Notas iniciais
Falo com vocês nas notas finais! Rs Boa leitura!

A vida de Rachel estava tão bagunçada naqueles dias ela chegou a imaginar que a qualquer momento ela se desmancharia em lágrimas. Ela não tinha tempo de sequer pegar seus pais no aeroporto ou sentir vergonha por ter saído de casa sem pentear os cabelos.

"Eu vou pegá-los, ok?" Santana tranquilizou a diva.

Ela não sabia se ficava tranquila ou ligeiramente apreensiva. Seus pais chegariam no dia seguinte e fazia dias que ela não sabia o que era fazer outra coisa que não ensaiar.

"Eu realmente queria buscá-los, Rachel." Quinn disse ao notar o olhar de apreensão da morena. "Mas tenho uma audiência realmente importante e não sei se vai dar tempo."

Já era de madrugada e Rachel tinha acabado de chegar do teatro para encontrar Santana e Quinn na sala, ainda acordadas.

Santana revirou os olhos. "Não é como se eu fosse arrebentar o carro com seus pais dentro."

"Só não os assuste. Por favor." Rachel pediu, jogando-se no sofá ao lado de Quinn.

"Esse apartamento só tem cerveja e tequila na geladeira, Berry. Não é como se eles já não fossem ficar assustados." A latina rebateu.

"Eu fiz compras hoje, pra falar a verdade. E falei com o síndico, ele vai mandar alguém vir arrumar aqui amanhã de manhã." A loira interveio.

"Não precisava, Quinn." A morena falou sentida, seus olhos transbordavam gratidão e algo mais que a loira nunca conseguia saber do que se tratava.

O fato é que Rachel não conseguia parar de pensar que Quinn era uma pessoa muito melhor do que ela e que merecia alguém também muito melhor do que ela. E aquele pensamento fazia seu coração se despedaçar sempre que ela olhava para a loira.

"Apenas relaxe, ok? Eu e Santana vamos cuidar de tudo." A loira tentou também tranquilizá-la.

"E são os seus pais. Poderia ser pior, poderia ser os meus." A latina comentou, sabendo o quanto os Berry eram gentis e compreensivos.

"Acho que eu ganho de você nessa." Quinn retrucou, rindo sem vontade.

Santana acenou em concordância e então elas caíram no silêncio. A latina logo se levantou e saiu, sem se despedir. Quinn bocejou, virando-se para a morena, que estava de olhos fechados.

"Rachel?"

A diva abriu os olhos pesadamente, os ombros caídos de cansaço. Ainda assim encantadora aos olhos de Quinn. A loira lutou internamente contra a vontade avassaladora de puxar a morena para si e passar horas sem fim naquele sofá, com a pequena dormindo em seus braços. Às vezes ela simplesmente não conseguia evitar que seu corpo ardesse por coisas que ela sabia que nunca teria.

"Acho melhor você ir pra cama antes que desmaie nesse sofá." Ela falou suavemente. A mão de Quinn formigava, implorando por sentir a pele da morena mais uma vez sobre seus dedos.

Rachel pareceu despertar um pouco do torpor que se encontrava, esfregando os olhos. "Boa noite, Q." Ela disse roucamente, antes de surpreender a loira ao deixar um beijo em sua bochecha e ir andando cambaleante até seu quarto.

O gesto de Rachel parecera tão natural que Quinn duvidava que a morena tinha se dado conta do que havia feito. A loira deitou lentamente no sofá, sua mente completamente em branco. Ela se permitiu fechar os olhos por alguns segundos, censurando sua vontade de tocar onde os lábios da morena haviam encostado. Acabou dormindo embalada por um sonho que não se lembraria no dia seguinte, mas que envolvia uma pequena diva que usava uma saia incrivelmente curta e um adorável suéter.

...

Rachel subia as escadas do prédio com a sensação de dever cumprido e um leve frio na barriga que se instalara desde que acordara aquela manhã. Acabara de sair de seu último ensaio antes da estreia. A próxima vez que aquelas cortinas se abrissem seria pra valer. Apesar do nervoso, ela sabia que tinha nascido para estar nos palcos. A Broadway tinha sido um sonho e agora era a sua vida. E Rachel sinceramente esperava que continuasse sendo depois do dia seguinte.

Seus pensamentos foram interrompidos pelas risadas que ecoavam pelo corredor e ela sorriu aliviada, abrindo a porta do apartamento.

"Estrelinha!" Hiram gritou, levantando imediatamente da mesa de jantar.

Em uma rapidez inesperada Rachel se viu envolvida por um forte abraço dos dois homens responsáveis por tudo que havia dado certo em sua vida. Ela se afastou depois de algum tempo, tentando evitar que seus olhos marejassem. Mas Hiram e Leroy não pareciam ter a mesma restrição.

"Estive em Lima há pouco tempo, lembram?" Rachel brincou.

"Estamos tão orgulhosos de você! Mas depois falamos disso. Agora você vai sentar conosco e finalmente ter uma refeição decente." Leroy disse, assumindo um tom autoritário.

Rachel retirou o casaco, se dando conta da presença de todos ali. Leroy a acompanhou até a mesa, fazendo-a se sentar entre ele e Hiram.

"Temos que dizer que estamos completamente surpresos com a habilidade culinária da Santana!" Hiram comentou.

Rachel riu audivelmente, sendo seguida por toda a mesa, inclusive pela própria latina.

"Ela teve ajuda!" Kurt interviu, recebendo um rápido beijo nos lábios de seu noivo.

"E foi também um prazer conhecer este rapaz." Hiram ainda acrescentou, indicando Brody. "Como vocês nunca o levaram a Lima?"

"Não foi por falta de convite." Quinn acusou Brody, batendo os ombros com o do moreno.

"Na próxima." Brody prometeu.

"Como foi de viagem?" Rachel perguntou, feliz por seus pais estarem ali, na sua casa.

"Bem melhor do que o caminho até aqui com a Santana dirigindo." Leroy brincou e todos riram.

Rachel lançou um olhar de censura pra latina, que deu de ombros. "Fiz o melhor que pude, Berry."

"E o que vocês fizeram à tarde?" A morena quis saber.

"Quinn teve a gentileza de nos levar ao Central Park." Hiram disse, sorrindo para a loira, que retribuiu o gesto. "Depois tomamos café na sua adorada Starbucks. Devo confessar que os bolinhos são muito bons, mas esperava mais do café."

"Sério, papai? Não acredito!" Exclamou a morena, indignada.

A conversa seguiu por todo o jantar. Rachel estava feliz por receber seus pais e por ver o quanto seus amigos gostavam deles e se preocupavam em agradá-los. Mas logo a animação de ter seus pais ali deu lugar ao cansaço e ela deitou a cabeça nos ombros de Leroy, escutando sonolenta Blaine contar sobre uma audição que fizera para um off-Broadway aquela tarde, sorrindo ao ver a cara de orgulho que Kurt estampava, parecendo tão empolgado quanto o noivo.

