How To Save A Life
14 This Is Not How I Am
Notas iniciais
Rachel havia levantado um pouco mais cedo aquele dia. Queria chegar ao teatro antes do horário usual e treinar alguns números sozinha no palco, sem nenhum olhar a observando. Sentia falta de treinar seus solos da forma que estava acostumada e achava que era isso que estava faltando para se sentir mais segura de si.
Fez o café imersa em pensamentos sobre o musical, adorava a sensação de estar comprometida com algum projeto. Quase a fazia esquecer o vazio. Ela voltara a ficar ansiosa. Ouviu a porta do apartamento abrir. Estranhou. Quinn andava saindo muito mais cedo que o de costume nos últimos dias e ainda não tinha dado o horário de Santana levantar, quanto mais de estar voltando.
De repente, uma Quinn completamente suada apareceu na cozinha, vestindo um short de ginástica completamente colado ao corpo e uma camiseta branca, com um tênis e um rabo de cavalo a lhe completar o visual. Rachel não tinha palavras para descrever o desejo que se apossou de si. Uma vontade insana de agarrar a loira ali mesmo e colar o próprio corpo no dela. Mas a morena se obrigou a ignorar essa vontade diante do olhar frio e indiferente que a loira lhe lançou assim que percebeu sua presença na cozinha. Lembrou-se então que Quinn sequer estava falando com ela. Sem olhar uma segunda vez, a loira passou por ela, abrindo a geladeira em busca de uma garrafa d’água.
“Bom dia.” A diva disse, sem suportar o silêncio.
Quinn continuou bebendo sua água normalmente, como se a morena simplesmente não existisse. Aquilo definitivamente lhe doeu.
“Você vai continuar me ignorando?” Ela perguntou, sem se aguentar. “Até quando você vai continuar me evitando?” Continuou perguntando, agora com a voz um pouco falha.
Quinn estreitou os olhos para a morena, sem deixar transparecer qualquer emoção. Deu uma risada irônica, balançando a cabeça antes de responder.
“Até eu aprender, Rachel.”
“Aprender o quê?”
Quinn respirou profundamente, deixando Rachel finalmente captar uma mágoa profunda em seu olhar.
“Que você só pensa em si mesma. Que aquela Rachel Berry que eu venho esperando voltar por todos esses anos não existe mais. Até eu entender essa bagunça que eu e você nos tornamos.”
A loira então saiu da cozinha, sem esperar qualquer resposta que Rachel pudesse lhe dar.
Rachel ficou parada no meio da cozinha, sem saber o que fazer. Primeiro sentiu raiva. Não era sua culpa, droga! Mas então ela se lembrou do episódio na boate... Quinn defendendo-a, sendo extremamente inconsequente para defendê-la. Ela estava tão preocupada em manter distância que sequer parou pra pensar no gesto, na própria Quinn. Sentia falta. As semanas que passou “com Quinn” realmente tinham sido mais leves. Não era apenas sexo, na verdade. Elas riam, conversavam, a loira era atenciosa e Rachel já tinha se pegado olhando-a, por vezes hipnotizada pelo tom rouco de sua risada ou pela própria beleza que ela tinha. Quinn era linda e extremamente interessante. Nunca havia deixado de se surpreender com a loira. E essa Quinn, madura, era ainda mais fascinante.
Mas sentia tanto medo disso... Não era mais a garota apagada intimidada pela líder de torcida. Era agora uma mulher intimidada por outra que conseguiu, não se sabe como, baixar suas defesas. Mas essa outra mulher não era mais alguém que queria lhe fazer mal. Pelo contrário, ela lhe fazia bem. Muito bem...
Sorriu ao se lembrar de Quinn em seu último ano. Foi engraçada a forma como se tornaram amigas (ou “tipo” amigas, como tinham dito uma para a outra). Como de um abraço aliviado por não mais viver em guerra com a loira foram parar na cama uma com a outra, tentando não se gostarem, mas tendo dificuldades em se separarem? Naquela última noite em que ficaram juntas ela não tinha dormido ainda, sentiu o frio de não ter mais o corpo da loira sobre si, realmente sentiu e não era um frio somente físico, foi como se interrompesse algo que aquecia sua alma também. Como se Quinn tivesse levado calor pela primeira vez em tanto tempo ao vazio frio que sentia. Senti-la se colocando distante foi tão ruim quanto acordar sozinha em sua cama em Lima e não ver Finn ali. E isso retraiu Rachel. Não queria gostar, mas não a queria longe. A loira tinha razão. Ela era uma bagunça.
