Notas iniciais
E aí?

Quinn chegou do trabalho encontrando o apartamento uma bagunça e uma cena que nunca imaginou ver na vida: Santana e Rachel dançando e cantando pela casa.

"Oook, o que aconteceu aqui?"

Não houve resposta, Rachel apenas a puxou para dançar também. A loira deixou de tentar entender e se juntou a elas. Quando se cansaram deixaram-se cair no sofá.

"Vocês deixam isso aqui uma bagunça!" A advogada falou ofegante.

"Ainda bem que você chegou pra arrumar." Santana rebateu.

"Nem pensar!"

"O que vamos fazer hoje?" Rachel perguntou.

"A gente já não saiu no fim de semana?" Quinn destacou.

"Não sei... Você está com a mesma impressão que eu de que falta alguma coisa nesse lugar?" Santana comentou, ignorando Quinn.

"Estou." Rachel suspirou.

Santana se levantou e andou até o espaço vazio em frente à janela, olhando em volta.

"Acho que cabe uma mesa de sinuca aqui." A latina declarou.

"Isso! É isso que está faltando!" A morena levantou empolgada.

"Se a gente encostar essa poltrona na mesa..."

"Aí a gente não vai conseguir sentar."

"Não tem problema..."

As duas continuaram discutindo seriamente sobre a possibilidade. Quinn revirou os olhos e saiu dali para tomar um banho e dormir, estava extremamente cansada e sem paciência para as duas. Não se surpreendeu ao sair do banho e encontrá-las bebendo cerveja. Elas definitivamente precisavam de uma vida mais saudável. Agora que morava com as duas via o despropósito diário que as dominava. Meio que não davam importância para nada, só para suas próprias carreiras. Santana nem tanto, mas a mudança de Rachel nunca deixava de assustar Quinn.

Como alguém podia mudar por completo daquela forma? Os gostos, o jeito, a roupa... As duas se uniram contra o mundo e nada parecia afetá-las. Se Rachel era, em todos os sentidos, apaixonada, agora só demonstrava sua paixão pelos palcos.

Era manhã de sexta e Quinn tinha acabado de acordar para ir trabalhar quando encontrou Rachel na sala, assistindo televisão.

"Tão cedo?" A loira estranhou. Os ensaios ainda não tinham começado.

"Acordei e não consegui dormir de novo." A morena olhou para trás.

"O que você está assistindo?"

"Broadway..." A diva respondeu, dando um meio sorriso.

"Algumas coisas nunca mudam..." A loira piscou para ela.

Rachel apenas esboçou um sorriso de lado. Quinn encheu uma xícara de café e sentou-se no sofá também.

"Qual o musical que você vai fazer?" Perguntou.

"Spring Awakening." Rachel respondeu de prontidão, olhando-a surpresa pela pergunta.

"E fala sobre o quê, exatamente?"

"A história é um pouco... Forte. É sobre uma menina que a mãe se recusa a falar sobre como as mulheres se engravidam, e tem esse garoto, o Melchior..."

Quinn escutava atentamente tudo o que a morena dizia e seu coração pareceu se aquecer. Aquele tipo de sensação que você tem quando encontra familiaridade nas coisas e aquela Rachel estava extremamente parecida com a Rachel Berry do colégio. O brilho nos olhos castanhos estava de volta e a animação inocente ao contar as coisas também. E o sorriso, que era tão dela, não deixava o seu rosto nem por um minuto. Quando ela acabou de contar, Quinn pensou ter escutado algo estranho.

"Você vai ficar nua no palco?"

"Não totalmente..."

"Na frente de todo mundo?" Quinn arqueou a sobrancelha. "Outra vez?"

"Eu te entendo, Fabray. Não sei por que as pessoas insistem em ver a Rachel pelada. Parece que enquanto ela não mostrar os peitos em público não vão descansar." Santana disse, sobressaltando as amigas.

"Da onde você surgiu?" A morena soou irritada.

"Hey, calma!" A latina levantou as mãos. "Eu também trabalho, meu horário só é mais tarde que o da Quinn."

"Falando em horário..." A loira se levantou. "É melhor eu ir se não me atraso. Eu gostei da história, Rach." Sorriu para ela. "Vou estar na primeira fileira na sua primeira apresentação."

