Notas iniciais
E aí, galera? Será que ainda tem alguém por aqui? Espero que sim! Nossa, que saudade de vir aqui postar essa história! Nesses momentos difíceis, espero que essa atualização melhore um pouquinho o dia de vocês, como sempre melhora o meu quando a escrevo! Como sempre, o capítulo ficou grande demais, então tive que dividir em dois, por isso a att veio menor que o de costume rs Boa leitura!

A conexão que elas haviam compartilhado no auditório de NYADA parecia milhares de vezes potencializada naquele momento. Rachel sentia que a loira queria aquele beijo tanto quanto ela. E como a loira queria! Rachel a fazia questionar o próprio conceito de querer... porque ela não conseguia lembrar de querer tanto um beijo quanto o da morena. De querer tanto algo quanto ela queria Rachel para si. Havia um sonho... um sonho de sair de Lima, de ser uma pessoa diferente, de trilhar um caminho diferente. O sonho de um só. E então havia Rachel Berry. Como um despertar, como uma estrela brilhando acima de todas as outras. Por vezes, longe demais para que pudesse alcançá-la, mas, por outras, perto demais para que ela pudesse enxergar qualquer outra coisa que não ela...

Elas se separaram em busca de ar, os corações palpitantes.

“Por que sempre um banheiro?” Foi a primeira coisa que Rachel sussurrou, ofegante.

Quinn sorriu, encostando sua testa a da morena. “Eu não faço ideia...” Ela murmurou de volta, juntando seus lábios mais uma vez, sem resistir.

Surpresa pela atitude de Quinn, mas longe de protestar, Rachel a beijou de volta, sendo dominada por um sentimento indescritível. Uma sensação de pertencimento crescente em seu peito, como se ali fosse aonde ela devesse estar. Era parecido com o que ela havia sentido ao estrear nos palcos da Broadway e sentia todos os dias desde então. Ao mesmo tempo, era completamente diferente. A Broadway era um sonho desde que ela se entendera por gente, era o seu sonho. Quinn, por sua vez, era tudo que ela nunca soube que queria. E ela queria tanto! Tanto...

O beijo se intensificou ainda mais. Entre elas, nada parecia suficiente, nada nunca seria suficiente.

Uma batida na porta interrompeu o momento. Elas se separam relutantemente. Quinn se dirigiu ao espelho, tentando retocar sua maquiagem e cabelo. Rachel fez o mesmo. As duas se encararam pelo reflexo, tentando de alguma forma se comunicarem pelo olhar. A loira foi a primeira a desfazer o contato, lançando um último olhar para a morena antes de abrir a porta.

Era Finn quem estava do outro lado.

“Oh... Quinn?” Ele disse, assumindo uma expressão confusa.

Logo Rachel apareceu atrás da loira. Finn arqueou as sobrancelhas, parecendo ainda mais confuso. Quinn olhou inquisitorialmente para ele.

“Eu só estava preocupado.” Ele disse, sem jeito. “Você disse que ia ao banheiro e estava demorando.” Ele falou para Rachel. “Eu queria ver se estava tudo bem.” Explicou, olhando de uma para a outra.

“Está tudo ótimo, Finn.” Rachel respondeu.

“Eu vou pegar algo para beber.” Quinn anunciou, olhando significativamente para Rachel antes de deixá-los a sós.

A morena sabia que Quinn estava querendo demonstrar uma certa confiança nela com aquele gesto. Ela sorriu de lado, acompanhando a loira ir embora com o olhar.

“O que foi isso?” Finn perguntou, estreitando o olhar, tendo a sensação de que algo importante escapava ao seu conhecimento.

“Finn, isso realmente não é da sua conta. Obrigada pela preocupação, mas está tudo bem.” A morena disse, impaciente. Finn estava a noite inteira tentando se aproximar dela a toda oportunidade, forçando uma intimidade que eles não mais compartilhavam.

“Oh, ok.” Ele disse. “É que é tão bom te ver, poder conversar com você.” Sorriu-lhe. “Além do Kurt, você era o principal motivo pelo qual eu queria vir para NY.” A voz dele tinha assumido um tom mais baixo, como quem confessa algo.

Analisando o moreno, Rachel percebeu sua postura tímida, o clássico sorriso de lado e uma das mãos na nuca. Seria realmente encantador, se ele ainda tivesse dezesseis anos. Agora ele apenas parecia infantil, um adulto agindo como se fosse adolescente.

“Eu me arrependi de não ter vindo na sua estreia, sabe?” Ele continuou, interpretando a ausência de reação da morena como um incentivo. “Eu sei que você disse que nós somos apenas amigos, mas eu sinto essa conexão especial com você que às vezes é difícil de ignorar.” Parecia que ele realmente tinha ensaiado aquele discurso para ela.

Rachel sabia que Finn estava falando algo que ele pensava ser importante, mas não era. Não mais. Não para ela. Era sempre a mesma conversa, dita de diferentes formas ao longo de todos aqueles anos. Rachel riu internamente. Por que ela tinha levado tanto tempo para perceber? Toda a sua história com Finn agora lhe parecia... errada. Ele tinha sido uma parte importante da sua vida e ela realmente o tinha amado. Porém, olhando para trás, ela percebia que a sua ligação com ele sempre fora algo frágil, algo que sempre estava prestes a se quebrar, algo sempre a um passo de dar errado...

Rachel entrou no banheiro à procura de Quinn. Ela encontrou a loira retocando seu batom junto ao espelho.

“Hey...” Ela cumprimentou, olhando ao redor. Algumas meninas estavam por ali. “Eu preciso de um conselho seu.” Aproximou-se. “Sobre...” Esperou que elas estivessem sozinhas. “Sobre um problema de adulto.”

“Oh, merda, você está grávida?” Quinn imediatamente se preocupou.

“Não! Olha, eu vim como uma amiga e estranhamente porque eu acho que você é a única pessoa que vai me dar uma resposta direta e ponderada sobre isso.” Rachel esclareceu.

“Você está certa. Desculpa. Sim, eu posso guardar segredo.” A loira disse.

Rachel respirou fundo, tentando controlar a sua ansiedade. “Finn... me pediu em casamento.”

Quinn surpreendeu-se. “O que você disse a ele?”

“Eu disse que precisava pensar.” Ela encarou a loira.

“Você não pode se casar com ele.” Quinn balançou a cabeça.

“Por quê? Muitas pessoas se casam na nossa idade. Quero dizer, eu sei que nós não vivemos juntos nem nada, mas eu o amo e ele foi feito pra mim. Eu sei disso.” Ela argumentou. Quinn se limitou a buscar algo em sua bolsa, a entregando um envelope. “O que é isso?” Perguntou, o pegando das mãos da loira e abrindo para ver seu conteúdo.

“Minha passagem para fora daqui. Eu fui aceita em Yale. Admissão antecipada.” A loira sorriu grande, parecendo extremamente feliz. “Acabou que minha dissertação sobre superar adversidades e manter a média de notas perfeita durante uma gravidez adolescente realmente impressionou o Conselho de Admissão.”