...
Quinn estava exausta. Tinha acordado bem cedo para malhar pra ver se esgotando o próprio corpo conseguia calar o pensamento e desligar a mente. A noite anterior tinha sido intensa...
Estava deitada sob Erika e sentia os lábios da garota no próprio pescoço. Acontecera o inevitável. Um pouco de vinho, uma ótima conversa e uma companhia agradável. Um beijo que começou lento, o caminho percorrido sem se desgrudarem até o quarto, até a cama... A blusa retirada com certa urgência, a falta de forças para impedir qualquer coisa...
“Erika...” Ela tentou chamar.
“O quê?” A morena respondeu sem se desgrudar da pele branca.
“Eu...” Ofegou. “Não...”
Não conseguia articular uma frase. Sentia-se atraída por Erika. Não tanto quanto se sentia por Rachel, mas ainda assim se sentia. E estava puta com Rachel, estava com raiva, tinha bebido... Tudo isso contribuía para o momento e a impedia de pensar com coerência. Foi só quando sentiu as mãos da morena tentando desfazer o fecho de seu sutiã que acordou de seu transe. Colocou suas mãos no braço da outra, impedindo-a e chamando sua atenção.
“O que foi?” Érika perguntou calma, olhando Quinn nos olhos.
“Eu não sei se a gente devia fazer isso...” Foi sincera.
“Você não quer?”
“Eu quero, mas não acho que eu deva fazer.”
Erika se sentou, saindo de cima de Quinn. Já era difícil o suficiente conversar com ela de calça e sutiã...
“É por causa da Rachel?” A morena foi direta.
“Eu não quero isso de novo, não está me fazendo bem.” Quinn disse.
“Eu não sou igual a ela.” Erika foi firme ao dizer.
“Eu só... Não estou pronta pra isso.” A loira abaixou o olhar.
“Eu não vou te deixar mais frágil, eu não quero você da forma que a Rachel quer. Quinn, a gente está se vendo todo dia, a gente está ficando todo dia. Eu não quero te pressionar a nada, mas eu não sei o que você está querendo de mim.” A morena abriu o jogo.
“Me desculpa...” Quinn pediu, sensível.
“Hey...” Ela levantou o queixo da loira delicadamente. “Pra você estar me pedindo desculpas só pode ser por dois motivos, certo? Ou é carência ou eu sou sua válvula de escape, não é?
Erika não usou um tom duro com a loira, já sabia que estava sendo uma distração para Quinn e não se sentia mal por isso. Mas via a culpa nos olhos da garota. Levantou-se então e pegou a blusa de Quinn, que estava no chão, e a recolocou no lugar.
“Eu gosto de você, de verdade. Eu não sei no que a gente daria e gostaria de descobrir.” Érika disse, sentando-se na cama novamente. “Mas eu acho que já conheço você um pouco. E, na verdade, quando você diz que não está pronta pra isso, está querendo dizer que não consegue deixar a Rachel e nem ignorar o que sente por ela ainda.”
“Eu queria, de verdade... que a gente...” Quinn tentou falar, desviando o olhar.
“Não. Não queria. E eu não me sinto mal por isso. Eu sei esperar. Ou, se nunca acontecer, eu sempre vou querer sua amizade, ok? Só era um pouco difícil de dizer o que estava acontecendo...” A punk piscou um olho para ela.
Quinn não sentia que merecia aquelas palavras. E então soube o motivo de Erika não querer dizer que a música era para ela, porque sabia que não daria certo. Sentia-se mal por isso. Erika não se relacionava e isso mostrava que realmente tinha gostado dela. Vendo sua dificuldade em formular qualquer frase que fosse, a morena puxou Quinn para um abraço, querendo dizer silenciosamente que estava tudo bem. Quinn não precisava de mais uma confusão preenchendo sua cabeça.
O que teria acontecido se tivesse deixado levar? Não queria pensar nisso. Entrou embaixo d’água morna do chuveiro, exausta.
...
Santana acabava de sair do trabalho horas mais tarde com Brody e os dois foram para um pub perto do estúdio com alguns colegas de trabalho. Ligaram para Rachel, convidando-a, mas a morena não quis ir. Ela estava, na verdade, sozinha sentada no palco, os braços rodeando as pernas encolhidas contra o corpo, o queixo apoiado nos joelhos, profundamente absorta em pensamentos.
“Vai ficar aqui?” Mark aproximou-se cauteloso, o humor de Rachel não estava um dos melhores.