Não muito tempo depois os rapazes foram embora e Rachel foi praticamente expulsa da cozinha por Quinn, alegando que a morena precisava dormir cedo. Ela tomou um banho rápido e ainda conseguiu pegar um pedaço da discussão entre seus pais e suas duas amigas, que insistiam que eles ficassem com o quarto de Quinn.

"Não há necessidade, de verdade. Podemos muito bem ficar com o sofá-cama. Vocês trabalham cedo amanhã e nós somos visita." Hiram argumentou.

"De jeito nenhum." Quinn disse, veemente. "O quarto está arrumado para vocês e eu e a Santana já tínhamos combinado que eu ia dormir no quarto dela."

Diante da expressão firme de Quinn e Santana os dois homens finalmente cederam, agradecendo a ambas.

"Nada fácil essas duas, hã?" Rachel comentou encostada no portal da sala, olhando divertida para a situação.

"Por favor querida, não é nada que não estejamos acostumados. Nós criamos Rachel Berry, lembra?" Leroy disse.

"Lembro." A morena revirou os olhos.

Os Berry logo foram para o quarto e Rachel preparou rapidamente um chá para si antes de também ir para o quarto, tentando dormir enquanto ouvia uma Quinn irritada ralhar com uma latina que parecia estar se divertindo com o fato de ter a amiga dividindo o quarto com ela. Um sorriso nostálgico tomou conta de seus lábios, lembrando-se de quando ainda morava no loft com a latina e de como elas e Quinn se amontoavam no quarto dela toda as vezes que a morena ia estreiar um off-broadway no dia seguinte...

"Me recuso a dormir na mesma cama que você, Santana." Quinn disse, se levantando irritada, pegando o travesseiro e indo para o colchão.

Só que uma pequena morena já o ocupava.

"O que você está fazendo, Quinn?" Rachel perguntou.

"Vai pra cama, Berry." A loira ordenou.

"Ah, não, Q. Aqui está quente." A morena falou enquanto empurrava a loira.

"Eu não vou dormir com a Santana!" Quinn afirmou.

"Admite logo que você tem medo de não resistir, Fabray." Santana provocava.

A loira fuzilou a latina com o olhar.

"Como se você não tivesse gostado." Santana continuou a provocação.

Assim que a loira abriu a boca para revidar, a morena bufou irritada. "Querem parar? Estou tentando dormir aqui." Ela ralhou.

"Boa sorte com isso." A latina provocou.

"Ótimo! Vou pro meu quarto." Rachel disse, fazendo menção de se levantar.

"Isso é um loft, Rachel. Essas cortinas não significam que você tem um quarto." Quinn falou com a voz abafada pelo travesseiro. "E foi você quem disse que não queria dormir sozinha."

"Pra não ficar nervosa e conseguir dormir. O que perde o sentido se vocês não calam a boca." Rachel frisou.

"Vai dar tudo certo, Rach." Quinn sorriu para a amiga com metade da cara enfiada no travesseiro.

"É, Berry. Todo mundo já sabe que você vai arrasar amanhã. Então para de encher a porra do saco e vai dormir." Santana complementou.

"Santana!"

Rachel sorriu com o comentário. Ela sabia que era muito pra latina se expressar como as pessoas normais faziam.

"Se você vai dividir esse colchão comigo então para de se mexer, Fabray!" Rachel reclamou.

"Mandei você ir pra cama, Berry. E é só você ir pro seu canto. Já viu o seu tamanho e o tamanho desse colchão?" Quinn rebateu.

A morena bufou mais uma vez, dando as costas para loira.

"Eu realmente vou dormir sozinha nessa cama?" Santana questionou.

Nenhuma das duas responderam. Alguns minutos se passaram em silêncio até que...

"Chega pra lá, Berry." A latina ordenou, ocupando a outra beirada do colchão.

Estava escuro, mas Rachel tinha certeza que, assim como ela, Quinn estava segurando o riso.

Rachel até que tentou pegar no sono por mais algum tempo, até que finalmente assumiu a derrota, pegando seu travesseiro e indo para o quarto da latina. Ela abriu e fechou a porta o mais silenciosamente que pôde, mas não deu nem dois passos e seus pés bateram em algo. A cama da latina estava vazia e o colchão de casal estava no chão. Santana e Quinn estavam nele, mas um espaço especial parecia ter sido guardado especialmente pra ela.

Balançando a cabeça ainda sem acreditar, a morena cuidadosamente se acomodou ao lado de Quinn, um sorriso emocionado tomando conta dos seus lábios.

"Demorou, Berry." Santana disse, sonolenta.

E isso foi tudo o que ela ouviu antes de cair em um sono profundo, sentindo o familiar calor de uma certa loira que parecia adormecida embalar seus sonhos.

...

"Eu juro, Fabray, se você continuar andando em círculos igual uma retardada, eu vou te chutar pra fora desse teatro. Onde está o idiota do seu namoradinho para te acalmar?" Santana falou para uma Quinn completamente nervosa.

A loira parou de andar, respirando fundo. O que estava acontecendo com ela? "Ela estava bem, certo?" Quinn perguntou, ignorando o que a latina dissera.

Santana rolou os olhos e Brody riu, mas Kurt e Blaine lhe lançaram olhares compreensivos. Todos estavam no saguão de entrada do teatro, esperando que as portas se abrissem. Em poucos minutos seria a estreia de Rachel e Quinn simplesmente não conseguia explicar seu próprio comportamento.

"Ela estava, Quinn, não se preocupe." Leroy respondeu, olhando intrigado para a loira.

Ela sabia que Leroy estava certo. A morena havia acordado bem-humorada e completamente empolgada. Uma pilha de energia o dia inteiro, pra falar a verdade. E quando ela se despedira deles a um par de horas atrás, ela parecia um pouco ansiosa, mas simplesmente radiante. Quinn não se lembrava da última vez que vira Rachel daquela forma.

"Mr. Schue!" Kurt chamou, olhando para um ponto distante, perto da entrada do teatro.

Andando na direção deles vinha um sorridente Mr. Schue, acompanhado da Ms. Pillsbury. Enquanto todos davam atenção ao casal recém-chegado, Santana puxou Quinn para o lado.

"O que há com você?" Santana perguntou.

"Do que você está falando?" Quinn se fez de desentendida.

"Não se faça de besta comigo, Quinn. Você está agindo como uma adolescente idiota desde que chegamos aqui. O que há com você?"

"Só estou preocupada com a Rachel."

"Ela é Rachel Berry, Fabray. Não há nada com que se preocupar. Pare de agir assim ou todo mundo aqui vai perceber." A latina ralhou.

"Perceber o quê, Santana?" Quinn perguntou, já irritada.

"Você quer realmente que eu diga?" A latina desafiou, cruzando os braços e arqueando a sobrancelha.

Mais uma vez, Quinn sabia que Santana tinha razão. Ela só queria que tudo desse certo. A morena tinha sonhado a vida inteira com aquele momento e nada podia dar errado, não quando todo o resto já era tão fodido. Ela sabia que todos os outros queriam isso também, mas, pelo visto, a única a agir como uma idiota ainda apaixonada era ela. Mas ela não estava mais apaixonada por Rachel. Não mais.

Só faltava ela mesma se convencer disso.