“Quinn, isso é incrível.” Rachel disse, abraçando a loira. “Isso é tão bom. É ótimo.” Ela desfez o abraço.

A loira imediatamente percebeu que apesar da felicidade da morena por ela, a preocupação sobre sua aceitação ou não como finalista de NYADA estava pesando em sua cabeça. “Eu tenho certeza que você vai receber sua carta de NYADA também.” Ela logo disse. Quinn sempre via através da atuação que ela tentava performar.

“Sim, quero dizer, o correio de NY é notoriamente lento, então...” Ela tentou disfarçar, desviando o olhar.

“O que eu quero dizer é que eu namorei o Finn, Puck, Sam. Até mesmo pensei que amava algum deles. Mas quando a neve cair em New Haven no próximo inverno, eu não vou saber o porquê.”

Rachel levou um tempo para processar o que a loira havia dito. “Então você... você está dizendo que o Finn e eu devíamos terminar?”

“Eu sou a favor de aproveitar ao máximo os próximos meses, mas eu odeio a ideia de arrastar uma âncora do meu passado para as luzes brilhantes do meu futuro. Rachel, você tem uma vida incrível pela frente. Por mais difícil que seja, se você quer tudo o que você sempre sonhou, você vai ter que terminar com ele.” As palavras de Quinn eram como um balde de água fria.

Rachel balançou a cabeça. “Isso é uma coisa horrível de se dizer.”

“Você queria uma resposta direta e ponderada. Eu acho que em algum momento fazia sentido amar uma pessoa pelo resto da sua vida, mas não faz mais. As mulheres estão encontrando quem são aos trinta anos agora. Toda revista diz isso. Nós dificilmente sabemos o que vamos querer daqui a quinze anos.” Quinn argumentou.

“Finn e eu podemos crescer juntos.”

“Escuta, Rachel, você e Finn são um casal adorável. Mas se você realmente quiser ser feliz, você vai ter que dizer adeus.” Ela finalizou, nunca desviando seu olhar.

Rachel a encarou de volta, sentida. Quinn não vacilou, mantendo o olhar, querendo dizer que ela realmente acreditava no que havia dito. A loira então pegou a sua bolsa e foi embora, deixando a morena com seus próprios pensamentos.

Alguns dias mais tarde a loira realmente fez valer suas palavras, realizando uma performance impecável de “Never Can Say Goodbye”. Por mais que Rachel quisesse apreciar a apresentação de Quinn, o que a loira havia dito a ela era a única coisa que ela conseguia pensar. Ela não conseguia se desfazer da ideia de que Quinn estava cantando aquela música para ela. Ao final, todos ficaram extasiados com a notícia de que a loira havia entrado em Yale.

“Eu quero agradecer a vocês.” Quinn se dirigiu a todos ali. “Porque sem todos e cada um de vocês isto nunca teria acontecido. Vocês me apoiaram e me amaram por todo o drama que eu passei e é por isso que eu estou aqui. Eu perdi tanto tempo me odiando pelos erros estúpidos que eu cometi, mas a verdade é que sem eles eu nunca sonharia que este seria o meu futuro.” Naquele momento, os olhos avelãs se focaram nela. “Eu era a única pessoa que estava obstruindo o meu próprio caminho. Você não pode mudar o seu passado, mas você pode deixá-lo pra trás e começar o seu futuro.” Ela sorriu, lacrimejante.

Rachel desviou o olhar enquanto todos aplaudiam. Ela mesma estava segurando suas próprias lágrimas. Todos aplaudiram e se levantaram para felicitar Quinn. Todos menos ela.

Naquela mesma semana, ela ainda não tinha dado uma resposta a Finn, que tentava não mais pressioná-la, mesmo que ele estivesse, de fato, a pressionando. Ela lembrava de Kurt ter recebido sua carta de NYADA dizendo que ele era um dos finalistas, enquanto ela não havia recebido a sua. Kurt dizer para ela deixar de ser estúpida no momento em que ela desabafava com o amigo sobre a sensação ruim que ela havia sentido de que não seria aceita foi o estopim para ela.

“Estúpida?” Ela retrucou, as lágrimas descendo pelo seu rosto. “Estúpido é ver todos os seus amigos fazerem planos para o futuro e perceber que você não tem nenhum. Nenhum plano. Nenhuma faculdade. Nenhum lugar para ir. Tudo o que eu tenho aqui é o meu namorado. E eu não tenho ideia do que eu estou fazendo.” Ela desabou de vez, sendo abraçada pelo amigo.

Foi naquele vendaval de sentimentos, pensando que ela não tinha sido aceita em NYADA, que, ao fazer um dueto de “I Just Can’t Stop Loving You” com Finn, ela aceitou a proposta de se casar com ele. Ela se lembrava claramente das suas palavras...

“Você é o amor da minha vida. E talvez eu não consiga tudo, mas pelo menos eu terei o que importa se estivermos juntos.” Ela disse, emocionada.

“Isso é um...?”

“Sim.”

“Sim?” Ele sorriu.

“Sim, eu caso com você.”

“Eu vou pegar a aliança.” Ele botou as mãos no bolso, logo colocando o anel em seu dedo.

Ela olhou para a sua mão e o seu sorriso se desfez por um momento, algo parecendo fora do lugar. Mas ela calou aquele sentimento, voltando a sorrir e abraçando Finn, seu noivo.

No dia seguinte, sua carta de NYADA havia chegado, comunicando que ela havia sido aceita como finalista. Depois dos seus pais, Kurt foi o primeiro para quem ela correu para anunciar a novidade. Eles se abraçaram, felizes um pelo outro. Até que...

“Você já contou ao Finn?” Ele perguntou, animado.

O seu sorriso imediatamente se desfez.

A aliança guardada na gaveta do seu quarto assim que ela chegara em casa no dia anterior pesando mais do que nunca...

“Rach? Rachel?”

Ele a chamou, fazendo-a voltar ao presente. Rachel focou o seu olhar no moreno. “Desculpa, Finn.”

“Você ouviu o que eu disse? Você está... distante.”

“Eu ouvi sim. A questão é que nós já conversamos sobre isso, lembra? A Rachel com quem você acha que tem uma conexão especial não existe mais. Acabou. Isso não vai mudar. Você disse que havia entendido, mas então aparece aqui e age da mesma forma de sempre, como se eu não tivesse dito nada a você.” Ela finalmente disse o que a incomodava.

Finn pareceu estar processando o que ela havia dito, demorando alguns instantes para responder. Provavelmente por não saber o que dizer, era o seu palpite.

“Você disse que havia alguém. Alguém especial.” O moreno disse enfim. “Mas eu estou aqui e você parece não estar com ninguém, então...”

O moreno tinha atingido um limite. “Então só porque eu pareço não estar com alguém você pode agir comigo como bem entender?” Ela indagou. “Eu não tenho que estar com alguém para você respeitar os meus sentimentos ou levar a sério o que eu disse a você. Deus, você não muda.” A morena disse, balançando a cabeça.