“Não, eu... só queria um momento sozinha.” A morena sorriu levemente, fitando o rapaz.
“Eu vi a garota loira.” Ele comentou. “Ela realmente é linda...”
“Ela é...” Rachel concordou.
“E aquele era o quarto dos meus pais...” Mark disse, aproximando-se.
“Desculpa!” A morena pediu, realmente preocupada.
“Eu não me importo, Rach.” Ele sorriu. “Eu só queria que você me contasse um pouco mais as coisas...”
“Eu sou uma confusão, Mark... não quero te encher com essas coisas.”
“Não vai encher... eu sou seu amigo e amigos servem pra isso.” Agachou-se ao seu lado.
“Eu te conto, mas não hoje, ok?” Ela virou-se sentida para ele.
“Tudo bem.”
Mark beijou a testa de Rachel, sorrindo para ela antes de se afastar e sair dali, deixando-a no mais completo silêncio. A nostalgia atacou a pequena, os versos lhe vieram à cabeça e ela cantarolou baixinho:
Por fora eu pareço bem
Por dentro estou triste
Toda vez que eu penso que estou incompleta
É por sua causa
Eu tentei de diferentes maneiras
Mas tudo é a mesma coisa
E no final do dia, eu tenho a mim mesma para culpar
Eu só estou me enganando...
Foi com essa música, que cantou com Quinn, que seu coração bateu muito mais forte ao ouvir de Finn que era linda, mas não era nele que ela pensava agora. Era na loira. Finn já a havia deixado de tantas formas e agora por tanto tempo... Quinn não. E ela não sabia explicar o que sentiu quando a loira a chamou de linda. Sorriu ao se lembrar. Queria tanto no ensino médio ter a beleza de Quinn ou ser tão bonita quanto ela... O simples reconhecimento da loira e a atração não contida nos olhos claros lhe causavam sensações inexplicáveis. Era como se a aprovação de Quinn lhe bastasse.
E Rachel sabia que não deveria estar pensando nisso.
Levantou-se e caminhou automaticamente até o próprio carro. Não queria ir para casa, mas também não queria companhia. Surpreendeu-se com o toque do próprio celular e mais ainda ao ver quem ligava: Kurt. Mordeu o lábio, triste. Sentia falta dele. De como eles costumavam ser.
“Rach?” Kurt chamou com o tom de voz que usava quando precisava muito conversar. Rachel sorriu ao se dar conta de que nem tudo havia mudado.
“Oi, Kurt...”
”Você tem planos para o almoço?”
“Está meio tarde para almoçar, não?” A morena arqueou a sobrancelha, olhando o relógio.
“Jantar, tanto faz! Preciso te encontrar!” Ele disse, impaciente.
Nem se quisesse conseguiria recusar. Os planos de ficar sozinha podiam esperar. Rachel entrou no restaurante combinado alguns minutos depois e rapidamente localizou Kurt, que estava sozinho sentado em uma mesa um pouco afastada. Melhor assim, pensou. Não queria estar no centro das atenções naquele dia. Talvez por isso o ensaio pela manhã não tinha rendido o tanto que gostaria.
"Cadê o Blaine?" Ela perguntou à guisa de cumprimento, se sentando na cadeira em frente ao amigo.
"Esse é o único jeito das pessoas de me dizerem oi?" Kurt perguntou meio exasperado.
Rachel riu. Não deveria ser a única a sempre lhe perguntar aquilo.
"Desculpa! É que vocês sempre estão juntos... É até estranho te ver sem ele." A morena se defendeu.
"É, eu sei... Mas hoje eu queria algo só nosso! É bom relembrar os velhos tempos." O moreno sorriu para a amiga de forma doce.
Rachel nada disse, só correspondendo ao sorriso. Voltar aos velhos tempos era algo que doía e lhe causava saudade ao mesmo tempo. Principalmente naquele dia.
"Já fez os pedidos?" Ela desconversou.
"Acho que ainda sou capaz de lembrar o prato preferido da minha melhor amiga, no nosso restaurante favorito!" Kurt disse com um quê de indignação. "Mesmo que ela tenha me abandonado por tequila, sexo e Santana!" Ele disse mais indignado ainda, frisando bem a palavra Santana.
Rachel gargalhou. Kurt a fazia bem. Quanto mais havia perdido?
"Não exagere, Kurt! Você foi quem me trocou pelo Blaine..."
"Rachel Berry! Faça o favor de não comparar o meu noivo com tequila, sexo e Santana!" Ele exclamou em um tom falsamente autoritário.