"Tudo bem por aqui?" Kurt perguntou, se aproximando.

Santana abriu a boca para responder algo provavelmente grosseiro, mas seus olhos se estreitaram na direção da entrada do teatro e Quinn imitou seu movimento. Brittany se aproximava deles.

"Simplesmente perfeito." Santana respondeu com um falso sorriso, se afastando deles.

...

Rachel estava sentada em seu camarim, admirando as flores e os cartões que recebera. Nenhum de seus amigos haviam se esquecido dela e ela se permitiu, por alguns momentos, apreciar aquele fato.

Quantas vezes ela havia sonhado com esse momento? Quantas vezes ela havia imaginado aquele momento? Mais do que ela poderia se lembrar. No início, ainda muito jovem, ela imaginava um teatro um pouco maior que o da escola, cheio de pessoas que ela não conhecia, mas que tinham ido só pra ver o seu talento, ouvi-la cantar. Ela podia ver com exatidão seus dois pais na primeira fileira, chorando emocionados.

Alguns anos mais tarde seus pais a tinham levado ao seu primeiro espetáculo na Broadway e ela já conseguia imaginar o teatro exatamente como ela o vira pela primeira vez, mas dessa vez ela conseguia reconhecer algumas pessoas na plateia, aqueles que riam e jogavam raspadinhas nela no colégio, a olhando com inveja e depois rendidos ao seu talento.

Não muito tempo depois e ela conseguia imaginar o teatro com mais nitidez ainda, porque ela tinha estado naquele palco e cantado nele com Kurt e ela via todos do Glee sentados à frente, felizes por ela e bem ao centro, destacado de todos, ela sempre pensava em Finn, sorrindo orgulhosamente.

Mas depois ela não imaginava mais nada, nem seus pais, nem seus amigos, nem ninguém. Ela só conseguia se ver de pé, diante de várias pessoas sem rosto e sem importância, transmitindo sua dor e cantando o seu vazio, esperando que elas entendessem, que elas sentissem o mesmo...

Mas hoje, hoje não seria de nenhuma daquelas formas. Ela tinha cometido vários erros, mas todos eles ainda estavam lá e ainda mais, mesmo que alguns não fisicamente. Seu olhar pousou em um buquê de rosas brancas. Elas eram de Finn e estavam acompanhadas de um cartão.

Rosas brancas são novos começos.

Break a leg...

Com carinho,

Finn.

Finn tinha sido por algum tempo aquele que ela imaginava na primeira fileira, ao centro. Agora ele era aquele quem tinha ferrado com tantas coisas na sua vida e ainda assim ela tinha achado algum espaço dentro de si para perdoá-lo. Ela só não havia conseguido fazer isso por ela mesma. Por um momento, ela sentiu raiva. Raiva por ter deixado o que ele fizera a destruir por dentro, por ter deixado que a sua dor a transformasse em alguém que antes ela desprezaria, por ter caído e se recusado a levantar, por ter permitido que tanto de si tivesse ido embora...

Ela fechou os olhos e tudo que veio à sua cabeça foi um velho auditório e um velho amigo sentado ao seu lado no piano.

Eu não sei quem eu quero ser. Eu não sei nem por onde começar!

Então descubra, Rachel...

Ela sabia que jamais seria a mesma e ela sabia que quem ela fora por aqueles anos não era ela, não era nem sequer viver. Ela tinha sobrevivido, porque ela estava em sofrimento, estava com medo, estava vazia... Mas agora, quando finalmente ela se sentia capaz de ultrapassar aquela barreira dentro de si, quem ela queria ser afinal? O que ela queria? Se ela fosse sincera consigo mesma, como há muito tempo ela não sabia ser, ela queria voltar a sonhar...

Ela queria reaprender a querer.

Não tenha medo de viver, não tenha medo de sofrer. Tenha medo de se acomodar, Rachel...

Ela tinha se esquecido de que ela simplesmente podia.

Ela podia ser quem ela quisesse, ela podia querer qualquer coisa, por mais ridícula que fosse. Ela podia rir, ela podia sonhar... e ela podia sofrer. Mas isso não seria o fim. Sofrer nunca era o fim. Ela podia chorar. Céus! O que tinha demais em chorar? O que tinha demais em beijar alguém e sentir seu coração acelerar?

Ela podia sentir...

Ela despertou sentindo um cheiro familiar invadir seus sentidos e sorriu, se virando para o lado. Só então ela se deu conta de que não estava na sua cama, mas sim no quarto de Santana, ao lado de Quinn, dormindo em um colchão. Seria sua estreia daqui a algumas horas.

Ela abriu os olhos e viu que estava de frente para Quinn, agora reconhecendo o cheiro que sempre desprendia da loira, que parecia dormir tranquilamente. Rachel observou hipnotizada a respiração calma da loira, o movimento de subir e descer do seu peito e o rosto inacreditavelmente perfeito que ela sempre tivera.

Quinn era linda. A mulher mais linda que ela conhecia. E naquele momento, mais do que nunca, ela era muito mais do que isso. Ela só não sabia definir exatamente o quê. Esse pensamento a fez sorrir levemente. Ela parecia nunca saber o que Quinn era em sua vida...

Elas já tinham feito tão mal uma a outra, mas elas ainda estavam ali... por quê?

Ela também não conseguia esquecer que Quinn já tinha feito tão bem a ela. Seus olhos então foram do rosto para o corpo levemente descoberto pelo lençol e o seu próprio corpo pareceu acordar.

Ela já tinha desejado tantas pessoas, mas nada era parecido com a forma que desejava Quinn Fabray. E aquilo a deixava com medo, porque era muito mais do que físico, era muito mais que um momento, uma noite. O jeito que Quinn a havia tocado, a havia olhado, a havia feito sentir. Isso a assustava e ela simplesmente não soubera lidar com aquilo. E por isso ela fugira, ela a machucara.

E por isso ela sabia que não tinha direito algum, mas ali, olhando para Quinn, tudo que ela queria era tocá-la...

E tudo que ela queria era sair depressa dali.

Ela levantou a mão, incerta, sentindo o coração pulsar em seu ouvido. Antes que pudesse desistir, ela tocou seu rosto. Era errado, mas ela não se importava. Em que momento Quinn tinha feito isso com ela? Em que momento ela tinha transformado um mero toque em uma explosão de sentimentos indefinidos e completamente aterrorizantes? Algum dia ela já havia se sentido assim? Em que momento Finn a tinha feito se sentir assim?

Ela sabia que nunca.

Seus pensamentos sobre aquela manhã foram aos poucos se desfazendo e então seu olhar recaiu sobre as flores de Quinn. Eram lindas rosas azuis. E o cartão vinha com uma única frase, sem assinatura, mas Rachel conhecia a caligrafia elegante da loira.

Eu sempre soube.

Rachel também sempre soubera. Ela nunca soubera como ou quando, mas ela sempre soube que um dia era ali que ela estaria, a poucos instantes de seu maior sonho.

Ela só não sabia que seria em Quinn Fabray que ela estaria pensando...

"Atrapalho?"