“Não foi isso o que eu quis dizer. Eu não quis desrespeitar você.” Finn disse, mais do que rápido, parecendo desconcertado com o sermão da morena.

“O problema é esse, Finn, você nunca tem a intenção e por causa disso você nunca assume a responsabilidade pelos seus atos.”

“Rach, eu não...” O moreno parecia realmente assustado.

“Cresce, Finn. Assuma as consequências do que você diz e faz. Todo mundo já aprendeu isso, só falta você.”

“Wow, Rachel, você não precisa falar assim comigo.” Ele tentou se defender.

Rachel não se abalou. “Na verdade, eu preciso, porque é só assim que você entende.” Ela constatou, firme.

Finn calou-se, olhando ao redor e parecendo extremamente desconfortável.

A morena respirou fundo. “Olha, eu não quero estragar a comemoração do Kurt. Você é irmão dele e ele está feliz que você está aqui. Não vou ficar discutindo no meio da sala dele com você. Você já disse o que queria e eu também. Boa viagem de volta pra Lima, Finn.” Ela terminou, finalmente deixando-o para trás.

Um breve olhar ao redor e ela viu onde Quinn estava, conversando com Blaine. Apesar da vontade de ir em direção à loira, Rachel não fazia a mínima ideia de como agir naquele momento. Ela optou então por se juntar à Santana e Brody no sofá, lançando um último olhar na direção de Quinn.

A loira estava certa desde sempre. Rachel não havia dado ouvidos a ela no passado, mas ela finalmente tinha aprendido. Ela precisava dizer adeus ao Finn para ser feliz. Por muito tempo lhe pareceu que ela não conseguiria fazer isso, que sempre haveria a sombra dele, do que ele havia feito, pairando sobre si. Mas agora ela sentia que podia dizer adeus a tudo aquilo. Ela havia dito adeus.

Rachel não sabia o que aconteceria dali pra frente, ainda havia muitos receios e dúvidas dentro de si, mas ela finalmente sentia que, desta vez, ela estava caminhando para algo verdadeiro.

Quinn, do outro lado da sala e alheia ao que tinha acabado de acontecer entre Finn e Rachel, sentia-se flutuar. Por mais que ela tentasse focar sua atenção no que era dito por Blaine, era difícil se desprender do que havia acontecido a alguns minutos atrás. Era inacreditável como Rachel conseguia mudar toda a sua vida em poucas horas. Mais uma vez. Ela não queria se machucar de novo, ela não podia se machucar de novo. Ela queria mais do que tudo abandonar aquele jantar ao lado da morena e deixar para trás todas as suas reservas. Mas ela sabia que não podia fazer isso, a própria Rachel não merecia que ela fizesse isso. A morena merecia alguém por inteiro e não alguém que ainda hesitava. E ela ainda não era essa pessoa, por mais que quisesse ser. Era irresponsável elas deixarem aquele desejo que existia entre elas falar mais alto...

Estaria ela indo mais uma vez na contramão ou aquele caminho a levaria enfim a tão sonhada luz ao fim do túnel? Quinn não conseguia se desfazer do sentimento de que ela já havia perdido a capacidade de frear o que quer que estivesse vindo ao seu encontro...

Ao final das contas, parecia ser ela quem nunca conseguia dizer adeus.

Every time I think I've had enough

And start heading for the door

There's a very strange vibration

Piercing me right through the core

It says turn around you, fool

You know you love her more and more

Tell me why, is it so?

Don't wanna let you go

I never can say goodbye, girl...

Kurt interrompeu a sua conversa com Blaine, dizendo que queria fazer um brinde e pedindo para que o noivo o ajudasse com as taças. Quinn sorriu, vendo ambos se dirigirem animadamente para a cozinha. Ela olhou ao redor e respirou fundo, indo em direção à Rachel, Santana e Brody. Os olhos avelãs foram rapidamente atraídos pelos castanhos e ela não conseguiu evitar o leve suspiro que saiu de seus lábios com o tímido sorriso que a morena lhe direcionou.

Santana arqueou a sobrancelha com a interação. “Sério? Eu aqui sofrendo e vocês se pegando no banheiro mais próximo?” Ela botou a mão no peito, fingindo mágoa.

“Santana!” Quinn sussurrou. “Eu e a Rachel, nós não...” Corou.

“Uou, Fabray. Excelente. Se eu tinha alguma dúvida que vocês estavam se pegando, elas foram pelo ralo agora. Obrigada.” Santana continuou.

A gargalhada de Brody ecoou pela sala, enquanto Rachel balançava a cabeça em desaprovação.

“Estou vendo que você parece melhor, Santana.” Quinn não deixou de alfinetar.

“Melhor impossível, sério. Vocês se pegando pelas costas do Finnútil é como um sonho tornado realidade. Obrigada por me proporcionarem isso.” A latina disse, fingindo lacrimejar.

Kurt logo chamou a atenção de todos, que se reuniram a sua volta. Santana e Quinn ficaram um pouco para trás.

“Mandou bem, Fabray.” Ela sussurrou no ouvido da loira, piscando-lhe.

Quinn revirou os olhos, mas não conseguiu evitar o sorriso de lado. Por mais que fosse um sentimento pouco nobre, era satisfatório pensar que era realmente isso que ela e Rachel haviam feito.

“Como você está?” Quinn perguntou a amiga, assumindo uma expressão mais séria.

“Eu não quero falar disso agora. Eu não quero deixar a raiva tomar conta de mim.” A latina disse.

Quinn assentiu. “Se, em algum momento, parecer muito para você segurar, eu estou aqui.”

“Obrigada, Q. De verdade.” Santana agradeceu, sem jeito, batendo seu ombro com o da amiga.

O jantar se arrastou ainda por algum tempo, até o cansaço falar mais alto e todos decidirem encerrar a noite. Rachel abraçou Kurt, agradecendo pelo jantar.

“Não pense que você vai escapar de mim, Rachel Barbra Berry. Eu quero saber exatamente o que aconteceu essa noite.” Ele disse, apontando para o irmão, que estava em um canto da sala, uma expressão péssima no rosto.

Rachel revirou os olhos. “O Finn só precisa lidar com algumas verdades. Logo logo ele vai superar o orgulho ferido.”

“Me liga amanhã. Temos que almoçar juntos essa semana.” Kurt piscou-lhe.

Rachel assentiu, seguindo os amigos até o elevador. Ao chegar em casa depois de dar uma carona para Brody, Quinn já havia ido dormir. A advogada havia comentado alguma coisa sobre um café com Brittany e Carter no dia seguinte. Rachel queria ter tido a chance de se despedir da loira e reforçar o que elas haviam conversado, se sentindo um pouco insegura sobre como elas agiriam dali em diante. Esse não era o seu principal pensamento, contudo. Ela estava dominada por aquela excitação nervosa que era sentida quando se vivia algo bom demais para se imaginar verdade.

Deitada em sua cama, Rachel só conseguia reprisar em sua mente o que havia acontecido entre ela e Quinn aquela noite, até ela ser embalada pelo sono, sentindo-se mais feliz do que era capaz de se lembrar.