"Se você me contar o que está acontecendo, posso até pensar no seu caso..." A morena disse, rindo.
Kurt então assumiu uma expressão mais séria, um vinco aparecendo entre suas sobrancelhas. A morena percebeu que o amigo estava seriamente preocupado.
"Você sabe que eu vou me formar em NYADA no final do ano..."
Kurt olhou perdido para a amiga, como se pensasse no que dizer.
"O que foi, Kurt?" Ela perguntou preocupada.
"Sabe aquele musical que eu te falei? Com um roteiro lindo e bem escrito, totalmente promissor, mas fora do estilo tradicional da Broadway?"
Rachel acenou positivamente.
"Eu fui chamado." Ele comunicou.
"Oh, Kurt!" Rachel exclamou animada, chamando atenção de algumas pessoas. "Não acredito! Essa notícia é maravilhosa! Temos que comemorar!"
"Esse é o problema, Rach..." O moreno suspirou. "Estou pensando em não aceitar." Ele disse sério.
Rachel olhou para o amigo, sem saber o que responder. Por que Kurt pensaria em não aceitar?
"Os palcos sempre foram a minha paixão, nossa paixão. Mas esse musical não é da Broadway."
"Mas, Kurt... Como você mesmo disse, ele tem um bom roteiro! Pode te abrir inúmeras portas! Pode ser decisivo para você conseguir a Broadway. Você sabe quantos off-Broadway eu fiz... Sem eles, Spring Awakening jamais teria acontecido e... e ainda tem a escalação pra Wicked! Você pode se decidir se quer mesmo fazer ou não."
"Tem outra coisa." Ele cortou a morena.
Rachel parou de falar, incentivando o moreno a finalmente lhe dizer o que estava realmente acontecendo.
"Bom... por cinco anos eu tenho trabalhado na Vogue.com. Mesmo com NYADA e outros projetos, nunca consegui sair, porque também amo o que eu faço lá. E essa semana Isabelle Wright me ofereceu um cargo importante, com um salário melhor ainda, mas que vai tornar praticamente impossível eu continuar me dedicando aos palcos. Eu teria que dar um tempo nesta parte da minha vida. Resumindo, eu teria que escolher."
A morena olhou para Kurt com um misto de pena e orgulho. Ela jamais pensaria duas vezes, seu amor era os palcos. Mas Kurt tinha o coração dividido. Escolher não seria fácil.
"Kurt..." Rachel começou, tentando escolher as palavras. "Sei que você quer minha opinião sobre isso, mas não sei se devo dá-la." Ela disse de forma sincera. "Honestamente? Só você pode decidir. Tudo que eu tenho para te dizer, você já sabe. Acho que a Vogue.com te apresentou a um outro sonho, além da Broadway e eu vou te apoiar seja qual for a sua escolha." A morena concluiu, pegando a mão do amigo, em um gesto de amizade e apoio.
"O Blaine me disse a mesma coisa... Mas não acho que estou pronto para decidir isso agora." Ele confessou. "Eu estou noivo, a minha carreira nos palcos não é tão certa quanto o emprego que vou ter, quero começar uma vida nova, ter alguma estabilidade. Mas, você sabe mais do que ninguém, é nosso sonho, é Broadway, as portas não ficam abertas para sempre..."
"Pense pelo tempo que for possível... até a sua formatura muitas coisas ainda podem acontecer. Não se precipite." Rachel sorriu, sentida.
Kurt sorriu fracamente para a amiga.
"Obrigado, Rach. Eu queria sentir isso. Que você me entende." Ele suspirou.
"Não agradeça, só... encontre seu caminho. Estou orgulhosa de você! Disputado pelos palcos e pela poderosa Isabelle Wright! Você será um sucesso onde estiver, Kurt, nunca duvide disso."
Rachel sentiu os olhos de Kurt marejarem e o aperto aumentar em sua mão.
"Mas não pense que vai escapar de me mostrar esse roteiro, Mr. Hummel!" Ela disse em um tom falsamente repreensivo, tentando animar o amigo.
"Vamos falar de outras coisas! Isso ainda pode esperar..." Ele disse, recuperando-se. "Daqui a pouco cada um vai para o seu lugar e não sei quando poderei ter minha melhor amiga de novo..."
"Que tal o resto do dia ser nosso?" A morena propôs.
"Só nosso?" Kurt estreitou os olhos.
"Com Santana...?"
