How To Save A Life
11 I Should Have Known Better
Notas iniciais
Exaustão. Era o que Quinn sentia. E arrependimento também. Rachel se levantou e se vestiu rapidamente, Mark estava ligando pra ela sem parar, falando que o elenco ia se reunir no jardim.
"Vem comigo." Rachel estendeu a mão.
"Não eu... eu vou no banheiro, pode ir na frente." A loira respondeu.
"Você vem mesmo? A morena arqueou as sobrancelhas.
"Vou." Quinn disse, firme.
Rachel deu uma última olhada no espelho antes de sair do quarto. Assim que ela fechou a porta, Quinn se desfez dos lençóis que a cobriam e sentou na cama, as pernas pendendo para o lado de fora, os cotovelos apoiados nas próprias coxas, o rosto refugiado nas próprias mãos. Maldita bebida! Por que sua cabeça tinha que rodar tanto? Por que tudo o que sentia tinha que ser potencializado? Por que tanta impulsividade? Estava tão cansada! Tudo o que ela não queria ser, ela era com Rachel. Ela se enganara ao pensar que não teria consequências. E logo com Rachel! Rachel...
"Quinn! Acorda..."
Ela não conseguia mover o corpo, estava pesado demais. Ela ainda se encontrava nua e a noção de tempo não existia. Sabia que Rachel estava ali, tentando levantá-la, tentando fazê-la reagir. O mal estar foi lhe subindo pela garganta e ela vomitou no tapete ao lado da cama. A morena a segurava para que não caísse.
"Me deixa em paz!" Ela disse enroladamente.
"Quinn..."
"Por favor."
"Coloca essa roupa, pelo menos." A morena pediu.
Rachel vestiu Quinn da melhor forma que conseguiu.
"Trouxe pra você. Não sabia se você iria querer dormir aqui..."
Quinn apagou. Não havia Rachel, não havia mais nada. Aos poucos, a claridade preenchia o quarto através da cortina clara. Ela estava fraca, com um gosto amargo na boca e sentindo uma sede absurda. Abriu os olhos de uma só vez, vendo o pequeno corpo encolhido deitado ao seu lado. Estava cansada até para acordá-la, até para se lembrar do que aconteceu. Mas não foi preciso. A morena também abriu os olhos, espreguiçando-se. Sentou-se na cama um pouco enérgica ao se dar conta de que Quinn estava acordada.
"Como você está?" Logo perguntou.
"Com sede." A loira disse, incrivelmente rouca.
Rachel virou-se na cama, pegando a garrafinha de água que estava no criado-mudo e entregando-a a loira.
"Por que você não me disse que estava passando mal?" Rachel questionou.
"Eu não estava me sentindo mal na hora. Foi quando eu levantei, sei lá..." Ela começou a beber sem intervalos. "O que eu perdi?" Tomou fôlego.
"Está rolando um after lá em baixo... eu acho." Rachel sorriu. "Da última vez que olhei estava todo mundo indo pra piscina."
"É, esse seu amigo sabe como dar uma festa." A loira reconheceu, tentando se levantar e fazendo uma careta de dor.
"Acho que alguém bebeu demais." A morena acariciou os cabelos loiros. "Eu fiquei esperando você aparecer e fiquei preocupada... acabei voltando aqui."
"Eu não me lembro disso."
"Eu acho difícil você se lembrar, estava apagada... Quer comer alguma coisa?" Rachel ofereceu.
"Por que está fazendo isso? Por que está cuidando de mim?" Quinn disse, sentindo uma pontada na cabeça.
Rachel levantou as sobrancelhas, surpresa com a pergunta. "Somos amigas."
"Somos?"
"Por quê? Não nos considera mais assim?" A morena retirou as mãos do cabelo de Quinn.
"Eu não sei. Eu não esperava nem me tornar sua amiga. Imagina transar com você toda semana descompromissadamente." A loira disse, não conseguindo evitar o tom incomodado.
"Somos amigas." Rachel repetiu, mais firme, desconsiderando a última frase da loira.