...

Quinn acordou cedo no dia seguinte. Ela e Brittany haviam marcado de se encontrarem alguns dias atrás. A intenção da amiga, obviamente, era que ela conhecesse melhor Carter, uma vez que a formatura de Kurt não seria o cenário ideal para um encontro assim. Porém, diante do que havia acontecido no dia anterior, a loira não sabia mais o que esperar desse encontro. Quinn não sabia mais o que esperar de nada, para falar a verdade. Em uma atitude de autopreservação, ela estava se esforçando para não pensar em Rachel e no que havia acontecido entre elas no dia anterior, por mais que fosse um caso perdido. Ela se encontrava em um misto de sentimentos bons e ruins, presa entre a felicidade e o medo, entre a esperança e a apreensão, sem saber quem se consagraria vencedor daquele embate.

Já havia apostado todas as suas fichas uma vez e havia perdido. Não faria aquilo novamente. Ela precisava ter controle, ela precisava estar no controle.

O som do celular tocando a retirou dos seus pensamentos. Brittany havia acabado de confirmar o encontro, para a sua leve surpresa. Ela rapidamente se arrumou e saiu de casa, encarando a fria manhã de NY.

Porém, se Quinn pensou que, de alguma forma, Brittany e Carter haviam se acertado na noite anterior, ela percebeu que havia se enganado assim que botou os pés no café em que elas haviam combinado de se encontrar.

Brittany estava com uma expressão péssima no rosto, como se não tivesse conseguido dormir uma hora sequer. Carter não estava muito diferente, toda a expressão alegre do dia anterior parecia ter evaporado por completo, substituída por um rosto soturno e cansado. Ambas forçaram um sorriso ao vê-la entrar. A loirinha levantou e lhe deu um abraço, enquanto Carter se limitou a acenar e lhe desejar bom dia.

Um silêncio se instalou entre as três no momento em que Quinn sentou de frente para elas.

“Vocês já pediram alguma coisa?” Ela perguntou.

Ambas acenaram que sim. Quinn pegou um dos cardápios da mesa e focou sua atenção nisso, reparando na ausência de qualquer interação entre as duas.

“Como foi o resto da noite?” Brittany perguntou, arriscando um sorriso.

Quinn hesitou, sem saber se seria um acerto falar de Rachel na frente de Carter. “Foi... foi tudo bem. Nada de muito interessante aconteceu.” A loira decidiu responder, desviando o olhar.

Brittany estreitou os olhos para a amiga, mas nada disse. Quinn fez o seu pedido e deixou o cardápio de lado, olhando para as duas. “E vocês? Algum plano para hoje?”

Ela e Brittany acabaram entrando em uma conversa sobre NY, com Carter apenas reagindo eventualmente ao que era dito, muito diferente da pessoa que Quinn conhecera no dia anterior. Dava para perceber claramente que a mente de Carter não estava ali.

“Amor?” Brittany a chamou. “A Quinn estava falando com você.”

A morena pareceu despertar, piscando os olhos e olhando para Quinn, sorrindo apologeticamente. “Desculpa, Quinn. Eu não ouvi o que você disse.”

“Tudo bem.” A advogada sorriu. “Eu só estava perguntando sobre LA, a Britt comentou que você nasceu lá.”

“Eu amo LA. Muito. Não me via saindo de lá para lugar nenhum do mundo até a Brittany se mudar pra cá...” Ela deixou escapar.

Foi evidente a tensão que se instalou na loirinha diante do comentário da namorada. Quinn percebeu aquilo de forma quase imediata. E ela tinha certeza de que Carter também. Quinn até tentou mudar de assunto, perguntando algo a Brittany, mas foi em vão, pois Carter imediatamente interrompeu o que era dito, elevando um pouco a voz.

“Quinn, me desculpa. Eu sei que você não tem nada a ver com isso, mas eu preciso perguntar ou eu acho que vou enlouquecer.” A morena disse, fincando seu olhar na advogada.

“Carter, não.” Brittany disse, em um tom de aviso.

“A questão, Quinn, é que alguma coisa está acontecendo com a Brittany e eu não consigo fazer com que ela se abra comigo.” Carter disse, ignorando o aviso da namorada. “Talvez você, sendo a amiga mais próxima que ela tem, possa me ajudar.”

“Carter, eu não...”

“Quinn, não precisa responder.” Brittany cortou, olhando irritada para a namorada. “Isso é entre eu e você, não bote a Quinn no meio disso, por favor.” Ela pediu.

“O problema é que não é apenas entre eu e você, é?” Carter perguntou, olhando para a namorada, como se a desafiasse.

“Nós já conversamos sobre isso.” Brittany sussurrou.

“Não, nós não conversamos sobre isso, Brittany. Você só faz desviar do assunto.” A morena rebateu. “Eu conheço você. Eu só quero que você seja sincera comigo.” Carter disse, em um tom mais controlado, os olhos azuis suplicantes.

Brittany desviou o olhar, permanecendo em silêncio. Carter balançou a cabeça, uma expressão extremamente decepcionada no rosto. Quinn não sabia o que fazer. Ela se sentia paralisada diante daquela situação, como se qualquer gesto seu pudesse desencadear algo pior.

“Desculpa por isso, Quinn.” Carter disse, olhando de forma sincera para ela. “Acho melhor eu ir embora.”

A morena se levantou e Brittany foi logo atrás. Quinn hesitou por um momento, sem ter certeza de como agir. O medo do que pudesse acontecer acabou falando mais alto e ela deixou algumas notas em cima da mesa e saiu atrás das duas, deixando os pedidos intocados na mesa.

Ela saiu do café e reparou nas duas a poucos passos de si, discutindo. Nenhuma delas pareceu perceber a sua presença, mas suas vozes podiam ser perfeitamente ouvidas dali. Ela não queria se intrometer, mas ela também não queria deixar Brittany sozinha naquela situação. Ela se recostou na parede do café, desviando o olhar das duas, tentando dar alguma privacidade que fosse.

“Você sabe que eu e a Santana somos ex-namoradas, que nós já fomos melhores amigas. Ela trabalha no mesmo lugar que eu, temos os mesmos amigos...” Ela ouviu Brittany dizer, como se já tivesse dito aquela frase inúmeras vezes.

“Isso eu já entendi. O que eu não entendi é porque você não comentou comigo que vocês estão trabalhando juntas, sendo que você sempre me disse que vocês mal se cruzam na Hart.” A morena disse.

“Foi um dia só. Eu não achei necessário comentar.” Brittany argumentou.

“Se foi um dia só, se vocês mal se cruzam, então porque vocês agiram daquela forma no jantar?” Carter questionou.

“Eu não sei do que você está falando...” Brittany disse.

“Por que você está mentindo pra mim, Brittany? Você sabe! Você quase foi atrás dela! Você só não foi porque, de repente, você percebeu que a sua namorada estava ali, do seu lado! Eu não sou idiota, ok? Eu vi a troca de olhares entre vocês, eu vi o jeito que ela olha pra você!”