"Olha, eu amo a Santana e amei o tempo em que moramos juntos, mas eu realmente sinto falta da Rachel Berry, Lima, Ohio. Por favor, me encha de monólogos até minhas orelhas começarem a sangrar e me leve para assistir um musical na Broadway para depois não conseguir se conter de excitação no meio da Times Square mesmo já tendo assistido ao mesmo musical quinhentas vezes!"
A morena gargalhou no meio do restaurante, pouco se importando se alguém se incomodava com isso ao seu redor.
"Você não pode imaginar o quanto sinto falta disso." Ela confessou.
"Então posso ter minha amiga de volta só por hoje?"
"Ela sempre esteve aqui." Rachel abriu um largo sorriso.
Os dois saíram do restaurante de braços dados e foram assistir Wicked. Era praticamente uma regra assistir. E depois caminharam pela sétima avenida, para chegarem à Starbucks. Kurt estava feliz em escutar a tagarelice sem fim de Rachel sobre tudo. Escolheram um lugar para sentar e fizeram os pedidos.
Quando finalmente a morena parecia relaxada e despreocupada, Kurt escolhera o momento errado para perguntar:
"Como está a Quinn?"
Foi nítida a mudança de humor de Rachel.
"Deve estar ótima." Ela respondeu seca, enquanto os cafés eram deixados na mesa.
"Ok. Tem uma barreira invisível separando os assuntos que posso ou não conversar com a minha ex-atual melhor amiga?"
"Não é isso..." A morena falou baixo.
"Soube que ela está bem próxima da Erika..." O moreno provocou, querendo obter alguma reação da amiga.
"Felicidades para elas." Rachel tomou um gole do café.
"Você sabe o que isso significa?" Ele disse impaciente.
"Que elas estão se comendo?"
"Não, Rachel!" Kurt exaltou-se. "Você e a Quinn! Céus, você conseguiu virar uma cópia da Santana!"
"Não existe eu e a Quinn. Foi um erro. Ela não estava pronta para um relacionamento sem compromisso." A morena respondeu quase que de forma automática.
"Ou talvez você não esteja pronta para um relacionamento sério..."
"Isso é uma verdade." Rachel disse irônica, fazendo Kurt suspirar.
"É impressão minha ou ela está mexendo com você e você não está confortável com isso?" Ele insistiu, vendo a amiga desviar o olhar. "Não acredito que você ainda tenha medo dela, Rach. Nós já sabemos quem é a Quinn de verdade e ela é uma ótima pessoa!"
"Que merece outra ótima pessoa. Sério, Kurt... Não precisamos ter essa conversa. Eu não estou precisando de conselhos."
"Você é uma ótima pessoa." Ele disse, suavizando a expressão.
"Eu não quero ter um relacionamento com ninguém. Muito menos com a Quinn. E se eu escutar mais uma palavra sobre ela, juro que essa Rachel que você viu há alguns minutos não vai voltar mais!" A morena ameaçou, querendo mais que tudo acabar com aquela conversa.
Kurt levantou as mãos em sinal de rendição.
"Posso fazer apenas um comentário?" Ele arriscou.
Rachel o analisou de cima a baixo e como ela não negou e nem permitiu, o rapaz achou que era um sim.
"Eu sinceramente acho que você vai se arrepender disso que está fazendo." Ele se limitou a dizer.
Rachel, por outro lado, nada disse. Continuou tomando seu café enquanto Kurt fazia o mesmo. O clima pesado aos poucos foi se esvaindo e eles voltaram às conversas animadas de antes como se uma pedra realmente tivesse sido colocada sobre o assunto. Saíram para o frio de NY novamente, cada um encaminhando-se para o seu respectivo carro. Não sem antes Kurt abraçar Rachel demoradamente, dizendo que estava com saudades e que eles tinham que fazer isso muito mais vezes.
Com a saída do amigo o frio voltou a se instalar em Rachel, como se a cidade tivesse se infiltrado em sua pele, em sua alma. Ela não foi para casa. A necessidade de ficar sozinha voltara. Estacionou na rua do bar do Tom e ficou feliz ao ver que estava um pouco vazio. O barman conhecia a morena como ninguém e lhe trouxe uma dose de tequila acompanhada de uma garrafa de cerveja sem que ela dissesse nada.
"Problemas?" Tom perguntou.
Rachel assentiu, colocando as mãos nas têmporas, sentindo a cabeça rodar com a tequila.
"Quer que eu sente um pouco com você?" Ele ofereceu, gentil.
"Obrigada, Tom, mas eu queria ficar um pouco sozinha..."
