How To Save A Life
22 Wake Me Up When It's All Over
Notas iniciais
Rachel acordou com dor de cabeça e dor no corpo. Não tinha dormido na própria cama. Na verdade, apagara no sofá mesmo. Sentou-se de olhos fechados, um gosto amargo na boca.
"A noite foi boa?"
A morena abriu os olhos. Seu pai estava encostado no batente da porta da cozinha bebendo algum líquido fumegante em uma caneca.
"Bom dia, pai." Ela disse rouca.
"Café?" Leroy ofereceu.
"Acho que eu vou lá em cima... Preciso tirar essa roupa."
"E tomar um banho." Ele arqueou a sobrancelha.
"É... vou fazer isso."
Rachel se levantou cambaleante em direção ao quarto, sendo acompanhada pelo olhar quase que de desgosto de seu pai, que balançava a cabeça. Mal reparou em Hiram, que descia as escadas.
"O que é isso?" Apontou para Rachel.
"É a sua filha."
"Minha? Só minha?"
"Sim. Só sua."
"Não sei... pelo o que eu me lembro quem bebe vinho demais e dorme no sofá é você." Hiram comentou.
"Você prefere o jardim, não é?" Leroy rebateu a provocação.
"Você estava viajando e eu perdi a chave de casa!"
Leroy riu sarcasticamente e terminou seu café, voltando para a cozinha.
Rachel estava em uma cena que não acontecera poucas vezes em sua vida. Sentada no box do banheiro, deixando a água escorrer pelo corpo. Suas duas pernas pareciam ser feitas de chumbo e o resto do corpo entrou em um estado de dormência. Tudo o que ela conseguia pensar era: como poderia ter perdido tanto tempo de sua vida com alguém como Finn? Lembrou-se de tudo. Da falta de coragem dele em relação ao Glee, a vergonha que ele tinha em assumir qualquer coisa com ela, seu medo em relação à opinião dos outros, o dia em que não apareceu para tirar uma simples foto, deixando-a sozinha, o fato de esconder que tinha dormido com Santana, o namoro escondido com Quinn, ele pedindo para ela desistir de NY, o término sem uma conversa ou explicação que prestasse depois da insistência em casar...
Estava quebrada, cansada, estragada emocionalmente. Tudo isso por alguém que não era tudo o que pensava.
...
Santana desceu do carro em frente ao pequeno prédio. Subiu até o endereço indicado por um Kurt confuso e sonolento e tocou a campainha insistentemente.
"Mas que inf... Santana?" Finn olhava confuso para a latina. Sua cara era a de quem tinha acabado de acordar, cabelo bagunçado, pijama. Exatamente o que Santana queria. Ela entrou sem pedir licença, franzindo o nariz para o apartamento, que parecia que ele nunca tinha se preocupado em limpar.
"Eu vou ser direta com você, Hudson." Ela se virou para ele com uma calma fria.
"Você entra no meu apartamento a essa hora da manhã..." Ele começou indignado.
"E preste muita atenção, porque eu não vou explicar nem perguntar nada de novo." Santana ignorou o que ele dizia.
O rapaz fechou a porta, encarando-a com a expressão fechada.
"Você teve algo com a Rachel?" Ela perguntou, fazendo-o franzir a testa.
"Você não sabe? A gente namorou, quase casamos..."
"Não se faça de idiota!"
"Acho que não é da sua conta." Ele a olhou, cínico.
"Claro que é da minha conta, seu imbecil!" Santana aproximou-se perigosamente.
Finn era muito mais alto e forte e mesmo assim recuou. Conhecia muito bem o gênio criminoso de Santana.
"Tudo o que diz respeito à Rachel é da minha conta, aprenda isso." Ela praticamente rosnou. "Eu já tenho a minha resposta. Agora eu quero saber o que você fez com ela."
"O que eu fiz com ela? Eu não faço nada sozinho." Ele disse, indignado.
"Disso nós dois sabemos muito bem." Santana rebateu, fazendo-o ficar furioso.
"E quem você pensa que é?" Finn se despiu da cautela, aproximando-se. "O que você foi para a Rachel para agir dessa forma? Você era uma vadia, Santana. Como você acha que tem o direito de se meter entre a gente com o que fez com a Brittany?"