Rachel despertou de seus pensamentos, olhando para a porta. Carmem Tibideoux tinha acabado de entrar por ela, sorrindo. Elas se abraçaram por alguns instantes até a mentora de Rachel se afastar e olhar para ela, visivelmente orgulhosa.

"Estava perdida em pensamentos, minha querida?"

"Um pouco." Rachel admitiu.

"É impressionante o que os momentos antes de entrar naquele palco fazem conosco." A mais velha comentou com um tom saudosista. "Todas as coisas realmente importantes passam por nossa cabeça..." Ela parou de falar, como se estivesse também perdida em pensamentos, mas logo voltou seu olhar para Rachel. "Pronta, senhorita Berry?"

"Eu sempre estive, Madame." A morena lhe assegurou.

Rachel não sabia dizer o que passava pela cabeça da sua mentora naquele momento, mas ela a fitou longamente antes de se curvar e apontar a saída. Assim que ela passou pela porta, ela viu Mark. Ele não hesitou em ir na sua direção, lhe dando um forte abraço. Antes que qualquer um dos dois pudesse falar alguma coisa, as luzes começaram a piscar e eles se entreolharam, apertando as mãos.

Finalmente havia chegado a hora! Quando as cortinas se abriram, ela não era nada mais que o seu talento e a sua voz...

Rachel sabia que se alguém a pedisse para recontar aquela noite, ela nunca seria capaz de atender a esse pedido. Poucos momentos em sua vida tinham sido tão intensos e ao mesmo tempo tão fluidos. Fora como ter um sonho muito bom e ao acordar e tentar se lembrar, sentir os detalhes lhe escapando aos poucos. Mas o sentimento, a sensação de estar no palco e cantar sua alma para todos aqueles que vieram prestigiar sua estreia, aquilo ela nunca esqueceria. Ela se lembraria de ter sentido uma ansiedade absurda assim que as luzes piscaram e o elenco se reuniu para celebrar aquele momento, mas assim que todos tomaram seus lugares e ela pôs seus pés no palco, tudo a abandonou.

Rachel não conseguiria enxergar ninguém na plateia nem se a luz permitisse. Não aquele dia. Mas ela sabia que todos eles estavam lá. Ela sentia a presença deles, ela sentia todos os olhares nela. Todos pareciam encantados, mas ela mal conseguia registrar esse fato ou ouvir os aplausos de pé. Tudo parecia um borrão de cores e vozes e naquele momento ela só conseguiu pensar naquela menina que ouvia Barbra Streisand muito antes de aprender a ler.

Ela só queria poder voltar no tempo e contar a ela que sim, ela realizaria seu sonho, ela viveria ele todos os dias. Porque ali, naquele palco, ela se sentiu viva. Ela se lembrou de que ela era Rachel Berry, a judia com dois pais gays de Lima, Ohio. Ela se lembrou de onde ela tinha vindo e de tudo que ela tinha feito para chegar até ali.

Ela se lembrou do porquê de estar ali.

Ela não estava ali porque ela tinha talento, muitas pessoas que tinham talento jamais haviam conseguido. Ela estava ali porque ela amava cantar, porque ela amava interpretar, porque ela sentia cada palavra e cada sentimento que era posto a sua frente e ela transbordava todos eles para quem quer que fosse. Ela transformava cada verso em vida e em toda vida havia um sonho e em cada sonho havia vontade, desejo e paixão.

E ela tinha sido apaixonada um dia. Apaixonada pela vida, pela música, pelos seus sonhos, pelo clube do coral. Ela era apaixonada e ela tinha fome. Ela tinha fome de ser feliz, de alcançar seus sonhos, de se pôr a prova. Ela também tinha seus medos, mas não eram eles que ditavam sua vida, suas vontades. Ela nunca recuava diante de um desafio e ela nunca pedia desculpas por ser quem era.

Ela tinha certeza de quem era ela.

E foi exatamente naquele momento em que as cortinas se fecharam e ela se deu conta de que todos ainda continuavam a aplaudir que ela soube. Ela soube por onde começar.

Ela começaria por Rachel Berry.

...

Quinn, por algum tempo, principalmente durante o seu primeiro ano do ensino médio e ainda um pouco depois, tinha certeza de que ninguém naquela escola esquecida pelo mundo sairia de Lima. Como eles poderiam se ela própria, a HBIC do McKinley, não acreditava que poderia?

Isso durou até ela conhecer Rachel Berry.

A morena foi o primeiro talento de verdade que ela viu com seus próprios olhos e desde aquele primeiro momento ela soube que a morena estava destinada a coisas maiores e melhores do que aquela cidade, do que aquelas pessoas.

E agora lá estava Rachel, vivendo o seu sonho tornado realidade, cantando nos palcos da Broadway como se já o fizesse desde que nascera, e lá estava ela, Quinn, tendo a confirmação de que estava certa desde sempre. Mas aquela certeza, ao invés de tornar tudo a sua volta como esperado, como cartas marcadas em um baralho, e lhe botar um sorriso fácil no rosto, como de quem sabia que isso aconteceria, tornava tudo ainda mais surpreendente aos seus olhos.

Era lindo, era realmente lindo, conviver com alguém como Rachel, que por anos havia respirado aquele sonho e poder ver a olhos nus ele se realizar. Quinn se sentia à flor da pele, como quem vive de verdade a história de um filme, sentindo seu coração acelerar sempre que Rachel entrava em cena e seu corpo se arrepiar toda maldita vez que ela cantava.

Ela realmente queria que aquilo fosse uma consequência pura e simples do talento de Rachel e nada mais. Ao final da peça, ela realmente queria ter olhado para o lado e visto que todos estavam exatamente do mesmo jeito que ela. Mas não foi isso que ela viu. Sim, todos estavam emocionados, muitos com lágrimas nos olhos, mas Quinn sabia que era a única que parecia estar com o coração na garganta.

Maldita Rachel Berry e seu maldito talento.

...

Rachel tirava algumas fotos com o elenco logo na entrada do pub que a produção havia reservado aquela noite para comemorarem a estreia da peça. Todos estavam sendo requisitados, mas sem dúvidas ela era a mais, todos querendo tirar ao menos uma foto ao seu lado.

"Então, como você acha que será a crítica amanhã?" Mark perguntou assim que ela finalmente conseguiu sair do pequeno tumulto que se formava em volta dos fotógrafos e alguns jornalistas.

O moreno parecia feliz, mas ainda tenso. Ela mesma estava com um certo nervosismo guardado dentro de si, mas depois de várias peças na faculdade e off-Broadway, ela havia aprendido a controlar um pouco essa ansiedade, pelo menos aos olhos das pessoas ao redor.

"Só vamos comemorar esse momento, ok? Você merece, nós merecemos. Amanhã voltamos a nos preocupar." Ela disse, dando o braço a ele e tendo sua entrada permitida pelo segurança que guardava a entrada do local.

O lugar era incrível, bastante amplo e com vários ambientes e lounges espalhados ao redor. Rachel sabia que grande parte da nata da Broadway estava presente naquele evento, que continha muito mais pessoas do que ela esperava. Logo ela e Mark foram recepcionados por um dos assessores de produção, que os conduziu para um pequeno grupo de pessoas que pareciam ansiosas para conhecê-los, sem que ela tivesse qualquer tempo para procurar por seus pais e amigos.