O velho assentiu, levantando-se. Rachel perdera a conta das cervejas que bebera. Elas desciam como água, uma atrás da outra, sem parar. O gosto amargo não era mais perceptível. Viu uma silhueta se aproximando e demorou para reconhecer o rosto. Não sabia o nome da garota, mas tinha quase certeza de já a ter levado para a cama. Sem pedir licença, a garota se sentou ao seu lado.
“Olá Rachel, quanto tempo...”
Rachel limitou-se a encará-la, tentando se lembrar.
"Eu transei com você?" Ela perguntou sem rodeios.
“É difícil encontrar alguém com quem você não tenha transado.” A garota sorriu, irônica.
"E isso significa que eu transei com você, certo?" Rachel tentou raciocinar.
“Sabe, Rachel... eu acho que você finge. Não acredito que não se recorda de quem leva para a cama. Você faz essa cena toda de propósito.”
"Se você acha..." A morena deu de ombros, tomando mais um gole da cerveja.
“Se for verdade então, posso me esforçar hoje pra te fazer se lembrar da próxima vez...” A garota disse em uma tentativa de parecer sensual, aproximando-se de Rachel.
A morena desviou o rosto na hora em que percebeu que ia ser beijada.
"Não estou no clima hoje."
“Você não vai precisar fazer nada, deixa que eu faço tudo por você.”
"Se quer fazer tudo por mim, aproveite e faça sozinha." Rachel disse, levantando-se para pagar a conta.
Sentiu assim que se levantou seu braço ser puxado com violência. Seus lábios colidiram com os da garota em questão de segundos. Não percebeu estar sendo levada. A garota a guiava e quando deu por si estavam no banheiro do bar. A voracidade do beijo era tanta e sua raiva também que foi impossível não descarregar. Descarregava toda a sua frustração naquela garota. Queria ser agressiva, queria ser violenta. Desabotoou a calça que ela usava em questão de segundos. O que ela tanto queria iria ter. Invadiu a intimidade da garota, empurrando-a contra a parede, fazendo-a se desesperar. As estocadas fortes, o beijo que cessara e dera lugar à falta de contato dos lábios de Rachel com qualquer parte daquele corpo. Não sentia desejo por ela. Não sentia nada. Apenas a necessidade animalesca de descarregar. Os gemidos dela se misturavam com suspiros ofegantes. Rachel não escutava, sua mente era um borrão disforme. Quando a sentiu chegar ao ápice retirou os dedos de lá na mesma hora e não olhou sequer uma única vez para o rosto ofegante e surpreso. Deu as costas e saiu dali em direção ao carro. Ainda estava com raiva! Não queria aquilo, queria Quinn! Queria o desejo desenfreado e que, agora que se dava conta, era extremamente íntimo e carinhoso. Todas as suas vezes com Quinn foram, a sua própria maneira, mais do que simplesmente sexo. Era como se elas já conhecessem cada detalhe do corpo uma da outra e o admirassem... Era insano, era prazeroso, era intenso.
Talvez o pouco de sorte que ainda lhe restava tivesse a acompanhado durante todo o caminho para casa, pois Rachel não bateu com o carro e estava extremamente tonta. Estacionou de qualquer jeito, impacientou-se no elevador e errou a fechadura várias vezes. Um único pensamento em sua mente: Quinn. Tinha coragem agora para conversar com ela, para admitir o que aconteceu. Mas ela não estava em casa. Lá só havia uma Santana assustada, esperando explicações pelo comportamento estranho da amiga. Rachel sentiu toda a euforia lhe abandonando. Com certeza Quinn estava com Erika. Mal sabia ela que Quinn estava no loft com Brody, por ter ido encontrar com ele e Santana no bar e bebido além da conta, deixando a latina receosa de deixá-la no mesmo apartamento em que Rachel também estava. Ela não precisava de ressaca moral para acompanhar sua provável terça-feira com dor de cabeça no trabalho.
"Posso deitar com você?" A morena pediu apática.
"Você não está bem, não é?"
"Não."
"Onde estava?"
"Com o Kurt."
"E depois?"
"Sozinha."
A latina estreitou os olhos para a amiga. Ela estava péssima. Descabelada, maquiagem borrada, roupa amassada e um pouco fora do lugar, olhar desfocado e cansado. Tinha certeza de que Kurt não a deixara assim. Ela realmente havia ido para algum lugar e se bem a conhecia, não tinha estado sozinha o tempo todo. Aproximou-se da morena e a puxou pela mão até o banheiro. Retirou toda a sua roupa e prendeu seu cabelo num coque apertado, retirando a própria roupa também e entrando no chuveiro com ela. Com toda a paciência do mundo segurou Rachel enquanto ela tomava banho e se secava e depois colocou uma roupa confortável na morena, levando-a para seu quarto e deitando-se com ela abraçada ao seu corpo.