“Eu não estou mentindo, eu não faço ideia do que passa pela cabeça da Santana! Foi um reflexo, só isso...” A loirinha tentou se defender.

“Reflexo do quê? Vocês não são amigas há anos, não convivem há anos. Eu nem estava falando com ela, eu estava falando com você.” Carter contra-argumentou. “Você mal me falou dessa Santana todos esses anos. Para mim ela era uma ex-namorada de colégio e pronto.”

“Mas ela é!” A loirinha afirmou.

“E então você vem pra cá, para onde ela está. Mesmo a gente estando feliz em LA, mesmo você tendo propostas de trabalho lá.” Carter continuou, como se ela não tivesse dito nada. “E você muda, do nada. Então eu venho visitar você e eu... e eu vejo isso?” A voz da morena falhou, os olhos cheios de água.

“Isso o quê?” Brittany perguntou, a voz também abalada.

“Me diz você, Brittany. Isso o quê? Só você pode me responder isso. Eu não sei o que é, eu só sei que é alguma coisa, que tem alguma coisa, mais do que você me conta.”

Quinn arriscou um olhar de relance para as duas. A expressão no rosto de ambas era de partir o coração.

“A única coisa que eu sei é que eu amo você.” Brittany finalmente disse.

“Eu sei disso, Britt. Eu não estou duvidando do que você sente por mim. Eu só quero saber se você ainda sente alguma coisa por ela.” A morena disse, a voz falha.

Ali estava, pensou Quinn. Ali era onde residia o verdadeiro medo de Carter. Alguns segundos excruciantes passaram.

“Eu não posso te responder isso.” Brittany confessou, com um fio de voz.

“Por quê?” Carter perguntou, finalmente cedendo às lágrimas.

“Porque eu não sei. Eu não sei o que eu sinto por ela. Eu sei o que eu sinto por você.” Ela sussurrou. “Não é o suficiente?” Quinn sabia que ela também estava chorando.

“Talvez fosse. Se você tivesse me dito a verdade desde o início. Como eu posso acreditar em você agora? Pra mim todos os seus sentimentos estavam resolvidos. Para mim essa Santana não era ninguém. Ninguém...” Carter parecia estar em negação.

“Eu não menti pra você. Quando você me conheceu, ela já era minha ex. E eu me apaixonei por você. O que eu sinto por você é verdade. E é isso que importa.” A loirinha disse.

“Você pode não ter mentido pra mim, mas você também não foi completamente verdadeira também. Um namoro de colégio, foi o que você sempre me disse. Uma amizade que acabou perdida. Bastou eu ver vocês duas no mesmo lugar por algumas horas pra perceber que isso que você me falou não é muito bem assim.” Carter afirmou.

“Eu só queria esquecer, eu só queria começar de novo a minha vida. E eu comecei. Com você.” Brittany defendeu-se. “Você pode me culpar por isso? Por escolher não dividir com você algo que me fazia mal?”

“Não é isso, Britt. Você não é obrigada a compartilhar tudo da sua vida comigo. Mas eu acho que eu mereço saber quando existe algo que ainda mexe com você a partir do momento que você decidiu se comprometer comigo.” A morena argumentou.

“Eu pensei que assim seria melhor. Eu não sei mais o que você quer que eu diga.” A dançarina se rendeu.

Carter sorriu tristemente. “Eu queria que você dissesse que ela não mexe com você. Mas eu acho que já sabia que a resposta não seria essa.”

“Me perdoa.” Brirttany pediu, chorosa. “Eu só queria que você soubesse que nada disso anula o que eu sinto por você. Eu amo você...”

Quinn viu de relance a loirinha se aproximar da namorada, alcançando suas mãos com as dela.

“Eu não sei, Britt. Em um dia eu acho que só existe você e eu e no outro eu descubro que existe uma terceira pessoa e que ela afeta a minha namorada ao ponto dela deixar que isso afete o nosso relacionamento.” Carter desfez o contato.

“Eu não vou mais deixar isso afetar nada.” Brittany buscou novamente as mãos da morena. “Eu prometo.”

“Não é isso. Não é só isso. É muito para eu assimilar, assim, desse jeito.” Carter disse.

“O que você quer dizer com isso?” Havia um receio evidente na voz da dançarina.

“Eu preciso pensar. E acho que você também precisa. Nós não vamos resolver isso aqui, agora, depois de uma discussão, no meio da rua, com a sua amiga nos olhando da esquina.” A morena constatou, olhando de relance para Quinn.

Brittany então pareceu despertar para o fato de que havia um mundo ao redor delas, em movimento. Ela olhou para Quinn e percebeu que ela, de fato, estava próxima a elas.

Com as duas olhando para si, Quinn não teve outra alternativa a não ser se aproximar.

“Desculpa por estar aqui.” A loira disse, sem jeito. “Eu não estava querendo bisbilhotar nem nada do tipo. Eu nem estava escutando nada. Só estava preocupada com vocês. Só isso.” Ela disse, expressando parcialmente a verdade.

“Tudo bem, Q.” Brittany disse, a voz levemente rouca.

“Você estava preocupada com a sua amiga. Eu entendo.” Carter disse, dando de ombros.

Um silêncio incômodo pairou entre elas.

“Brittany, eu estou indo para o apartamento.” Carter anunciou. “Você vem comigo?”

A loirinha assentiu. Carter então se afastou, acenando um adeus para Quinn.

Brittany então olhou para a amiga. “Você escutou tudo, não foi?” A tom não era de repreensão.

“Culpada.” Quinn abaixou a cabeça, envergonhada.

“Tudo bem, Q. De verdade. Eu provavelmente faria a mesma coisa se fosse você no meu lugar. Eu sei que você só queria garantir que eu estivesse bem.” A loirinha disse, sorrindo para a amiga.

“Você não precisa ir com ela agora. Se você quiser, eu posso te fazer companhia. Vai ser bom você espairecer um pouco, ela também.” Quinn ofereceu.

Brittany negou. “Eu não posso simplesmente deixar ela voltar sozinha para o meu apartamento, em uma cidade que ela mal conhece.”

“É, eu sei.” A loira concordou.

“Obrigada, Q.” Brittany disse, a abraçando. “Não era como eu queria que as coisas tivessem acontecido. Desculpa por isso.”

“Apenas prometa que você vai se cuidar e me dar notícias, ok?” Quinn correspondeu ao abraço.

A amiga assentiu, desfazendo o contato. Ela lançou um último olhar para Quinn antes de se virar e se juntar a Carter.

A advogada observou o casal andando por um tempo, ciente da distância que parecia ter se instalado entre elas, a discussão que havia acabado de presenciar martelando em sua mente. Apesar do seu coração se apertar pelas duas amigas, ela também entendia o lado de Carter. O medo de não ser suficiente, de se interpor entre duas pessoas que compartilhavam um passado mal resolvido, de acabar sobrando ao final...