"Eu amo a Brittany." A latina vacilou por um segundo, fazendo-o rir.
"E eu amo a Rachel. Qual a diferença entre nós dois?"
"Você transou com ela?" Santana aproximou-se até o limite, trincando os dentes.
"Sim, eu transei. Quer saber onde também? Na cama dela. E ela não parecia que não me queria." O moreno disse.
Santana fechou os olhos, respirando fundo. "Quando foi isso?" Ela perguntou baixo, ainda de olhos fechados.
"Ano passado. Agora, se você me dá licença, eu quero dormir." Finn se afastou, abrindo a porta.
Santana sentiu o corpo esquentar. Estava com raiva dele. Estava com raiva de Rachel. Chegou ao limite ao abrir os olhos e ver o olhar presunçoso dele. Avançou para o rapaz, segurando-o pela blusa, fechando a porta com o corpo dele. A pancada inesperada o fez ficar um pouco atordoado.
"Não se aproxime da Rachel! Você está morto se tentar algo com ela, me entendeu? Eu acabo com você, me ouviu?! Você me ouviu, Hudson?" Ela elevou a voz.
"Sai do meu apartamento." O moreno fechou as mãos em punho.
Santana o soltou com relutância, abrindo a porta.
"Você é tão amiga dela que ela sequer te contou. Já sei por que a Rachel está do jeito que está. Ela não poderia estar bem se a influência que ela tem é uma lésbica vadia..."
O que Finn sentiu em seguida não foi um tapa. Santana o socou tão rápido e forte que ele gemeu de dor.
"Você me dá nojo, Hudson. Eu vou embora, mas é porque eu não aguento ficar nem mais um minuto no mesmo ambiente que você. Está avisado sobre a Rachel." Ela grunhiu em uma fúria contida.
Por um segundo Santana pensou que ele ia revidar, mas ele só moveu uma mão para fechar a porta, empurrando-a com força para fora. Ela viu de relance seu nariz sangrando. No instante em que a porta se fechou uma dor intensa fez Santana gritar.
"Mas que merda!" A latina chutou a parede, segurando o punho machucado, que só agora sentia doendo e latejando.
Desceu as escadas resmungando e grunhindo de dor. Entrou no carro xingando um palavrão atrás do outro e o ligou. Iria direto para a casa de Rachel. Estacionou um carro de qualquer jeito na rua conhecida e se esforçou muito para não arrebentar a campainha dali também. Foi recebida por um Hiram sorridente.
"Santana, que surpresa boa!" Ele a puxou para entrar. "Está tudo bem?" Ele preocupou-se ao vê-la tremendo.
"Me desculpe Hiram, eu não quero ser rude, mas não estou em um dia bom." Ela quase gemeu de for. "Onde está a Rachel?" O fitou temerosa, mas ele parecia ter entendido.
"No quarto dela." Hiram indicou, a expressão ainda mais preocupada.
Santana rosnou um “obrigada” e irrompeu pela porta do quarto da morena, escutando o barulho do chuveiro. Quase arrebentou a porta do banheiro, sobressaltando a pequena. Deslizou o vidro, encontrando-a na posição tão familiar, mas com uma cara assustada.
"San?"
"Você é a pessoa mais fodida que eu já conheci! Levanta dessa porra desse chão!" A latina vociferou.
Rachel calou a boca, realmente assustada.
"Antes que eu vá embora!" Disse irritada, virando as costas e saindo dali.
Não demorou muito para Rachel aparecer no quarto enrolada em uma toalha, encontrando a latina segurando a própria mão e andando sem rumo pelo cômodo.
"San..." A morena a chamou com cautela.
"Quando você pretendia me contar que transou com o Finn?!" Ela se virou para a morena.
Rachel abriu e fechou a boca várias vezes. "A Quinn..."
"Não, ela não me contou nada. Responda à minha pergunta. Quando você pretendia me contar que deu para aquele imbecil ano passado? Nunca, não é?"
"Eu... foi... um erro." A morena gaguejou.
"Apenas um erro? Depois de tudo o que ele fez? Me diz que porra você quer da vida tratando a Quinn daquele jeito enquanto ficava dando sorrisos para aquele babaca?!"
"Para de falar da Quinn!"