Tinha sido um erro. Tudo o que aconteceu não estava lhe fazendo bem. Não combinava com ela e não combinava com Rachel, não combinava com a Rachel de quem se lembrava... Quando que ela se deixou incomodar? Quando tinha errado em relação àquele relacionamento? Será que tinha sido desde o início?
"Eu quero ir pra casa, não estou me sentindo bem." A loira colocou o braço sobre os olhos, tentando evitar a claridade. "Acho que não consigo dirigir."
"Eu te levo." A morena disse.
"Não, eu... A Erika ainda está aqui?"
"Está lá embaixo."
Quinn se levantou, trêmula. Na mesma hora Rachel a segurou, preocupada.
"Para de ser teimosa! Eu levo você. A Erika está de moto, você vai acabar vomitando no caminho." Rachel suplicou.
Quinn acabou cedendo. Rachel tentou segurar sua cintura para saírem do quarto, mas ela recusou qualquer contato. Ao descer as escadas deu de cara com uma Erika sorrindo, cabelo e roupas encharcadas. Pelo visto tinha acabado de sair da piscina.
"Eu deixo você sozinha por cinco minutos e você apaga? Como sobreviveu antes de mim, doutora?" Ela brincou.
"Eu que estou surpresa por você, Santana e Rachel ainda estarem vivas." A loira disse, irônica.
A garota riu, segurando a mão de Quinn, ajudando-a a descer os últimos degraus.
"Você não ia subir?"
"Ia subir pra ver como você estava." Erika respondeu tranquila. "E te olhando agora... Você realmente está precisando de ajuda."
Quinn empurrou de leve a morena, fingindo indignação, enquanto caminhava pela casa ao seu lado. Rachel tinha seguido o caminho para a piscina, dizendo que precisava conversar com Mark.
"Não se preocupe. Você continua linda." Erika sussurrou.
Quinn não pôde evitar um sorriso. Erika a deixava leve. O que estava se tornando raro ultimamente.
"Obrigada pela preocupação comigo." Ela disse sincera, virando-se para a morena ao parar de andar.
Erika deu os ombros. Não era muito do seu feitio fazer aquilo, mas tinha se afeiçoado a Quinn. E a todos os outros.
"Achei que eu e a Santana seríamos só mais um caso de sexo sem compromisso, mas fui surpreendida com uma amizade e isso trouxe todos vocês. Vocês cuidam e se preocupam uns com os outros, como uma família. Eu sinto falta disso." Ela suspirou. "E, não sei por qual motivo, passaram a me incluir nisso durante essas últimas semanas. Fazia muito tempo que eu não me sentia assim, como parte de alguma coisa."
Quinn lançou um olhar surpreso. Estava conhecendo um lado dela completamente novo, por detrás daquele visual despreocupado e despojado. Parecia que uma nova amizade acabara de surgir.
"Aí estão vocês! Finalmente!" Exclamou a latina, levemente alterada, aparecendo junto com Rachel e Brody.
"Dá pra falar mais baixo? Estou de ressaca." A loira pediu.
"E que ressaca, Fabray!" Santana a olhou mais atentamente. "Vamos embora, estou exausta."
"Eu levo o carro da Quinn e você leva o meu e deixa o Brody em casa." Rachel falou para a latina.
"Acho melhor eu dormir no apartamento de vocês hoje... Santana não parece muito bem para me levar até o loft." Brody respondeu com um olhar duvidoso sobre a latina. "E eu dirijo."
"Desde que não seja na minha cama, você pode dormir onde quiser." A latina disse indiferente.
Brody revirou os olhos, puxando Santana para a saída. Erika pegou o braço de Quinn e o entrelaçou com seu próprio braço, encaminhando-se também até a saída.
"Você está bem? Precisa de mim?" Ela perguntou.
"Estou, obrigada." A loira sorriu docemente. "Só quero tomar um banho e dormir."
"Vou deixar a Rachel cuidar de você então." Erika respondeu, dando uma piscada para loira que não passou despercebida pela outra morena.
