park.
Desde que terminou com Brittany, Santana não quis saber de ninguém. Ela ficou bem por um tempo, o discurso de que a loira era sua “eterna melhor amiga” a acalmava. Mas não favorecia ser a única solteira do grupo. Kurt estava com Blaine e Rachel estava com Finn. Os dois namoros pareciam encaminhar para um casamento. Demorou um tempo para a latina se afundar, mas quando aconteceu tudo o que ela guardava para si caiu sobre ela de uma vez só.
Ela se deu conta do quanto realmente Brittany significava e de que a garota estava longe agora. Elas não mantinham contato, uma sequer sabia o que estava acontecendo na vida da outra depois de um tempo. Rachel tentava de forma persistente, apesar de ser rechaçada por Santana, consolar a amiga. Ela não comia, não dormia direito, não conversava...
Foi quando aconteceu.
Finn terminou com Rachel e a morena ficou sem chão. Santana passava noites em claro durante aqueles meses tentando consolar Rachel enquanto ela chorava, como a amiga sempre fizera por ela. Ela viu Rachel perder parte do seu brilho e parte do seu jeito de ser. Ficou por dias dormindo na mesma cama que a diva. Elas conversavam até mais tarde sobre tudo o que vinha na cabeça, ou às vezes ficavam em silêncio até dormir. Se alguém olhasse de fora parecia uma cena melancólica, mas era uma forma de se entenderem e mostrarem que estavam uma com a outra.
Rachel na época do colégio não ousaria sonhar que Santana Lopez se tornaria praticamente sua irmã e a entenderia por um simples olhar. Nem Brody, nem Quinn poderiam estar sempre por perto e Kurt ia para Lima constantemente, além de não estar na mesma sintonia das duas, sendo também um pouco ausente. Então, na maioria do tempo, eram apenas as duas...
Flashback On
Santana chegou em casa extremamente cansada e irritada. Largou o casaco em cima do sofá junto com a bolsa e jogou a chave em cima da mesa. Era mais um rompante de mau humor. Ela e Rachel tinham apenas maneiras diferentes de lidar com isso. Enquanto a latina atingia níveis de sociopatia nunca antes alcançados, a diva se calava, e chorava. Nesse dia ela escutou soluços vindos do banheiro. Pareceu relaxar por um momento antes de resolver entrar. Rachel estava sentada no chão do box, como em tantas outras vezes, apenas chorando e deixando a água escorrer por seu corpo.
"Rachel, sai daí." Santana disse abrindo a porta do box.
A morena olhou para a latina com um sorriso fraco que ela retribuiu, se afastando para pegar uma toalha. Desligou a água e estendeu a mão para Rachel, que a segurou.
Elas estavam deitadas, encarando o teto fazia um bom tempo. O silêncio predominava no quarto aquele dia. Santana começou a se sentir sonolenta e a fechar os olhos quando Rachel falou.
"Você é a minha pessoa."
Ela virou o rosto para a amiga, confusa.
"Lembra quando a gente ficou uma semana sem ir na aula, assistindo todas as temporadas de Grey’s Anatomy?" A morena disse ainda encarando o teto.
"Lembro, mas acho que foi por muito mais que uma semana..." A latina assentiu brevemente, sorrindo ao se lembrar. Elas tinham adquirido uma paixão pelo seriado
"Meredith e Cristina. Elas diziam uma à outra: você é a minha pessoa. Exatamente na mesma situação fodida em que a gente está." Rachel suspirou. "Você é a minha Cristina. Você é a minha pessoa."
Santana sentia o quanto a frase era verdadeira. Rachel tinha adquirido não se sabe como o dom de desarmá-la...
"Que bom..." Ela disse com a voz falha e limpando a garganta em seguida. "A minha personagem preferida sempre vai ser a Cristina Yang..." Sorriu.
Rachel a encarou brevemente, antes de sentir Santana a puxando para se deitar em seu peito e começar a acariciar seus cabelos. Antes de dormir podia jurar ter escutado a amiga sussurrar:
"E você sempre vai ser a minha Meredith..."
Flashback Off
Foi nesse dia que, ao acordarem, decidiram que não dava mais para continuarem daquele jeito. Elas tinham que reagir de alguma forma. E a maneira que encontraram para isso não poderia ser mais viciante...