"Então pare de ser uma imbecil! Quer saber, eu acho que é disso que você gosta, não é? Me responde uma coisa: ele te ligou? Ele correu atrás de você? Porque eu não me lembro de te ver conversando com ele. Você passou um ano de merda, mas agora está feliz, porque ele deu sinal de vida. Não importa estar um ano atrasado. O que importa é que estejam correndo atrás de Rachel Berry!"
"Não é assim..." Rachel respondeu com a voz quebrada.
"É como, então?" A latina perguntou, mas a morena permaneceu em silêncio. "Mas que inferno, Rachel!" Ela explodiu, fazendo-a se encolher.
"Por favor, não grita comigo. Me entende, por favor..."
O tom de voz choroso de Rachel quebrou Santana, mas ela ainda estava morrendo de raiva. "Eu teria te entendido, Rachel, se você tivesse me contado. Eu não julgaria você. Me machuca você não ter contado, me machuca as coisas que você está fazendo com você mesma." Ela disse mais baixo, em um tom decepcionado.
Rachel começou a chorar silenciosamente.
"Você está sofrendo de novo. E mesmo assim continua fazendo as mesmas coisas. Caramba, eu sei que é difícil, que eu também sou assim, mas..." Santana respirou fundo, sem saber como continuar. "Esquece. Esquece, Rachel." Ela se moveu para sair.
"Não, por favor!" A morena segurou sua mão, escutando um gemido. "O que é isso?" Segurou a mão da latina com cuidado, assustando-se com a vermelhidão da pele.
"Eu soquei o saco de batatas."
"Você o quê? Por que você socaria um saco de batatas?" A morena franziu o cenho.
"O Finn, Rachel! Eu soquei o Finn!"
A compreensão inundou os olhos de Rachel. "Você foi até ele?"
"É claro que eu fui!"
A morena se afastou rapidamente, voltando com algo em mãos. Puxou Santana para a cama espirrando algum spray no machucado e imobilizando a mão. Santana queria muito continuar gritando com ela, mas o fato de Rachel se preocupar e cuidar com tanto cuidado de sua mão ao invés de ficar com raiva a desarmou. A morena se levantou para trocar de roupa e voltou a sentar na cama.
"Você não devia ter feito isso." Ela gemeu com os olhos cheios de lágrimas, acariciando por cima das tiras que colocara na mão da latina. "Me perdoa por não ter te contado. Eu estava me sentindo um lixo."
"Você devia ter me contado."
"Eu sei." Rachel fungou.
A latina olhou para o rosto de Rachel. O nariz estava vermelho, assim como os olhos e a expressão lavada de lágrimas. Triste e cansada. Amava Rachel como se fosse sua irmã. Só a queria segura e protegida, só a queria feliz. Puxou a morena para um abraço, sentindo-a desabar. Parecia que estavam de volta aos tempos mais sombrios que passaram em NY. Acariciava suas costas pacientemente, como tantas outras vezes.
"Ele conversou comigo ontem. D-disse que sente muito por tudo." Rachel soluçava.
"Ele não tem a mínima noção de nada." Santana rebateu.
"F-foi tanto tempo gostando dele..."
"Eu te amo merda. Acredita em mim quando eu te falo que ele não merece você. Que ele não é ninguém."
"Ele f-foi..."
"Importante, eu sei. Mas o Finn que você idealizou não existe. Nunca existiu. Você não precisa dele Rachel, você sabe que não."
Os soluços cessaram aos poucos e a morena foi se acalmando nos braços da latina. Quando a sentiu mais calma, Santana a beijou no topo da cabeça.
"Eu preciso ir, a Quinn já deve ter acordado."
"Como você...?"
"Como eu soube? Eu sou Santana Lopez. O que eu quero saber é: como e por quê a Quinn sabe?"
"Em um dia que nós saíamos e você foi para a casa do Brody. Ela cuidou de mim. Eu estava bêbada, não lembro muito bem, não sei até onde contei a ela."
"Se eu não socasse o Finn, ela teria socado." Santana disse, sentindo Rachel se remexer incomodada.
"Ele encostou em você? O que aconteceu?" Ela saiu do abraço da latina.
"Ele não é louco. Eu fui ao apartamento dele para esclarecer algumas coisas."
"Espera... Ele não mora mais com Burt?"