"Hm, se você quer ver os peitos da Rachel é só pedir Fabray, você mora com ela." Santana intrometeu-se.

A loira lançou um olhar cortante para a latina, antes de pegar suas coisas e sair do apartamento.

"Santana, você é extremamente desagradável." Rachel comentou.

"Às ordens." A latina disse abrindo a geladeira.

Quinn abriu a porta de seu próprio carro e entrou, encostando-se no banco com um pesado suspiro. Olhou em volta, prestando mais atenção do que de costume. NY realmente tinha algo de especial, algo que atraía as pessoas, que fascinava. Ao pensar nisso, pensou também em Rachel cantando, se dando conta do quanto sentia falta daquela antiga Rachel. De Lima. De tudo.

Ela queria ter voltado pra Lima, antes de ter ido para NY, mas então o motivo de não ter podido voltar lhe veio à mente e ela se sentiu enjoada. Sua mãe tinha descoberto que ela estava namorando com outra mulher e não reagiu muito bem. O que acabou resultando no término do namoro. O olhar de decepção que Judith lhe lançou foi a pior coisa do mundo para ela. Agora, no entanto, era uma mulher livre e independente, não a adolescente assustada que queria agradar a mãe. Também não era mais aquela menina que perdia tempo em relacionamentos sem futuro, por não querer se sentir sozinha. Mas sabia que, mais ou mais tarde, quando encontrasse alguém que valesse a pena, aqueles antigos fantasmas ainda voltariam para lhe assombrar. Balançou a cabeça, tentando afastar esses pensamentos e ligou o carro para sair dali.

...

Santana definitivamente estava gostando de seu novo emprego. Sua chefe era uma pessoa tranquila e bem-humorada e não impunha autoridade, dando para os professores, treinadores e coordenadores certa liberdade para inovarem em suas funções.

A latina logo fez uma fama digna de Cassandra July no lugar, não tendo muita paciência com os alunos e se deprimindo ao ver que a maioria não tinha a mínima noção de canto. Ela exigia deles muitos além do que eram capazes de conseguir e esperava que isso bastasse. Sorria internamente orgulhosa todas as vezes em que os via se esforçarem ao máximo, muitas vezes conseguindo surpreendê-la. Mas é claro que ela não dizia isso para nenhum deles. Não era uma experiência muito feliz ser aluno de Santana Lopez, dos arredores de Lima Heights e ex-aluna de Sue Sylvester e Cassandra July.

Assim que saiu dali estava doida para ir para um bar qualquer, então ligou para Rachel. Quinn não estava no clima para sair e nem Brody, então seriam somente as duas.

"Você encaçapou a vermelha."

"Ainda tenho mais duas chances." Rachel disse.

"Você fez de propósito, só pra me irritar."

A morena lhe lançou um sorriso, antes de fazer a bola branca encostar sutilmente na vermelha.

"Relaxa..." A pequena disse, tomando um gole de cerveja e deixando-a sobre a mesa.

"Meninas, quantas vezes eu tenho que dizer para não deixarem as garrafas aqui em cima? Tem um aviso ali..." Tom apontou pra parede.

"Relaxa Tom, se manchar a gente compra outra pra você." Santana disse.

"Então vocês me devem duas mesas." O velho dono do bar arqueou uma sobrancelha.

"É só pegar o dinheiro que a gente gasta aqui toda semana, dá pra você comprar um bar novo." Rachel argumentou.

"Ou uma bancada, pra gente colocar a cerveja e não precisar manchar as suas preciosas mesas de sinuca." Santana falou enquanto mirava a bola branca.

"Muito engraçadas." Ele comentou.

"Falo sério, Tom." A latina continuou, vendo o resultado de sua própria jogada e tomando um gole. "Ei, onde está o Samuel? Vem jogar com a gente..."

"Não posso, o Sam está de folga e você sabe como isso aqui lota nas sextas."

"A Rachel podia trabalhar aqui, ela está à toa." Santana olhou para a morena.

"Eu não estou à toa! Estou só esperando os ensaios começarem..." A morena protestou.

"Que seja." A latina deu de ombros.

Tom o olhou para os lados, percebendo uma cliente familiar.

"Lopez..." Ele falou mais baixo. "O que acha daquela ali?" Apontou discretamente com a cabeça.