Mas Rachel não se preocupou, ela os tinha visto logo depois da peça, quando todos invadiram seu camarim, apesar dos protestos de um dos seguranças do teatro. Aparentemente, Santana havia deixado rastros de suas habilidades de Lima Heights. Seus pais a haviam dado o abraço mais sentido e emocionado e também eram os mais empolgados, falando sobre a peça sem parar, derramando elogios atrás de elogios a ela. Todos os outros também pareciam contagiados pela sua performance, com grandes sorrisos nos rostos e um Kurt banhado em lágrimas.

Mas entre o abraço forte de Santana e todas as palavras doces e extasiadas que lhe eram dirigidas, fora o olhar de Quinn que havia lhe prendido a atenção. Ela havia lhe dado um abraço apertado, porém breve, e depois permanecido um pouco afastada dos demais, encostada na parede com uma das pernas dobradas. Aquela postura podia parecer indiferente e talvez a própria Quinn queria que assim parecesse, mas Rachel já conhecia aquele olhar bem demais para se deixar enganar.

Haviam tantas emoções passando pelas íris avelãs, criando um lindo contraste entre o que a loira tentava transparecer e não conseguia esconder. Isso fez com que Rachel se lembrasse imediatamente das rosas azuis que a loira a havia presenteado e da única frase que ela escrevera. Enquanto suas palavras pouco diziam, os gestos e olhares de Quinn entregavam a Rachel uma história completamente diferente.

E talvez naquele dia ela estivesse se sentindo confiante o bastante para acreditar naquela história.

Não muito longe dali, Quinn não conseguia desviar seus pensamentos de Rachel. Ela queria ter dito alguma coisa à morena, mas tudo o que conseguira expressar com todo mundo ao redor tinha sido um abraço rápido, ora se contentando em observar com encanto a morena se movimentar pelo camarim, ora permanecendo com o olhar perdido, sem saber muito bem como agir ou o que pensar.

Ela foi retirada daquele momento por Brittany, que lhe ofereceu uma taça de champanhe e sentou ao seu lado na mesa. Blaine e Kurt eram os únicos que também estavam por ali, conversando animadamente com uma mulher que Quinn tinha quase certeza que era uma das treinadoras vocais da peça.

"Eu gostei desse lugar." Brittany comentou, olhando ao redor.

Quinn concordou com a cabeça, tomando um gole da bebida e imitando a amiga. "A Rachel comentou que a produção está pagando por tudo. É também uma forma de promover a peça, claro."

Como se fosse um imã, os olhos avelãs foram atraídos para a direita, onde uma certa morena conversava com um pequeno grupo de pessoas mais velhas que pareciam encantados com a sua presença.

"Sinceramente, acho que eles não estão precisando de muita ajuda, a peça é maravilhosa. Seria um sonho se a Hart um dia participasse de algo assim." A loirinha disse.

"Uhum." Quinn respondeu, distraída.

"A Rachel estava maravilhosa." Brittany completou ao seguir o olhar da amiga.

"É, ela realmente estava." Quinn concordou, desatenta, seus olhos ainda vidrados em Rachel.

Quando ela finalmente desviou o olhar, Brittany estava rindo dela, balançando a cabeça. A advogada corou profusamente, se ajeitando na cadeira. "Então, quando mesmo que vou conhecer a famosa Carter? Estou começando a achar que ela não existe." Quinn brincou, tentando desviar o assunto.

Contudo, ela logo percebeu que havia tocado no assunto errado, pois o sorriso de Brittany diminuiu perceptivelmente e ela abaixou o olhar.

"Aconteceu alguma coisa, B?"

Quinn seguiu o olhar da loira até Santana, que se aproximava da mesa naquele momento.

"Britt... o que está acontecendo?" A advogada estreitou o olhar.

Quinn queria insistir, mas exatamente naquele momento Santana sentou ao seu lado, roubando sua taça de champanhe sem cerimônia.

"Se eu tiver que aguentar mais algum cara idiota jogando cantada estúpida para mim, eu acho que vou morrer." A latina comentou.

"Eu vou ao banheiro e já volto." Brittany disse logo em seguida, se levantando antes que Quinn pudesse dizer algo.

Quinn então se virou para Santana, preocupada. "O que aconteceu entre você e a Brittany?"

"Humm... você quer a versão resumida? A gente ficou, namorou, terminou. Perdeu a memória, Fabray?"

"Recentemente, Santana. Eu estou falando de recentemente." Quinn esclareceu.

"Por que você acha que algo aconteceria entre a Brittany e eu?" A latina perguntou, curiosa. "Ela disse algo?"

"Não." Quinn logo disse.

Santana estreitou os olhos para a amiga. "Você ainda não confia em mim. Pelo menos não quando se trata da Brittany." Santana constatou.

"Não é questão de não confiar em você. Eu sou amiga de vocês duas. Eu tenho que traçar algum limite, porque eu não quero trair a confiança de nenhuma das duas e eu também não quero fazer ou dizer alguma coisa que acabe mais atrapalhando do que ajudando." A loira explicou.

"Eu não a magoei de propósito. Você sabe disso, não sabe?" Santana questionou.

"Eu sei, S. Eu sei que naquela época você pensou que estava fazendo o certo. Mas você sabe agora que não estava, não sabe?"

A latina se limitou a assentir.

"Então apenas faça diferente dessa vez. Eu te julguei pelo o que você fez, Santana, tantas vezes! Mas hoje eu sei que não era meu lugar fazer isso, eu deveria somente ter permanecido ao lado da Brittany. E do seu também. Eu não procurei entender o seu lado. Eu peguei as dores da Brittany e só depois de vir pra NY eu pude realmente ver e entender o quanto isso também doeu em você."

"A Fabray tem sentimentos. Quem diria?" Santana ironizou, mas ao ver a loira arquear a sobrancelha, ela deixou a brincadeira de lado. "Está tudo bem, Quinn. Falo sério. Eu já errei pra caralho com você, você errou comigo, todo mundo errou com todo mundo. Ainda estamos aqui, não estamos?"

Quinn assentiu. Santana realmente tinha seus momentos e esse era um deles. A loira ainda permaneceu na mesa por algum tempo, todos indo e vindo, apresentando a ela as mais variadas pessoas, mas Brittany acabou por não retornar.

Preocupada com a amiga, Quinn se levantou e foi à sua procura. Ela tentou primeiro o banheiro, onde Brittany disse que iria, mas percebeu que ele estava vazio assim que entrou, decidindo que era mais inteligente ligar para Brittany do que andar pelo pub inteiro atrás dela. Quinn então se encostou na pia de mármore, pegando o celular no momento em que a porta do banheiro se abria para revelar ninguém menos do que Rachel.

A morena sorriu enormemente assim que viu que era ela. "Oi." Rachel disse, quase que timidamente, se aproximando de Quinn.

"Oi." Quinn lhe sorriu de volta.

"Falando com alguém?" A morena perguntou, apontando para o celular nas mãos de Quinn.