"Não."
"E você bateu nele?" Rachel perguntou confusa.
"Ele provocou..."
"O que ele disse?" A morena quis saber.
"Não tem importância." A latina suspirou.
"Santana..."
"É sério. Foi só mais uma das besteiras que ele fala." Ela levantou-se. "Eu tenho que ir."
"Toma café aqui." A morena pediu, imitando o movimento da latina.
"Você sabe que eu não posso..." Santana se moveu para a porta e Rachel grudou em seu corpo. Se fosse qualquer outra pessoa ela teria protestado. A não ser se fosse Brittany. Elas desceram as escadas sob os olhares atentos de Leroy e Hiram.
"Está tudo bem, meninas?"
"Tudo ótimo, pai." A morena sorriu um pouco forçado.
"Escutamos gritos..." Hiram comentou.
"Me perdoem por isso. E me perdoe Hiram, pela forma como entrei aqui." Santana se desculpou.
"Não tem problema." Ele sorriu bondoso.
"Bom... eu tenho que ir." A latina disse.
"Tome café conosco!" Hiram ofereceu.
"Eu adoraria, mas a Quinn está lá em casa..." Ela sorriu sem graça.
"Entendo. Mande um beijo para ela então." Leroy intercedeu antes que Hiram dissesse algo.
"Eu mando." Santana cumprimentou cada um antes de se encaminhar para a porta.
"Você consegue dirigir?" Rachel franziu o cenho, preocupada.
"Claro..." A latina respondeu. "Se cuida, por favor."
"Eu que tinha que te pedir isso." A morena arqueou a sobrancelha.
Santana sorriu sentidamente de lado antes de ir, acariciando os cabelos escuros da morena. Quando Rachel fechou a porta já esperava o interrogatório começar.
"Você e Santana estão tendo algo?" Leroy foi direto.
"Você sabe que não." Ela rolou os olhos.
"Então o que foi isso?"
"Não foi nada demais..."
"O que houve com a mão dela?" Hiram perguntou.
"Ela machucou... Pais, eu estou cansada, por favor." Rachel subiu as escadas após os dois assentirem. Estava cansada. Estava incrivelmente cansada.
Santana chegou em casa na hora em que todos estavam reunidos para tomar café da manhã. Sentou-se sem uma única palavra. Não estava no clima de explicar nada a ninguém, mas sabia eu sua mãe não deixaria passar nada, o que não a impediu de se irritar quando a pergunta veio:
"Onde você estava e o que é isso na sua mão?"
"Eu soquei um saco de batatas." Santana respondeu.
"Você está cada dia mais estranha." Seu irmão comentou.
"Onde você estava?" Naomi repetiu a pergunta, irritada.
"Mãe, eu tenho 24 anos."
"Responda à sua mãe." Seu pai intercedeu.
"Na casa da Rachel, satisfeitos?" A latina largou o que estava comendo, se levantando.
Quinn olhou significativamente para ela, que fez sinal para saírem dali. A loira pediu licença e seguiu Santana pela escada, até entrarem no quarto.
"O que você fez?" A loira perguntou, ao fechar a porta.
"Eu fui na casa do Hudson."
"Você o quê?! Santana, o que você fez?" Quinn arregalou os olhos.
"Falei para ele ficar bem longe da Rachel. Posso ter socado o nariz dele. Talvez quebrado." A latina falou como se não fosse nada, deitando-se na cama.
"Você não pode estar falando sério! A Rachel vai..."
"Ela não vai fazer nada, não se preocupe. Eu conversei com ela."
A loira se sentou na cama, atordoada.
"Ele me contou sobre ela... Enfim, ele é só um monte de lixo e não sei porque ela ainda se importa."
Quinn coçou a nuca, sentia-se incrivelmente mal.
"Você é boa para a Rachel, Quinn. Não se sinta culpada."
"Ela ama o Finn. Eu não paro de pensar que cometi um grande erro. Foi no dia que ela me contou sobre ele que as coisas começaram. Até agora eu não entendo como fui deixar isso acontecer ou por que aconteceu."
"Ela não ama o Finn." Santana interjeitou. "Ela só... não consegue se desfazer do que ele causou a ela. Às vezes tinha que ser assim."