Erika abriu a porta do carona, ajudando Quinn a se sentar. A loira lançou um olhar agradecido para a morena, que depositou um leve beijo em seus lábios antes de fechar a porta do carro e ir em direção a sua moto.
Rachel emitiu uma pequena risada diante da cena.
"E a Fabray virou uma de nós..." A morena brincou.
Quinn se limitou a encostar a cabeça no banco, acompanhando Erika com o olhar e fechando os olhos logo em seguida, assim que a morena dava partida no carro. Rachel não poderia estar mais enganada.
Chegando em casa largou-se na cama e dormiu. O quanto pôde. O quanto conseguiu e achou suficiente para esquecer o final de semana, ou ter a impressão de que era passado, um passado distante...
...
Estavam no bar novamente. Quinn, Brody, Rachel, Santana, Kurt, Blaine e Erika. A garota definitivamente havia entrado no grupo. Mas ela não era a única novata por ali, Rachel se agarrava com uma garota que tinha conhecido no bar mais cedo, um pouco mais afastada dos demais. Quinn olhava a cena externamente indiferente. Internamente? Ela tentava. A única coisa que parecia apitar em sua cabeça ela dava a desculpa de ter sido por sua criação rígida. É claro que seria no mínimo estranho estar em um relacionamento esquisito com uma de suas melhores amigas, onde tudo parecia girar em torno do desejo e do sexo e sentimentos que ela não queria identificar e ter que vê-la com outras pessoas, certo?
Quinn sempre fora uma pessoa sólida, realista e estar nessa de sexo sem compromisso com Rachel lhe parecia extremamente instável. Mas... se lhe parecia instável, por que continuava desse jeito com ela então? Desde a festa de Mark tudo começou a perder o sentido e era isso que ela sentia ao ver a morena praticamente deslocando o maxilar da garota ao seu lado. Ela tinha finalmente tomado uma decisão e largado a confusão de lado. Estava na hora de parar com isso, deixar se ser impulsiva como Rachel e voltar a ser Quinn. Estava na hora de parar de tomar decisões erradas e que a impediam de ser quem ela realmente queria ser. E ela ia começar cortando essa amizade colorida com a morena, antes que ela parasse de achar e começasse a ter certeza do que sentia.
A conversa fluía de forma tranquila na mesa. Brody, Kurt e Blaine riam de alguma história contada por Erika. Santana aproveitou a deixa e virou-se para Quinn.
"Você ainda não me disse com quem você transou aquela noite na festa do Mark..." Soltou a latina, sem qualquer pré-aviso.
Quinn a olhou, tentando parecer descontraída.
"Você não me perguntou..."
A latina estreitou os olhos para a amiga.
"Sei que não foi a Erika porque apesar daquele beijo de vocês ela ficou o tempo todo lá embaixo e..."
"Rachel." A loira disse, simplesmente, cortando a latina.
Santana olhou para a loira, compreendendo finalmente o que estava acontecendo por ali. Tudo se encaixando em sua cabeça. Soltou uma risada completamente divertida, como se Quinn tivesse lhe contado algo realmente engraçado.
"Como eu não percebi isso antes?"
Quinn arqueou a sobrancelha para amiga. De todas as reações, essa era a menos esperada. Sentia-se estranhamente mais leve agora que Santana também sabia. Se tinham sido apenas e simplesmente alguns momentos de prazer, não via mais porque tanto mistério em torno daquilo. Ficou feliz em saber que Santana, que parecia julgar tudo e todos, não lhe direcionou esse tratamento. Ao contrário de Kurt e Blaine, que olhavam assustados.
"Essa é a pergunta que não quer calar... Como você não percebeu?" Brody falou, enquanto Erika concordava com um aceno de cabeça.
Santana os ignorou veementemente.
"Tratou ela direito, Quinn?" A latina gargalhou irônica. "Agora sei o porquê da leveza da Rachel nas últimas semanas..." Disse. "Efeito Quinn Fabray."
Kurt olhou para a loira com um olhar quase decepcionado.
"Você também, Q? Achei que era a única que tinha se salvado..." Ele disse.