"Sim. Quer dizer, não exatamente. Eu estava tentando falar com a Brittany. Ela meio que sumiu." Quinn explicou.

"Eu acabei de encontrar com ela." A morena comentou, ficando na mesma posição que a loira. "Acho que ela encontrou um colega de trabalho da Hart e eles estavam conversando."

Quinn assentiu e guardou o celular, olhando para o perfil da morena. "Você vai?"

"Vou... onde?" A morena riu.

"Ao banheiro, Rach." Quinn riu também.

"Na verdade, não. Só vim retocar a maquiagem." Rachel esclareceu, se virando para o espelho.

"Sua maquiagem está perfeita." Quinn comentou, vendo a morena abrir a pequena bolsa que levava, para logo depois fechá-la.

"Ok. Eu admito. Eu só queria um tempo pra respirar. Tenho a impressão de que fui apresentada a mil pessoas desde que cheguei, uma atrás da outra, todas dispostas a rir de qualquer coisa que eu dissesse, por mais sem graça que fosse. Meu rosto está doendo de tanto sorrir." A morena desabafou.

Quinn achou graça do que a morena tinha dito, se virando de frente para ela. "Era esse o seu sonho, não? Uma plateia de ouvintes?" A loira provocou.

"Muito engraçado, Fabray. Realmente." A morena riu e então também mudou de posição, ficando frente a frente com a loira. "Bom, acho melhor eu voltar." Rachel disse, mesmo que seus olhos expressassem o desejo de ficar por mais tempo ali com a loira. "O Mark deve estar completamente perdido sem mim. A gente se vê pela festa?"

Elas trocaram um breve olhar antes da loira apenas assentir, vendo a morena se olhar no espelho uma última vez antes de ir embora. Mas no momento em que ia sair pela porta, Rachel sentiu a mão de Quinn segurar seu pulso delicadamente, a fazendo virar para ela.

"Eu... eu só queria dizer que você estava incrível, Rach." A loira confessou roucamente, olhando a morena nos olhos.

Rachel não pôde evitar que seu coração disparasse com aquela confissão, o toque suave da mão de Quinn ainda em seu pulso contribuindo ainda mais para que ela se sentisse quase que flutuando. Entre tantos elogios que recebera aquela noite, talvez aquele fosse o que ela mais queria ouvir.

"Você não faz ideia da importância que ouvir isso tem pra mim, Quinn." Rachel sussurrou, retirando a mão da loira que ainda segurava o seu pulso apenas para segurá-la entre a sua.

Elas se entreolharam, uma infinidade de emoções sendo trocadas entre o verde e o castanho, seus dedos se entrelaçando como se fosse a coisa mais natural do mundo. Estava sendo muito difícil para Quinn agir racionalmente depois de ver a morena naquele palco. Quinn se sentia intoxicada por Rachel, pela sua beleza única, pelo seu talento ímpar e, talvez por isso, tenha permanecido no mesmo lugar, mesmo sentindo Rachel aproximar o rosto do seu, sua respiração entrecortada mesclando-se a da morena como se a qualquer momento ela pudesse perder o controle e mergulhar naquela loucura que eram os lábios fartos e cheios da pequena diva...

E ela o teria feito, se a porta do banheiro não tivesse se aberto e o momento se perdido entre elas. E quem entrava pela porta não era qualquer pessoa, era Cassandra July.

A loira mais velha levantou a sobrancelha, parecendo surpresa com a cena, um sorriso malicioso se abrindo logo em seguida. "Está explicado o porquê de você não estar entre os canastrões e puxa-sacos da Broadway, Berry. Se pegar com a sua namorada no banheiro é definitivamente mais excitante." Cassandra disse sem cerimônia.

"Acho melhor eu ir atrás da Brittany. Nos vemos depois, Rach." Quinn falou, lançando um olhar incomodado para a ex-professora da morena antes de sair do banheiro.

"Ops." Cassandra disse. "Eu disse algo inapropriado?"

"Ela não é... não há nada... nós somos apenas amigas." Rachel tentou esclarecer.

"Sério, Berry? Não me pareceu quando eu entrei aqui."

"Talvez você simplesmente não devesse ter entrado aqui." A morena disparou.

Cassandra apenas riu. "Tenho certeza de que não vão faltar oportunidades para vocês. Mas agora... agora que tal você esquecer esse loira estonteante só por alguns minutos e me contar tudo sobre a sua estreia na Broadway?"

...

Quinn saiu do banheiro levemente atordoada, dando alguns passos sem rumo até quase esbarrar em alguém. Murmurando uma desculpa qualquer, a loira finalmente olhou ao redor, tentando localizar novamente a mesa que fora reservada aos convidados de Rachel.

Rachel. Rachel e ela. Rachel e ela quase haviam se beijado no banheiro. Por que sempre um banheiro? Da última vez que aquilo havia acontecido, Quinn a tinha beijado por todos os motivos errados. Mas dessa vez...

"Você está bem, Quinn?"

A loira olhou para o lado e encontrou o olhar preocupado de Leroy. Ele estava sentado na mesa, olhando para ela e Quinn sequer sabia como havia chegado lá. Ela acenou positivamente com a cabeça e sorriu, tentando tranquilizar o mais velho. "Está tudo bem, só estou um pouco distraída."

Leroy a fitou por alguns momentos. Quinn sabia que ele não estava acreditando nela, mas também que ele a conhecia bem o suficiente para saber que não adiantaria insistir. Às vezes Quinn tinha a impressão de que ele sabia que alguma coisa tinha acontecido entre ela e Rachel, algo maior do que uma briga entre amigas.

"Aqui está seu gim com tônica, meu amor." Hiram chegou naquele momento, oferecendo a bebida ao marido e sentando ao seu lado.

"Acho que eu também vou pegar algo para beber." Quinn comentou logo em seguida. "Querem mais alguma coisa do bar?"

"Estamos bem, minha querida." Hiram respondeu. "Se encontrar a Rachel diga a ela para lembrar que ainda tem pais." Ele brincou.

Quinn sorriu levemente e saiu, o olhar de Leroy a acompanhando por todo o caminho.

...

Talvez aquele fosse um dos raros dias em que nada poderia abalar o humor de Santana Lopez. Depois de tudo que Rachel havia passado, vê-la radiante daquele jeito após a estreia, contagiando a todos aonde quer que fosse, a fazia sentir algo que há muito havia se perdido dentro dela. Esperança. Esperança para Rachel e por que não esperança para ela própria?

O que, é verdade, não a impedia de ter ficado extremamente irritada com o cartão e as flores que Finn tinha mandado para Rachel no dia de sua estreia. Mas ela não havia perdido a oportunidade de comentar com Kurt ainda no camarim, talvez alto demais, que se aquele idiota realmente se importasse da forma que ele fez questão de dizer à morena em Lima, ele tinha, no mínimo, se incomodado em desagradar a todos com a sua presença. Não que alguma vez na vida ela fosse reclamar da ausência de Finn. E se o quase imperceptível sorriso que ela pensou ter visto no rosto de Quinn depois do que ela falou fosse qualquer indicativo, ela não era a única a pensar dessa forma.