"Você falando isso?" A loira olhou com um ar de riso para a latina.
"A Rachel precisa de alguém que a salve em um sentido que eu não posso." Santana se limitou a dizer, atraindo a imediata atenção de Quinn. "Ela não está vivendo."
"É... complicado. Santana, eu não queria, eu não imaginava que as coisas poderiam ficar assim." Quinn desabafou. "Agora eu não sei o que fazer."
Santana não soube o que responder, incapaz de pensar no assunto sem pensar em Brittany. "Você não tem que fazer nada, Quinn. Faça o que achar certo."
A amiga ficou em silêncio e Santana não encontrou forças para continuar a conversa. Estava esgotada física e emocionalmente. Limitou-se a respirar fundo, como se aquilo a ajudasse se livrar de toda aquela confusão que era voltar para Lima.
"Como está a mão?" Quinn perguntou.
"Não importa. Acho que vou tomar um banho." A latina se levantou e saiu em direção ao banheiro, vendo Quinn se jogar na cama, também perdida no meio de tudo aquilo que estava acontecendo. Fechou a porta e recostou-se na mesma, pensando.
Pensou em Rachel e Quinn e em como não lhe causava nenhum arrependimento ter socado Finn. Arrependia-se de não ter feito isso antes, de não ter percebido... Cada fisgada de dor que sentia em sua mão valera a pena. Seus pensamentos logo viajaram para sua mãe, que falaria por horas sobre como ela era inconsequente se descobrisse o que realmente acontecera... Mas depois de alguns instantes, Brittany era tudo em que pensava...
Talvez voltar para Lima tivesse sido uma péssima ideia, mas não conseguia se arrepender de ter visto Brittany por pelo menos mais uma vez, antes que a loira sumisse de sua vida novamente, antes que aquela dor que agora sentia na mão não significasse nada perto da dor que sentia todos os dias...
...
Quinn andava pelas ruas de Lima, desacostumada com aquele ambiente calmo e silencioso. Era tarde de domingo em uma pequena cidade de Ohio, afinal. Tinha combinado de se encontrar com Brittany, mas saíra bem mais cedo do que o necessário. Talvez isso não tivesse sido uma boa ideia. A correria e agitação que sempre era a casa dos Lopez parecia lhe distrair dos seus próprios problemas, tão diferente do lugar onde ela mesma fora criada...
Depois que seu pai havia saído de sua vida lhe parecera finalmente que tudo ia se acertar e ela poderia enfim viver como uma adolescente normal. Mas ela havia se enganado. Sua irmã continuou distante, só lhe restando sua mãe. Tinham desenvolvido uma relação melhor do que costumava ser, mais sincera e mais próxima. Quinn a havia ajudado a superar o sofrimento pelo divórcio, incentivando-a a seguir com sua vida e Judy também a havia apoiado a reconstruir sua imagem, a ser uma pessoa mais sincera consigo mesma, mais verdadeira.
Mas toda aquela relação que construíram e aquele orgulho pela sua formatura e por Yale tinham evaporado tão logo Judy descobrira que ela estava namorando uma garota. Jamais se esqueceria daquele dia. Ela havia sido ingênua por pensar que sua mãe havia aprendido a lição, por pensar que ela pudesse aceitar. Havia sido mais ingênua ainda por pensar que aquele relacionamento era algo sério, que tinha algum tipo de futuro que valesse a pena correr o risco. O que havia construído com Judy chegara ao fim naquele mesmo dia e seu namoro não havia durado muito mais. Nunca mais tinha visto à mãe ou falado com ela, mesmo que todo mês ela continuasse recebendo em sua conta o valor que havia acertado com Judy desde o seu primeiro mês de faculdade. Fora um alívio finalmente formar e nunca mais botar a mão naquele dinheiro.
E então havia Beth. Isso pelo menos havia sido escolha sua, mesmo que não se orgulhasse dela. Antes de ir para New Haven fizera de tudo para reconquistar a confiança de Shelby e poder ter contato com sua filha ainda que distante, quem sabe vê-la sempre que fosse pra Lima. E ela tinha feito isso até tudo aquilo acontecer com a sua mãe e era como se ela quisesse enterrar aquela cidade em seu passado. Beth estava bem e feliz. O que era Quinn em sua vida? Só mais um motivo para deixá-la confusa e perceber que fora abandonada. Uma mãe já era o suficiente. Duas era demais, ainda mais quando uma delas era ela mesma. Havia se afastado e tivera essa escolha respeitada por Shelby, até por Puck. Nenhum de seus amigos a havia julgado. Rachel tinha sido particularmente importante nessa época...