Naquele fim de semana elas saíram e beberam, até esquecer. Não se lembravam de terem estado tão loucas quanto naquela noite. Na verdade, não se lembravam de muita coisa. Mas a sensação era maravilhosa. Depois que a ressaca passou elas se sentiam renovadas e continuaram a festa no outro dia, chamando amigos para o loft. Apenas flashes vinham na mente de ambas do ocorrido e elas gargalhavam com isso. Fazia definitivamente muito tempo que não se divertiam assim. Os meses se passaram e elas repetiam o comportamento todo final de semana e durante a semana também, quando sobrava tempo. Eram completamente inseparáveis. Aprenderam a beber e roubaram todo o brilho da noite Nova-Iorquina.
Não foram raras as vezes em que acordavam fora de casa, sem se lembrar direito como foram parar ali, ou que acordavam com mais alguém no loft ou em um motel. Na grande maioria das vezes eram mulheres. Elas não se davam nem ao trabalho de saber seus nomes. Rachel, já com o visual repaginado, havia se tornado também uma mulher confiante e provocante. Extremamente talentosa e focada quando se tratava de NYADA, ganhou o respeito até de Cassandra July. Todos os alunos tinham uma queda por ela e algumas alunas também.
Quanto a Santana... Bem, Santana era Santana. Elas desenvolveram gosto por jogos de azar e só não tinham viajado para Las Vegas ainda pelo bom senso de Brody de impedi-las. Tinha certeza que as amigas morreriam se fossem para a famosa Cidade do Pecado. Sinuca também tinha se tornado um vício e não havia dupla que ganhasse das duas. Elas tinham que admitir que nunca tinham se divertido tanto.
O celular de Rachel tocou na bancada da cozinha. Kurt, que estava mais próximo, o pegou para entregá-lo à diva. Já era noite e ele e Blaine haviam se juntado às três amigas mais Brody no apartamento para comerem uma pizza.
"Está escrito “não atender”..." Ele disse com o cenho franzido, olhando para a frase onde deveria estar o nome da pessoa no aparelho.
Rachel riu, pegando o celular e colocando-o no silencioso. A tela continuou acendendo. A pessoa era insistente.
"O que é isso?" Kurt insistiu.
"A Rachel é lerda pra pensar em um número de celular inventado, então ela passa o número certo, pega o número da pessoa e bota ‘não atender’ para não acabar esquecendo." Santana explicou.
Kurt pegou o celular, que vibrava pela quarta vez e acessou a agenda. Desceu pelos nomes até encontrar: não atender 1, não atender 2, não atender 3, não atender 4... A lista parecia que não acabava. Ele arregalou os olhos para Rachel.
"Eu pensei que não dava mais para me surpreender com vocês duas. Estão tentando sair com a lista telefônica inteira de NY?"
A morena deu de ombros, pegando o joystick ao lado da latina.
"Bota pra dois. E eu fico com o Barcelona." Rachel anunciou previamente.
"Nem pensar, eu quero um jogo justo, ninguém fica com o Barcelona." A latina rebateu.
"Ok..." A morena suspirou.
"Eu quero jogar também!" Brody levantou-se.
Kurt revirou os olhos em tédio e Blaine sorriu carinhosamente para ele.
"Como eu fui arrumar um homem que não se interessa por jogo nem esporte nenhum?" Blaine se questionou.
"Não dá pra ser perfeito..." Kurt virou o rosto para ele com um sorriso.
Blaine o beijou apaixonadamente, atraindo o olhar de Rachel, que apertou os lábios, sentindo-se mal de repente. Quinn captou seu olhar sem que ela percebesse.
"Gol!" Santana comemorou, atraindo o olhar da morena.
"Não é justo! Eu não estava olhando!" A morena reclamou de imediato.
"Para de arrumar desculpa pra sua incompetência!" A latina provocou.
"Olha só! O meu zagueiro sequer se mexeu!" Rachel gesticulou para a tela.
"O problema é seu Berry!"
"Pula logo esse replay!" A morena disse irritada.
O jogo terminou 1x0 para a latina e Rachel resmungou antes de entregar a manete para Brody.
"Acho que eu fui um dos primeiros não atender da Rachel..." Brody disse enquanto se sentava para jogar e atraindo mais um olhar arregalado de Kurt.
"Vocês... Já?!" Kurt assustou-se.