Ela sabia que a morena havia dito para Finn não aparecer por ali, mas o fato dele ter feito exatamente o que ela disse só comprovava ainda mais o que ela já sabia desde sempre. Finn nunca mereceria Rachel, porque ele nunca havia saído da sua zona de conforto para fazer o que quer que fosse por ela. E só o fato dela finalmente conseguir enxergar na morena que aquele idiota era definitivamente um passado bem distante era um belo motivo para uma comemoração em grande estilo, o que incluía conseguir uma garrafa de uísque com somente algumas palavras bem escolhidas e um número errado de celular.

Dirigindo-se para um dos bares que haviam no local, Santana teve que fazer um esforço enorme para não revirar os olhos quando o bartender fez exatamente o que ela havia previsto. Homens eram tão fáceis de manipular que a latina já se sentia entediada antes mesmo dele lhe entregar a garrafa lacrada do melhor uísque que eles tinham.

"Você não mudou nada pelo visto." Uma voz feminina falou nas suas costas.

Brittany. O tom lhe parecera de reprovação, mas o sorriso da loira entregava a provocação. Santana lhe sorriu suavemente, observando a loira se aproximar do balcão e pedir uma água com gás.

"Eu não diria isso. Eu diria que a inteligência dos homens não mudou nada. Continua inexistente." A latina rebateu, seu prêmio momentaneamente esquecido.

Santana ouviu com gosto a risada de Brittany pelo que havia dito, uma sensação indescritível perpassando todo o seu corpo. Parecia improvável, mas ali estava ela, fazendo a loira rir novamente. O riso morreu nos lábios de Brittany e a latina sentiu uma breve hesitação por parte dela, como se ela não soubesse o que falar ou como agir.

Santana não pôde culpar a loira, pois também se sentia assim. O destino parecia estar lhe oferecendo mais uma oportunidade de desfrutar da companhia de Brittany, mas, naquele momento, ela também não sabia ao certo o que dizer. Alguns meses atrás, isso era muito mais do que ela poderia sonhar, apenas estar confortavelmente na presença da loira. Santana só havia se esquecido de que Brittany era para si como um vício, que quanto mais ela tinha da loira, mais ela se encontrava desejando por mais.

Mas desde o que elas haviam compartilhado na Hart Santana estava começando a se lembrar rapidamente daquilo.

Então Brody apareceu, quebrando aquele momento entre elas, falando animadamente da festa. Brittany logo se contagiou pelo bom humor do rapaz e eles começaram a conversar, ignorando os olhares de fuzilamento que a latina dirigia ao amigo. Pouco tempo depois Kurt também apareceu, levando Brittany embora sob o pretexto de apresentar-lhe uma das coreógrafas da peça. O dançarino então se virou para Santana para dizer algo, mas a fala morreu em sua garganta ao finalmente perceber o olhar dela sobre ele.

"Está tudo bem?" O moreno perguntou, inseguro.

Santana se limitou a ignorar sua pergunta, fazendo outra ao amigo. "Você viu a Rachel ou a Fabray por aí?"

"Eu vi a Rachel com os pais dela, mas não lembro onde exatamente. Já a Quinn, acho que não vejo ela desde que chegamos."

Santana levantou do bar, a garrafa de uísque em mãos. "Obrigada por nada, Brody." E saiu andando.

...

Quinn estava com as costas apoiadas em um dos bares da festa, observando atentamente as pessoas ao seu redor, tentando localizar uma certa morena, quando viu alguém familiar se aproximando dela.

"Victoria?" A loira chamou, reconhecendo sua colega de escritório.

Assim que ouviu o chamado e viu a loira, Victoria abriu um sorriso e veio certeira em sua direção, trocando um rápido abraço com Quinn, ambas surpresas pelo encontro em um lugar tão específico como aquele.

"Como assim você aqui?" Quinn logo perguntou.

"Deixa eu te apresentar a minha irmã, Melanie. Ela é uma das assistentes de produção da peça." Victoria apontou para o lado, justificando sua presença naquele evento.

Só então Quinn se deu conta da outra mulher parada ao lado da advogada. Elas eram ao mesmo tempo parecidas e diferentes. Enquanto Victoria era alta, extremamente magra e de cabelos compridos e lisos, Melanie tinha uma estatura mediana, o corpo mais desenvolvido e cabelos na altura dos ombros e ondulados. Mas ambas compartilhavam o mesmo castanho nos cabelos e olhos, a pele morena e o rosto fino, que trazia as duas uma beleza delicada.

Melanie lhe sorriu de forma gentil e Quinn retribuiu o gesto, enquanto Victoria explicava que elas trabalhavam no mesmo escritório.

"E você, Quinn? Algum cliente seu está envolvido na peça?" Victoria perguntou.

"Oh, não. Mesmo que estivesse, certamente não seria eu a ser convidada, mas algum dos sócios sêniores, você sabe disso." Quinn disse.

Victoria concordou, revirando levemente os olhos e sorrindo. "Claro. Nada de festa para nós, meros sócios júniores. Então você também é irmã de alguém da produção?" A advogada brincou.

Quinn riu. "Na verdade, uma das atrizes é uma das minhas melhores amigas. Rachel Berry."

"Você é amiga da Rachel?" Melanie interveio na conversa, um tom interessado. "Ela é a atriz principal, Vic, a Wendla da peça." Ela esclareceu para a irmã.

"Nossa, ela estava maravilhosa. E a voz? Eu chorei em uma das cenas dela." Victoria admitiu.

"Ela é uma das melhores artistas com quem já trabalhei. Extremamente talentosa!" Melanie complementou. "E não estou dizendo isso porque você é amiga dela." Ela logo disse, se dirigindo a Quinn.

"Eu sei que não." Quinn balançou a cabeça. "Ela realmente é extremamente talentosa." A loira concordou, o orgulho tomando conta das suas feições. "Sempre foi, na verdade. A gente se conhece desde o colegial e desde aquela época ela já sabia que queria trabalhar na Broadway."

"Desde o colegial? Sério?" Melanie comentou, surpresa. "Isso é bastante tempo."

"Então ela é uma das amigas que moram com você." Victoria constatou, juntando os pontos.

Quinn confirmou com a cabeça. Naquele mesmo instante, Santana surgiu ao seu lado, acompanhada da própria Rachel.

"Melanie, você conhece a Quinn?" A morena arqueou a sobrancelha e sorriu, surpresa por ver as duas conversando.

"Acabamos de nos conhecer, na verdade. A Quinn trabalha no mesmo escritório que a minha irmã, Victoria." Ela respondeu, apresentando sua irmã as outras duas.

Rachel sorriu satisfeita ao receber vários elogios de Victoria e trocou alguns comentários animados sobre a estreia com Melanie antes das irmãs se despedirem. Quando elas foram embora, Santana se virou para Rachel.

"Quanto tempo você acha que essa festa ainda vai durar?" A latina perguntou.

"Não muito, eu acho." A morena deu de ombros. "O Kurt e o Blaine estavam indo embora, então eu pedi para eles levarem meus pais pra casa. Papai estava quase dormindo na cadeira. O Brody aproveitou a carona e foi junto. Mr. Schue também já foi, amanhã eles iam pegar um voo bem cedo."