A latina olhou bem para a garota. Ela tinha os cabelos lisos, escuros e curtos, na altura do ombro e aparentava ter olhos claros. O nariz tinha um formato pequeno e proporcional e os lábios eram rosados e cheios. O corpo era magro e ela usava uma jaqueta de couro com uma blusa branca por baixo, além das calças jeans surradas. Eram bem atraente, analisando o conjunto e a postura largada e tranquila. Tomava sua cerveja enquanto os amigos conversavam animadamente na mesa.

"Faz um mês que ela vem pra cá e todo final de semana não tira os olhos de você." Ele entregou.

Realmente, na hora em que Tom falou isso a garota encarou a latina fixamente. Não desviando o olhar quando percebeu que também era observada.

"Sério que a Joan Jett está afim de mim?" Santana soltou uma risada. "Como eu não tinha notado ela antes?" Ela virou para Tom, quebrando o contato visual com a garota.

"Ela fica sempre muito quieta no canto, bebendo."

"Hm, será que ela fala?" A latina umedeceu os lábios. Rachel revirou os olhos, já sabia o que estava por vir.

"Vá e descubra." Tom incentivou.

"Nada disso, termine a partida antes." Rachel colocou uma mão na cintura.

"A gente acabou de começar, Rachel!" Santana protestou.

A morena suspirou, olhando para a garota.

"Ok." Rachel largou o taco na mesa.

A latina tomou um longo gole de sua cerveja, esvaziando-a, antes de se afastar em direção à menina e Tom se virou para Rachel.

"Tequila?" Ele ofereceu.

"Por favor."

A morena já estava em sua terceira dose e conversava com Tom no bar de forma embolada. Santana já tinha há muito tempo sumido com a garota e Rachel estava cansada das mesmas caras repetidas daquele lugar encarando-a como se só com a força do pensamento pudessem despi-la. Via vários grupos de amigos seus entrarem no bar e a chamarem para se sentar com eles, mas ela estava sem ânimo, até que um moreno alto com um rosto familiar sentou ao seu lado no balcão, cumprimentando Tom e pedindo uma dose de uísque.

"Oi, Rachel." O rapaz disse, fazendo a morena franzir o cenho.

"Eu te conheço?" Ela perguntou de forma direta.

"Provavelmente não..." Ele respondeu. Vendo que a morena continuava sem entender, emendou. "Meu nome é Lucas e eu estudo em NYADA."

A compreensão se espalhou pelo rosto de Rachel. Era um aluno qualquer que já tinha ouvido falar seu nome pelos corredores ou assistido alguma das suas peças.

"Acho que continuo sem te conhecer..." A morena disse educadamente, fazendo o moreno rir.

"Eu fiz algumas matérias em que você era monitora." Ele explicou. "Não que eu te conheça por conta disso, você é uma lenda por lá."

Rachel sorriu com o elogio. Era bom ter o seu trabalho reconhecido, principalmente de um completo estranho no bar.

"Mas eu já tive a oportunidade de ver você no palco pessoalmente... Você é deslumbrante." O rapaz falou, olhando para a morena.

Se fosse outro cara qualquer, Rachel teria revirado os olhos e cortado o rapaz, sabendo que se tratava de só mais uma tentativa de se aproximar, cheia de segundas intenções. Não ficava com ninguém de NYADA. Mas esse Lucas, fosse quem fosse, parecia sincero e sem qualquer tipo de malícia.

"Você em Funny Girl foi simplesmente de tirar o fôlego. Não é qualquer pessoa que conseguiria fazer jus àquele papel e você conseguiu. Sou, definitivamente, seu fã."

"Barbra sempre foi minha inspiração." Ela revelou. "Fazer esse papel foi o momento de maior realização da minha carreira."

"E agora você vai estrear na Broadway! Logo depois de se formar." Ele disse admirado. "Minha inspiração se resume basicamente a você agora." O moreno brincou.

"Tenho certeza que você tem talento. NYADA é para poucos." Rachel afirmou, sorrindo. "Aproveite muito bem seu tempo por lá." Aconselhou. "E nunca desista."

"Aproveitarei e não desistirei..." Lucas prometeu.

A morena sorriu para ele e ele sorriu de volta.