"Não..." O moreno olhou carinhosamente para a pequena. "Ela pensou que sim, mas estava tão mal que eu só cuidei dela. E peguei o número do celular para saber se ela estava bem depois. Ela não me atendeu." Ele deu uma risadinha. "Imagina a surpresa de encontrar com ela pelos corredores de NYADA. E depois a fama que ela fez por lá..."
Flashback On
"A gente ia se casar. E ele terminou comigo..." Rachel disse com uma voz vazia de emoção.
"Sem motivo?" Brody perguntou.
"Se teve um de verdade, eu não sei."
"Ela terminou comigo também. E eu realmente gostava dela."
"Por causa..."
"É. Eu sei que não deveria ter mentido, mas o que eu podia fazer? Ela nunca teria nada comigo se soubesse. Eu sou sozinho Rachel, ninguém paga nada pra mim. Eu não converso com meus pais há anos... Pode não ser a melhor forma vista pela sociedade de ganhar dinheiro, mas..." O moreno deixou a frase morrer. "O ex-namorado dela veio até aqui para me socar. E ela está com ele agora, sendo que ele é um completo babaca."
"Foda-se a sociedade!" Rachel levantou a taça de vinho para brindar.
O moreno riu, antes de bater sua taça contra a de Rachel e tomar um gole.
"Vinho barato..." Ele fez uma careta.
"É o que temos para hoje." A morena deu de ombros, levantando-se para pegar mais uma taça, Santana deveria estar chegando.
"Acho que você já pode mudar meu nome para Brody no seu celular."
A morena riu e já estava com o aparelho em mãos quando Santana chegou, trazendo Quinn consigo. Rachel pulou da onde estava para abraçar a amiga.
"Você não me falou que estava vindo!" A morena sorriu no abraço.
"Era uma surpresa, mas encontrei a San na entrada do prédio." Quinn retribuiu, tirando-a do chão.
As duas cumprimentaram Brody, enquanto Rachel colocava a pequena mala de Quinn no “quarto” vago de Kurt.
Flashback Off
"Eu e o Brody praticamente trombamos um no outro." Rachel sorriu se lembrando.
"Que romântico." Santana comentou ironicamente.
"A Santana demorou um pouco para gostar de mim, mas ninguém resiste muito tempo ao meu charme..." Brody provocou.
"Muito charme, pouco jogo, gol." A latina disse entediada. "E eu ainda acho que você é traficante, podia jurar que o movimento de drogados na praça aumentava quando você estava lá."
Brody não disse nada. Não demorou muito para marcar um gol. Acabou virando e ganhado de Santana por 3x2. A latina largou o joystick relutante, entregando-o para Quinn, que recusou.
"Você está calada." A latina reparou.
"Dor de cabeça..." Quinn resmungou.
Eles viram a loira entrar em seu quarto com a cara fechada.
"Fraca." Santana disse simplesmente, abrindo a geladeira para pegar uma garrafa de cerveja.
Rachel não se demorou na partida, deixando Brody ganhar e encaminhou-se para quarto da amiga. Pensou se deveria bater na porta ou não para entrar. Preferiu abrir devagar, Quinn estava com dor de cabeça, afinal. O quarto estava escuro, as cortinas fechadas.
"Quinn?" Ela chamou baixinho.
Recebeu como resposta um gemido vindo da cama. Entrou no quarto fechando a porta devagar e agachou-se em frente à loira.
"Você está bem? É só dor de cabeça?"
"Acho que foi a noite de ontem..." A amiga suspirou.
"Você almoçou direito? Eu mal te vi encostando na pizza... Vou ver se tem alguma coisa mais saudável pra você."
Rachel saiu do quarto e voltou minutos depois com um sanduíche para Quinn, além de uma garrafa de água. A loira tomou a água em grandes goles, e acendeu a luz do abajur antes de começar a comer.
"Você ainda está enjoada?" Rachel quis saber.
A loira fez que não com a cabeça antes de parar pra pensar.
"Acho que um pouco..."
"Hm... Você comprou o remédio?" A morena mordeu o lábio, preocupada.
"Eu só preciso deitar um pouco..." Quinn disse, deixando o prato de lado e se recostando nos travesseiros.
Rachel apagou a luz do abajur, mas não saiu do quarto. Elas ficaram um tempo em silêncio antes da morena quebrá-lo.