Todos esses pensamentos rondavam a mente de Quinn ou haviam rondado. Ela não saberia dizer. Rachel havia deixado claro no dia anterior que aquele não era mais o caso dela e de Finn. E as suas atitudes realmente haviam corroborado o discurso, não somente as do dia anterior, mas por meses. A questão era que a equação que envolvia ela e Rachel era muito mais complexa do que Finn Hudson, sempre havia sido. Naquele momento, ela desejava que assim não fosse, que tudo fosse tão simples quanto tirar o moreno da conta. Mas não era assim que ela se sentia.

Quinn sentia um emaranhado de sentimentos conflitantes, tão característico entre ela e Rachel desde o início. E ela sabia que, ao fim, alguns deles precisariam ceder para que outros pudessem florescer. Ela só não sabia dizer qual papel ocuparia cada um deles. Diante de tudo o que acontecera entre ela e Rachel, ela não podia evitar de pensar que, naquele momento, talvez fosse melhor assim...

...

Rachel saiu do banho se sentindo relaxada, depois de uma hora de exercício em seu elíptico. Algumas coisas nunca mudavam. Ela até havia tentado entrar em uma rotina de ir até a academia que ficava a um quarteirão do apartamento algumas vezes, mas aquela resolução nunca durava por muito tempo. Às vezes ela ainda ia até lá, quando sentia vontade de mudar um pouco de cenário, mas eram dias muito específicos. Ela preferia realizar seus exercícios no conforto do seu quarto, como sempre fizera, aonde ela podia cantar à vontade sem medo de receber olhares estranhos, uma vez que Quinn acordava cedo demais e Santana dormia demais, um sono maravilhosamente pesado, que nem mesmo a voz de Rachel era capaz de perturbar.

Ela havia dormido um pouco mais do que o costume, talvez pelos eventos do dia anterior, mas não muito. Ela tinha uma peça para apresentar à noite e ela precisava manter seus horários se quisesse ter o físico necessário para performar a quantidade exigida de um artista da Broadway. Rachel havia pedido para se ausentar da peça no dia anterior para ir à formatura de Kurt, mas ela jamais faria isso sem ter um excelente motivo.

Não se tratava de ter medo de deixar com que a sua substituta tomasse o seu lugar nos palcos, não mais. Rachel havia há muito superado aquele pensamento. Mais precisamente, desde que ela havia apresentado Funny Girl. No começo, havia sido um exercício de paciência dividir o papel de Fanny Brice com a sua substituta. Jazmin era uma mulher talentosíssima, de personalidade forte, mas, ao mesmo tempo, e para a surpresa de Rachel, havia sido a sua maior incentivadora na peça. Aos poucos, Rachel se viu rendida pela generosidade e pelo senso de união que Jazmin havia lhe passado. Ao final, onde Rachel havia visto uma concorrente, havia surgido uma amizade. Ela havia ensinado a Rachel que ela não precisava diminuir o brilho dos demais para ter o seu próprio e aquela fora uma das lições mais importantes que ela aprendera com a ruiva.

Aquela experiência foi como um ponto de virada para Rachel na carreira. Ela aprendera a compartilhar o seu talento, a incentivar os demais a sua volta e a ter um senso de comunidade dentro do teatro que havia se mostrado muito mais recompensador profissionalmente do que ela poderia supor. Desde então, ela fazia questão de que a sua substituta tivesse um número significante de apresentações pré-determinadas, dias estes em que ela ficava feliz em ceder os palcos para o talento de outra mulher. A única coisa da qual era não abria mão era do seu profissionalismo. E isso significava estar disponível para desempenhar o seu papel da melhor forma possível. Naquele dia, era ela a escalada para representar Wendla nos palcos e ela assim o faria.

Lembrar dos tempos de Funny Girl trouxe um singelo sorriso em seu rosto. Havia sido uma das experiências mais marcantes da sua vida. Muitos diziam isso, mas Rachel havia aprendido por ela mesma ser verdade que o sofrimento pessoal, por vezes, podia levar a um inestimável crescimento profissional. O que ela negava em suas relações pessoais, ela transbordava nas suas relações profissionais, nas suas performances. E, por muito tempo, os palcos haviam impedido que ela se desconectasse completamente dos seus sentimentos. Ao contrário, eles afloravam o que havia dentro de si, traziam a ela uma autoconsciência que ela descartava tão logo a porta do teatro fechava atrás de si.

Porém, aquele não era mais o caso. Ela havia traçado um limite, de forma inconsciente até. E da mesma forma, inconscientemente, aquele limite havia sido rompido. Um dia a porta do teatro havia fechado atrás de si e aquela autoconsciência não havia se calado. Ela permanecera consigo, vocalizando seus sentimentos cada vez mais alto, até se tornarem impossíveis de serem ignorados. Ela havia tentado. E como havia! Mas era tarde demais. Uma guerra havia se instaurado dentro de si e, como em toda guerra, ela havia perdido e ganhado batalhas importantes e, ao fim, declarado uma vitória de sabor amargo. Havia um campo arrasado a ser reconstruído, crimes a responder, consequências a pagar, mas havia esperança. Esperança de dias melhores, de uma pessoa melhor, de uma vida que valesse à pena.

E era ali, no pós-guerra, que ela se encontrava.

Ela saiu do quarto, ainda secando os cabelos e parou no quarto de Santana, abrindo levemente a porta para constatar que a latina ainda dormia pesadamente em sua cama, sem o compromisso de acordar cedo, pois era um domingo. Ao entrar na sala, ela constatou que Quinn realmente havia saído para encontrar Brittany e Carter, diante da ausência da sua chave no lugar de costume. Conformada em ter que tomar o seu café da manhã sozinha, a morena ia se encaminhando para a cozinha quando a campainha tocou.

Franzindo a sobrancelha, ela se dirigiu à porta, verificando de quem se tratava pelo olho mágico. Surpresa, ela abriu a porta para ninguém menos do que Finn.

“Bom dia, Rach.” O moreno cumprimentou. “Podemos conversar?”

A morena nada disse, abrindo espaço para que ele entrasse no apartamento.

Finn levou um tempo analisando o redor, seus olhos correndo pela ampla sala até se focarem na morena novamente. “Legal. O apartamento. Parece bem maior do que o outro.” Ele comentou.

“Lá era um estúdio que nós transformamos em um loft.”

“Verdade.” Finn assentiu. “Acho que só essa sala é do tamanho daquele loft inteiro.” Ele sorriu.

Rachel concordou. Finn a encarou, sem nada dizer. “Imagino que o Kurt deve ter passado o meu endereço pra você, eu só ainda não entendi muito bem o porquê.” A morena foi direta.

Finn coçou a nuca, parecendo desconfortável. “Ele brigou comigo, na verdade.”

A morena arqueou a sobrancelha.

“E foi sobre você. Sobre nós. Quer dizer, sobre a forma com que eu tenho agido com você e coisas do tipo. Ele percebeu como eu estava depois que você foi embora e eu acabei contando pra ele o que nós conversamos e tudo o mais.” O moreno explicou, abaixando o olhar.

Rachel cruzou os braços. “Entendi.”