Faltavam algumas semanas para as férias de verão, mas antes que as provas de final de semestre impedissem qualquer divertimento, Rachel e Santana haviam ido passar o final de semana em New Haven.
Era domingo de manhã e Rachel dormia jogada no pequeno sofá que havia no dormitório, enquanto ela sequer sabia onde Santana havia se enfiado. Tinham bebido todas na noite passada. Não sabia como ela e Rachel tinham achado o caminho de volta para o dormitório. Mas isso não havia sido o suficiente para que ela se esquecesse de que dia era aquele. Voltou do banheiro e fez a única coisa que podia: abriu seu notebook e acessou aquela pasta tão familiar. Não sabia quanto tempo tinha ficado ali até se sobressaltar com uma mão em seu ombro.
"Ela está cada dia mais parecida com você..." Rachel sussurrou ao seu lado.
"É aniversário dela hoje." Ela disse, sentindo o aperto da mão da morena em seu ombro.
Rachel sentou na beirada de sua cama e a fez virar a cadeira.
"Não a vejo faz tanto tempo... Ainda assim Puck faz questão de sempre me mandar algumas fotos dela. Acho que ele sabe o quanto eu preciso disso, mesmo que eu seja orgulhosa demais para pedir, mesmo que eu não mereça..."
"Você fez o que achou certo, Q. Se você não estava preparada para lidar com isso..." A morena disse. "E ninguém pode te julgar por isso." Frisou. "Então você fez o certo em se afastar."
"Ela já sabe que é adotada." Quinn revelou. "Puck me contou... O que ela deve pensar de mim?" Ela perguntou frustrada, sentindo algumas lágrimas caírem.
"Ela não deve pensar nada, Quinn. Ainda é muito nova pra isso." Rachel a lembrou.
"Isso não é desculpa, Rachel. Eu a abandonei. Minha própria filha."
"Você se lembra de quando a Shelby decidiu voltar para a minha vida?" A morena indagou, limpando as lágrimas que escorriam pelo rosto de Quinn. "Um dia ela queria me conhecer e no outro ela não conseguia mais lidar com aquilo. Você não faz ideia do que isso causou em mim na época. Se você quer saber, preferia que ela tivesse me procurado somente quando ela estivesse preparada... Quem sabe aí então teríamos realmente uma chance de verdade de acertar as coisas."
Quinn olhou para Rachel. Jamais a tinha ouvido falar de Shelby daquela forma. Não eram amigas na época e depois estivera muito ocupada afastando a morena de sua vida. Não pôde evitar que uma sensação de culpa tomasse conta de si. Mas ela havia mudado, assim como a morena. E a oportunidade de conhecer mais daquela Rachel havia ido embora. Eram tantos erros...
"O que eu quero dizer é que eu estou bem, Q."
Quinn lançou um olhar significativo para a morena.
"Falo sério. Eu tenho meus pais e, mesmo que eu esteja em falta com eles, eu os amo mais que tudo. Devo muito à Shelby por ter me proporcionado a chance de ser a filha deles. E tenho certeza que ela está tentando acertar com Beth em tudo que ela fez de errado em relação a mim. Você mesma disse que ela é uma mãe maravilhosa. Não se sinta mal por abrir mão das suas próprias vontades pelo bem dela."
Quinn podia ter rebatido, ter contraposto cada coisa dita por Rachel, mas não o fez. Sabia que a morena estava querendo ajudar. Rachel a puxou para sentar-se ao seu lado e a abraçou, permitindo que ela desabafasse através das lágrimas toda a dor que sentia, a pele quente da morena em contato com o seu corpo a fazendo se sentir melhor, acalmando-a...
Não sabia o que aconteceria dali em diante, mas na noite anterior, havia chegado ao limite. Sua relação com Rachel era muito maior do que aqueles meses em que ela se descobriu apaixonada pela morena e talvez fosse isso que a impedisse de simplesmente ir embora. Eram uma família. A única família que tinha. E Rachel fazia parte dela. Teria que encontrar um jeito de conviver com seus sentimentos pela morena e seguir em frente. Mas estava tão cansada de tudo!