"Bom..." O moreno disse, se levantando e pegando a dose de uísque. "Meus amigos estão me esperando, sentei aqui só para dar uma palavrinha com você."

Rachel assentiu com a cabeça e pegou sua cerveja para brindar com o copo dele.

"Boa sorte na sua carreira..." Ela desejou.

"Boa sorte em Spring Awakening." Lucas desejou de volta e virou as costas, parando logo em seguida. "Hey..." Ele chamou, fazendo Rachel olhar. "Break a leg..." Disse, sorrindo de lado e se afastando de vez.

Rachel sentiu seu coração parar por um segundo, antes de se virar para o balcão. Não sabia dizer se era a frase em si, se era porque Lucas era alto e moreno ou porque aquele sorriso torto era muito parecido com o de Finn, ela só sabia que aquilo a despertou para memórias que ela tinha se obrigado a não lembrar ou pensar. Todos os momentos em que aquela frase tinha sido dita entre eles inundavam a sua mente...

Não era lembrar de Finn que doía, era lembrar de alguém que já não era mais. A inocência, o primeiro e único amor, as ilusões e esperanças. Finn havia lhe sugado tudo, deixando pra trás só aquilo que não poderia tirar, seu talento e sua sede pelos palcos. E ela tinha se concentrado por anos só naquilo, porque era o que tinha lhe restado. Tinha dado tudo de si e recebido o vazio em troca. Vazio esse que a acompanhava todos os dias, onde quer que fosse.

Riu de si mesma. Nesses momentos, não era a talentosa Rachel Berry, que tinha feito fama pelos corredores de NYADA. Não era a mulher provocante e segura de si, que despertava olhares por onde passava. Era aquela menina frágil, que teve seu coração partido em mil pedaços pelo seu amor de colégio e se afundou em choro e sofrimento até não poder mais. Queria que todos pudessem vê-la agora. Tinha sido patética o suficiente por uma vida inteira, desperdiçando quatro anos de sua vida atrás de alguém que sequer sabia o quanto tinha lhe afetado. E ainda tinha levado de brinde momentos como esse, em que simplesmente não conseguia se segurar e deixava tudo desabar sobre si, por causa de qualquer merda que lhe fizesse lembrar algo que tinha vivido quando ainda era aquela Rachel Berry, boba e apaixonada.

Levantou-se e saiu do bar, entrando em seu carro e dirigindo para casa. Só queria se afundar na cama e esperar pelo próximo dia, quando já teria guardado novamente todos esses sentimentos. Entrou no banheiro, tirando sua roupa e sentando no chão do box, enquanto a água quente escorria sobre seu corpo. Pedia desesperadamente para que aquelas lembranças e sentimentos fossem levados pela água.

Quinn acordou no meio da noite. Sentia a garganta seca e arranhada. Levantou-se para ir até a cozinha e abriu a geladeira pegando uma garrafa de água. Era um milagre que houvesse água na casa daquelas duas. Sua casa agora. Mas tinha sempre a sensação de que abriria a geladeira e só encontraria vodca e cerveja. Não tinha escutado ninguém voltando para casa, então abriu a porta do quarto de Santana devagar, vendo que ela não estava ali. Provavelmente Rachel não estaria também, mas ao ver a porta do quarto da morena entreaberta resolveu olhar.

A princípio pensou que ela também não estava ali, mas então a viu sentada contra a parede do quarto, de frente para a janela, encolhida. A luz que entrava pela janela era precária, mas ela conseguia ver o pequeno corpo se sacudindo. Rachel estava chorando. Ali, na escuridão de seu quarto e silenciosamente. Quinn teve o impulso inicial de querer entrar, mas se sentiu travada e deslocada, como se fosse invadir o espaço dela. Parecia idiota, mas ela não entrou. Mordeu o lábio por um momento e voltou para o próprio quarto.

Rachel tentava esconder, mas era frágil e tinha inseguranças, como todo mundo. Talvez, a forma de desabafar esse vazio que ela sentia fosse chorando, encolhida no quarto, onde ninguém podia ver. Ela sabia que a vida não parava por causa disso. Mas tudo o que fazia parecia um grito desesperado para que parasse.

Notas finais
Uma pergunta... Estão gostando da fic? heuahe