"Obrigada." Rachel disse, exausta.
"Você é a minha pessoa." Santan deu de ombros.
"Eu te amo..."
"Sei disso, sei disso... vai dormir, Berry."
"Diga que me ama..."
"É necessário?"
Rachel não respondeu, mas escutou quando Santana sussurrou um tempo depois o que precisava escutar e então pôde dormir. Estava segura.
Rachel foi acordada pela latina horas depois, mas não quis se levantar, continuou na cama com a familiar sensação de estar carregando mais do que podia aguentar. Não iria ter ensaio aquele dia, então ela estava disposta a passar o dia inteiro ali. Foi acordada mais tarde mais uma vez por Santana.
"Rachel, levanta..." Ela balançou a morena.
"Eu não quero..." Rachel resmungou.
"Levanta logo, eu estou no meu horário de almoço... Rachel!" Santana arrancou o cobertor da morena.
"Isso não se faz..." A morena choramingou.
"Eu não quero você que nem um zumbi o dia inteiro. Eu e o Brody fizemos o almoço pra você e faça o favor de beber bastante água." A latina falou, enquanto a morena se levantava. "Precisamos ir agora." Ela caminhou com ela até a sala. "Tente não fazer besteira."
Rachel encarou a latina ironicamente, antes de abraçar Brody e seguir o caminho de volta para o próprio banheiro. Ficou muito tempo sentada no chão do box, fraca. Quando o ambiente estava lotado de vapor ela desligou a água. Já vestida, almoçou e fez o que Santana pediu.
Estava tudo melancólico e silencioso, durante toda a tarde e, quando já estava pensando em rebater a ressaca pegando mais uma cerveja na geladeira ou em ligar para Kurt, a porta do apartamento se abriu, entrando por ela uma Quinn muito entretida em uma conversa no celular. Rachel sentiu o estômago dar uma reviravolta pela surpresa de ter a loira em casa mais cedo. Loira essa que não lhe direcionou nenhum olhar sequer. A morena voltou a sentir raiva.
Quinn estava exausta e prometeu para si mesma nunca mais beber em uma segunda-feira. Jogou suas coisas na cama do próprio quarto, despedindo-se de Brody, que ligara para saber se estava bem, entrando no banheiro para uma ducha relaxante. Ao retornar à sala, já vestida, respirou aliviada ao ver que Rachel não estava mais ali. Ligou a tv e colocou em um filme qualquer, tentando relaxar contra o sofá. Ouviu quando Rachel saiu de seu quarto e foi para a cozinha. Mesmo que não estivessem sozinhas, ainda saberia que era a morena, reconhecia sua forma de andar mesmo sem olhar.
A loira se levantou para evitar qualquer conversa ao mesmo tempo em que a morena apareceu na sala. Tentou ir para o quarto, mas Rachel se colocou à sua frente, impedindo a passagem.
"Rachel, me dá licença, por favor." Ela respirou fundo.
"Não."
A loira passou a mão pelos cabelos, tensa. Era muito mais do que uma questão de simplesmente empurrá-la e continuar seu caminho.
"Qual é o seu problema?" Quinn então decidiu perguntar.
"Eu..." A morena hesitou.
"O que você quer?!" A loira aproximou-se, irritada e exaltada.
“Quero você”. Foram as palavras que ecoaram na mente de Rachel. As palavras que não conseguiu dizer. Quinn estava próxima. Muito próxima. Sua respiração ofegante batia no rosto de Rachel. E ambas sentiam falta uma da outra. Quinn fechou os olhos bem apertados, repreendendo a vontade de beijá-la. Antes que os reabrisse ou dissesse qualquer coisa, sentiu os lábios da morena nos seus e se afastou rapidamente. Rachel não permitiu, segurando a nuca de Quinn, puxando levemente os fios loiros, arranhando a pele branca. Era tarde agora. A loira não conseguiria mais se afastar. E Rachel a beijava, tendo plena certeza de que queria aquilo e completa consciência de que estava sendo contraditória. Sentiam tanta falta que sequer repararam que o beijo estava diferente. Tinha o carinho do beijo não dado aquela noite. E elas se atraíam... Mesmo na confusão de não serem o que queriam ser ou de se esconderem de quem eram... As línguas se acariciavam preguiçosamente e a respiração se tornava cada vez mais entrecortada.