Depois do que Rachel havia feito, tanto naquela noite em NY quanto na noite anterior, tudo o que conseguia pensar era que não valia a pena. Não valia a pena brigar com a morena e muito menos correr atrás dela, tentando fazer com que desse certo algo que não fora feito para dar. Tampouco valia a pena ignorar, fingir ser indiferente... Ela e Rachel eram para ser amigas e nada mais. E tudo que ela podia fazer era seguir, como sempre havia feito. Como se tudo aquilo só tivesse sido um sonho, agora já muito distante da sua realidade...
Brittany entrou no Lima Bean e logo identificou Quinn sentada em uma mesa distante. Assim que a viu, a loira se levantou e lhe deu um reconfortante abraço.
"Você está péssima." A loirinha brincou, se sentando na cadeira em frente à loira.
Quinn suspirou. "Me diz por que ainda fazemos esses encontros?"
"Porque nos amamos e sentimos falta uns dos outros?" Brittany respondeu, encolhendo os ombros.
"Tinha me esquecido dessa parte."
"Não bote a culpa no pessoal... Você sabe por que e por quem você está assim. O que aconteceu entre você e a Rach ontem?"
Brittany já sabia o que havia acontecido até elas irem para Lima, então Quinn narrou a pequena briga que haviam tido no fim da noite e o que acontecera pela manhã.
"A Santana socou o Finn?" A loirinha arregalou os olhos.
Quinn bufou. "Isso foi tudo que você ouviu? E não se preocupe, ela está bem. Com a mão enfaixada, mas bem."
Brittany desviou os olhos. Quinn a conhecia bem demais. "Isso é bom... Quer dizer, que bom que ela não se machucou."
Não querendo que a amiga ficasse daquele jeito, a advogada tratou logo de mudar de assunto. "Está tudo pronto para NY?" Perguntou animada.
Essa pergunta pareceu desanimar Brittany ainda mais. "Está. Consegui um apartamento perto do estúdio. Vou voltar para LA e depois..." Ela não conseguiu terminar a frase, um nó se formando em sua garganta.
"Britt..." Quinn pegou sua mão. "Não que eu não esteja feliz por ter você por perto agora, mas porque você está fazendo isso? Você não está feliz..."
"É um sonho meu, Quinn. Desde que eu descobri que o que eu amava fazer era dançar. Eu não estou assim por isso... estou assim pela Carter."
"Promete que não é por causa da Santana?" Ela tentou analisar os olhos muito azuis.
"Não vamos falar dela. Não hoje, por favor."Brittany pediu.
Quinn ia insistir, mas seu celular vibrou na hora. Era Santana. Perguntando se ela ia direto para o Breadstix ou se ia voltar pra casa antes. "Você vai no Breadstix hoje?" Ela franziu o cenho, ainda olhando para o celular.
"Nós vamos, Q. Não vou deixar você perder esse momento único com nossos amigos por causa da Rachel e do Finn. Eu não vou sair do seu lado." A loirinha prometeu, vendo que ainda assim a amiga parecia relutante.
Naquele momento seis pessoas entraram no café. Kurt, Blaine, Mercedes, Sam, Tina e Artie. Ao avistarem as duas, logo se dirigiram à mesa delas e Quinn viu que não tinha mais como fugir daquele encontro, dando-se por derrotada.
No final das contas, não havia sido tão ruim assim. Foi uma continuação do Lima Bean, com algumas pessoas a mais. Já esperava que Rachel fosse guardar a maior distância dela e pela primeira vez agradeceu por isso. Não queria Santana perto de Brittany aquele dia, sabia que a loira não estava muito bem, por mais que dissesse que sim e sorrisse para todos. Infelizmente, Finn parecia querer guardar uma boa distância de Santana, o que o trouxe para perto dela. Nada que a impedisse de não lhe dar atenção alguma, sentindo um carinho sem fim pela latina ao reparar no nariz vermelho e inchado do rapaz.