“Ele me fez enxergar algumas coisas, sabe? E eu acho que entendi o que ele estava querendo me dizer.” Finn disse, respirando fundo. “Rachel, eu sei que é muito tarde e que provavelmente nem faça mais diferença, mas eu queria pedir desculpa pra você. Eu não ia conseguir voltar pra Lima sem te dizer isso.”

“Desculpas do quê, exatamente?” A morena questionou.

“De tudo, eu acho. Quando eu terminei com você, eu fiquei um bom tempo perdido. Eu trabalhava com o Burt e ajudava o Mr. Schue, mas eu não fazia ideia do que eu estava fazendo. Então eu me matriculei em algumas aulas da faculdade comunitária e parecia que eu tinha ganhado um pouco da minha vida de volta, sabe? Eu conheci pessoas novas, fiz várias amizades, voltei a ser um cara que chamava atenção ao andar pelos corredores. Eu não me sentia mais como o namorado perdedor da futura estrela da Broadway.” O moreno desabafou.

“Eu nunca, em todo o tempo que nós ficamos juntos, te vi dessa forma.” Rachel esclareceu.

“Eu sei.” Finn concordou. “Era eu que me via dessa forma. Eu não consegui lidar com o seu sucesso diante do meu fracasso. A verdade é que eu não fazia a mínima ideia de quem eu era ou de quem eu queria ser.” O moreno confessou. “E eu acabei magoando você. Eu quebrei todas as minhas promessas, tudo o que a gente tinha sonhado juntos. Mais do que isso, eu não fiz o menor esforço para que a gente desse certo desde o momento em que você veio para NY.”

A morena assentiu. “Eu sei. E é realmente um pouco tarde pra me dizer isso, Finn.”

“Essa é a questão, não é? Embora eu esteja admitindo isso só agora, eu não percebi isso agora.” Finn balançou a cabeça, uma expressão verdadeiramente triste no rosto. “Eu percebi a besteira que eu tinha feito no instante em que você apareceu em Lima, mais linda do que nunca, como a mulher que eu sabia que você se tornaria.”

“Por que você não me disse isso na época?” Rachel perguntou o óbvio.

“Porque eu tive medo. Você estava completamente diferente. Você se vestia diferente, estava falando diferente, até o seu jeito de andar, de gesticular, tudo em você tinha mudado. E eu era o mesmo cara. Eu não sabia nem mesmo como falar com você. Você ria e conversava com a Santana e a Quinn como se vocês fossem melhores amigas desde sempre, contando histórias sobre NY e New Haven que eu nunca me encaixaria. E isso só se repetia a cada ano que vocês iam para Lima.” Finn explicou.

“E ano passado? Você teve coragem de se aproximar de mim ali. Mesmo que fosse só para transar comigo.” Rachel disse, sem rodeios.

Finn negou. “Não foi assim. Eu tinha bebido e por um momento eu criei a coragem de olhar pra você. Realmente olhar pra você. E você me olhou de volta e, por um momento, eu vi a Rachel que eu amava. Depois disso, eu não consegui mais tirar você da minha cabeça. Eu precisava te olhar de novo, ter certeza do que eu tinha visto.”

“Tudo isso parece muito bonito, Finn. Mas você me viu, transou comigo e foi embora. O que você queria que eu pensasse?”

“Eu sei e eu me arrependo disso. Foi incrível, Rach. De verdade. Mas quando eu acordei e olhei pra você... eu sabia que eu não tinha espaço na sua vida.” Ele confessou.

Rachel balançou a cabeça. “Eu entendo tudo o que você está me dizendo. Mas eu não posso deixar de pensar que foram apenas decisões e conclusões que você tomou sozinho. Em nenhum momento você se deu ao trabalho de descobrir o que eu sentia, o que eu estava pensando.” A morena constatou.

“E é por isso que eu quero me desculpar com você. Eu fui extremamente egoísta. Eu dizia estar fazendo o melhor para nós, mas eu só estava pensando no melhor para mim.” O moreno admitiu.

“O que mudou?” Rachel perguntou. Ela viu Finn franzir a testa, sem entender. “Você me explicou o porquê de ter se mantido distante todos esses anos, mas você não me explicou o porquê de querer se aproximar de mim nesses últimos tempos.”

“Lima. Sua última visita. Você parecia, eu não sei, diferente? Mais aberta a se aproximar de mim. Nós cantamos juntos, conversamos, discutimos. Me deu um pouco de esperança de que eu pudesse voltar pra sua vida.” Finn explicou.

Rachel fechou os olhos, se xingando mentalmente. Se ao menos Finn soubesse que a forma como ela agira em Lima não tinha nada a ver com ele e sim com outra pessoa...

“Por isso eu tentei me aproximar de você. Até você me dizer que era de fato tarde demais. E eu tentei respeitar isso, mas não respeitei. O Kurt me fez enxergar isso. É mais uma desculpa que eu devo pra você.” Finn sorriu de lado, tristemente.

“Eu não sei o que você quer que eu diga, Finn. Nada do que você me disse muda algo pra mim.” A morena foi verdadeira.

“Eu sei. Eu só queria esclarecer o meu lado das coisas, talvez fazer você não pensar tão mal assim de mim.” Finn deu de ombros. “E também reconhecer os meus erros e me desculpar.” Ele acrescentou.

Rachel tinha certeza que aquela última parte tinha um dedo de Kurt no meio, mas não disse nada. Não importava. Ela havia ansiado por uma atitude dessas de Finn por tanto tempo. Mas quando ela havia finalmente chegado, não fazia mais diferença...

Rachel sorriu para o rapaz. “Está tudo bem entre nós, Finn. Não se preocupe.”

Finn ia dizer algo quando o barulho de chave na porta o deteve. A porta se abriu e Quinn entrou no apartamento, carregando um suporte com três cafés nas mãos. A loira congelou ao ver os dois ali, parados no meio da sala. Ela logo se recuperou, no entanto, fechando a porta atrás de si.

“Finn... que surpresa ver você aqui.” Ela arriscou um sorriso, olhando dele para Rachel, que tinha uma expressão impassível no rosto.

“Eu precisava falar com a Rachel antes de voltar para Lima.” Ele explicou, retribuindo o sorriso.

Um silêncio constrangedor pairou entre os três enquanto Quinn depositava o que trouxera na mesa de canto e retirava o seu sobretudo.

“Bom, vou deixar vocês continuarem a conversa.” A loira se pronunciou, pegando os cafés e lançando um último olhar para os dois antes de se dirigir para a cozinha.

Quinn ainda não tinha terminado o seu café quando Rachel surgiu na porta. Ela levantou o olhar do celular em que mexia e seus olhares se cruzaram.

“Você voltou rápido.” Foi o que a morena lhe disse antes de se sentar à sua frente.

“Seria melhor se eu não tivesse ido.” Quinn comentou, oferecendo o café que havia comprado para a morena, que lhe agradeceu. “A San ainda está dormindo?”

“Como uma pedra.” Rachel disse.

“Talvez um café do Joe’s a anime um pouco...”