"A Britt acabou de me mandar mensagem dizendo que foi embora também." Quinn acrescentou.

"Verdade, ela despediu de mim mais cedo." Rachel comentou.

"Acho que só resta nós três então." Quinn disse. "Vocês já querem ir pra casa?" Ela perguntou.

"Podemos ficar mais, podemos ir pra casa ou podemos começar a nossa própria comemoração agora." Santana propôs, mostrando a garrafa de uísque.

Como a noite era da morena, elas se viraram para Rachel, aguardando sua resposta.

E foi assim que não muito tempo depois Quinn estava sentada em um cobertor velho que forrava o capô do seu carro e dividindo outro com Santana, que tinha a cabeça deitada em seu ombro. Do outro lado da latina, Rachel também estava enrolada em um cobertor.

Elas tinham parado o carro nas areias de Brighton Beach. Estava bastante frio aquela noite e por isso o lugar estava praticamente deserto e iluminado somente pelas luzes baixas da rua e pelo brilho distante de Coney Island.

Santana ofereceu a garrafa de uísque a Quinn, que tomou um gole do líquido âmbar antes de passar novamente para a latina.

"Você já sabia que ia roubar uma garrafa de uísque do bar e terminar a noite na praia?" Quinn perguntou rindo, se virando para olhar para a latina.

"Tipo isso." Santana piscou pra ela.

"Eu gostei." Rachel comentou, um sorriso leve no rosto. "Obrigada por compartilharem essa noite comigo. Acho que não teria outro jeito de terminar essa noite que não fosse com nós três." Ela disse, olhando para as duas amigas, seu olhar transbordando gratidão e carinho.

Santana passou os braços pelos ombros de Rachel e Quinn e puxou as amigas para mais perto.

"Eu amo vocês." Rachel sussurrou entre elas.

Quinn sentiu o olhar de Rachel sobre ela naquele momento e suspirou, retribuindo aquele olhar, mas sem conseguir segurá-lo por muito tempo. Ao invés disso, ela o direcionou para as ondas que se quebravam mais à frente. O mar à noite parecia uma imensidão negra e sem-fim e a loira gostava daquela vista. Trazia-lhe algum tipo de paz, observar o movimento das ondas e como elas pareciam alcançar a praia e retornar ao infinito.

Aquela imagem fez com que Quinn perdesse ligeiramente a noção de tempo, sendo trazida de volta à realidade ao ver Santana pular com os pés descalços na areia e ir caminhando em direção à beira da praia. Quinn olhou para Rachel e a morena deu de ombros, incapaz de explicar o comportamento da amiga.

"Posso?" Rachel perguntou para a loira, ocupando o lugar que Santana acabara de deixar vago. Quinn acenou com a cabeça e a morena se acomodou ao seu lado. "Me desculpe pela Cassandra aquela hora no banheiro. Ela sabe ser desagradável quando quer."

"Não tem problema." Quinn murmurou, balançando a cabeça. "Eu lembro de você reclamando bastante dela quando estava na faculdade."

Rachel concordou e elas permaneceram um bom tempo em silêncio, ambas observando Santana caminhar paralelamente ao mar, um pouco distante. Quinn desviou o seu olhar da amiga e encarou o perfil da morena.

"Então agora você é oficialmente uma estrela da Broadway." A loira disse, sorrindo para Rachel.

A morena sorriu grande. "É, acho que eu sou."

"Não se esqueça dos velhos amigos." Quinn brincou.

"Eu nunca vou esquecer de vocês, Q." Rachel afirmou convicta, seus olhos chocolates faiscando na direção da loira.

"Está feliz?" Quinn perguntou, também fixando seu olhar na morena.

"Eu estaria mentindo se dissesse que não. Mas tem uma coisa ou outra que ainda falta." Rachel sussurrou por entre os lábios, o vapor da sua fala se condensando entre elas.

Quinn engoliu em seco. Existia algo sobre ver Rachel sussurrando palavras a poucos centímetros dela que botava em alerta todos os seus sentidos. "Hoje é o dia com o qual você sonhou toda a sua vida." A loira disse roucamente. "O que mais você poderia querer?"

Rachel sorriu, um lindo sorriso, seus olhos brilhando. Suas bochechas estavam rosadas pelo frio e seus cabelos castanhos esvoaçando de acordo com o vento frio que soprava de tempos em tempos. Ela estava bela, extremamente bela. "Tem uma coisa que eu quero muito. Eu só consigo pensar nela, na verdade."

"Posso saber o que é?" Quinn perguntou, seu olhar percorrendo todo o rosto moreno, sua memória gravando cada detalhe daquela Rachel que aquela noite parecia a própria gravidade, atraindo inevitavelmente tudo o que gravitava ao seu redor.

Rachel respirou fundo, sentindo que talvez aquele fosse o seu momento. Ignorando todos os medos que lutavam para alcançar a superfície, ela fez a coisa que ela mais se encontrou desejando ao longo daquele dia. Ela se aproximou lentamente do rosto Quinn, observando as feições que ela tanto havia admirado aquela manhã e juntou seus lábios com os da loira, em um beijo delicado, quase um selinho, mas que possuía a intensidade dos melhores beijos que elas já haviam trocado.

Tudo o mais pareceu congelar por um delicioso momento, até a morena se afastar lentamente, passando a língua por entre os lábios, sentindo o sabor indescritível dos lábios de Quinn, um sorriso de pura alegria tomando conta de si. Parecia que ela tinha acabado de ganhar uma medalha olímpica, tamanha era a adrenalina que percorria seu corpo, alimentada pela batida frenética do seu coração.

Quinn sentiu Rachel se afastar ainda de olhos fechados, seus lábios formigando pelos lábios cheios e quentes da morena. Ela abriu os olhos, ainda a tempo de ver o sorriso de Rachel iluminar toda a praia e aquecer o seu coração.

Elas se entreolharam e um riso leve escapou dos lábios de Rachel, no que foi acompanhada por Quinn. A loira mordeu seu próprio lábio inferior e balançou a cabeça, sua mente em grande dificuldade para processar o que tinha acabado de acontecer. Ela voltou seu olhar para Rachel e encontrou seu rosto virado para não muito longe dali, onde Santana já retornava para onde elas estavam.

O momento compartilhado entre elas parecia muito maior do que qualquer coisa que pudessem dizer, então elas não o fizeram, contentes por apenas aproveitarem daquela felicidade tão fugaz e guardarem na memória aquela noite que parecia beirar o irreal.

Notas finais
E aí, galera? Acho que a esta altura do campeonato vocês já estão acostumados com a minha demora! Rs Só queria dizer que especificamente em relação a este capítulo foi muito difícil terminá-lo! Ele estava praticamente pronto há muito tempo, mas faltavam partes cruciais que eu não conseguia fechar de forma satisfatória. Então me desculpem se ele não estiver à altura do que vocês esperavam! Digam aí nos comentários o que vocês acharam dele! Obrigada a quem ainda acompanha a história! Até o próximo!