"Relaxa, Kurt... Foi só um pequeno desvio." A loira respondeu calmamente.
Erika olhou para a loira, surpresa com a resposta da mesma e com sua atitude diante de toda aquela situação.
"Não deixe a Rachel ficar sabendo que você chamou ela de um ‘pequeno desvio’." Brody brincou, parecendo estranhamente aliviado.
E foi só. Outros assuntos surgiram na mesa. Não imaginou que pudesse ser assim. Afinal, estavam falando de Quinn Fabray e Rachel Berry. Mas tudo tinha mudado de forma tão radical desde o ensino médio que o assunto não soava tão estranho. Só faltava que ela mesma o esquecesse. Percebeu olhares sobre si e olhou para o lado, vendo que Erika acenava com a cabeça o balcão. Viu a morena se levantar e logo a seguiu. Quando chegou ao destino, a morena já a esperava com duas cervejas na mão. Entregou uma a loira e propôs um brinde.
"Seguindo em frente?" A morena perguntou.
"Na verdade não. Estou voltando. Voltando a ser eu mesma." Quinn respondeu.
"Adoraria conhecer essa velha Quinn..." Erika disse, piscando logo em seguida.
"Você definitivamente não tem jeito... Não me surpreende você e a Santana terem se dado tão bem."
"E não me surpreende você e a Rachel não terem se dado tão bem assim..."
"O que significa, necessariamente, que eu e você não nos daremos muito bem." A loira disse, com um sorriso nos lábios. "Vocês fazem o mesmo estilo."
"Procurando por algo sério?" Erika ironizou.
"Procurando evitar confusões." Quinn enfatizou.
Erika soltou uma risada gostosa.
"Você é esperta, Fabray... Gosto de conversar com você."
"Fabray?" Arqueou a sobrancelha.
"Influências..." A morena respondeu, puxando Quinn de volta à mesa.
...
Santana chegou em casa, deixando suas coisas pelo apartamento. Até que enfim aquela semana estava quase acabando. Precisava de um banho. Tinha sido um longo dia de trabalho. Antes de entrar em seu quarto, ouviu a porta do apartamento sendo aberta e uma batida que indicava que quem quer que estivesse entrando, não estava de bom humor. Retornou a tempo de ver Rachel abrir com força a geladeira, pegando uma cerveja e jogando-se no sofá.
"Dia ruim?" A latina perguntou, desistindo momentaneamente do banho e sentando-se do lado da morena.
"Não necessariamente." A amiga respondeu.
Santana olhou-a de forma indagadora, fazendo a diva suspirar.
"Só não estou muito satisfeita com as minhas performances durante os ensaios. Todo mundo fica dizendo o quanto eu estou perfeita e eu simplesmente sei que ainda não cheguei lá. Isso soa arrogante?" Rachel perguntou.
"Isso soa a Rachel Berry, Lima, Ohio."
Rachel se contentou em tomar mais um gole da bebida, encostando-se na latina.
"Acho que você está precisando de um certo alguém..." Santana disse, sem se segurar.
Rachel virou-se rapidamente, encarando a amiga. Sabia de quem a latina se referia.
"Desde quando?" A diva indagou, sabendo que ela entenderia a pergunta.
"Por incrível que pareça, desde quando ela me contou outro dia no bar."
Rachel pareceu surpresa. Não esperava que Quinn fosse falar sobre aquilo, principalmente com Santana. E muito menos que Santana reagisse de forma tão tranquila.
"Voltando ao assunto, um pouco de Quinn Fabray faria bem a você... Não lembro de ter te visto tão bem humorada quanto nessas últimas semanas. É incrível o que uns bons orgasmos pseudoproibidos podem fazer com alguém..." A latina disse de forma sacana, rindo da expressão da morena.
"Não vamos fazer isso, ok?" Rachel alertou.
"Isso o quê?"
"Compartilhar experiências tidas com as mesmas pessoas."
"Eu não preciso fazer isso. Eu sei muito bem a qualidade da experiência que você teve com ela." A latina sorriu de lado.