Muito delicadamente e com uma dificuldade que não se mostrava, Quinn quebrou o beijo lento, afastando-se. Pôde ver na hora as sobrancelhas franzidas em frustração da morena.
"Eu não vou voltar a ser aquela Rachel. Ela está aqui ainda, mas é forçado agir como ela em tudo. Eu mudei. Você mudou. Acho que fomos as que mais mudaram durante todo esse tempo e eu quero me ajustar, de verdade..." A morena disse sobre os lábios rosados.
"Não." Quinn afastou-se um pouco mais, respirando fundo. "Você quer que eu seja o seu sexo garantido e que aguente o que você faz sem dizer nada."
"Não é isso, somos amigas..."
"Eu não me sinto sua amiga." A loira se afastou de vez, a mão de Rachel em sua nuca caindo ao lado do corpo inerte da morena. "A partir do momento em que essa relação nos afeta dessa forma não somos mais só amigas, Rachel. Quando você vai enxergar isso?"
"Então o que somos?" A morena arqueou a sobrancelha.
"De acordo com você, não somos nada. Não é assim que você classifica as mulheres com quem você dorme?"
"É diferente..." Rachel cruzou os braços no peito, frágil, desviando o olhar.
"Por que é diferente? Me diz, Rachel..." A loira colocou as mãos na cintura em sinal de desafio. "Estou ansiosa para finalmente te ouvir falar." Ela disse, sem segurar o leve tom irônico.
Mas Rachel não tinha mais a coragem da noite anterior.
"Eu conheço você." A morena murmurou.
"Essa é a grande diferença?" A loira riu, sem humor.
"Quinn, eu acho que você está confundindo as coisas..."
A loira se aproximou perigosamente.
"Olha nos meus olhos, Rachel, e diga que não gosta disso."
"Não era para estarmos tendo essa conversa..." A pequena continuou sem encará-la. "Era para ser outra coisa."
"Você nunca vai admitir, não é? Para você tudo se trata de diversão..."
"Não tenho nada para admitir." Rachel finalmente fitou os olhos amendoados, odiando a si mesma por dentro.
As duas ficaram se encarando durante segundos que pareceram eternos. Quinn sabia. Sabia que ela não diria.
"A Rachel de antes era muito mais corajosa do que essa." Quinn quebrou o silêncio. "Talvez por isso você ache que não está atuando tão bem... Antes você não permitiria que nenhum sentimento ficasse sufocado dentro de você." A loira disse, vendo um brilho perpassar os olhos castanhos por um milésimo de segundo. "Eu já não vejo toda aquela intensidade e uma artista como você não se sente bem guardando tantas coisas para si mesma."
"Eu passei dessa fase." A diva sibilou, com raiva pelas palavras de Quinn.
"Espero que você não ache isso um amadurecimento. De verdade. Porque não é." A loira disse em um tom contido e baixo. "Agora, se você não tem mais nada para me dizer..." Ela delicadamente retirou Rachel do lugar, passando por ela e entrando no quarto.
Rachel estava a ponto de ir atrás quando Santana abriu a porta do apartamento e entrou, parando no meio do caminho ao reparar que a morena não se movera um centímetro sequer e que estava um pouco pálida.
"Oi..." Santana aproximou-se devagar.
"Onde a Quinn estava ontem?" A morena perguntou, respirando fundo.
"Com o Brody..." A latina respondeu, pausadamente. "Ela passou mal quando estávamos levando ele em casa. Praticamente apagou no sofá e eu achei melhor deixá-la por lá. Por quê?"
"Acho que eu preciso beber." A morena encaminhou-se para a cozinha.
"Estamos no meio da semana, Rachel!" Santana a puxou pelo braço.
"E daí?"
"E daí que não estamos mais na faculdade. Você tem ensaios, já bebeu ontem..."
"Desde quando você é mais responsável do que eu?"
"Você dormiu comigo ontem. Eu só estou preocupada. Tem um tempo que não faz isso..."
"Estou cansada." Rachel desabafou.
Santana viu os ombros da pequena diva caírem e seu semblante definitivamente estava abatido.
"Vou tomar um banho e a gente conversa, está bem?"
A latina não se demorou no banho. Mesmo assim, quando entrou no próprio quarto, Rachel já estava dormindo em sua cama. Ela se deitou e beijou a testa da morena, antes de virar para o lado e dormir.
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