“Duvido muito que algo consiga a animar hoje, mas acho que vale a tentativa.” A morena encolheu os ombros, tomando um gole do líquido quente.

Uma certa tensão parecia pairar entre elas e Rachel sabia que a presença de Finn no apartamento havia colaborado para isso. Observando a postura distante da loira, parecia impossível acreditar que menos de 24 horas antes elas estavam se beijando no banheiro da casa de Kurt...

“Quinn...” Rachel tentou chamar sua atenção, disposta a acabar com aquele clima entre elas.

Porém, antes que Quinn pudesse respondê-la, elas ouviram a porta do quarto de Santana se abrir e uma latina com cara de quem tinha acabado de acordar surgir na cozinha alguns instantes depois. Santana olhou para as duas sentadas na mesa e revirou os olhos, andando poucos passos até se jogar na outra cadeira.

“Isso é do Joe’s?” Ela perguntou em um tom rouco, reparando no café.

“É todo seu.” Quinn disse.

Rachel se limitou a permanecer em silêncio, apenas saboreando a bebida e os poucos minutos de paz que lhe restavam antes que Santana soubesse que Finn havia estado ali.

...

Brittany entrou no complexo da Hart de forma apressada. Ela nunca havia se atrasado tanto para um dia de trabalho! Carter havia voltado para LA ainda no dia anterior e as poucas horas dormidas desde sábado talvez explicassem o seu atraso e a expressão derrotada com que ela entrara na sala de dança e dera início aos ensaios. Mas era mais do que isso, era muito mais do que isso. Aquilo não era sobre as horas perdidas de sono e sim sobre o porquê dela as ter perdido.

A sua mente ficava repetindo sem parar os eventos que se sucederam no final de semana, como em um looping infinito. O encontro entre Carter e Santana. O incidente durante o jantar. Sua discussão com Carter. O café da manhã com Quinn no dia seguinte. Outra discussão com Carter. Silêncio. A forma com que Carter havia despedido dela na noite anterior.

A manhã passou em um piscar de olhos. Ensaio após ensaio. O seu corpo estava ali, mas a sua cabeça estava em outros tantos lugares que era impossível determinar aonde ou até mesmo quando.

“Eu só quero saber se você ainda sente alguma coisa por ela.” Carter disse, a voz falha.

“Eu não posso te responder isso.” Ela confessou, com um fio de voz.

“Por quê?” A morena perguntou, finalmente cedendo às lágrimas.

“Porque eu não sei. Eu não sei o que eu sinto por ela. Eu sei o que eu sinto por você.” Sussurrou. “Não é o suficiente?”

Ela via a mesma pergunta que fizera para Carter refletir em si, assim como a mesma falta de resposta. Seria suficiente para Carter o seu sentimento por ela? Era suficiente para ela o seu sentimento por Carter? Algum dia havia sido ou ela apenas havia se convencido disso? Suficiente para o quê? Para que ela conseguisse ser feliz ao lado de alguém que não fosse Santana? Por que seu sentimento por Carter tinha que ser suficiente e não podia simplesmente ser?

O seu sentimento por Santana simplesmente era. Não haviam comparações ou medidas, não havia um propósito ou um porquê. Ele apenas existia. Resistia. E como!

Ela estava tão desnorteada com aqueles pensamentos que só percebeu um outro corpo colidindo com o seu quando era tarde demais.

“Meu Deus, me desculpe!” Ela pediu de forma imediata. Ela havia entrado na sala de dança em que daria aula aquela tarde de forma tão distraída que nem se dera conta de que outra pessoa estava saindo por ela.

“Não foi nada.” Uma voz masculina respondeu e ela percebeu se tratar de Brody. O moreno lhe sorriu de forma simpática. “Você está bem?” Ele perguntou depois de encará-la, transparecendo uma leve preocupação. Ela devia estar um desastre completo.

Brittany retribuiu o sorriso da melhor forma que pôde e assentiu. Era evidente que nenhum dos dois sabia o que dizer ou como agir a partir dali. “Eu vou dar uma aula aqui daqui a pouco.” Ela disse.

“Ah, sim, claro. Eu acabei de dar uma.” O moreno falou. “Bom, eu tenho que ir. Boa aula.”

“Obrigada.” Ela respondeu. O moreno acenou uma última vez para ela e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.

Brittany soltou lentamente a respiração, retirando sua bolsa dos ombros e jogando no canto da sala. Ela começou a realizar com calma o seu alongamento, controlando sua respiração e tentando esvaziar sua mente. Alguns minutos se passaram até que ela ouviu a porta se abrir novamente.

“Brody, você...” Santana entrou na sala pensando que o amigo ainda estava ali, fazendo com que seu coração travasse no peito e um nervoso descomunal tomasse conta de si.

Brittany assistiu a latina paralisar ao ver que era ela quem estava ali, assim como ela havia paralisado ao vê-la entrar pela porta. Seus olhares se cruzaram apenas por um instante, pois Santana logo se virou para sair.

“Santana... espera.” As palavras saíram dos seus lábios de forma inesperada. Brittany esperava que a latina fosse embora mesmo assim, mas ela não foi. Santana parou de andar, mas se manteve de costas para ela, sem dizer uma palavra, fazendo com que ela ficasse incerta sobre preferir que a latina tivesse ido embora ou ficado. “Eu queria te pedir desculpas pelo o que eu disse no jantar na casa do Kurt.” Sussurrou, antes que perdesse a coragem.

A dançarina viu os ombros da latina tensionarem e alguns excruciantes segundos passarem até a sua resposta. “Não se preocupe com isso. Não foi nada importante.” Santana disse, indo embora logo em seguida, sem lhe dar qualquer chance de resposta.

Brittany sabia que devia ter custado todo o esforço que a latina tinha para dizer aquilo sem o tom irônico que lhe era característico, mas tinha doído da mesma forma, como ela sabia que havia doído em Santana quando ela mesma dissera aquelas palavras. Ela não conseguia tirar da cabeça o olhar magoado que a latina havia lhe direcionado ao se levantar da mesa naquele maldito jantar e talvez por isso ela havia se sentido impulsionada a se desculpar com ela, mesmo com tudo o que estava acontecendo entre ela e Carter no momento.

A reação de Santana, porém, a fizera se sentir ainda mais derrotada. A sua consciência doía ao pensar em como Carter reagiria ao saber que ela havia se desculpado com a latina e o seu coração doía ainda mais pela forma que as coisas estavam entre elas.

Em seu íntimo, Brittany começava a entender, com crescente angústia, que, a partir daquele momento, cada atitude sua a favor de Santana seria, inevitavelmente, uma atitude contra seu relacionamento com Carter.

I keep thinking that our problems

Soon are all gonna work out

But there's that same unhappy feeling

There's that anguish, there's that doubt

It's that same old dizzy hangup

I can't do with you or without

Tell me why, is it so?

I don't wanna let you go

I never can say goodbye girl...

Teria ela coragem de fazer o que precisava ser feito? Ou ela se tornaria, mais uma vez, refém dos seus próprios sentimentos?