Naquele exato momento, uma Quinn completamente exausta entrou pela porta do apartamento, deixando a pasta que trazia de lado e afundando-se no sofá ao lado das amigas, pegando a garrafa de cerveja que Rachel havia deixado na mesa de centro e tomando um longo gole da mesma. Reparou que as duas a olhavam.
"O quê?"
"Parece que o dia não foi bom pra ninguém." Santana comentou.
"Aconteceu alguma coisa?" Quinn perguntou, estranhando a expressão que tanto a latina quanto a morena traziam no rosto.
"Rachel acabou de ter um pequeno ataque de diva." A latina contou, rindo.
Quinn riu também e Rachel lançou um olhar irritado para as duas.
"Senti falta dos seus ataques, Rach..." A loira disse.
Rachel não pôde evitar que um pequeno sorriso surgisse.
"Diga isso por você mesma, Fabray." Santana respondeu, levantando-se do sofá. "Vou tomar um banho."
"Também vou." A loira respondeu, levantando-se também. "Estou atrasada."
"Para o quê, exatamente?" A latina desconfiou.
"Combinei de encontrar com a Erika."
Santana virou-se para a amiga, com uma expressão maliciosa no rosto.
"O que tá rolando entre vocês?" Questionou.
"Nada. Só amizade." Quinn deu os ombros. Sentia os olhos da pequena diva lhe encarando. "Ela disse que quer me levar em um lugar."
Quinn passou pela latina rapidamente, deixando as duas amigas na sala.
"Parece que outra pessoa já se ocupou do seu calmante, Berry." Santana provocou.
"E alguém do seu." A morena rebateu, aparentando indiferença.
"Entre as duas, posso garantir que quem saiu perdendo definitivamente foi você..." A latina por fim, encaminhando-se para o seu quarto.
"Não é como se eu estivesse no zero a zero, Santana." Rachel gritou antes que ela fechasse a porta.
...
A quem estava tentando enganar? Pensou amargamente enquanto deitava em sua cama. Erika a tinha levado à casa de uma amiga dela, em uma pequena reunião entre as amigas da morena. Não podia negar o quanto havia se divertido. As amigas de Erika eram completamente diferentes de si, a começar pelo estilo completamente distinto. Parecia que tinha sido apresentada a inúmeras Shanes durante a noite e prometera a elas que a próxima vez que se encontrassem, se vestiria de acordo. Lembrou da morena rindo da sua cara quando prometera. Ela estava se tornando uma amiga de verdade.
O problema era que Rachel Berry simplesmente não abandonava seus pensamentos. Tivera que se segurar quando chegara em casa para não entrar no quarto da garota e saciar seu desejo. Queria o corpo de Rachel, queria os gritos, as vozes alteradas, as sensações à flor da pele. À primeira vista, pareceu que conseguiria refrear esse desejo e aquelas estranhas sensações que a pequena estava lhe causando havia semanas. Mas sua determinação havia esfriado e sentia-se cada vez mais perto de voltar àquela loucura, principalmente diante de todos os olhares que a morena lançava sobre si, deixando claro, naquela comunicação muda que havia se tornado tão delas, que ainda a desejava.
Não tinha passado nem uma semana desde que decidira dar um basta naquela estranha amizade colorida. Não que tivesse dito alguma coisa à morena. Se fosse ser sincera consigo mesma, aquela semana tinha sido uma correria sem fim e mal havia encontrado com a mesma. Não tivera que fazer qualquer esforço de resistência e já se encontrava quase entregue novamente.
Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho. Tinha certeza que alguém havia saído ou entrado no apartamento. Sabia que Santana e Rachel estavam dormindo em seus respectivos quartos. Pensando ser Brody voltando de uma balada qualquer e completamente incapaz de voltar pra sua própria casa, levantou-se. Ele provavelmente estava precisando de cuidados.
Surpreendeu-se ao não encontrar ninguém pelo apartamento. Abriu a porta do mesmo e sentiu um cheiro de cigarro. Santana, pensou, dirigindo-se as escadas. Como previra, a latina estava sentada, tragando um cigarro qualquer, perdida em pensamentos. Sentou ao seu lado.