Após o jantar e várias garrafas de vinho depois, Puck sugeriu que todos fossem para o seu bar, onde um DJ tocaria aquela noite. Era domingo, mas era feriado no outro dia e ninguém queria dar a noite por encerrada tão cedo. Todos então concordaram, com exceção de Tina, Mike e Artie, que voltariam para LA no dia seguinte pela manhã e de Finn, que não queria sair com o nariz daquele jeito, o que fez Quinn ser invadida por uma nova onda de gratidão por Santana.
Várias garrafas de cerveja e alguns shots de tequila e Quinn já estava se perguntando por que eles só se encontravam uma vez por ano. Agora que estavam juntos percebia o quanto sentia falta daqueles momentos...
"Não é uma coincidência o nariz do Finn estar daquele jeito e a mão da Santana estar enfaixada ou eu estou vendo coisas?" Mercedes perguntou à loira enquanto descansavam um pouco.
Quinn riu em satisfação. "O que você acha?" Ela perguntou ironicamente, fazendo a outra balançar a cabeça em descrença.
"Posso saber o que vocês estão falando de mim?" A latina intrometeu-se ao ouvir seu nome sendo pronunciado.
"Santana!" Mercedes falou mais alto do que o necessário. "Você socou o Finn?"
"Ele mereceu." A latina respondeu, assumindo uma expressão séria no rosto.
Mercedes fez um som engraçado, indecisa entre rir e censurar a latina. Quando ela finalmente fez a menção de falar algo, um Kurt completamente eufórico apareceu, pulando em seu pescoço, completamente bêbado.
"Ao New Directions!" Ele gritou, puxando a amiga para o centro da pista de dança.
"Estou tão feliz por você ter socado aquele babaca." Quinn disse de repente, já meio alterada. "Eu é quem deveria ter tomado essa atitude assim que chegamos aqui."
"Você não tem bolas, Fabray." A latina provocou, fazendo loira gargalhar.
"Eu iria discordar, mas hoje você tem todo o direito de dizer o que quiser, Lopez. Só não abuse muito, ok?" Quinn piscou, voltando para a pista de dança.
A latina pediu mais uma cerveja, aproveitando que todos estavam dançando para ficar observando Brittany sem que ela percebesse. Vê-la dançar depois de tanto tempo estava lhe causando reações há muito perdidas, mas que ela jamais esquecera. Seu coração pulsava loucamente e ela se sentia tão viva! Como tinha deixado que a mulher da sua vida escapasse entre seus dedos? Por que fora tão estúpida?
"Você é tão óbvia, Lopez." Rachel disse ironicamente, parando ao lado da latina.
"Não me provoque." Santana respondeu irritada.
Rachel levantou os braços em sinal de rendição, sem dizer nada. Pegou a garrafa que a latina tinha em mãos e bebeu um gole, virando-se também para a pista de dança improvisada. Kurt e Blaine estavam completamente bêbados, dançando agarrados. Mercedes não parava de rir dos passos inventados por Brittany e Sam, falhando completamente ao tentar acompanhar os dois. Puck falava alguma coisa no ouvido de Quinn, os dois extremamente próximos...
Rachel desviou o olhar da pista de repente. "Mais uma tequila?" Propôs à latina, desviando o olhar da pista de repente.
"Você é tão óbvia, Berry."
Rachel fingiu não escutar.
Algumas horas já haviam passado, mas ninguém parecia se cansar. Quinn não conseguia parar de rir de qualquer besteira que Sam ou Puck falavam toda hora, acompanhada por uma Mercedes ainda mais estridente. A ausência de Finn a tinha deixado mais leve e descontraída, agindo como se a morena fosse só mais uma entre os amigos. Até Brittany tinha se soltado um pouco mais...
Naquela noite todos eles pareciam estar de volta ao colegial, como se ainda fossem os mesmos, como se fazer o dever de casa e se preparar para a competição entre os corais fossem as maiores preocupações do mundo, junto de todos os dramas, idas e vindas que marcavam suas relações no ensino médio...
"Eu realmente senti falta disso!" Brittany declarou, abraçando Quinn.
"Abraço coletivo!" Puck ordenou, levantando os braços, fazendo todos rirem.
E se alguém realmente quisesse saber, enquanto todos se abraçavam, dançando e cantando uma música qualquer, eles não queriam que aquela sensação acabasse tão cedo...
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