"Quer conversar?"
"Sobre..." Quinn respondeu rouca.
"Eu não sei." Rachel sorriu. "Você ficou quieta a noite toda."
O silêncio se fez presente de novo.
"Rachel?"
"Hm..."
"Como você consegue? Quer dizer, você e a Santana... Eu não sei..." Quinn começou.
"Não entendi." A morena lhe sorriu.
"Eu não sei como te perguntar... Como vocês duas conseguem não se importar?"
"Não nos importar...?"
"Sentimentalmente falando." Quinn concluiu.
"A Santana eu não sei, mas eu simplesmente não consigo."
"Como assim?"
"Eu não sinto nada Quinn, por ninguém. Só vazio, o tempo todo. Você não se sente vazia?"
"Não o tempo todo..."
"Eu não sei... Eu gosto de sexo. Bastante." A morena frisou. "Mas é só isso. Não faz sentido depois eu dormir abraçada com alguém ou sussurrar coisas em seu ouvido. Eu não sei mais como é me sentir assim." Ela desabafou, suspirando em seguida. "Eu não sinto atração depois, nem arrependimento."
"Talvez se você conhecesse ou conversasse com a pessoa..."
"Faz cinco anos Quinn. Em cinco anos ninguém me interessou, ninguém me fez sentir nada. E sinceramente eu não quero sentir, eu já sei como a história acaba."
"Nem todo mundo é como o Finn..." Quinn disse baixinho.
"Eu estou bem, de verdade." Rachel sorriu. "Não tenho que quebrar a cara com ninguém pra descobrir se é como ele ou não... Por que você está me perguntando essas coisas?"
"Eu não sei. Eu estou meio que cansada de tudo isso. De nada dar certo."
"Você não precisa ser como a gente, Q. Você vai acabar encontrando alguém... E eu quero muito que esse alguém não ferre com você e que você seja feliz. Não existe só gente assim nesse mundo, o problema é que algumas pessoas simplesmente não têm sorte." A morena terminou com um sorriso triste. "Eu vou deixar você dormir." Ela disse ao ver Quinn fazer uma careta de dor.
Rachel se inclinou para beijar a testa de Quinn antes de sair do quarto. A loira não conseguia imaginar alguma coisa suficientemente ruim para deixar alguém no estado de Rachel e Santana. Como alguém podia chegar ao nível de não ver graça em mais ninguém? Seus relacionamentos não tinham dado certo, é verdade, mas nada que causasse tanto dano.
A morena entrou na sala com as mãos sobre os olhos devido à claridade e encontrou Santana se despedindo dos amigos.
"Já?" Rachel assustou-se.
"É segunda Rachel..." Kurt disse abraçando-a. "A Quinn está bem?"
"Está. São só os efeitos da ressaca, eu acho."
Santana bateu a porta, fechando-a em seguida. Deu uma rápida olhada para Rachel antes de caminhar para o próprio quarto.
"Hey..." A morena chamou, fazendo a latina se virar. "Está tudo bem?"
Santana fez que sim com a cabeça e a morena se adiantou para abraçá-la. Sentiu o peso que a latina colocou sobre o abraço e soube que as coisas não estavam bem.
"Brittany?"
"Eu não sei mais." Santana respondeu sincera.
Rachel se apertou no abraço, compreendendo perfeitamente o que a latina queria dizer.
"Sem rumo?"
"Nós somos o nosso próprio rumo."
"Por enquanto?"
"Para sempre."
As duas permaneceram abraçadas e Rachel sorriu, se lembrando de um momento muito parecido com esse, anos atrás...
Flashback On
"E quando você erra feio com alguém e não pode voltar atrás?" Santana questionou de repente.
"A gente dá um jeito." A morena respondeu.
"E se não tiver como?"
"Sempre tem como."
"Você sabe que não tem."
"A gente busca um novo rumo. Uma forma de não errar mais."
"Eu perdi o meu rumo." Santana disse, amarga.
"Você é o seu próprio rumo. E se você se cansar dele, tem o meu."
"Por enquanto?"
"Para sempre."
Flashback Off
Elas estavam ligadas e não deixavam a outra desabar. Como uma promessa silenciosa eram o caminho uma da outra e, quando se perdiam, não estavam sozinhas. Por enquanto ou para sempre, isso bastava.
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