"Sem sono?" Perguntou.
"Se eu quisesse companhia, tinha ido ao seu quarto, Fabray." Santana respondeu, seca.
"Vou deixar você sozinha então." Quinn fez menção de se levantar.
Sentiu a latina segurar seu braço, em um pedido mudo de desculpas.
"Você está bem?" A loira perguntou com cautela.
"Eu já estive?" Foi a resposta que obteve.
A loira percebeu a melancolia no tom da latina. Sem ter o que responder, contentou-se em permanecer ao seu lado. Apesar daquela postura fria, Quinn sabia que Santana estava prestes a desabar. Não queria deixar a amiga sozinha naquele momento. Se ela não queria conversar, tudo bem, nunca tinha sido seu jeito se abrir, mas ninguém se aguentava muito tempo do modo que Santana estava.
"Só me irrita o fato do Mr. Schue fazer questão dessa estúpida reunião todos os anos." A latina disse de repente.
Quinn passou o braço direito pelo ombro da amiga, em sinal de compreensão.
"Então não vá..."
"Esse é todo o problema... Eu não consigo não ir." Santana confessou, olhando para frente.
Quinn podia perceber o esforço da amiga em não chorar. Não esperava que a latina fosse lhe dizer o que realmente a incomodava, mesmo que suspeitasse. Não se lembrava da última vez que ouvira Santana falar sobre algo relacionado à Brittany.
"É tão difícil crescer e ter que lidar com as consequências de todas as besteiras que fizemos, né?" Quinn suspirou. "Às vezes me dá vontade de simplesmente voltar no tempo, entrar de novo na sala do coral e encontrar todos vocês da mesma forma que nós costumávamos ser. Absurdamente felizes e irresponsáveis."
Santana deu um meio sorriso diante do que fora dito pela amiga. Sabia exatamente como era esse sentimento. Como ela mesma, por muitas vezes, desejava simplesmente voltar... Mas aquilo simplesmente parecia-lhe outra vida, como se um abismo enorme se erguesse diante de si e daquela Santana que fora um dia.
"Não há volta, Q." Ela constatou amarga.
"Eu sei." A loira concordou. "Mas gosto também do que nos tornamos. Naquela época sequer imaginávamos que teríamos a Rachel, o Kurt e o Blaine conosco. Não imaginei que o Glee, de certa forma, permaneceria em nós anos depois. Sinto falta da inocência."
"Quando foi que algum dia na vida você foi inocente, Fabray?" Santana arqueou a sobrancelha.
Quinn riu diante da pergunta, descontraindo o ambiente. Ficaram mais alguns minutos em silêncio, absortas em seus próprios pensamentos sobre o passado.
"Acho que já chega dessa nostalgia toda." A loira falou, percebendo que a amiga estava um pouco melhor, sem querer retornar ao assunto daquela conversa. "Nós duas precisamos ir dormir, acordamos cedo amanhã."
Santana levantou-se junto com a loira e ambas retornaram ao apartamento em silêncio. Sem dizer nada, Quinn puxou a latina para um abraço, que ela correspondeu surpresa e sem jeito.
"Boa noite, S." Ela desejou.
Santana lhe direcionou um olhar relutantemente agradecido, entrando e fechando a porta de seu quarto. Quinn suspirou, olhando de relance para dentro do quarto de Rachel, que parecia dormir profundamente. Escorou-se no batente da porta e se permitiu por alguns minutos admirar o sono da morena.
Não conseguia culpar Rachel por nenhuma atitude que tivesse tomado durante aquelas semanas. Todas tinham suas feridas, o que refletia diariamente na forma de agir de cada uma. Pareciam carregar todo o peso do mundo e tinham somente umas as outras. Encaminhou-se para o seu próprio quarto, sentindo um cansaço que sabia não se tratar de nada físico. Era emocional. Depois de todos aqueles anos, quando finalmente as coisas começariam a dar certo?
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